A história de Ligatchov: Um conto para o nosso tempo
Um mistério central do colapso da União Soviética foi a
razão porque o Comité Central do Partido Comunista da
União Soviética (PCUS) permitiu mais ou menos passivamente que
Mikhail Gorbachev e aqueles que o rodeavam diluísse a ideologia
marxista-leninista, enfraquecesse o Partido Comunista e finalmente
desmantelasse o próprio socialismo.
Este mistério foi perfeitamente simbolizado na vida de Iegor Ligatchov, o
vice-líder do PCUS nos primeiros tempos de Gorbachev e um
marxista-leninista cabal que apoiou as suas primeiras reformas, particularmente
aquelas destinadas a promover abertura, livre discussão e tecnologia
moderna, mas que se opôs totalmente à direcção final
da perestroika a marginalização do PCUS, o
estilhaçamento da União Soviética e a viragem rumo ao
capitalismo.
Escritas no princípio da década de 1990,
as memórias de Ligatchov
constituem uma leitura penosa. Elas estão cheias de tristeza e
de lamentos quanto ao que aconteceu ao partido e ao socialismo e, com o
"coração pesado", de "quão infelizmente
profético" ele foi.
Contudo, estas recordações são destituídas de
qualquer percepção de porque se verificou o colapso do socialismo
ou do que ele e outros comunistas com ideias afins poderiam ter feito a fim de
mudar o rumo das coisas, de como poderiam ter actuado de forma diferente.
A obtusidade de Ligatchov lança uma luz considerável sobre o
mistério da apatia do Comité Central. No próprio momento
em que Gorbachev estava a minar o Partido Comunista, inclusive o seu papel de
liderança e o seu centralismo democrático, Ligatchov estava cegado
pela sua própria deferência para com o líder do Partido e
neutralizado pelo seu compromisso para com o centralismo democrático.
Uma anedota ligeiramente patética foi relatada pelo próprio
Ligatchov. Enquanto ainda membro do Politburo, Ligatchov disse que "previa
o
curso trágico dos acontecimentos e não podia permanecer
silencioso". Então, o que fez ele? Escreveu uma carta a Gorbachev
pormenorizando as suas críticas e preocupações. Gorbachev
"arquivou" a sua carta e recusou-se a enviá-la ao
Comité Central. Ligatchov disse que a recusa de Gorbachev a circular a
carta era "algo tão inacreditável e espantoso... que ainda
não posso entender". A parte realmente inacreditável e
espantosa desta história é que Ligatchov pensasse que o
único meio de se opor a políticas que estavam a conduzir o
partido e o país ao desastre era apelar ao autor daquelas
políticas.
A coisa patética nesta história é que o respeito de
Ligatchov pelo líder do Partido Comunista e pelo centralismo
democrático do partido era tão forte que realmente facilitou a
destruição do PCUS por Gorbachev. Além disso, a sua
deferência era tão forte que anos depois acreditava que ao
escrever a Gorbachev "fiz tudo o que podia para impedir a
desgraça".
O PCEUA
Hoje, o PCEUA atravessa uma transformação de muitos modos
paralela ao que aconteceu na União Soviética vinte anos
atrás. "Novo pensamento", nova tecnologia e
"reestruturação" são a última moda. A
liderança do Partido está rapidamente a desembaraçar-se de
"ideias velhas" e do vocabulário respectivo
marxismo-leninismo,
ditadura do proletariado, papel da vanguarda, acção
política independente, luta de classe, racismo, imperialismo,
internacionalismo.
Segundo os nossos dirigentes, luta de classe não é uma ideia
"utilizável" e "ao plus comunista" deveria ser
"dado um enterro decente". No mês passado, os dirigentes do
Partido não apoiaram a manifestação anti-guerra em
Washington, D.C. Na semana passada, não apoiaram o comício do
Primeiro de Maio pelos direitos dos trabalhadores/imigrantes em Foley Square,
em Manhattan. Ontem, não apoiaram a marcha pelo desarmamento e a
manifestação junto à ONU.
Entretanto, os líderes do Partido abandonaram o trabalho de massa
independente quanto às mulheres, ao racismo e à paz e ao
invés disso passeiam em fileira cerrada atrás do Partido
Democrata e da AFL-CIO. A liderança cessou de imprimir
edições do jornal e da revista teórica, encerrou a
livraria, fechou o Reference Center for Marxist Studies, abandonou os arquivos
e a biblioteca e aluga cada vez mais espaço na sede do partido a empresas
comerciais.
A julgar pela dimensão da última convenção cinco
anos atrás em Chicago (cerca de 500 delegados e convidados) e a
próxima convenção em Nova York (cerca de 200 delegados e
convidados), estas novas ideias e políticas resultaram em pessoas a
votarem com os seus pés e estes pés não estão a
pisar um caminho rumo à nossa porta. A militância está a
cair e os membros estão a enfraquecer-se. Para aqueles de nós que
nos orgulhamos de entender algo acerca do movimento da história, o
resultado final destes desenvolvimentos deveria ser claro.
A menos que a passividade de camaradas dirigentes mude nas próximas
semanas, é provável que nos próximos anos alguns acabem a
resmungar as palavras de Ligatchov, "inacreditável",
"espantoso", "ainda não posso entender". Se eles
disserem, também, "fiz tudo o que podia para impedir a
desgraça", serão simplesmente tão patéticos e
errados como ele foi.
03/Maio/2010
[*]
Autor, com Thomas Kenny, de
O Socialismo Traído. Por trás do colapso da União Soviética
, Editorial Avante, Lisboa, 2008, 283 pgs. ISBN 978-972-550-336-2
O original encontra-se em
mltoday.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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