por William A. M. Buckler
A abastança americana raramente atingiu uma tal envergadura. O
índice VIX de Chicago (índice da volatilidade / índice da
variação de cotações) relativo ao mercado de
acções americano nunca esteve tão em baixo nos
últimos 13 anos. Paralelamente, os seguros sobre incumprimento em
questão de crédito nunca estiveram tão baratos! Esta
situação segue-se a um ano (2006) recorde no plano de
fusões e aquisições de empresas que ultrapassou as do ano
2000, também ele um recorde. As aquisições financiadas por
empréstimos chegaram a 3,8 mil milhões USD, contra 3,4 mil
milhões USD em 2000.
A dança dos pinguins na banquisa
Sob a superfície actualmente calma dos acontecimentos económicos uma
força enorme toma forma. Substituído pelo euro, o dólar
perde a posição que ocupava desde a Segunda Guerra Mundial.
Os mercados seguem sempre o dinheiro
O euro ter tomado o lugar do dólar como principal moeda nos mercados
internacionais de empréstimos corrobora a notícia do mês
passado segundo a qual o valor das notas de euro em circulação
ultrapassara o das de dólar. Como indica a International Capital Market
Association os empréstimos em EUR atingiam no fim de 2006 em
contra-valor 4836 mil milhões USD enquanto que os empréstimos em
dólares atingiam 3892 mil milhões USD.
Os empréstimos em EUR formavam 45% do mercado mundial contra 37% em USD.
Em 2002 os mercados de empréstimos em USD dominavam ainda os seus rivais
europeus. Nessa altura as emissões de empréstimos em EUR formavam
27% do mercado mundial e as de em USD, 51%. Os Estados Unidos estão
sendo empurrados para fora do maior mercado mundial: o mercado internacional de
empréstimos. Economicamente uma correcção sensível
do mercado segue-se sempre a tais evicções.
Rumores de novas guerras
Mohsen Rezaei, antigo chefe dos Guardas Revolucionários iranianos,
anunciou na televisão estatal que os americanos tomaram a
"decisão de atacar o Irão", o que teria lugar
provavelmente em finais de Fevereiro ou princípios de Março.
As tropas iranianas foram postas em estado de vigilância máxima de
maneira a poder reagir a um ataque americano, revelou um oficial superior
iraniano à agência Associated Press. O sector de investimentos do
grupo ING publicou em 9 de Janeiro uma análise intitulada: "Ataque
contra o Irão: os efeitos sobre os mercados de um ataque-surpresa
israelense contra instalações nucleares iranianas."
O ING estima Fevereiro ou Março como a altura em que Israel e/ou os
Estados Unidos atacarão eventualmente o Irão. Um oficial superior
iraniano declarou: "Se a América atacar o Irão, os seus 200
mil soldados e as suas 33 bases na região ficarão particularmente
vulneráveis. Tanto os políticos como os comandantes americanos
têm disso consciência."
A dupla evicção dos Estados Unidos e as suas consequências
A primeira evicção é a da moeda em
circulação: o facto de o montante em EUR ter ultrapassado o de
em USD. A segunda é a perca de posição que sofreu o USD
como principal moeda de emissão no mercado internacional de
empréstimos e obrigações. O que é assombroso
é que esta evolução se tenha dado em seis anos apenas.
Antes nem sequer havia euros em forma de moeda. A emergência do euro a
partir do nada demonstra a fraqueza inerente ao dólar como moeda
internacional.
Já não queremos mais os vossos dólares
A corrida para a saída do dólar já começou. Os
países da OPEP desembaraçam-se dos seus títulos do Tesouro
americano mais depressa que nos três anos anteriores. Segundo
indicações do Ministério da Finanças dos Estados
Unidos, países exportadores de petróleo como a Indonésia,
a Arábia Saudita e a Venezuela venderam, entre Setembro e Novembro, 9,4%
(10,1 mil milhões USD) das declarações de dívida
subscritas pelo governo dos Estados Unidos. E vai secando a afluência de
fundos estrangeiros aos Estados Unidos.
