por Chris Floyd
Se quiser ver quão doentia é realmente a elite americana
quão moralmente depravada, quão intelectualmente enferma,
quão viciada no gosto da carne humana, no cheiro do sangue humano e na
visão do sofrimento humano então tudo o que precisa fazer
é ler o
discurso de Mitt Romney na Conservative Political Action Conference (CPAC
) em 7 de Fevereiro de 2008.
Poderá dizer que Mitt Romney é notícia velha. Afinal de
contas, este foi o próprio discurso em que declarou estar a abandonar a
corrida presidencial. Ele está queimado, está ultrapassado, quem
se importa com o que diz? Esta é naturalmente a visão tola da
"corrida de cavalos" que domina o discurso político na
América: quem está a subir, quem está a descer, quem
está conseguir centímetros de coluna [nos jornais], quem aparece
na TV? Mas, na realidade, a elite política americana ou o
Establishment, ou a estrutura de poder, chame a isto como quiser (desde que
não chame o que ela realmente é: a classe dominante)
é como um iceberg: a maior parte do seu vasto volume permanece oculto,
ela opera abaixo da superfície, sem ser perturbada pelas tempestades dos
media que se enfurecem em torno de pequenos bocados de material expostos nas
cimeiras.
Mitt Romney é um homem imensamente rico, bem conectado, um antigo
governador do estado de Massachusetts, nascido e criado numa extensa teia de
privilégios e poder. A sua derrota numa campanha presidencial
não muda nada disto. Ele simplesmente submergirá por
algum tempo naquelas profundidades onde são feitos os
negócios reais da elite. Portanto, as suas palavras aos activistas
conservadores constituem uma indicação altamente relevante da
mentalidade que predomina no mais poderoso país do mundo. Elas mostram
a barbárie, a incitação ao ódio e aos banhos de
sangue que são considerados perfeitamente aceitáveis na companhia
polida dos nossos dirigentes e dos seus sicofantas.
Na verdade, a coisa mais notável acerca do discurso de Romney é
que não há nada de notável acerca dele; é
totalmente típico da espécie de carne vermelha que muitos
iluminados da sociedade americana atiram aos salivantes fieis da extrema
direita. Requer um grande esforço libertar a cabeça da
mentalidade dos media enlouquecidos que encaram um tal discurso como
"normal" (mesmo que não concorde com ele), e vê-lo como
a falsificação e a bestialidade delirante que realmente é.
O núcleo candente da oferenda vomitosa de Romney talvez possa ser
encontrado nas suas observações de passagem sobre a Europa. Mais
uma vez, num certo sentido, aquilo foi apenas um naco lançado para
agradar a multidão: um bom eurogolpe sempre consegue que participantes
do CPAC se ponham a espumar. Mas num sentido mais profundo, ele vai directo ao
coração corroído da questão, directamente ao
racismo vicioso, primitivo e genocida que moldou e conduziu tantas
políticas das elites do ocidente ao longo de séculos. Em meio a
uma longa diatribe acerca de "ataques" liberais à
"cultura americana", Romney faz uma pausa para uma olhadela
através do Atlântico, a fim de evocar um odioso pesadelo que
poderia em breve ser o futuro da América.
A Europa está a enfrentar um desastre demográfico. Isto é
o produto inevitável da enfraquecida fé no Criador,
famílias fracassadas, desrespeito pela santidade da vida humana e
moralidade corroída.
Por "desastre demográfico" Romney simplesmente quer dizer que
há mais pessoas não brancas na Europa do que costumava haver.
Para Romney e suas elites amigas, este facto constitui por si mesmo um
genuíno "desastre". Embora a população da
Europa ainda seja esmagadoramente branca (muito mais do que a
população dos Estados Unidos), mesmo a mais mínima
diluição da pureza racial no continente é para ser
lamentada, condenada e repelida. Aqui, naturalmente, Romney está
a canalizar vendedores do medo como
Martin Amis
,
Mark Steyn
e Christpher
Hitchens, cujo tremelicante pânico sexual frente às pessoas
escuras de sangue
quente e reprodução rápida seria cómico, se
não fosse sinistro e tão úteis para os fabricantes
da guerra e os dominacionistas globais da elite dirigente.
