"Eu, neocon" a política externa do imperador Trump
Poucos observadores acreditam que o secretário
de Estado Rex Tillerson sobreviverá como o mais neutralizado
secretário de Estado dos EUA desde os tempos em que o secretário
de segurança nacional de Richard Nixon, Henry Kissinger, tomava as
decisões sobre política externa do desapontado
secretário de Estado William Rogers. Ao invés de liderar como
presidente constitucionalmente mandatado, Donald Trump sob muitos aspectos
emulou o imperador romano Claudius.
O título deste artigo a parafraseia o romance
Eu, Claudius
, de Robert Graves, publicado em 1934. Tal como Trump, Claudius entrou na
política numa época tardia da vida embora, no caso de
Claudius, se tornasse o co-consul do seu irmão, o tirânico
imperador Calígula, aos 46 anos. Trump entrou na política
presidencial dos EUA vindo do mundo do imobiliário, dos casinos e do
entretenimento, no fim de 60 anos de vida. Claudius, tal como Trump,
passou a maior parte do tempo da sua vida pré-política atolado em
jogos de azar e de caça a mulheres. Claudius teve quatro esposas, Trump
três. Claudius, como Trump, era fã ávido de desportos
violentos. Claudius gostava de duelos até à morte de gladiadores
e de corridas de bigas, Trump de lutas livre e de box "profissional".
Trump, tal como Claudius, não possui um intelecto agudo. Contudo, ambos
aceitam perigosas aventuras militares. Claudius invadiu e anexou a
Grã-Bretanha no século I DC. Embora inicialmente triunfante, a
extensão do domínio romano às ilhas
britânicas acabou finalmente por estender excessivamente o
império, o que acabaria por levar ao seu colapso. Trump, apesar de
pretender evitar os conflitos de "mudança de regime"
encorajados pelos
seus dois antecessores imediatos George W. Bush e Barack Obama
abraçou-os de todo o coração depois de sucumbir à
influência de conselheiros políticos neo-conservadores.
Claudius finalmente caiu vítima dos desígnios políticos da
sua quarta esposa, Agripina, a qual se acredita ter engendrado uma trama para
envenenar o imperador. Após a morte de Claudius, Agripina teve
êxito em colocar no trono o seu filho, Nero. Na morte de Claudius
acabam-se as semelhanças com Trump, apesar de as guerras intestinas da
Casa Branca de Trump equivalerem a qualquer outra intriga palaciana ao longo da
história.
Trump segue o conselho de uma cabala perigosa que estabeleceu em torno de
si próprio. Sobre questões do Médio Oriente e das
relações com nações muçulmanas, a cabala de
Trump possui uma toxicidade nunca vista anteriormente numa
administração dos EUA. Esta cabala gira em torno da troika de
Jared Kushner, genro de Trump com muitas responsabilidades; Jason Greenblatt,
antigo chefe dos conselheiros legais da Trump Organization e agora Assistente
do Presidente e Representante Especial para Negociações
Internacionais; e David Friedman, antes do escritório de advogados de
Trump, Kasowitz, Benson, Torres & Friedman e agora embaixador dos EUA em
Israel. Eles, juntamente com Trump, conseguiram reverter 70 anos de
política estado-unidense para o Médio Oriente ao assegurar o
reconhecimento pelos EUA de Jerusalém como capital de Israel. A
decisão quanto a Jerusalém também implicará a
mudança da embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para uma propriedade
em Jerusalém originalmente tomada pelos israelenses aos seus
proprietários palestinos.
A decisão sobre Jerusalém envia uma drástica
advertência a muçulmanos de todo o mundo, que encaram a cidade
como a terceira mais santa do Islão, depois de Meca e Medina. Ela
também lança um desafio às igrejas Católica Romana,
Ortodoxas
Orientais e Copta, assim como ao protestantismo, todos os quais encaram
Jerusalém não só como a mais respeitada cidade da
cristandade como também uma zona internacional que deve ficar sob
controle conjunto israelense-palestino ou sob um regime como o das passadas
cidades-estado internacional, Tanger, Dantizg e Triste por exemplo. Ao premiar
Israel com o reconhecimento dos EUA, a acção de Trump deu uma
bofetada na cara dos cristãos de Jerusalém que foram
forçados a enfrentar centenas de odiosos ataques judeu a
cristãos, tais como as palavras garatujadas em hebreu, "Morte aos
gentios cristãos, os inimigos de Israel" e "Cristãos
para o inferno", pintadas no Mosteiro Beneditino na Cidade Velha de
Jerusalém, o sítio reverenciado da Última Ceia de Jesus. O
governo israelense não tomou medidas para descobrir e punir os
perpetradores destes ataques anti-gentios por judeus traficantes de ódio.
Trump também deixou de lado as promessas de campanha de evitar
mergulhar os Estados Unidos nos derrubes de "mudança de
regime" no exterior da era George W. Bush e Barack Obama. Tão logo
estalaram protestos económicos no Irão, Trump adoptou a barragens
da propaganda israelense tuitando o seu apoio ao fim do "regime
brutal" daquele país. Isto aconteceu depois de ele ter dito que
queria sucatear acordo nuclear P5+1 com o Irão, algo a que era instado
pelo primeiro-ministro de Israel Benjamim Netanyahu. É quase certo que o
director da CIA de Trump, Mike Pompeo, um cristão sionista do mesmo
molde de oráculos evangélicos como John Hagee, Pat Robertson,
Paula
White, Robert Jeffress e Jerry Falwell Jr, tenha ordenado a activos da CIA no
Irão e na sua periferia para entrarem em acção contra o
governo iraniano ao primeiro sinal de descontentamento popular quanto ao estado
da economia iraniana.
