A sociedade da desinformação
por Jim Kunstler
Uma pergunta que os meus leitores fazem muitas vezes é porque os media
ditos "de referência" estão a fazer um trabalho
tão mau quanto ao relacionamento entre a emergência
energética global e as perturbações nas finanças
globais. Mantenho a minha "alergia" a teorias da
conspiração. Não existem quadrilhas de
figurões da Wall Street conluiadas com tipos de fato cinzento da
CIA para intimidar editores com instrumentos de tortura. A cultura
americana já se tornou auto-desinformativa.
Como disse muito bem o meu amigo Peter Golden (blog
Boardside
): "Quando as pessoas mentem, elas sabem que estão a fazer algo
errado. Mas quando elas apenas fantasiam, não funciona a
consciência do certo ou do errado. Parece moralmente certo viver num
mundo de fantasia e isto é muito mais pernicioso para o discurso
público do que a mentira".
Meus amigos, que em grande parte são ex-hippies, yuppies progressistas,
durante seis anos ativeram-se a preces para exorcizar o mau espírito de
George W. Bush, mas deixaram de reconhecer um fracasso de liderança mais
abrangente em todos os sectores da vida americana e especialmente naqueles onde
actua um bocado de ex-hippies-agora-yuppies. A nossa liderança
política pode ser deplorável, mas também a nossa
liderança nos negócios, na educação, nas artes e
especialmente nos media.
A demonstração disto é
The New York Times.
Nas suas reportagens acerca da situação petrolífera
mundial eles engoliram totalmente e acriticamente as notas de
relações públicas de Daniel Yergin, do Cambridge Energy
Research Group (CERA), um estabelecimento de RP ao serviço da
indústria petrolífera. A preguiça [na
investigação jornalística] não chega para explicar
isto. É má liderança editorial. É um fracasso na
formulação das perguntas importantes.
Na sexta-feira os mercados futuros de petróleo fecharam a um
dólar de distância de todos os récords de preços
elevados (no mesmo dia em que o Índice Industrial Dow Jones caiu 250
pontos). Contudo, a principal manchete de hoje (segunda-feira) na
Secção de Negócios do NY Times é "Disney testa
a natureza dos brinquedos à procura de tinta com chumbo". Bem,
espero que consigamos corrigir isto de modo a que a civilização
possa continuar com uma oferta completa de bonecos da Disney debaixo das
árvores de Natal e esqueça por um momento se a Avó
será capaz de conduzir até o WalMart em Dezembro, ou se o WalMart
será capaz de manter cheios os reservatórios de diesel dos seus
camiões, ou se tanto a Avó como o administrador assistente do seu
WalMart local estão com atrasos de três meses nos pagamentos das
suas hipotecas reajustadas, e já atingiram os limites máximos dos
seus cartões de crédito...
Para mim, parece haver uma óbvia correlação entre os
fracassos actuais dos mercados financeiros em particular o sector do
crédito e o fracasso brutal de liderança em toda a
administração da vida americana. No final das contas, o
crédito depende da legitimidade, e o mesmo se passa com a autoridade.
Eles estão ligados em conjunto. Durante anos, ambos estiveram imersos
na fantasia ao invés da realidade.
De outra forma, como pode alguém justificar o espantoso desaparecimento
dos padrões no empréstimo entre seres humanos, sob o comando de
instituições bancárias? Todos os executivos
bancários não acordaram uma certa manhã com uma falta de
60 pontos nos seus QI. E nem tão pouco se pode dizer que todos eles
acordaram uma manhã com as más intenções de
trabalharem com perversidade. Eles simplesmente foram subsumidos numa
fantasia: de que não havia diferença material entre tomadores de
empréstimos com capacidade comprovada de os reembolsarem e tomadores sem
qualquer possibilidade de crédito. E livraram-se dos problemas que se
poderiam ter seguido através da liquidação por grosso de
pacotes de bons e maus empréstimos a compradores aquiescentes (outros
executivos bancários) mais abaixo da linha, os quais por sua vez
venderam certificados que representavam estes pacotes a executivos em grupos de
pensão e mercados de dinheiro. Isto tornou-se normal. Isto foi
justificado em toda a extensão da liderança americana pelo
Explicador-Chefe quando disse que era uma coisa boa que tantos americanos
quanto possível possuíssem a sua própria casa.