O preço mundial já não se fixa em dólares
Produtores mundiais de petróleo como os Emirados Árabes Unidos, o
Irão, a Venezuela e a Indonésia começam a converter partes
das suas reservas monetárias de dólares em euros ou até a
facturar as suas exportações de petróleo em euros. E este
último facto é como que dinamite na cena mundial. Se há
uma constante desde a Segunda Guerra Mundial, ela é a hegemonia do
dólar no comércio de petróleo. Esta situação
obrigou os outros países a adquirirem dólares para comprar
petróleo.
Se o dólar for rejeitado duma grande parte dos mercados mundiais de
petróleo e energéticos, a procura mundial de dólares
diminuirá consideravelmente, o que será uma nova
rejeição dos Estados Unidos.
Segundo os dados do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI) a parte em
dólares nos depósitos de divisas estrangeiras nos países
produtores de petróleo, incluindo a Arábia Saudita e o EAU,
passou de 67% no primeiro trimestre de 2006 para 65% no segundo, ou seja, para
o nível mais baixo dos dois últimos anos.
A afluência de fundos aos Estados Unidos
No mês de Novembro os investimentos internacionais em haveres a longo
prazo nos Estados Unidos reduziram-se, assim que o dólar perdeu
força e a procura de acções americanas diminuiu. Segundo o
comunicado de 17 de Janeiro do Ministério das Finanças dos
Estados Unidos, as compras líquidas de acções, de notas e
de obrigações por estrangeiros passaram de 85,3 mil
milhões USD em Outubro para 68,4 mil milhões USD em Novembro.
É preciso prestar bem atenção a este número! A
afluência durável de fundos vindos do estrangeiro é mais do
que necessária para o conjunto da economia americana, pois é essa
afluência massiva que financia tanto o défice comercial dos
Estados Unidos como o défice orçamental do Estado. Imaginemos o
que se passaria se o maremoto de investimentos estrangeiros que afluem ao
sistema financeiro e monetário dos Estados Unidos cessasse subitamente...
O Ministério das Finanças teria montanhas de títulos do
Tesouro, de notas e de outras declarações de dívida, tudo
invendível. Para se desembaraçar disso tudo, teria que propor um
contra-valor superior. Deveria então oferecer taxas de juro superiores,
e as taxas de juro do mercado americano subiriam vigorosamente em toda a curva
de rendimentos dos Estados Unidos. As taxas de juro aplicadas aos
títulos do Tesouro dos Estados Unidos são a bitola pela qual se
medem todos os outros empréstimos emitidos no país.
Se as instâncias superiores dos Estados Unidos quisessem evitar esta
situação, o Ministério das Finanças teria que se
dirigir à Reserva Federal, a qual compraria os títulos do
Tesouro, para o que teria que emitir papel-moeda. Todo o sistema financeiro dos
Estados Unidos seria então submergido por uma nova vaga de
"liquidez" despoletada pela instituição emissora, e a
expansão interna do crédito seria estimulada. Nisto tudo a
variável crítica é o dólar. A imensa
afluência de fundos vindos do estrangeiro mantem-no actualmente no
mercado de divisas a um nível (muito) mais elevado do que a
situação exige como adequado.
Se essa afluência sequer enfraquecesse, uma das causas da procura mundial
de dólares falharia subitamente. Consequentemente a
cotação do dólar cairia por aí abaixo. E esta
é uma situação que começa já a desenhar-se.
A geopolítica da evicção do dólar
Os meios de todo o mundo que determinam as ideias estão bem conscientes
que é a afluência de fundos estrangeiros que determina a sorte do
dólar. Todos eles temem o dia em que a banquisa
monetária/financeira/económica dos Estados Unidos se
romperá e estão persuadidos que esse dia está para vir. No
segundo semestre de 2006
The Privateer
fez larga referência a este assunto e citou numerosas opiniões
oficiais e políticas do mundo inteiro, as quais exprimiam uma
inquietação crescente em relação à
política dos Estados Unidos. Em Janeiro de 2007 a situação
muda radicalmente. Já não se ouve mais nada dessas vozes
internacionais que no ano passado exprimiam uma profunda
inquietação.
