O imperialismo estadunidense está em crise?

por Gérard Duménil [*]
e Dominique Lévy [**]
1- Introdução
2- Neoliberalismo e imperialismo
3- Neoliberalismo: rendimentos, patrimónios e modo de vida das classes mais ricas
4- Poderio do imperialismo estadunidense
5- Uma trajectória insustentável
6- Conclusão
Referências


1- Introdução

Nunca existiu na história do capitalismo período de harmonia e de não violência. As primeiras décadas que se seguiram à Segunda Guerra mundial, os chamados “trinta gloriosos”, fazem retrospectivamente figura de paraíso perdido. Contudo, não foram os do colonialismo e das guerras de independência, da guerra pretensamente fria e dos escaldantes afrontamentos que suscitou, como na Coreia ou no Vietnam? Que dizer da subversão por toda a parte no mundo, nomeadamente na América Latina, cada vez que o controlo dos governos dos países da periferia por classes ou cliques favoráveis aos Estados Unidos era ameaçada...

Mas o novo curso do capitalismo, desde há um quarto de século, singulariza-se pelo ressurgimento de formas de violência que se poderiam julgar obsoletas. A queda do contra-império soviético assim como o fiasco das lutas revolucionárias – no que se chamava então o terceiro mundo, quando existia um segundo – não conduziu as classes dominantes e a primeira potência mundial a moderarem o curso da sua dominação, a civilizarem os seus métodos. Violência da economia, da guerra e da subversão estão sempre na ordem do dia. Que elas sejam o feito de pretendidos cruzados da democracia e da luta contra o terrorismo não lhes muda a natureza.

Que força subterrânea e obscura sustem esta dinâmica? A resposta não surpreenderá os marxistas: uma luta de classes de envergadura histórica e mundial. Sobre a base da conquista da destruição do segundo mundo, trata-se para as classes dominantes de uma reconquista, de uma restauração, no sentido em que se restaura um regime político. O precedente do que se convencionou chamar "a restauração" no início do século XIX em França, não foi mais radical. As classes dominantes estão engajadas numa luta que visa o restabelecimento da sua preeminência, tal como antes da grande depressão dos anos 1930 e da Segunda Guerra mundial. Nesse projecto, a sua audácia não tem limites. Do ponto de vista da potência estadunidense, está em jogo, além disso, a consolidação da sua dominação, num mundo onde outros países alcançaram níveis de desenvolvimento comparáveis, sabendo que, no fim dos anos oitenta, muitos analistas profetizavam um declínio. Classes e uma nação, são estas forças sociais que deram às últimas décadas do século XX a sua violência específica e o início do século XXI situa-se bem na continuidade desta empresa.

Neoliberalismo e imperialismo, é através destas duas realidades que este estudo se esforça por caracterizar o período que se estende de cerca de 1980 até aos primeiros anos 2000. Eles não têm a mesma idade. À evidência, o neoliberalismo é um objecto novo e o imperialismo uma velha coisa. A secção 2 propõe algumas definições. As duas secções seguintes fornecem, cada uma à sua maneira, as informações susceptíveis de esclarecer, essencialmente num plano económico, as naturezas e as características do neoliberalismo (secção 3) e do imperialismo (secção 4). A relação entre neoliberalismo e imperialismo pode então ser estabelecida. A dominação imperialista sobre o resto do mundo beneficiou formidavelmente das transformações neoliberais; o estádio neoliberal do imperialismo afigura-se particularmente frutuoso para as classes e os países dominantes, drenando enormes rendimentos do resto do mundo; e, em contrapartida, o projecto que encarna o neoliberalismo, o do restabelecimento do poder e do rendimento das classes proprietárias dos meios de produção, encontrou-se assim reforçado. Este projecto de transformação social reaccionário está, contudo, atravessado por contradições (secção 5). Suscitou importantes derivas, nomeadamente no coração do coração do sistema, por parte das classes dominantes dos Estados Unidos. A continuação destas tendências minaria os fundamentos da empresa e é de prever uma rectificação. De que será ela portadora?

