Inimigo à porta
por Luis Britto Garcia
[*]
Os Estados Unidos não podem ocupar militarmente toda a América
Latina e o Caribe. Seu exército conta com dois milhões de
efectivos; os nossos apenas com um milhão e meio. Para ocupar-nos
deveriam mobilizar um número equivalente, descuidando teatro de
operações vitais ou recrutando-os. Ambas as
operações são logística e economicamente
inviáveis. Também colocariam intratáveis problemas de
controle social e contra-insurgência. O Império mantém a
sua hegemonia mediante a pressão sobre os governos cúmplices, a
penetração cultural que a apresenta como desejável e as
bases que facilitam a intervenção militar. Como disse Bush ao
formular a nova Estratégia de Segurança Nacional: "Os
Estados Unidos precisarão de bases e estações dentro e
mais além da Europa Ocidental e do Noroeste da Ásia, assim como
também acordos de acesso temporário para a
deslocação das forças dos Estados Unidos a grande
distância" (Bush 2002).
A ocupação militar do mundo
Os Estados Unidos ocupam em propriedade ou em arrendamento 6000 bases militares
no seu território e 872 fora dele. Estas alojavam 253.288 soldados, um
número equivalente de familiares e pessoal de apoio e 44.446
estrangeiros contratados, e constavam de 44.870 quartéis, hospitais,
depósitos e outras estruturas de sua propriedade, além de 4.844
em arrendamento. Decisões soberanas encerraram algumas: pelos acordos
sobre o canal do Panamá, o Império desocupou a base Howard em
1999; o Brasil negou-lhe a projectada base de Alcántara no
Maranhão, e Rafael Correa ordenou-lhes que desalojassem a base de Manta
no Equador. Mas restam ao Comando Sul as base de Guantánamo em Cuba,
Vieques em Porto Rico, Soto Cano em Honduras, Comalapa em El Salvador, e no
Peru as de Iquitos, que domina a Amazónia, assim como as de Santa
Lúcia Huallaga, Santa Lúcia e Palmapampa. Outra das bases dos
Estados Unidos funciona no Paraguai: os soldados ocupantes desfrutam de
impunidade para violar as leis paraguaias. O Comando Sul opera também 17
bases terrestres de radares: quatro na Colômbia, três no Peru e
várias móveis ou de localização secreta nos Andes e
no Caribe.
Bases contra a América Latina
Nos princípios do Terceiro Milénio, os Estados Unidos instalam as
bases aéreas Rainha Beatriz em Aruba e Hato Rey em Curaçao, em
resposta à recusa de Chávez a permitir a instalação
de bases e os sobrevoos na Venezuela. Na Colômbia, onde avança uma
intervenção militar maciça, já funcionavam a base
aérea Las Tres Esquinas e a de Larandia: aeronaves militares
estado-unidenses operam nos aeroportos de Aplay, Melgar, Cali, El Dorado,
Palanquero, Medellín, Barranquilla e Cartagena. A partir de uma delas, e
apoiado com tecnologia e pessoal estado-unidense, a Colômbia
lançou seu ataque contra o Equador em princípios de 2008. Os
Estados Unidos têm o domínio total sobre estes enclaves. Assim, a
agência EFE em Bogotá informa que "A 22 de Abril o embaixador
dos EUA na Colômbia, William Brownfield, reuniu-se com o ministro
colombiano da Defesa, Juan Manuel Santos, e comunicou-lhe que o Departamento de
Estado decidiu "levantar o veto que desde Janeiro de 2003 aplicava
à base aérea de Palanquero, no centro da Colômbia, que
estava sancionada desde 1999 quando aviões que decolaram dali
bombardearam por erro um povoado e mataram 18 camponeses". Os Estados
Unidos sancionam, impõem ou levantam vetos à bases militares em
território colombiano e os seus soldados estão imunes às
leis da Colômbia. Ao seu colar de enclaves ali acrescenta agora as bases
de Malambo, Palanquero, Apiay, Tumaco, Bahía Málaga, Tolemaida e
Fuerte Larandia.
A ressurreição de Manta
O Comando Sul obteve a Base Aérea de Manta do regime entreguista do
presidente equatoriano Noboa, na costa noroeste, que dominava o Putumayo,
estendia a vigilância aérea pela região andina e
proporcionava inteligência ao exército colombiano e aos
esquadrões da morte treinados e dirigidos pelos EUA. Segundo Pace, Manta
"é a chave para reajustar nossa zona de responsabilidade (AOR),
nossa arquitectura (o aparelho militar) e para estender o alcance da nossa
cobertura aérea de DM e T (Detecção, Controle e
Seguimento) nas Zonas Fonte (de produção de droga)"
(Zibechi, 2005). O presidente Correa ordenou de forma categórica a
desocupação de Manta. No seu lugar, os Estados Unidos projectam
instalar mais duas na Colômbia com iguais capacidades, uma delas em
Cartagena para as operações da IV Frota do Atlântico.
Meio milhão de efectivos
Em 2007 a Colômbia mantinha 459.687 funcionários em trabalhos de
Defesa e Segurança e gastava anualmente na guerra 6,5% do seu PIB, uns
22 mil milhões de dólares por ano, segundo Juan Camilo Restrepo e
Pedro Medellín (semanário
Voz,
edição 2427, cit. por Álvaro Angarita: "Cresce a
despesa militar. Guerra devora o orçamento", 27/02/2008,
www.geocities.com/vozxcol/voz.pdf). Em 2009 o Departamento de Estado
destinará 520 milhões de dólares ao Plano Colômbia.
Alguém pode acreditar que esta formidável
mobilização conjunta da primeira potência militar do mundo
e do país militarizado da América Latina são para derrotar
dez mil insurgentes e uns quantos traficantes? Tudo aponta para as reservas de
hidrocarbonetos, de água e de biodiversidade da Venezuela, do Equador e
do Brasil.
Bases inúteis
O próprio objectivo define a sua inutilidade. Nem a Colômbia nem
os Estados Unidos podem dominar com êxito o desmesurado Brasil e os seus
aliados. Boas para a espionagem, o atentado e a intervenção, as
bases têm um limite. Há mais de um século os Estados Unidos
mantêm encravada em Cuba a base de Guantánamo. Seus marines
não saem dali porque sabem que encontrarão a resistência
compacta de um povo irredutível. É difícil seguir a via
pacífica quando o adversário escolhe a violenta. Antes que das
bases de fora, ocupemo-nos em organizar a resistência e inutilizar os
enclaves do Império no nosso país. O povo armado, nunca
será vexado.
16/Agosto/2009
[*]
Venezuelano. Narrador, ensaísta, dramaturgo, desenhista, explorador
submarino, autor de mais de 60 títulos.
O original encontra-se em
http://luisbrittogarcia.blogspot.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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