As velhas regras do "recenseamento do trânsito"
Uma técnica que se impôs no sector das informações,
sejam elas militares, diplomáticas, políticas ou
económicas, é a de simplesmente observar a qualidade e a
quantidade de "inquietação" exprimida no resto do
mundo. Normalmente observa-se um aumento ou redução do
trânsito em forma de vagas, ainda que as mensagens esteja codificadas. Em
certas situações tais sinais do "trânsito de
dados" crescem a um ritmo acelerado.
Resulta então que, para que se dê uma alta no nível dos
rumores, alguma coisa tem que suceder. Foi o que se observou no segundo
semestre de 2006. Ainda que as notícias do BPI, da OCDE e de outras
fontes se tenham concentrado sobre a opinião pública, não
há dúvida nenhuma que era sobre a situação
económica e financeira que se concentrava a inquietação.
Este ano os rumores cessaram repentinamente. Actualmente exprime-se muito pouca
inquietude sobre a situação económica dos Estados Unidos.
Tal sinal significa frequentemente que o acontecimento terá lugar muito
em breve.
Quando o silêncio é ensurdecedor...
Sublinhe-se que esta acalmia limita-se à situação
económica e financeira dos Estado Unidos no mundo. A enorme manobra de
diversão dirigida aos mercados e à economia consiste numa
cópia de sinais provenientes cada vez mais de fontes internacionais,
manifestando o receio que Israel, os Estados Unidos, ou ambos, estejam à
beira de atacar de repente o Irão por via militar. E assim o
"recenseamento do trânsito" funciona novamente. Se, como
é de esperar, o diferendo entre o Irão e os Estados Unidos passa
por um momento de acalmia, as regras do "recenseamento do
trânsito" afirmam que o acontecimento está próximo.
Não resulta daqui necessariamente que um ataque dos Estados Unidos e de
Israel contra o Irão esteja para acontecer. Também há
falsos sinais. Poderia também ser que pelo menos uma das partes
está em vias de retirada.
Guerra no exterior como forma de criar uma diversão política face
à situação interior
Esta astúcia política remonta aos tempos
pré-históricos. O chefe e os anciãos da tribo sabem
ter-lhe prometido mais do que têm na tesouraria ou no celeiro.
Agora eles têm fundamentalmente dois caminhos. Ou podem encarar a tribo e
confessar que a informaram mal. Aliás, que lhe mentiram. E neste caso
sabem que perante a tribo perderão a face, a sua posição e
o seu poder. Ou então escolhem a diversão e, a partir da
próxima Primavera, levarão a sua tribo à guerra com a do
outro lado do rio.
E assim politicamente mantêm o poder. Se porventura alguns membros da
tribo perguntarem por todas as boas coisas prometidas, os chefes dirão
que foram usadas na defesa da tribo. Quem se atreverá a queixar-se?
Entra-se em guerra, e, assim que a paz vier, os mesmos chefes
continuarão no poder.
Em relação aos Estados Unidos esta situação
terá início no próximo ano.
Em começos de 2008 os primeiros 78 milhões de americanos
perderão as suas reformas. O que lhes fora prometido já nem
sequer existe. As instituições políticas americanas
já gastaram esse dinheiro e as caixas de previdência estão
cheias de declarações de dívidas subscritas pelo
Congresso. Confessá-lo publicamente? Nunca! Portanto dá-se
início a uma guerra.
Nadando num oceano de "liquidez" mundial
De 2005 a 2006 a emissão mundial de dívidas por
obrigações aumentou em 14,1% atingindo o valor recorde de 6948
mil milhões USD. A emissão total de dívidas dos Estados
Unidos cresceu em 10,1% até 4085 mil milhões USD. Assim, 58,8%
dos empréstimos a nível mundial feitos no ano passado foram
contraídos pelos Estado Unidos. Na mesma altura o produto interno bruto
(PIB) dos Estados Unidos estava entre 20 e 22% do PIB mundial. Estamos portanto
perante um país que contraiu empréstimos num valor três
vezes ao do sua dimensão económica relativa. Quanto aos sistemas
financeiros e bancários de outras nações,
contraíram empréstimos no valor de 2863 mil milhões USD.
