A revogação da censura de 1919 a Franz Boas

por David Glenn

Na quinta-feira passada a Associação Americana de Antropologia mobilizou-se para reparar um erro cometido há 85 anos em relação a um pioneiro nesse campo e fundador da associação. O grupo aprovou a anulação da censura a Franz Boas, no seu encontro anual.

A controvérsia data de Dezembro de 1919 quando, no meio duma acesa disputa sobre patriotismo, espionagem e éticas científicas, o conselho de direcção do grupo censurou Boas, na altura professor na Universidade de Colúmbia e provavelmente o académico antropólogo mais conhecido do país. Tinha sido um dos fundadores da associação, em 1903.

Mas, no rescaldo da I Guerra Mundial, ele irritou muitos dos seus pares com as suas críticas afiadas aos antropólogos que haviam trabalhado na América Latina como espiões dos Estados Unidos.

A associação quis fazer agora uma correcção póstuma. Na quinta-feira à tarde, os académicos presentes na conferência votaram provisoriamente a anulação da censura de 1919. Com um resultado não vinculativo de 59 votos contra 0, aprovaram uma resolução que rejeita a censura e afirma que é “imoral os cientistas utilizarem a sua identidade profissional como cobertura para actividades de espionagem governamentais”.

“Esta é uma questão que tem que ser relembrada de geração em geração”, disse Leni M. Silverstein, um dos autores da resolução. Silverstein, professor visitante na Universidade Northwestern, sublinhou que, durante a guerra do Vietnam, surgiram debates deste tipo e tudo indica que voltarão a surgir em relação aos conflitos no Iraque e na Ásia Central. (O encontro da associação em 1970 foi perturbado pelas acusações de que antropólogos americanos haviam dado secretamente orientações a operações militares americanas na Tailândia).

A votação foi apenas provisória porque o encontro profissional não tinha quorum. É provável que, no decorrer de 2005, o conselho executivo da associação ponha este assunto a votação entre todos os associados, através do correio. Admite-se que a resolução venha a ganhar por uma maioria confortável.

A causa próxima da censura a Boas foi uma carta aberta publicada a 20 de Dezembro de 1919 pelo jornal The Nation. Nessa carta Boas declarava que “um certo número de homens que se dedicam à ciência como profissão, homens que me recuso a continuar a tratar por cientistas, prostituíram a ciência utilizando-a como uma cobertura para as suas actividades de espiões”.

Boas não indicava nomes mas, dentro do pequeno círculo dos antropólogos americanos, era evidente que ele se estava a referir a um círculo de espionagem organizado em 1917 por Sylvanus G. Morley, um académico especializado nos Maias que, na altura, estava associado ao Museu Peabody da Universidade de Harvard. A tarefa principal deste grupo era encontrar as célebres bases submarinas alemãs no México e na América Central, mas também produziu centenas de páginas de intelligence sobre figuras políticas mexicanas e imigrantes alemães na região.

No dia 30 de Dezembro, duas semanas após a publicação da carta de Boas, o concelho da associação – que, por coincidência, se reuniu no Museu Peabody – aprovou, por 20 votos contra 10, uma censura contra Boas. Uma das queixas apresentadas nesse encontro era que Boas havia posto em perigo os investigadores no terreno em todo o mundo, ao revelar que alguns deles trabalhavam como espiões.

Esta acusação em especial enfureceu Boas que considerava terem sido espiões como Morley e os seus colegas, e não as suas críticas, quem tinha lançado uma sombra sobre os investigadores no terreno.

Numa entrevista na quarta-feira, David H. Price, professor de antropologia membro do Colégio St. Martins, disse que estão aqui em causa duas questões distintas mas sobrepostas. A primeira é se os antropólogos devem poder usar as suas credenciais académicas como cobertura para a espionagem. Price acha que esta questão está definida: Nunca o devem fazer.

A segunda questão, disse Price, é se os antropólogos devem pôr a sua especialidade, mesmo que de uma forma aberta e transparente, ao serviço do esforço de guerra. Price está a escrever um livro sobre os papéis desempenhados por antropólogos americanos durante a II Guerra Mundial, e disse que esta questão é muito mais complexa.