2- Neoliberalismo e imperialismo

Existe, certamente, uma ideologia neoliberal, mas o neoliberalismo define uma realidade: o novo curso do capitalismo desde, pelo menos, o início dos anos oitenta:

1- A ideologia e a propaganda destacam as virtudes do mercado e da livre empresa, o que é uma maneira disfarçada de falar do capitalismo; a intervenção do Estado deveria ser limitada ao estritamente necessário. Estes princípios não são estranhos ao novo curso neoliberal do capitalismo. Em cada país, a liberdade de empreender, de comprar e de vender, de empregar e de despedir trabalhadores, de comprar filiais e de efectuar fusões, etc. foi acrescida; os direitos dos trabalhadores recuaram. No plano internacional, as fronteiras comerciais foram reduzidas, ou mesmo eliminadas, e os capitais adquiriram o direito de circular livremente. No mínimo, todos estes processos estão em curso. Contudo, em bastantes domínios, o poder dos Estados foi reforçado. É, nomeadamente, o caso das políticas monetárias, visando desde então, quase exclusivamente, a estabilidade dos preços, a despeito do desemprego; por todo o lado, os Estados foram os vectores do estabelecimento do neoliberalismo, nos planos nacional e internacional. As alavancas nas mãos dos promotores da ordem neoliberal são principalmente, ao nível das empresas, taxas de juro elevadas e um "governo de empresa" (entenda-se uma "gestão") dirigida para os interesses dos accionistas; um elemento chave é a nova disciplina imposta aos trabalhadores e aos gestores. Ao nível dos Estados, novas políticas são postas em prática, políticas macro-económicas (inflação fraca) ou sociais (diminuição do custo do trabalho), visando promover os mesmos interesses. No plano internacional, trata-se da mundialização da ordem neoliberal, pela eliminação das barreiras à circulação dos bens e capitais, e a abertura dos países ao capital internacional, nomeadamente a venda, a baixo preço, das empresas públicas potencialmente rentáveis; a exportação dos capitais, as taxas de juro elevadas, e os preços fracos e decrescentes das matérias primas, permitem a transferência de enormes massas de rendimentos para os países imperialistas.

2- É difícil datar uma transformação tão complexa como a emergência do neoliberalismo. O fim do ano de 1979 representa, contudo, uma data emblemática. Paul Volcker, nomeado à cabeça do banco central dos Estados Unidos, por Jimmy Carter em final de mandato, decidiu aumentar as taxas de juro a não importa que nível para acabar com a inflação. Outras transformações estavam já em curso desde, em particular, a crise do dólar, no início dos anos setenta, como o abandono das paridades fixas características do sistema de Bretton Woods, estabelecido no final da Segunda Guerra mundial; a eliminação das barreiras ou simples restrições à livre circulação dos capitais estavam em curso; a potente máquina financeira dos euromercados e do eurobanco estava já bem estabelecida no plano internacional, liberta do controlo dos bancos centrais. A incapacidade de fazer face à crise estrutural que atingiu as principais economias capitalistas nos anos setenta, nomeadamente a inflação cumulativa, criou as condições económicas, sociais e políticas que permitiram o estabelecimento da nova ordem social [1] : fracasso da ordem antiga e pressões dos promotores da ordem nova combinaram-se então. A isso juntava-se o fracasso, cada vez mais evidente, do modelo soviético e o enfraquecimento do movimento operário.

Estas transformações foram obra da fracção superior das classes capitalistas. Num capitalismo onde propriedade e gestão estão separadas, a propriedades desses grupos sociais sobre os meios de produção exprime-se através da detenção de acções, quer dizer, de títulos; são igualmente credores, quer dizer, detêm títulos de crédito outorgando-lhes um direito sobre uma parte dos lucros das empresas. Esta propriedade tem, então, um carácter financeiro, e Marx reunia a posição dos accionistas e emprestadores, frequentemente os mesmos, na categoria do capital de empréstimo. O facto de a gestão das empresas passar para as mãos de assalariados poderia significar uma perda de poder dos proprietários "financeiros", mas o poder destes proprietários concentrou-se, desde o início, em poderosas instituições financeiras, como os bancos, as holdings financeiras e fundos diversos (de pensão, visando o financiamento das reformas, ou outros). Nós chamamos finança a essas fracções superiores das classes capitalistas e suas instituições financeiras. Não se trata de uma indústria particular, como a banca. No capitalismo moderno, a classe dos grandes proprietários do capital está relativamente unificada e possui partes de todos os sectores da economia (pelos seus títulos) e controla-os (através das suas instituições financeiras) [2] . Isso não impede que as actividades financeiras e o sector financeiro tenham adquirido, com o neoliberalismo, uma importância acrescida. Por um lado, essas actividades tornaram-se muito mais rentáveis, e, por outro, o controlo da economia nacional e mundial pelas instituições financeiras é crucial na manutenção e perpetuação da ordem neoliberal. Por estas razões, falamos de bom grado de financeirização e de mundialização financeira [3] .