Romney torna as entrelinhas sexuais e raciais muito claras nas suas
observações acerca da perda de fé religiosa, moralidade
corroída, etc da Europa. Os europeus estão simplesmente
demasiado ocupados a fazerem abortos e a observarem pornografia para cumprirem
o seu dever pela raça e procriarem grandes famílias mantidas sob
estrita disciplina religiosa. E assim os pobres cidadãos estrangeiros
de uma fé alienígena estão a procriar como ratos no
celeiro da Civilização Ocidental, roendo as
fundações e conquistando-a a partir de dentro. O facto de
"muçulmanos" serem substituídos por "judeus"
nestas formulações e implicações de Hitchens, Amis,
Romney e outros não diminui a precisão com que as suas diatribes
reflectem aquelas que saturaram a Alemanha (e muitos outros países) nas
primeiras quatro décadas do século XX. Para as elites, há
sempre um "outro" escuro, sexualmente potente, cuja esmagadora
ameaça à supremacia branca só pode ser ultrapassada...
dando às elites mais e mais poder.
Por incrível que pareça, tem havido um desastre
demográfico na Europa mas nada tem a ver com homens
muçulmanos viris e suas férteis mulheres. Ele nunca é
mencionado por Romney e os elitistas da sua laia porque é o
resultado da sua própria filosofia, das suas próprias
políticas e dos seus próprios desejos. Falamos naturalmente do
colapso demográfico da Rússia, onde a população
está a minguar enquanto as taxas de mortalidade permanecem quase o dobro
das dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. O povo russo ainda está a
cambalear devido à catastrófica "terapia de choque" que
lhe foi infligida pelos fundamentalistas do mercado da "Escola de
Chicago" sob Boris Yeltsin. (Esta história assustadora é
bem contada no
estudo do "desastre do capitalismo" de Naomi Klein
,
The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism
).
As elites ocidentais ficaram muito felizes ao observar o povo russo a afundar,
extinguir-se em massa e sofrer na pobreza, caos e medo desde que uma
fatia sumarenta da riqueza petrolífera, mineral e industrial estivesse
à vista. O súbito desgosto do Ocidente para com o homem forte do
Kremlin, Vladimir Putin, nada tem a ver com as suas famosas tomadas de
posição quanto a liberdades civis. As depredações
de Putin não são menos rudes do que aquelas de Yeltsin, o qual
realmente enviou tropas e tanques em 1993 a fim de destruir o parlamento
democraticamente eleito, e desde então tratou com arrogância todo
vestígio de lei que restringisse o poder do Estado e
também do sector privado a fim de assegurar uma vitória
na sua
candidatura à reeleição em 1996. Depois disso, ele
expôs toda a economia ao saqueio predador dos seus apaniguados
corporativos e dos seus aliados ocidentais. Foi o facto de Putin ter tirado
muito deste saque da mesa dos ocidentais e dado aos seus próprios
apaniguados que provocou a recém-descoberta
preocupação do Ocidente para com os direitos e o bem estar do
povo russo.
No seu canto do cisne, Romney torna claro que ele e as suas elites querem
continuar a pressionar a sua "terapia de choque" também sobre
o povo americano, repelindo as tímidas tentativas do passado de
melhorar, ligeiramente, alguns dos piores excessos e desigualdades da insana
cobiça corporativa. De facto, Romney identifica estas medidas
tépidas como horrendas ameaças à própria
"cultura americana".
A ameaça à nossa cultura vem de dentro. Na década de
1960, havia programas de bem estar que criaram uma cultura de pobreza no nosso
país. Agora, algumas pessoas pensam que ganhámos aquela batalha
quando reformámos o estado previdência
(welfare).
Mas os liberais não desistiram. A cada momento eles tentam substituir
a responsabilidade individual por dádivas do governo. Eles combatem
pelo esvaziamento das exigências de trabalho, por colocar mais pessoas no
Medicaid e impedir cada vez mais pessoas de terem de pagar qualquer imposto
sobre o rendimento. A dependência é a morte da iniciativa, da
assumpção do risco e da oportunidade. A dependência
é a morte da cultura. É uma droga. Temos de combate-la como
veneno que é.
A ignorância e desumanidade desta declaração
é de cortar o fôlego. Pense nisto: não havia pobreza nos
Estados Unidos até que chegaram os "liberais" na década
de 1960 e criaram-na com os seus programas de bem estar. (Aparentemente, antes
desta "cultura da pobreza" ter sido criada, os poucos pobres na
América simplesmente extinguiam-se discretamente, tal como os russos, ao
invés de pendurarem-se um pouco mais nas esmolas do governo, do modo
como fazem agora os preguiçosos e os desgraçados. Oh, sim, e
eles reproduzem-se um bocado, mais do que os indivíduos brancos.) E
ainda que Bill Clinton (desacreditado, naturalmente, mas a elite está
bem consciente dos seus excelentes serviços) tenha acabado por liquidar
o programa de bem estar, estes malfeitores ainda não estão
contentes. Vejam simplesmente o que querem fazer: "colocar mais pessoas
no Medicaid" e "impedir cada vez mais pessoas de terem de pagar
qualquer imposto sobre o rendimento". (Um momento: pensei que os
mastigadores de carne vermelha do CPAC eram a favor de o povo não pagar
impostos. Imagino que isto só se aplica à espécie certa
de pessoas.)
