Ponto de fuga
O colapso do mercado de acções da semana passada sugere que um
sector financeiro enganado pela falsificação da realidade
finalmente entre numa zona de perigo onde esta realidade implacavelmente
reafirma-se a si própria, dissolvendo expectativas, e tudo o que resta
é o odor azedo da fraude.
Este longo episódio da mania do mercado, que perdurou por sete anos, foi
baseado na ideia de que empréstimos não cumpridos poderiam ser
transformados em dinheiro e vestidos com roupas respeitáveis como
apanhar todos os bêbados na periferia de Los Angeles, colocá-los
em fatos de luxo e fazê-los passar por professores da Harvard Business
School. Foi uma vigarice claramente ridícula e o admirável
é que a América tenha-se demonstrado tão absolutamente
privada de autoridade reguladora para não mencionar de simples
decência e auto-contenção em todas as etapas.
É realmente difícil relatar este impressionante fracasso de
responsabilidades. O que aconteceu foi toda uma industria que capitulou
quanto aos seus padrões e normas que tinham no seu interior e lhe
permitia funcionar no primeiro plano. Prestamistas hipotecários
cessaram de exigir aos compradores de casa que se qualificassem para
empréstimos; banqueiros cessaram de se importar com o que mantinha de
pé os papéis que emitiam; empréstimos dúbios
foram empacotados e revendidos como barris de anchovas podres em tais
números que nenhuma fedorenta sardinha individual ficaria de fora
e os barris foram comerciados para toda a linha de frente, alavancados
(leveraged),
hedged, falsificados
(fudged),
burlados
(fobbed)
e trapaceados
(fiddled)
até que, abracadabra, foram transformados em muitos apartamentos de
luxo (Tribeca lofts), casas de campo, relógios Piaget, festas de
aniversário de um milhão de dólares e jactos Gulfstream.
Isto funcionou para os filhos dos bónus da Goldman Sachs, para os
trapaceiros dos private equity
[NT 1]
, e para os presidentes executivos das corporações e os membros
das suas administrações, e mesmo para os miseráveis
analistas quantitativos
(quants)
que rastejam como termitas no amontoado de estatísticas do governo
federal. Isto funcionou até mesmo durante uns dezoito meses para
milhões de irresponsáveis cidadãos americanos seduzidos
por contratos para casas que nunca poderiam pagar, em termos vergonhosamente
falsos e ruinosos.
Os meus críticos nunca se cansaram de destacar quão
sistematicamente errado tenho estado acerca da fraqueza da economia americana,
mas penso realmente que atingimos o ponto de fuga
(vanishing point)
e que a perspectiva no horizonte está a parecer-se cada vez mais a um
buraco negro com horrendos poderes gravitacionais de
sucção. Ele surgiu umas poucas semanas atrás quando dois
hedge funds do edifício Bear Stearns caíram em
perturbações quanto aos barris de anchovas podres que haviam
comprado para os seus investidores. Os rapazes do Bear Stearns tentaram
desesperadamente vender os barris, mas ninguém compareceu ao
leilão. Começou a circular a palavra de que todas as outras
companhias que se sentavam sobre barris de anchovas podres podiam não
ser capazes de venderem os seus. De repente havia um bocado menos
"dinheiro" nocional no sistema. As
"posições" mantidas pelos hedge funds (apostas feitas
sobre todas as espécies de outras coisas alavancadas por anchovas podres
colaterais) ainda não se haviam desfeito o suficiente. Mas na semana
passada tamanho nervosismo corria através do sistema que os mercados de
acções vieram abaixo com dor de barriga. O sangue e a
matéria fecal a girarem em torno do cano de saída é o que
resta do "dinheiro".
A propósito: acredito que se possa atribuir responsabilidades a este
espantoso fracasso, embora a minha teoria possa não ser do gosto de
todos (especialmente dos jumentos teimosos). Numa palavra: deve-se à
entropia. Os EUA desfrutaram de inputs energéticos sem precedentes e o
resultado são outputs de entropia também sem precedentes. A
força multiforme da entropia manifesta-se então como
degradação em todas as coisas em torno de nós, desde a
feiura em que estamos mergulhados com uma paisagem super-construída com
WallMarts, Pizza Huts e casas de vinil até à perversão
sexual disponível na Internet e à capitulação dos
padrões e normas por parte dos executivos do sector financeiro.
É tão simples como isso. Regras da entropia.
O que reforça o meu sentimento de que estamos no ponto de fuga é
o simples facto adicional de que na sexta-feira o petróleo bruto tipo
West Texas fechou um por cento a menos do que o seu record anterior de US$
77,03 atingido em 14 de Julho do ano passado (obrigado a Shadowstats.com
[1]
, de John William, pelo dado). Além das perturbações nos
mercados financeiros, neste momento não há nada especialmente
traumático em curso nem furacões, nem bombismos
terroristas na Europa ou na América, nem acções de
guerrilha contra plataformas de petróleo e oleodutos nigerianos.
É claro que qualquer destes problemas poderia desencadear-se
amanhã, mas o certo é que as coisas agora estão
tranquilas, pelos padrões actuais. E ainda assim o petróleo
fechou a US$77,02 na sexta-feira.
A razão para aquele preço elevado, acredito, é que
entrámos realmente na zona da crise permanente da
exportação de petróleo, o que significa que os
países exportadores (Arábia Saudita, México,
Rússia, Irão, Venezuela, etc) estão a usar ainda mais dos
seu próprio produto em esgotamento e são capazes de enviar cada
vez menos para os lugares que importam o seu petróleo (EUA, Europa,
China, Índia e Japão). Há agora um estrangulamento das
exportações suficiente para impor uma pressão ascendente
de alguns dólares nos mercados futuros do petróleo. Isto
certamente ficará pior. Um bocado pior.
O lançamento desta nova crise na exportação de
petróleo está a coincidir com a crise de confiança no
sector financeiro. De facto, a crise da exportação de
petróleo é o teste de realidade não reconhecido que
está a desafiar a habitual falsificação da realidade no
mundo financeiro. Esta crise na exportação do óleo
também terá um efeito palpável sobre a realidade da vida
quotidiana na América. Ela conduzirá, dia a dia, o nosso sistema
de dependência extrema do automóvel cada vez mais próximo
do fracasso. Se o público chegar a reconhecer o que isto significa,
milhões de decisões individuais serão afectadas. Dentre
estas decisões estará a recusa em considerar a compra de uma nova
casa a 27 milhas [43,5 km] de Minneapolis (ou Dallas, ou Atlanta...). Enquanto
isto ocorre, e os barris de anchovas acumulados em torno de Wall
Street começam a explodir com os gases em putrefacção
neles contidos, não haverá mais hipotecas disponíveis para
novas casas para ninguém. E assim a única actividade real que
ainda impulsiona a economia americana a construção de cada
vez mais amontoados suburbanos aproximar-se-á de uma completa
paralisação. Não penso que os mercados financeiros
sobrevivam a isso.
30/Julho/2007
[1]
http://www.shadowstats.com/cgi-bin/sgs?
[NT 1] Private equity: Investimento em valores mobiliários de empresas
com um potencial de crescimento capaz de gerar retornos superiores à
média de mercado.
[*]
Autor de
"A longa emergência"
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|