No princípio de 2018 Trump não perdeu tempo
em entrar numa tempestade de tweets contra o Irão
assim como em criticar o Paquistão, a única
nação muçulmana armada com o nuclear. Trump ordenou que os
US$255 milhões da assistência estado-unidense ao Paquistão
fossem suspensos, acusando do país de proporcionar abrigo seguro a
terroristas islâmicos activos no Afeganistão. Não é
coincidência que Trump tenha atacado verbalmente os dois maiores
países muçulmanos, Irão e Paquistão, depois de ter
assegurado a destruição do quadro estabelecido dos dois estados
palestino-israelense, com o seu reconhecimento do controle israelense permanente
sobre Jerusalém.
A denúncia de Trump do Paquistão ilustra a influência da
sua embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Halley, uma
híbrida cristã-sikh, cujos país procedem da Índia,
sobre a política externa de Trump a favor da-Índia e contra
Paquistão. O posicionamento neo-conservador de
Halley também garantiu que Trump aprovasse o envio de equipamento
militar letal para a Ucrânia, em contravenção à
actual plataforma de política externa do Partido Republicano, defendida
pela campanha de Trump durante a convenção republicana de 2016 em
Cleveland, que se opunha a isso.
O ministro dos Estrangeiros do Paquistão, Khawaja Asif, respondeu ao
ataque de raiva tuitado por Trump declarando que "Ele [Trump] tuitou
contra nós [Paquistão] e Irão para o seu consumo
interno". Mas não foi simplesmente para o consumo interno
genérico de Trump. A retórica anti-Irão/Paquistão
de Trump, vindo longo após a sua decisão sobre Jerusalén,
destinava-se a agradar sionistas como o magnata dos casinos Sheldon Adelson,
bem como ao seu trio de conselheiros ultra-sionistas Kushner, Greenblatt
e Friedman. Também foi um ataque covarde aos conspiracionistas de
extrema-direita, constituídos principalmente por Steve Bannon, Alex
Jones e Mike Cernovich, para aplacar a sua xenofobia anti-muçulmana.
Não ocorreu a estes conspiradores, acólitos à margem de
Trump, que tal como George W. Bush e Barack Obama, Trumpo adoptara as mesmas
políticas de mudança de regime preparadas pelo guru dos protestos
da CIA, Gene Sharp, e pelo mentor de revoluções George Soros.
Jones, por exemplo, outrora opôs-se a Soros e às suas
revoluções. Mas agora, Jones e outros da sua laia aplaudem
loucamente movimentos de Trump para derrubar governos utilizando as
tácticas de Sharp e Soros.
Estas operações não estão a ser executadas só
no Irão, mas também nas Honduras, onde a
administração Trump apoiou o corrupto contrabandista de drogas e
fascista presidente em exercício, Juan Orlando Hernandez, também
conhecido como "JOH", contra o candidato da oposição
salvadorenha Salvador Nasralla na eleição de 26 de Novembro de
2017. A Organização dos Estados Americanos, normalmente um
carimbo para os Estados Unidos, criticou a vitória reclamada por
Hernandez como resultando de fraude maciça. O antigo presidente Manuel
Zelaya, derrubado em 2009 num golpe da CIA aprovado por Obama e pela
secretária de Estado Hillary Clinton, anunciou que 2018 será o
ano em que JOH será apeado do poder e a democracia restaurada. Contudo,
Zelaya, Nasralla e outros líderes da oposição
enfrentarão a bota da "não mudança de regime" da
política externa de Trump de interferência aberta nos assuntos de
outros países.
Inversamente, a administração Trump declarou guerra
económica e política total à Venezuela, sujeitando seus
líderes e cidadãos a proibições de vistos dos EUA e
sanções económicas desgastantes. Trata-se das mesmas
tácticas empregues pelos neocons das administrações Bush e
Obama contra o governo socialista chavista na Venezuela.
Ao contrário de Claudius, Trump não tem uma forte Guarda
Pretoriana para assegurar a sua sobrevivência final. Trump criou mais
inimigos do que amigos dentro do establishment do Partido Republicano, sem
mencionar no Federal Bureau of Investigation, na CIA e nos serviços
militares. Neste momento, candidatos presidenciais republicanos já
estão a planear desafiar Trump na nomeação presidencial em
2020. Estes esforços ganharão pleno vapor após a
eleição intercalar de 2018 que poderia ver o Congresso voltar ao
controle do Partido Democrata.
No final das contas, tal como Claudius, Trump sofre de desordens
neuro-psiquiátricas que o levam a empenhar-se em obsessões e
compulsões socialmente inadequadas. Quando as políticas neocon de
Trump alcançarem os seus desejados resultados, os neocons
descartarão Trump como um velho cavalo estúpido e
promoverão alguma nova ferramenta insípida para executarem suas
políticas. Entre Nikki Haley, o vice-presidente Mike Pence e o senador
republicano de Arkansas Tom Cotton.
04/Janeiro/2018
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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