Se o Lénine traçou, no Imperialismo, fase superior do capitalismo [4] , um quadro que apanhava a realidade do capitalismo no início do século XX, não damos o mesmo conteúdo ao termo imperialismo. Parece-nos mais justo fazer do imperialismo uma característica geral e permanente do capitalismo. Desde as suas origens mais recuadas e ainda embrionárias (pode-se pensar na liga hanseática), o capitalismo procura os lucros fora das suas metrópoles, com a avidez que lhe é própria.

Esta procura, estrutural no capitalismo, foi sempre acompanhada de processos de dominação de toda a espécie, indo da simples imposição da abertura das fronteiras a países de desenvolvimento inferior, com as consequências dramáticas que se conhecem [5] , ao colonialismo puro e simples, e todos os procedimentos de pressão e extorsão. Os seus meios são a guerra e a subordinação, a aculturação, e, sobretudo no passado, a evangelização; a escravatura foi um episódio particularmente odioso, mas as condições impostas, nos nossos dias, às populações das maquiladoras ou doutros lados não são muito mais desejáveis. É o conjunto destas relações que constitui o sistema do imperialismo, definido pela procura de lucros no exterior das metrópoles capitalistas por métodos de sujeição.

Se o imperialismo não é uma fase do capitalismo, passa ele próprio por várias fases, que respondem às transformações dos próprios países imperialistas. As características principais mudam. Por exemplo, as relações comerciais foram dominantes nos primeiros estádios. Combinaram-se muito depressa com modos de financiamento particulares, partidário da exportação do capital, como no império americano da Espanha, onde os comerciantes espanhóis financiavam a agricultura e as minas dos crioulos. Mercadorias e capitais depressa se ligaram estreitamente. Assim, o imperialismo neoliberal possui naturalmente as suas características próprias, como o mostra este estudo, em particular a importância das colocações financeiras.

O imperialismo não é obra de um país, mas de um conjunto de países. Estes mantêm relações de luta, indo até à confrontação armada entre duas potências, ou grupos de potências em sistemas de aliança, mas também de cooperação. Cada Estado representa aí os interesses das suas classes dominantes. Um país pode ocupar uma posição hegemónica, como os Estados Unidos, que dirigem, no mundo contemporâneo unipolar, o grupo dos países imperialistas. A relação de dominação estabelece-se então a um duplo nível: entre o país dominante e os outros membros do grupo, e entre esses países imperialistas e os outros países dominados. De facto, trata-se de uma hierarquia de poderes, onde o mais forte explora o mais fraco.

Evidentemente, neste mundo neoliberal e imperialista, os países e Estados continuam a desempenhar um papel central a despeito da globalização, e isso segundo diversos pontos de vista. As grandes sociedades são mais transnacionais que multinacionais, no sentido de que, pela sua propriedade e gestão, permanecem ligadas a um país particular. Os proprietários ainda têm uma nacionalidade. Apesar dos paraísos fiscais, pode-se ver os fluxos de rendimentos internacionais estabelecer-se em proveito de certos países. As situações macro-económicas dos diferentes países não são equivalentes e as particularidades têm efeitos maiores. Mostraremos, nomeadamente, as consequências do facto de os Estados Unidos não estarem mais submetidos à necessidade de equilibrar as suas contas exteriores, graças ao seu próprio poderio. Esta permanência de bases nacionais manifesta-se, aliás, sem ambiguidade na acção que cada Estado empreende para defender os seus interesses nacionais.

3- Neoliberalismo: rendimentos, patrimónios e modo de vida das classes mais ricas

Antes de analisar o neoliberalismo por aquilo que é, convém refutar a tese que faz dele um modelo de desenvolvimento. Nem no centro, nem na periferia, o neoliberalismo aparece como tal. Mesmo nos Estados Unidos, a taxa de crescimento da produção e a taxa de acumulação do capital (a taxa de crescimento do stock de capital fixo, isto é, o conjunto das construções e materiais de que dispõem as empresas para produzir) registadas desde 1980 são menos elevadas que as atingidas nas décadas anteriores desde a Segunda Guerra mundial. No entanto, os Estados Unidos gozam de uma situação privilegiada, ligada à sua posição dominante. Na Europa, a redução das taxas de crescimento e acumulação foi dramática. Em França, por exemplo, a taxa de acumulação das sociedades não financeiras atingia 8% no início dos anos setenta; em seguida caiu profundamente durante a crise estrutural dos anos setenta e não se restabeleceu com o neoliberalismo; no fim do século XX, oscilava em torno de 2%. Correlativamente, a Europa não consegue escapar ao seu desemprego estrutural.

