Tempo de trituração

por Jim Kunstler

Tal como muitos observadores obcecados pela agonia dos mercados financeiros, nas últimas semanas tenho estado a comentar aspectos que em relação ao Grande Quadro são menores. O Grande Quadro é a saúde da sociedade americana, o que inclui tanto a sua economia como a sua cultura. Em tempos mais saudáveis, as finanças eram apenas uma parte da economia, meios para levantar capital de investimento a fim de aplicá-lo na actividade produtiva. Durante as últimas duas décadas, permitimos que ela se tornasse um fim em si mesma.

Quando a indústria manufactureira dos EUA debandou para países com trabalho a baixo custo, virámo-nos cada vez mais para a fabricação de abstrusos esquemas de investimento concebidos engenhosamente para criar "valor" a partir do ar ao invés da actividade produtiva. Isto aconteceu em grande parte devido à força da legitimidade que as instituições americanas acumularam nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. O resto do mundo acreditou que a nossa engenhosidade era apoiada pela credibilidade. Aquela força desvaneceu-se.

Vocês ouvirão acerca de bancos centrais, hedge funds, derivativos, hipotecas suportadas por títulos e toda espécie de jargão, mas as questões que realmente importam são outras além das finanças. Estamos nós a construir uma sociedade com futuro? Será que a nossa cultura afirma a vida ou aponta para a destruição? Serão as nossas cerimonias e rituais diários significantes ou vazios? Serão as nossas esperanças e sonhos consistentes com o que a realidade tem para oferecer? Poderemos nós olhar no espelho e dizer que somos pessoas erectas?

Penso que estamos perturbados acerca de todas estas coisas. Mas duvido que possamos abandonar o nosso comportamento actual sem passar por uma convulsão. A psicologia do investimento prévio é, para nós, uma força demasiado grande a ultrapassar. Venderemos os direitos de nascer das próximas três gerações a fim de evitar mudar o nosso comportamento. Culparemos outros povos que se comportam de modo diferente pelas consequências do nosso próprio comportamento. Não entenderemos as mensagens que a realidade está a enviar-nos, e conduziremos nós próprios à loucura na tentativa de evitar isto.

A MURALHA DO PICO PETROLÍFERO

Não mudei a minha visão do que nos está a acontecer. Esgotámos a nossa cadeia de artimanhas e truques nas fraudes do dinheiro. Gastámos a nossa legitimidade. O resto do mundo esforçar-se-á a todo o custo para livrar-se das suas obrigações para connosco, incluindo o seu respeito para com o valor da nossa divisa. O meta-ciclo de desenvolvimento suburbano, incluindo a "habitação" e todos os seus acessórios como estradas e cadeias de lojas, está a chocar com a muralha do pico petrolífero (peak oil). A construção suburbana está acabada. Para muitos isto será uma surpresa agoniante. O fracasso em tornar a infinita suburbanização a base permanente da economia será um obstáculo para a nossa sociedade nos próximos anos. Centenas de milhares de desempregados com camiões pick-up e panóplias de ferramentas mecânicas sentir-se-ão horrivelmente traídos. Espero que eles não iniciem um partido politico extremista quando os homens da retoma de bens vierem buscar os seus camiões de volta.

Mesmo sob as melhores circunstâncias, com uma mudança de opinião por todo o país, e uma liderança realmente sábia, a América acharia difícil efectuar as mudanças necessárias que a nova realidade exige. Naturalmente, a realidade nos forçará a efectuar tais mudanças, estejam elas no programa ou não. A única variável é quanta perturbação poderá sobrevir no processo. Se resistirmos a fazer o que a realidade exige, a nossa perturbação certamente será pior.

E o que exige a realidade? Bem, antes de mais nada (e tendo em vista especialmente os ambientalistas-progressistas que tenho encontrado ultimamente, que se sentem muito virtuosos por comprarem carros híbridos) temos de abandonar a ideia de que há algum meio, seja qual for, de preservar o nosso sistema de feliz motorização. O carro, como fenómeno de mercado de massa, está acabado. Temos de encontrar uma coisa melhor para conversar, ou o futuro americano equivalerá a pouco mais de que uma colossal masturbação mútua acerca de auto-estradas cada vez mais irreparáveis. Estou muitíssimo preocupado (obviamente) porque mesmo a fracção inteligente e educada da nossa sociedade não consegue focar qualquer outra coisa senão como manter todos os carros em movimento. Um fracasso em desprender-se disto, e mudar para esforços mais práticos, conduzirá automaticamente a um fracasso de políticas razoáveis neste país. Isto já é manifesto no abissal fracasso dos candidatos Democratas à presidência no tratamento da crise de importações de petróleo que está a assomar e que certamente estará em marcha tão logo qualquer deles tome posse.

A realidade exige que nos preparemos para reconstruir nossas pequenas cidades e reduzamos os nosso gigantescos metroplexos [1] . A realidade exige que nos tornemos sérios acerca da produção local de alimentos e de economias locais. A realidade exige que reconstruamos a espécie de transportes públicos que satisfaça as pessoas que viajam. A realidade exige que nos preparemos para reconstruir nossas instalações portuárias para uma ressurreição do comércio marítimo, utilizando navios e barcos que não se movam necessariamente a petróleo. A realidade exige que ponhamos um fim ao jogo legalizado, a fim de que o público reaprenda uma das regras primárias da vida adulta – que geralmente não deveríamos esperar obter alguma coisa em troco de nada.

A perturbação que estamos a assistir no sector financeiro é em grande medida resultado da desinformação de dezenas de milhões de pessoas que tentaram obter alguma coisa em troca de nada. Trata-se de uma circunstância que agora está para além do controle dos Bushes, Paulsons e Bernankes. Suas declarações destinadas a tranquilizar, na sexta-feira, não evitarão a implosão de incumprimentos (defaults) em cadeia e insolvências cumulativas. Uns poucos "poster infantis" podem ser simbolicamente recuperados a fim de tentar incutir confiança neste ou naquele papel, mas um terrível conjunto de outras pessoas e instituições afundarão, infelizmente, devido às suas próprias más escolhas.

Uma estranha nova meta-realidade declarar-se-á na América: que a merda aconteça. Veremos o povo arruinado e nos sentiremos mal em relação a ele, mas não seremos capazes de desfazer a merda que lhes aconteceu, que eles trouxeram sobre si próprios. É assim que a ideia do azar moral retorna a uma sociedade que perdeu o seu rumo. Enquanto isso, há demasiado a fazer para sobreviventes a segurar as mãos e a chorar. Você pode começar por tomar todo o esforço mental que está actualmente a desperdiçar com o assunto dos carros, e de como move-los com outros combustíveis além da gasolina, e ao invés disso focar a sua energia sobre como recuperar nossas instituições políticas de modo a que um público verdadeiramente informado possa reconstruir uma sociedade em bancarrota transformando-a numa república viva e acreditável.

03/Setembro/2007

[1] Nos EUA chama-se "metroplex" ao território constituído por áreas metropolitanas muito próximas entre si e que convergem umas sobre as outras. A mais conhecida é a de Dallas/Fort Worth.

O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/09/crunch-time.html


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05/Set/07