Tudo isto especialmente a conversa cerca da
"assumpção de riscos" e "dependência"
das dádivas do governo é muito bonito vindo de um
ícone de uma classe dominante que está saturada de herdeiros
amimalhados da riqueza e do poder os quais, como Romney, começaram as
suas carreiras totalmente livres de risco até o topo extremo da
escadaria, e que são continuamente engordados com contratos sem
concurso, subornos, isenções fiscais, subsídios, lucros de
guerra e miríades de outras formas de "dádivas do
governo". Mas além da hipocrisia transparente e da
ridícula pretensão de que os "liberais" no Partido
Democrático de hoje colocam alguma espécie de ameaça
genuína a esta cornucópia a rajada de Romney é uma
síntese perfeita do ódio da elite para com a ralé que eles
utilizam como carne de canhão e vacas leiteiras. Deixem-nos ficar
doentes, deixem-nos morrer, deixem-nos vegetar na pobreza, deixem-nos perder os
seus lares, deixem-nos trabalhar em três empregos para atender às
suas necessidades mas por Deus não façam qualquer coisa,
qualquer coisa de todo, para mudar o sistema que produz estas desigualdades
crónicas e mantém a elite amimalhada na riqueza. Eis o mal. Eis
o "veneno". E isto não será permitido.
O discurso vai em frente por este caminho, lê-lo é como
avançar
através da tubagem do esgoto de um matadouro. A China, a Índia e
outros países asiáticos apresentam um desafio que deve ser
confrontado e vencido. Por que? Porque eles podem "ultrapassar-nos como
super-potência económica, assim como nós
ultrapassámos a Inglaterra e a França durante o último
século". E devemos travar os diabos amarelos, porque "a
prosperidade e a segurança dos nossos filhos e netos depende de
nós". Aparentemente, não é possível aos
países asiáticos e os Estados Unidos estarem seguros e
prósperos ao mesmo tempo; "nossos filhos" só podem
prosperar a expensas de outros. Isto também é transparentemente
ridículo, mesmo sem sentido, se assumido literalmente. Naturalmente,
asiáticos e americanos comuns poderiam estar prósperos ao mesmo
tempo. O que Romney realmente quer dizer é que a elite americana
não pode exercer domínio e empanturrar-se da maneira a que se
habituou se outros países estiverem seguros e prósperos pelos
seus próprios méritos.
E é aqui que a "Guerra ao terror" o eixo do discurso de
Romney e a justificação que ele apresenta para a sua campanha
entra em cena. A Guerra ao terror é simplesmente uma
extensão do objectivo de sempre da elite americana (e seus
"parceiros júnior" britânicos) de manter e estender seu
domínio sobre os recursos naturais do mundo e as suas
disposições políticas e os lucros exorbitantes que
este domínio produz. Há provas amplas no registo
histórico das contínuas e bastante abertas
ansiedades da elite sobre estes resultados, que remontam a
gerações. Literalmente, milhões de pessoas por todo o
mundo foram sacrificadas a estas ambições e ansiedades, as quais
não foram reduzidas mas cresceram mais furiosamente e a cada ano.
E daí o clímax da peroração de Romney: um frenesim
total quanto à "má e radical jihad" e "as
inevitáveis ambições militares da China" e a candente
necessidade de "aumentar as despesas militares para 4 por cento do nosso
PIB" e o imperativo prioritário de manter a enorme Guerra ao
terror, particularmente na sua frente central no Iraque. Nada disto
está remotamente ligado ao bem estar real, à segurança e
à prosperidade do povo americano, muito pelo contrário. Contudo,
isto é absolutamente vital para a preservação do poder, do
privilégio, da auto-imagem e do status da elite. E, como eles
demonstram dia após dia, pouco se importam com quantas pessoas devam
morrer ou sofrer por isto.
Trata-se de uma psicose moral numa escala monumental. Ela constitui o
repúdio completo e absoluto de todo ideal civilizado, de todo fragmento
de iluminismo arrancado do amontoado de escórias empapadas em sangue da
história humana. Mas isto passa por normalidade no nosso discurso
político.
08/Fevereiro/2008
O original encontra-se em
www.chris-floyd.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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