O dinheiro é barato peçamos emprestado e compremos bens de
valor.
O maremoto de capital que no ano passado era susceptível de caucionar um
empréstimo exerceu os seus efeitos no mundo inteiro e despoletou uma
vaga também gigantesca de fusões de empresas. Se, em lugar de se
analisar um a um o número incontável de negócios levados a
cabo, mas se se olhar o todo do sistema, revela-se claramente que a economia
"inchou" no mundo inteiro. Já lá vai o tempo quando,
nos anos setenta, se olhava com entusiasmo para os numerosos jovens
leões da finança e da economia que adquiriam sociedades
úteis e as "inchavam" pedindo emprestado de maneira a obter
uma razão de 50 por 50 em relação aos fundos
próprios. Depois de recolher créditos graças aos seus
fundos próprios, compravam outras empresas que dispunham de fundos
próprios inexplorados. A resposta a este ataque manifestou-se
imediatamente sob a forma da "defesa por pílula envenenada".
Toda a sociedade cuja parte de fundos próprios se encontrava em bom
estado começou a endividar-se vigorosamente, protegendo-se assim contra
os saqueadores de empresas.
Quando uma razão de 50 por 50 era considerada como a temeridade
máxima, admitia-se que uma empresa com fundos de terceiros mais elevados
não deixaria aos seus accionistas outro caminho que a
dissolução. Durante a recessão de 1980 a 1982 muitas
destas companhias pereceram como moscas ao sol. Actualmente a
situação é "outra": por todo o mundo há
empresas que falam arrogantemente do seu financiamento "inovador".
Nessas sociedades a razão fundos de terceiros / fundos próprios
atinge 80 por 20, e em alguns casos mesmo mais. Hoje em dia uma tal amplitude
de fundos de terceiros é considerada como a honestidade financeira
máxima. Mesmo se a contabilidade afirma que, em caso de
liquidação de uma tal empresa, muitos credores não seriam
reembolsados, pois só 20% do capital assegurariam o reembolso dos 80% do
constituído pelos empréstimos.
"Hoje em dia não há perigo nenhum", afirmam eles. Estas
companhias seguraram-se contra tais eventualidades. Não tem qualquer
importância o facto de apenas 20% do balanço garantirem o
reembolso de dívidas cujo valor atinge 80% do balanço, se
não mesmo mais. Porque, em tal caso, as seguradoras responsáveis
acorreriam como salvadores e pagariam essas dívidas.
O dois vezes dois das seguradoras: apólices e riscos
Seguindo o princípio económico que constitui a essência dos
seguros o seguro duma casa, por exemplo , a seguradora espera que
o acontecimento contra o qual o tomador se segurou não terá
lugar. Enquanto assim for a seguradora beneficia dum fluxo constante de
receitas das quais tem que deduzir apenas os custos administrativos. Mas por
vezes as casas ardem. Caso em que a seguradora tem que assinar um cheque bem
gordo. Tal situação raras vezes é um problema, pois a
companhia segura muitas outras casas que não arderam e cujos
proprietários continuam a pagar os seus prémios anuais. O
proprietário azarento cuja casa ardeu está também
satisfeito. Recebeu o cheque e a casa será reconstruída.
As seguradoras nutrem sempre a mesma esperança: a de que as suas
apólices nunca serão cobradas e que continuarão apenas a
embolsar os prémios. Depois desta reflexão, falemos daquilo que
se chama risco de acontecimento. Calculados em percentagem, estes
acontecimentos são muito raros. No entanto, por vezes têm lugar.
Mais de uma vez quase uma cidade inteira ardeu por acidente.