A situação é particularmente dramática em numerosos países da periferia. Se se puser de lado modelos muito particulares, como o da Coreia, e alguns países, como a China, a Índia e o Chile, o quadro é impressionante na América Latina e catastrófico em África. A figura 1 mostra o perfil da produção no Brasil, no México e na Argentina desde há várias décadas. Nestes três países, a ruptura do crescimento manifesta-se no início dos anos oitenta. Em seguida, nenhum restabelecimento é aparente, a despeito da docilidade destes países em relação à ordem neoliberal, e, no caso do México, da associação com os Estados Unidos e o Canadá desde 1994, no âmbito da NAFTA. A queda das taxas de crescimento e a instabilidade macro-económica (a recorrência de recessões) são particularmente evidentes nesse último país, começando tudo, brutalmente, com a crise da dívida em 1982.

Pode-se notar, no caso da Argentina, que a transição para o neoliberalismo em 1990 se seguiu a um período de estagnação. Foi seguida de alguns anos de crescimento mais sustentado, fazendo pretensamente a demonstração das potencialidades do modelo neoliberal, mas conhecemos-lhe o desfecho.

Figura 1.

As finalidades da ordem neoliberal são de uma natureza diferente que o desenvolvimento da periferia ou mesmo a acumulação no centro. Elas têm a ver com a restauração dos rendimentos e patrimónios das fracções superiores das classes dominantes. Não existem, a bem dizer, estatísticas permitindo caracterizar as classes. Mas certos trabalhos e inquéritos fornecem dados relativos à concentração dos rendimentos e riquezas. A figura 2 mostra a fracção dos rendimentos disponíveis totais das famílias nos Estados Unidos recebida pelo 1% melhor servido [6] .

Figura 2.

Vê-se nesta figura que o 1% das famílias de rendimentos mais elevados recebia mais de 16% do rendimento total antes da crise de 1929 e a Segunda Guerra mundial: tempos "felizes" de um capitalismo dominado por uma burguesia facilmente identificável. No fim da guerra, essa percentagem caiu subitamente para 8%, mantendo-se nesse nível até ao início dos anos oitenta. Os rendimentos do capital estavam profundamente diminuídos e a hierarquia dos salários fortemente reduzida. Estas décadas são frequentemente designadas como as do compromisso Keinesiano. Além desta redução das desigualdades, caracterizaram-se por uma forte autonomia dos quadros (managers), tanto ao nível das empresas como ao das instâncias centrais responsáveis das políticas económicas e da gestão social (educação, saúde, etc.). Tal como os proprietários do capital, o sector financeiro era pouco remunerado; o lucro ficava nas empresas e era reinvestido. Com o neoliberalismo, as percentagens da figura 2 ascendem aos níveis similares aos de antes da guerra.

O estudo da riqueza total destas classes dominantes revela a sua forte diminuição relativa durante a crise dos anos setenta [7] . Enquanto depois da guerra 1% das famílias mais ricas detinha cerca de um terço da riqueza total do país, essa percentagem caiu em alguns anos para 22%, no início dos anos setenta. Em não mais anos, o neoliberalismo restabelecia a concentração dos patrimónios (sempre relativamente ao conjunto da população) aos seus níveis anteriores à crise, ou mesmo mais elevados.

A restauração do estatuto destas classes continua, no entanto, inacabada. Um elemento crucial é a redução da fiscalidade directa sobre os altos rendimentos. Ela está em curso, apesar da pressão constante exercida pela existência de tenazes desequilíbrios orçamentais.

Como foram possíveis tais variações de rendimentos e riquezas? Durante os anos setenta, as taxas de inflação eram superiores às taxas de juro; as empresas eram pouco rentáveis e distribuíam poucos dividendos; correlativamente, o nível da bolsa, corrigido da inflação, tinha sido dividido por dois e estagnava. Compreende-se facilmente como classes cujo rendimento derivava largamente da detenção de títulos via o seu rendimento e a sua riqueza comprometidos.

O neoliberalismo mudou tudo isso. As taxas de juro corrigidas da inflação, anteriormente fracas, ascenderam a níveis de 5% (para a taxa de juro nos créditos a longo termo às empresas melhor cotadas). A rentabilidade das empresas melhorou e elas distribuíram uma fracção crescente dos seus lucros em dividendos. De cerca de 30% dos lucros, depois do pagamento dos juros e impostos, a percentagem aumentou gradualmente, até atingir praticamente 100% no fim do século XX. As cotações da bolsa (sempre corrigido da inflação) foram multiplicadas por 3 em relação ao seu nível anterior à crise dos anos setenta.

