A privatização do Estado
por Naomi Klein
Quanto mais piora a situação no Iraque, mais se privatiza a
guerra e mais lucros rende.
Resumo de recente intervenção de Naomi Klein, apresentada por Amy
Goodman, de
Democracy Now,
por ocasião do lançamento em Nova York do primeiro livro de
Jeremy Scahill, "Blackwater: A ascensão do mais poderoso
exército mercenário do mundo"
(Blackwater: The Rise of the World's Most Powerful Mercenary Army)
AMY GOODMAN: Continuando a analisar a questão do Iraque e da
ocupação dos EUA, contamos agora com a presença da
prestigiosa escritora e jornalista Naomi Klein. Escreve regularmente para
The Nation
e
The Guardian,
é autora do grande êxito de vendas
No Logo
e mais recentemente,
Fences and Windows
(em castelhano:
Vallas y Ventanas
).
Está em Nova Iorque para o lançamento do livro de Jeremy
Scahill sobre a empresa Blackwater, e intervém agora na Ethical Culture
Society sobre privatização das forças armadas e do Estado,
colocando o fenómeno num contexto histórico.
NAOMI KLEIN: A tendência de privatizar todos os aspectos do estado, do
governo, é um processo que se iniciou há cerca de trinta e cinco
anos. Muitas pessoas, muitos historiadores situam o seu inicio em 1973 quando
se deu o golpe de estado do Chile, o que, em termos da
investigação realizada pelo Jeremy, se torna interessante dado
que ele aborda a questão da Blackwater estar agora a contratar chilenos
para o Iraque, mas não vou abordar esse aspecto, ele o fará mais
tarde. O primeiro exemplo da tentativa de construir uma utopia corporativa
deu-se no Chile em 1973 depois do golpe de Pinochet, quando este começou
a colaborar com uma equipa de economistas da Universidade de Chicago a fim de
implementar aquela experiência.
Trata-se de um tipo diferente de projecto colonial. Na América Latina,
este projecto que é chamado frequentemente de neoliberalismo, é
conhecido por neocolonialismo. A primeira fase do colonialismo foi a abertura
das veias da América Latina, segundo as palavras de Eduardo Galeano, a
pilhagem das matérias-primas, a exportação dos recursos
brutos. A segunda fase de colonialismo e, claro que a primeira fase
nunca desapareceu completamente foi a pilhagem do estado. Tudo o que foi
construído a partir da Grande Depressão e durante os anos de
grande crescimento do pós-guerra o sistema de segurança
social, a educação, estradas, caminhos de ferro foi
vendido, no Chile, com a ajuda dos
Chicago Boys:
o saque a céu aberto do próprio Estado.
O modo como imagino este projecto corporativo, este projecto de
privatização, é como se o estado fosse como uma
espécie de polvo com todos os seus braços. Durante os
últimos trinta anos, e certamente desde Reagan, aqui nos EUA, que a
campanha de privatização o que tem feito é arrancar os
membros do estado o sistema telefónico, as estradas, etc, este
tipo de serviços
"não essenciais",
se assim quisermos dizer. Depois de arrancar todos os membros do estado, tudo
o que resta é aquilo a que eles chamam de núcleo central.
O que a administração Bush tem feito na realidade é
liquidar este núcleo central, privatizar esses serviços
governamentais essenciais que são parte inerente do que entendemos como
estado, e que parece impossível imaginar que pudessem ser privatizados,
serviços esses que podem ser o próprio governo, a
segurança social, o bem-estar, as prisões, o exército,
etc, sendo que é aqui que se encaixa a Blackwater.
O mais extraordinário que sucedeu no Iraque e a Amy mencionou o
meu artigo "Bagdade, ano zero" é que se verificaram
exactamente todas estas camadas de colonialismo e neocolonialismo, este empenho
na privatização, o que provocou um tipo de perfeita tempestade
naquele país. Por um lado, temos um tipo de pilhagem colonial da
velha-escola, que é do género: vamos ao petróleo!. Como
muitos de vocês sabem, o Iraque tem uma nova lei do petróleo que
foi aprovada pelo governo mas não foi ainda aprovada pelo parlamento. E
essa legislação legaliza a pilhagem, legaliza a
exportação de 100% dos dividendos da industria petrolífera
iraquiana, que foram precisamente as condições que estiveram na
base do nacionalismo árabe, assim como a exigência de se dispor
dos recursos petrolíferos, isto entre os anos cinquenta e setenta.
Está-se então agora no desenvolvimento deste processo da pilhagem
dos recursos seguindo as regras do colonialismo da velha-escola.
Por cima disto tudo, temos um tipo de colonialismo 2.1, que está no
âmbito do que estive a investigar no Iraque, e que é a pilhagem do
Estado iraquiano, Estado esse que foi construído sob as bandeiras do
nacionalismo árabe, a industria, as fabricas, etc. Um tipo de
privatização acelerada, uma terapia de choque, de saque a
céu aberto como aquele que vimos na ex-União Soviética nos
anos noventa. Esta era a ideia formulada para o plano A no Iraque, isto
é, os EUA entravam lá com a Blackwater, que protegia Paul Bremer,
e tratavam de liquidar todas as indústrias do Iraque. Temos então
um colonialismo da velha-escola que logo daria lugar a um da nova-escola.
