In Go(l)d we trust

por Chan Akya

. No papel moeda dos Estados Unidos está inscrito o lema "Confiamos em Deus" Bem, nós não temos tanta confiança. Ponha uma letra "l" na palavra God (Deus) e terá a expressão vencedora: Gold (ouro).

Com o sistema global financeiro inteiramente disfuncional, a questão para os esforçados trabalhadores asiáticos é aonde colocar seu dinheiro. Eu sugeriria olhar para as mercadorias físicas, tal como o ouro e o petróleo, se esses preços já não tivessem disparado. Na quinta-feira o preço do ouro aumentou repentinamente acima de US$700 por onça, a maior alta desde Maio de 2006.

Como sistema trabalha

Num artigo anterior [1] expliquei que os bancos funcionam como intermediários no controle de riscos e liquidez, por todo o sistema. Entretanto, nas recentes semanas passadas, os bancos ficaram paralisados diante de um muro por eles próprios construído, ou seja, pela falta de confiança uns nos outros para os empréstimos de uma noite (overnight lending).

Tipicamente, os bancos centrais estabelecem uma taxa alvo, a qual é observada pelos bancos que emprestam entre si no balcão do overnight para o equilíbrio do caixa total no sistema. Proporcionalmente a seus depósitos, os bancos precisam manter reservas nos bancos centrais, sobre os quais uma taxa de depósito específica é paga, usualmente 100 pontos básicos abaixo da taxa alvo. Quando um banco não tem caixa para suas reservas, tem de emprestar de outro banco a fim de manter o seu nível, e tal empréstimo ocorre com a taxa alvo. O insucesso na reunião dos empréstimos dos bancos fará com que o banco carente de caixa faça seus empréstimos no seu próprio banco central, com uma taxa penalizada de 100 pontos básicos acima da taxa alvo. Isto é chamado de janela das taxas de desconto.

O mercado interbancário é uma confusão maior, onde os bancos emprestam entre si para todos os outros propósitos, inclusive fazendo reservas no exterior (por exemplo, um banco europeu comprando ativos em dólares dos Estados Unidos, irá necessitar de emprestar dólares de um outro). As taxas às quais um banco irá emprestar de outro determina a Taxa Interbancária Ofertada de Londres (a LIBOR), a qual é estabelecida diariamente em Londres com base em uma pesquisa junto a 16 dos bancos principais. A teoria é que a LIBOR não deve exceder a taxa penalizada mencionada acima (isto é, taxa alvo mais 100 pontos base) de modo que os bancos se aproximem também do banco central para adquirir seus fundos.

Contudo, no tranquilo mundo dos bancos estes empréstimos de um banco central ainda carregam um estigma: o de que o banco não é confiável por outros bancos e, conseqüentemente, necessita ir ao banco central. Assim, muitos bancos preferem pagar a taxa com penalidade no mercado interbancário a arriscar a sua reputação indo ao banco central.

Naturalmente não é somente a bancos que o correntista individual pode ir. Em muitos casos eles vão aos fundos de " money-market " os quais oferecem taxas de juros mais altas do que os bancos e tipicamente proporcionam uma forma de proteção ao capital principal e seus rendimentos, colocados em seguros de depósitos em muitos países. Esta prática normalmente atrai pessoas e companhias abastadas com excesso de fundos em seus caixas por qualquer razão operacional. Tais fundos de "money market" tipicamente compram papéis comerciais ("commercial paper").

"Commercial paper", (CP) é uma pequena variação no tema dos empréstimos interbancários. A idéia é expandir o bolo dos potenciais emprestadores no mercado e isto é atingido pela emissão de notas de curto prazo de boa qualidade. Com um programa de CP desenvolvido, os emprestadores podem acessar o mercado de fundos que irá apanhar ambos os mercados, bancário e de money market. Papéis comerciais com base em ativos (Asset backed commercial paper – ABCP) refere-se a programas de CP onde alguma forma de garantia colateral, usualmente de ótimo padrão, é usada para suportar a qualidade do programa e então providenciar segurança adicional para qualquer agente que compre notas de débito emitidas pela entidade. Tipicamente, as ABCPs são usadas por entidades financeiras para arbitrar entre taxas de empréstimos de curto prazo e rendimentos de longo prazo nesses títulos.