Nesse caso a maioria das companhias não poderá assumir a carga
dos pagamentos. Muitos proprietários dar-se-ão então conta
que a sua companhia, a sua cobertura, não os poderá ajudar. Este
risco é chamado de "sistémico". O facto é que
há um risco não redutível tanto na dura realidade
física como na das acções humanas. Hoje em dia o mercado
comporta-se como se estes fenómenos não existissem. Parece que
toda a gente está convencida que as coberturas nunca falharão.
Donde resulta que o risco sistémico efectivo é enorme.
O estado da economia interna dos Estados Unidos
De 2006 a 2007 a parte dos limites hipotecários destinado ao consumo das
famílias
(mortgage equity withdrawals)
passará de 13 a 7% dos fundos à disposição das
famílias, reduzindo o poder de compra dos consumidores americanos pela
primeira vez desde o crash de 2001. Como as famílias contribuem com 70%
do PIB dos Estados Unidos, a diminuição em mais de 6% das suas
despesas este ano diminuirá o PIB em 4%. A última taxa de
crescimento do PIB dos Estados Unidos estava em 2% (numa base anual).
Os consumidores americanos encostados à parede
O Ministério do Trabalho anunciou em 18 de Janeiro em Washington que o
índice de preços ao nível do consumo subiu 0,5% em
Dezembro. A subida mais alta desde Abril e depois de ter estado estável
em Novembro. O centro de crédito responsável dos Estados Unidos
estima que 2,2 milhões de proprietários americanos
perderão provavelmente a sua casa por arresto.
O pagamento de moras em matéria hipotecária aumenta rapidamente.
Em várias regiões as taxas de incumprimento são
assustadoras. Conclui-se do relatório americano sobre os arrestos que
112 mil fogos estavam em fase de arresto em Setembro de 2006, ou seja, 63% mais
que um ano antes.
Nos últimos sete anos os compradores de imóveis aumentaram o seu
endividamento hipotecário em 4,5 mil milhões USD.
Estado geral das empresas americanas
O Ministério do Trabalho americano anunciou que, empurrados nomeadamente
pelos custos energéticos, os preços ao nível da
produção subiram em 0,9% em Dezembro, ou seja, 10,8% numa base
anual. Economicamente este é o ponto decisivo. Há menos vendas
porque os consumidores são obrigados a restringir-se e, simultaneamente,
os custos aumentam. Esta situação acabará necessariamente
com uma diminuição dos benefícios.
Quando os produtos importados encarecem
Em Dezembro de 2006 os preços de produtos importados subiram, em
percentagem, ao ritmo mais forte dos sete meses anteriores, por causa do
aumento do preço do petróleo bruto e do gás natural. Como
o Ministério do Trabalho anunciou, à subida em 1,1% num mês
dos produtos importados (13,2% ao ano), sucedeu-se uma subida em 0,5% em
Novembro.
Resumo da situação económica dos Estados Unidos
A economia dos Estados Unidos encontra-se em fase de recessão. Enquanto
Washington anuncia que os preços ao nível do consumo sobem
à taxa anual de 2,6%, a taxa de crescimento económico não
passa de 2%. Isto indica que a economia dos Estados Unidos recua. O facto de os
preços internos dos produtos importados crescerem esconde um pouco esta
evolução. Mas o que é preciso observar é que
não se trata dum movimento errático na economia americana mas sim
duma lenta descida. Ora é essa precisamente a definição de
"estagflação".
Os Estados Unidos têm uma economia em estagnação,
preços e custos em subida. Esta situação torna absurdas as
actuais cotações das acções. Os índices Dow
Jones e S&P 500 estão nas nuvens, enquanto que a economia real acelera
lentamente a um nível inferior. Quando a vaga gigante de
aquisições e resgate de acções refluir, o mercado
americano de acções terá de encarar a realidade
económica. Será então necessário justificar o
actual nível das acções. O risco em que os mercados
americanos se afundam aumenta cada vez mais. E isto poderá
começar a ser uma realidade quando a Wall Street se der conta que os
benefícios se derretem como neve ao sol.