Nada de milagres, portanto. Foi tudo uma questão de poder e de relação de forças, nacionalmente e internacionalmente.

Este reforço dos rendimentos e dos patrimónios modificou profundamente os comportamentos das classes dominantes. Desde praticamente o início da era neoliberal, as famílias nos Estados Unidos aumentaram formidavelmente a sua despesa, consumo e alojamento, sobretudo o consumo.

A figura 3 mostra a parte do consumo das famílias estadunidenses no produto interno bruto (PIB) desde os anos cinquenta. Vê-se claramente nesta figura que essa taxa oscilava em torno de 62% ou 63% antes do neoliberalismo. Desde o início dos anos oitenta, essas taxa aumentou regularmente e de maneira espectacular, para ultrapassar 70% no início do século XXI.

Esta alta do consumo das famílias tem duas origens: a alta da parte do seu rendimento no PIB e a baixa da sua taxa de poupança (a alta da parte do seu rendimento destinado ao consumo). Estes dois mecanismos dizem respeito às famílias mais ricas.

No que concerne à baixa da taxa de poupança, um estudo da Reserva Federal [8] permite identificar as camadas da população que estão na origem desta queda. O estudo divide as famílias em cinco grupos segundo o seu nível de rendimento (os 20% de rendimentos mais elevados, os 20% do grupo imediatamente inferior, etc.). Toda a queda da poupança concentrou-se no seio do grupo de rendimentos mais fortes, tradicionalmente a fonte de poupança do país (dado que os pobres poupam pouco). No fim do século, a taxa de poupança destas camadas abastadas tornou-se negativa, o que significa que elas gastam mais do que ganham (sem dúvida em ligação com a alta do curso da bolsa), endividando-se. A alta formidável da taxa de endividamento das famílias é uma outra característica da macroeconomia estadunidense, sem que se saiba em que medida ela se concentra nesta fracção das famílias mais abastadas.

Figura 3.
[NT1]

As consequências deste processo foram amplificadas pelo facto destas camadas concentrarem os rendimentos financeiros, que são os que aumentaram fortemente. Entre 1952 e 1979, isto é, antes do neoliberalismo, os rendimentos financeiros (juros e dividendos, não contando os ganhos em capitais) representaram, em média, 10% do rendimento total das famílias; entre 1980 e 2003, essa percentagem atingiu 17%.

O custo para outras classes e outros países foi considerável: crescimento lento, desemprego, desarticulação das sociedades, miséria, etc.. Mas, do ponto de vista dos seus objectivos, o neoliberalismo foi um sucesso brilhante.

4- Poderio do imperialismo estadunidense

Não se pode, no entanto, compreender a dinâmica dos rendimentos do capital nos Estados Unidos sem examinar as relações entre este país e o resto do mundo. É lá que a pressão imperialista propriamente dita entra em jogo.

Não existe nenhum meio simples de apreender o efeito da relação entre os Estados Unidos e o resto do mundo sobre os rendimentos do capital neste país. Os mecanismos são, com efeito, múltiplos. Conhece-se, por exemplo, a importância da compra de matérias primas, incluindo as fontes de energia, a um preço favorável para os países compradores. No decurso das décadas neoliberais, estes preços não pararam de cair, por vezes dividindo-se por três. Outros mecanismos, como a importação de cérebros do resto do mundo (o brain drain ) contribuem fortemente, não somente para os rendimentos dos Estados Unidos, mas igualmente para a manutenção da sua preeminência tecnológica. Também aí a quantificação é problemática. Inversamente, os sistemas de contabilidade nacionais fornecem estimativas dos fluxos de rendimentos, ditos financeiros, tal como os pagamentos de dividendos e de juros, assim como os lucros das sociedades transnacionais retidos no estrangeiro mas que são propriedade das sociedades mães estadunidenses.