Será que os media americanos deram conta desta cadeia de perigosas
fantasias? De modo algum. Ficaram simplesmente hipnotizados pela
admirável e sobrenatural ascensão dos preços nominais das
casas, e com o fantástico fluxo de cheques de pagamentos vindos dos
escritórios dos construtores de casas, assim como com os fabulosos
refinanciamentos que enviavam torrentes de rendimento para as lojas de
móveis em saldo, com o catálogo da Williams Sonoma
[1]
e com os salões de cirurgia plástica.
PICO PETROLÍFERO
Tudo isto verifica-se contra o pano de fundo do que tem sido chamado Pico
Petrolífero
(Peak Oil),
o ponto de viragem na produção global de petróleo e, na
verdade, o mais alto ponto de todos os tempos no consumo mundial do
óleo, o qual agora pode ser datado com precisão (por meio do
espelho retrovisor) como tendo atingido o topo absoluto em Julho de 2006
o momento exacto, por acaso, em que um gigantesco alfinete perfurou as
moléculas externas da telenovela que mantinha a bolha imobiliária.
A produção de petróleo (todos os líquidos,
incluindo subprodutos do gás natural, areias betuminosas e tudo o mais)
agora está mais baixa em mais de um milhão de barris por dia.
Até aqui experimentámos isto apenas através dos abalos
crescentes nos preços futuros do petróleo. Ao longo deste breve
período de tempo, desde o pico absoluto, as perdas de oferta têm
sido remetidas para as sociedades mais pobres do mundo, as quais simplesmente
retiram-se da competição por abastecimentos de petróleo.
O que os media "de referência" omitem neste momento é a
perspectiva de uma pioria realmente rápida do problema quando as
exportações dos países grandes produtores de
petróleo caírem a uma taxa mais aguda do que a do declínio
da sua produção. Esta ideia foi articulada pelo geólogo
de Dallas Jeffrey Brown, em
The Oil Drum.com
(para uma discussão quanto a isto ir ao blog
Energy Intelligence
, de Jeff Vail).
Os media "de referência" também fracassam em estabelecer
a conexão entre a suprema mercadorias que permite às economias
industriais do mundo operarem e a credibilidade de um sector financeiro cuja
missão principal é financiar a operação de
economias industriais. Na ausência de qualquer perspectiva de
crescimento real na economia industrial da América, o sector financeiro
inventou um sistema no qual podíamos investir na
fabricação de instrumentos de investimento ao invés de
investir na actividade produtiva propriamente dita. E assim toda a
perícia e todo o tempo daqueles que trabalham no sector financeiro
voltou-se para a produção de veículos de dívida
comerciáveis baseados em fórmulas abstrusas que quase
ninguém podia entender (especialmente aqueles que os compravam e os
vendiam).
Toda esta perigosa fantasia ganhou legitimidade porque durante algum tempo
parecia compensar. Cidadãos comuns podiam adquirir casas muito maiores
e mais bem equipadas do que os seus rendimentos justificavam. E os banqueiros
e emitentes das hipotecas obtinham comissões colossais com esta
actuação. E os banqueiros em posições mais
elevadas na cadeia obtinham bónus nunca vistos com a alavancagem da
dívida titularizada de tudo aquilo, e os políticos regozijavam-se
ao calor de uma aparente hiper-prosperidade, e o professor Bob Bruegmann, da
Universidade de Illinois, declarava que a dispersão suburbana é
uma coisa boa, e mesmo
The New York Times,
se bem que desconcertado quanto a eficácia da recolha de
notícias contra a Internet, era capaz de rapar de publicidade suficiente
para construir uma desnecessária nova sede em Manhattan, um
arranha-céu.
Agora o sonho acabou. O azar moral com base na realidade está a
retornar (literalmente) como uma vingança. O certo e o errado
estão em vias de importar outra vez e um bocado de pessoas que puseram
estas coisas de lado por algum tempo irão sofrer.
10/Setembro/2007
[1] Estabelecimento que vende artigos de cozinha.
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/09/the-dis-informa.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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