Mesmo no caso de uma guerra considerada generalizadamente como justa, disse Price, os antropólogos devem pensar muito cuidadosamente nas implicações éticas do trabalho com acções governamentais. Por exemplo, pelo menos um antropólogo que fez trabalho de campo no Japão nos anos 20, veio mais tarde a transmitir aos dirigentes militares americanos as suas opiniões sobre a sociedade japonesa. A guerra contra o imperialismo japonês pode ter sido justificada, disse Price, mas os informadores dos anos 20 daquele académico certamente não o convidaram para as suas casas pensando que ele estava a recolher informações sobre qual a maneira mais eficaz de os matar daí a 20 anos.

Price disse que estava satisfeito com a decisão de anular a censura a Boas, mas que também esperava que a associação agarrasse a questão da espionagem de um modo mais directo e menos simbólico. O grupo poderia reforçar os seus regulamentos éticos contra a espionagem, disse.

“Fiz trabalho de campo no Egipto e algures no Médio Oriente”, disse Price. “E as pessoas perguntam-me muitas vezes para quem é que eu estava realmente a trabalhar. Gostaria de lhes poder dizer não só que não sou nenhum espião, mas também que isso era contra os princípios da minha organização”.

Alguns historiadores deram a entender que a censura a Boas foi dirigida apenas à carta dele para The Nation. Numa dissertação de 1968, George W. Stocking Jr. da Universidade de Chicago, argumentou que a censura devia ser entendida como produto de uma disputa que durou décadas entre antropólogos físicos e o subcampo de Boas da antropologia cultural. Em 1919 esta querela estava no seu auge.

Os antropólogos biólogos manifestamente racistas – incluindo Madison Grant, autor de "O Fim da Grande Corrida" ( The Passing of the Great Race ) (1916) – tinham assento nessa altura no Comité do Conselho de Pesquisa Nacional, e consideravam-se a si próprios como os piores inimigos de Boas e dos seus discípulos relativamente esquerdistas. Também pode ter tido influência um certo grau de preconceito anti-alemão. Boas era um imigrante alemão e alguns dos 10 académicos que votaram contra a censura de 1919 eram de ascendência alemã e/ou judia. Os 20 académicos que votaram a favor da censura, pelo contrário, incluíam alguns com estreita ligação à “Galton Society” de Granton, uma organização eugenista que só aceitava como membros “americanos nativos”.

Mas o quadro era ainda mais complicado do que isso, e moralmente ambíguo, de acordo com David L. Browman, professor de antropologia na Universidade de Washington em St. Louis. Browman que se mostra céptico quanto ao esforço de 'descensurar'  Boas, insinua, numa carta que vai ser publicada numa próxima comunicação do Anthropology News, que em 1919 Boas andava a manobrar destramente na angariação de fundos para o seu departamento em Colúmbia.

Na verdade, Boas conhecia 10 antropólogos que haviam actuado como espiões na I Guerra Mundial, e não apenas os quatro que mencionou na sua carta à Nation, acusa Browman. Mais ainda, diz Browman, Boas já sabia da espionagem desde 1917 mas havia optado por não fazer barulho a não ser quando isso interessasse aos seus objectivos políticos.

Browman conclui sublinhando que Boas continuou como um dirigente importante da associação durante muitos anos após 1919 e, no entanto, os seus pares não tentaram anular a censura. “Eles conheciam as verdadeiras razões envolvidas”, escreve. “Que fique longe dos nossos propósitos, quase um século depois... rescrever a história para servir as nossas próprias tendências políticas actuais”.

No entanto, a maioria dos membros do grupo parece estar satisfeita com o esforço de reabilitação de Boas.

“Muita gente na associação acha que as razões que Boas defendeu são as mesmas que querem defender em relação a problemas contemporâneos”, disse Regna Darnell, professor de antropologia da Universidade de Western Ontario e autor de um livro sobre Boas. “Por isso devíamos andar para trás e observar o activismo político dos nossos fundadores,” disse. “Há uma tradição de coragem”.

A carta de Franz Boas a The Nation está em http://www.uqac.uquebec.ca/ (em francês).

O original encontra-se em
http://chronicle.com/temp/email.php?id=e7xkvl3q13qob01r9pds1jk61zyrfs08.
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

27/Jan/05