A ignorância não faz ninguém beato
De facto a ignorância pode mesmo matar. A situação dos
Estados Unidos é dum lado uma nova versão do "Don't worry,
be happy" e doutra parte uma afluência de notícias
económicas negativas vindas de todo o lado.
A política da guerra perpétua de Bush e Cheney
Cheney, o vice-presidente, merece ser citado por extenso. Numa entrevista dada
recentemente à Fox News declarou: "A guerra do Iraque insere-se num
contexto mais extenso; de facto trata-se duma guerra mundial que vai do
Paquistão até à África do Norte. Se os Estados
Unidos não tiverem a coragem de terminar a sua missão no Iraque,
porão em jogo tudo o que alcançaram em outros sítios".
E chegou então à sua declaração política
fundamental: "É um conflito existencial".
Cheney acrescentou: "É um género de conflito que
ocupará a nossa política e o nosso governo durante os
próximos 20, 30 ou 40 anos. Temos que aderir a ela e ter a coragem de
combater por muito tempo."
Aqui é conveniente parar e respirar fundo para reflectir bem sobre o que
o vice-presidente disse.
Comece-se por examinar o princípio fundamental que, segundo Cheney, deve
guiar a política americana. Diz ele que a guerra sua e do presidente
contra o mundo muçulmano é "um conflito existencial".
Ao longo de toda a história da humanidade, quando um tal termo é
usado para descrever uma guerra, isso em geral significa sempre o mesmo, a
saber: que o adversário tem que ser literalmente exterminado.
O vice-presidente exprimindo-se a propósito dos Estados Unidos
propriamente, afirma que "É um género de conflito que
ocupará a nossa política e o nosso governo durante os
próximos 20, 30 ou 40 anos. Temos que aderir a ela e ter a coragem de
combater por muito tempo." Ora isto é a descrição
duma política de guerra que engloba gerações,
"transmitida" duma geração à seguinte.
As perpétuas vítimas
E é esta a realidade de inumeráveis jovens homens e mulheres
americanos que andam no além-mar de armas na mão e depois voltam,
alguns como cadáveres em sacos, outros feridos e a maior parte com a sua
personalidade destruída por tudo o que viram e fizeram em tantos
países estrangeiros.
A reacção (precoce) do mundo muçulmano
Lembre-se que há perto de 1,3 mil milhões de muçulmanos no
mundo. Se bem que
The Privateer
se esforce por cobrir também o mundo muçulmano (tanto quanto
possível traduzido em línguas que compreendamos), a
reacção inicial que encontrámos foi muito próxima
do silêncio. Pouco antes da declaração sair impressa, os
muçulmanos tiveram algumas reacções à entrevista de
Cheney. Segundo o que pudemos observar até agora, a
reacção dos muçulmanos foi bastante previsível.
Aparentemente já não se trata do tirano Sadam nem de armas de
destruição maciça que não se encontrou. Não
se tratava já sequer de democracia. O assunto deixou de ser o
petróleo iraquiano ou até o terrorismo. Parece que afinal
é evidente que o que os Estados Unidos preparam é o
extermínio dos muçulmanos e da fé islâmica.
A reacção dos Estados Unidos à entrevista do
vice-presidente
No conjunto e ao princípio não houve quaisquer
reacções. Começaram a aparecer só depois. Chegou a
ser objecto de vários artigos. Mas os editoriais e comentários
foram bastante raros. É como se as palavras do vice-presidente fossem de
uma dimensão demasiado vasta ou demasiado cruéis para serem
objecto duma resposta.
A partir daqui é à opinião pública americana que
cabe fazer pressão sobre o Congresso para acabar com esta loucura e
pôr termo ao massacre de milhões de inocentes nos países
muçulmanos. O que Cheney propõe é uma nova versão
da Guerra dos Trinta Anos que, de 1618 a 1648, foi uma das piores guerras da
história da humanidade.
O original encontra-se em
The Privateer,
nº 570, a versão em francês encontra-se em
http://www.horizons-et-debats.ch/actuel/20070214_01.htm
. Tradução de DF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.