E assim temos a privatização pós-moderna que se baseia na
ideia de que o exército dos EUA ia à guerra para pilhar-se a si
mesmo, certo? Há dez anos, Thomas Friedman dizia que dois países
que possuíssem estabelecimentos McDonald nunca entrariam em guerra.
Agora vamos à guerra com a McDonald, a Taco Bell e a Burger King a
reboque. Deste modo o processo de realizar a guerra é uma forma de
auto-pilhagem. Não só o Iraque é saqueado, como os cofres
deste governo dos EUA também estão a ser pilhados. Temos
então a convergência destes três elementos numa perfeita
tormenta que caiu sobre este país.
Um dos aspectos mais importantes que os progressistas devem questionar é
precisamente o discurso de que todo o Iraque é um desastre. Penso que
devemos começar a perguntar com insistência, para quem o Iraque
representa um desastre? Porque afinal não são todos os que
perdem. Certamente que se trata de um desastre para o povo iraquiano. É
também um desastre para os contribuintes norte-americanos, mas o que
temos visto e isto está absolutamente claro se tivermos em conta
os números que se conhecem é que quanto mais piorar a
situação no Iraque, mais privatizada se tornará a guerra,
e mais lucrativa se tornará para empresas como a Lockheed Martin,
Bechtel, e certamente a Blackwater. Existe uma deriva persistente no Iraque:
quanto mais são os países da coligação invasora que
abandonam o Iraque, mais contratados entram em jogo. Trata-se de um aspecto
muito bem documentado por Jeremy, mas disso ele nos falará mais tarde.
E realmente muito perigoso. São estes os riscos que considero que temos
de entender. E vou tentar ser breve, de modo a que possamos ter depois um
debate proveitoso. Afinal o que está aqui em jogo? Os riscos não
poderiam ser mais elevados. Na verdade estamos a perder o incentivo, o
incentivo económico para a paz, o incentivo económico para a
estabilidade. Quando se consegue criar uma economia tão exuberante
à custa da guerra e do desastre á custa da
destruição e da reconstrução, vezes repetidas, que
incentivo existe para a paz?
Existe uma frase pronunciada na conferencia de Davos deste ano.
Invariavelmente, todos os anos existe uma grande ideia que emerge da Cimeira
Económica Mundial de Davos. Este ano essa grande ideia foi o dilema de
Davos. Em que consiste o dilema de Davos? Trata-se do seguinte: durante
décadas fazia parte da sabedoria convencional a ideia de que o caos
generalizado era um estímulo para a economia global, isto é, que
um choque pontual, uma crise ou uma guerra, tudo se poderia aproveitar para
incrementar a privatização, mas que no conjunto -- e esta era a
tese de Thomas Friedman seria necessário existir uma certa
estabilidade para se conseguir um crescimento económico estável.
O dilema de Davos diz-nos que isto já não é certo. Podemos
estar perante uma desordem generalizada, podemos ter guerra no Iraque, no
Afeganistão, uma ameaça de guerra nuclear no Irão, uma
ocupação israelense cada vez mais dura, um incremento da
violência contra os palestinianos, podemos ter terrorismo em face do
efeito de estufa, as repercussões da guerra podem ser cada vez maiores
para conseguir recursos, podemos ter os preços energéticos cada
vez mais elevados, mas, e aqui é que está o aspecto interessante
de tudo isto, a bolsa continua a subir sem parar.
ÍNDICE ARMAS-CAVIAR
De facto existe um índice chamado
índice armas-caviar
que durante dezassete anos tem medido a relação inversa entre a
venda de aviões de combate e a venda de aviões de luxo privados.
Durante dezassete anos, este índice, o
armas-caviar
em que as armas são os aviões de combate e o caviar são
os aviões de luxo privativos permitiu concluir que quando as
vendas de aviões de combate subia, desciam as vendas de aviões de
luxo privativos. Mas de repente, ambos os parâmetros sobem, o que
significa que se estão a vender muitas armas que dão para comprar
muito caviar. E a Blackwater, é claro, que está no centro desta
economia.
A única forma de combater uma economia que eliminou o incentivo para a
paz é, obviamente, retirar as suas oportunidades de crescimento. E as
suas oportunidades de crescimento são as actuais instabilidades
climática e geopolítica. Aquilo que representa uma ameaça
para este sistema, a única coisa que pode ameaçar esta economia,
são, ao invés, a paz e a estabilidade geopolítica, e
climática. De maneira que tendo consciência disto, creio que as
coisas para nós ficam claras na hora de combater aqueles que se
aproveitam da guerra.
O original encontra-se em
http://www.democracynow.org/article.pl?sid=07/04/02/1345218&tid=25
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Tradução de MJS.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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