Agora que estamos ao par da sopa de letras, eu poderia bem adicionar os veículos de Investimentos Estruturais (Strutured Investment) à mistura. São as entidades financeiras especializadas que investem em ativos de alto risco (mas com juros bastante altos), tais como derivativos emitidos sobre ativos financeiros tais como hipotecas e dívidas ativas em cartões de crédito. Estes títulos têm muitas abreviações estonteantes, tais como RMBS, CMBS, ABS e CDO, mas, efetivamente, todos apontam para uma mesma coisa: um derivativo financeiro sobre ativos básico relativamente ilíquidos.

Como o sistema naufragou

Nas últimas semanas, quando os bancos europeus começaram a revelar o nível das suas perdas potenciais por terem comprado ativos sub prime norte-americanos, duas coisas não funcionaram. Primeiro, os vários fundos de money market começaram a encarar resgates uma vez que se tornou claro também estarem expostos aos derivativos originados dos ativos sub prime norte-americanos. Eles tiveram então que cessar as compras de ABCP e CP no mercado, transferindo o ônus para os bancos para que estes arcassem com todo o fardo destes papéis.

Os bancos, naturalmente, eram os maiores patrocinadores dos SIVs. Contudo, alguns dos maiores, vendo as recentes emissões máximas, foram realmente postos a correr por entidades financeiras não bancárias tais como corretoras e hedge funds, De qualquer modo, uma vez que os SUVs não poderiam capitalizar-se a si próprios no mercado de Commercial Papers seu jogo estava terminado – seus ativos eram ilíquidos em função do nível corrente de perdas das apólices subjacentes (os emprestadores faltaram a suas obrigações muito mais freqüentemente do que fora inicialmente assumido, o que ajudou o preço dos derivativos a cair a maior velocidade).

Isto significa que muitos bancos que patrocinavam SUVs, tiverem os SUVs absorvidos por seus patrocinadores; os SUVs, por seu turno, causaram aos bancos um recorde duplo, na perda de seus investimentos e no estiramento do seu capital. Sob as regras bancárias globais, tendo seus ativos variando de empréstimos a derivativos, o banco atrai vários tipos de capital de forma a assegurar que têm o suficiente de seu próprio capital para arriscar em investimentos ao invés de apenas arriscar o dinheiro dos depositantes ou de outros bancos, que o ajudariam em sua capitalização. Quando ativos de risco são comprados por atacado, ninguém sabe com certeza quão valiosos serão esses ativos e, por conseguinte, quanto de perda os bancos terão que suportar.

Neste ambiente os bancos cessaram de confiar um nos outros. A taxa LIBOR saltou, passada a interrupção e passou-se a cobrar a penalidade dos empréstimos para o overnights em função desta falta de confiança. Até mesmo quando o FED cortou sua prime rate em 50 pontos base sobre a taxa alvo, os bancos acharam difícil convencer-se entre si de sua estabilidade e solvência.

A falta de confiança entre os bancos cortou todos os esforços dos bancos centrais em relação aos aumentos de taxas de juros, como seria necessário ao se constatar o crescimento da economia global e suas pressões inflacionárias . Ao invés disso, o FED sinalizou uma tendência ao corte de juros neste mês, e o Banco Central Europeu, o qual pré-anunciou um aumento para setembro no último mês, teve de recuar nesta semana e manteve a taxas como estão. Até mesmo as sacudidelas desajeitadas (flip-flopping) não ajudaram o mercado inter bancário, porque a LIBOR permanece inflexivelmente alta.

O que fazer

Quando emperra a confiança entre os bancos, os investidores não tem outra opção senão fugir dos ativos financeiros. Isto já está acontecendo, com o preço do ouro subindo acima de US$700 a onça, e o petróleo atingindo um novo recorde do ano (US$77 por barril). A preferência por mercadorias é um incômodo para os bancos centrais; os altos preços das mercadorias tornam menos defensável a tarefa de diminuição das taxas de juros.

Mais importante, os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa perderam credibilidade diante dos investidores. Eles não estão mais tentando prevenir inflações e parecem mais inclinados a preservar muitos banqueiros. Isto sugere uma grande destruição de valores para o investidor global, particularmente os asiáticos em seus investimentos na Europa e nos Estados Unidos.

Nem o dólar nem o euro têm qualquer credibilidade nesta situação, o que sugere que o investidor médio da Ásia não tem outra opção a não ser comprar ouro como reserva de valor. Mesmo carregando o dólar o lema "Nós confiamos em Deus (God)", penso chegou a hora de os asiáticos, a invés disso, confiarem no ouro (gold).

Notas
1. Asia and the vicious cycle of bank bailouts , Asia Times Online, August 11, 2007.


O original encontra-se em http://atimes.com/atimes/Global_Economy/II08Dj02.html . Tradução de COM.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Set/07