Como preâmbulo a esta investigação, é necessário precisar uma questão terminológica. Entende-se geralmente por investimento a adição que é feita ao capital fixo, ao longo de um certo período. Pode acrescentar-se-lhe a variação dos stocks. Utiliza-se, no entanto, cada vez mais correntemente, o mesmo termo para falar de uma colocação financeira, por exemplo a compra de uma acção ou uma obrigação. Quando se trata de um investimento directo, isto é, uma tomada de participação por uma sociedade de mais de 10% do capital de outra, o que faz dela uma filial, os epítetos "físico" e "financeiro" são ambos inadequados. Oporemos, contudo, o investimento em capital fixo e em stocks, físico, ao investimento financeiro, aí incluindo o investimento directo. Os investimentos de carteira são os investimentos financeiros, diferentes dos investimentos directos.

Vamos considerar, em primeiro lugar, os investimentos directos das sociedades transnacionais dos Estados Unidos no estrangeiro. Os lucros realizados nesses investimentos compõem-se de dividendos, de juros e de lucros conservados no estrangeiro. Os dados disponíveis permitem separá-los da massa dos outros lucros qualificados de "lucros domésticos". Evidentemente, certos desses lucros domésticos são retirados do resto do mundo, devido aos preços fracos das matérias primas ou a pagamentos efectuados por estrangeiros directamente a sociedades estabelecidas nos Estados Unidos (como uma parte dos pagamentos de juros sobre a dívida da periferia).

Em 2000, o conjunto dos lucros saídos do investimento directo dos Estados Unidos, ou seja os lucros das filiais das transnacionais noutros países, representou 53% dos lucros domésticos. Sabendo que os lucros domésticos contêm ainda uma fracção de rendimentos apropriados do resto do mundo, este número dá já uma ideia impressionante da importância para os rendimentos do capital nos Estados Unidos da abertura internacional desta economia.

A figura 4 mostra a evolução desta percentagem dos lucros das transnacionais nos seus investimentos directos no estrangeiro em relação aos lucros domésticos. Vê-se um crescimento bastante regular, de cerca de 10% em 1948, a 53%, o ponto culminante em 2000. Esta progressão é a da mundialização da economia e o neoliberalismo não marca nenhuma ruptura. Na verdade, esta ordem social, pouco favorável ao investimento físico, desacelerou consideravelmente o crescimento do fluxo dos investimentos directos das transnacionais dos Estados Unidos, tanto em volume como em parte da produção total deste país.

Dispõe-se igualmente de uma medida de todos os rendimentos provenientes de todas as categorias de investimento financeiro, incluindo o investimento directo, de agentes estadunidenses no resto do mundo. Pode-se igualmente relacioná-los com os lucros domésticos para apreciar a sua dimensão. A percentagem atingiu 100% em 2000. Quer dizer que a massa de rendimentos tirados do resto do mundo sob a forma de dividendos, de juros e de lucros retidos nas filiais no estrangeiro foi igual à dos lucros domésticos. Não se trata, pois, de um pequeno complemento à actividade territorial.

Figura 4.

A figura 4 descreve igualmente a variação desta percentagem ao longo do tempo. Aí se reencontra o ponto culminante de 100% em 2000. A observação mais surpreendente é, no entanto, a alta espectacular no final dos anos setenta, consolidada com o neoliberalismo. Todo o período neoliberal aparece assim marcado pelo sinal desta punção de rendimento financeiro sobre o resto do mundo. A percentagem oscila em torno de um patamar de 80%.

Toda a primeira fase da alta, até ao final dos anos setenta, reflecte o crescimento dos juros sobre a dívida, dita então do terceiro mundo. Mas, nesta época, a desvalorização desta dívida pela inflação significava uma contra-transferência a favor dos endividados que a medida descrita na figura não leva em conta. Com o fim da inflação, a punção tomou toda a sua amplitude propriamente neoliberal. Ela é o efeito da alta das taxas de juro reais e das distribuições de dividendos. Contrariamente à componente destes rendimentos correspondente aos investimentos directos, a alta dos rendimentos dos investimentos de carteira foi fortemente efeito da alta das taxas de juro e aparece, a este título, como emblemática da ordem neoliberal.

Retiraremos então o principal ensinamento desta análise, a despeito das limitações dos dados disponíveis: em 2000, os rendimentos financeiros que os Estados Unidos tiram da sua relação com o resto do mundo são superiores ao conjunto dos lucros das suas sociedades nos Estados Unidos. Um imperialismo musculado, então, e crucial para a remuneração do capital neste país.

Não é necessário dizer que os estrangeiros efectuam igualmente investimentos financeiros nos Estados Unidos, o que não faz mais do que acrescentar a importância dos fluxos de rendimento tirados do resto do mundo. Vamo-nos limitar temporariamente a um só aspecto desta relação bilateral, respeitante aos rendimentos dos investimentos de uns e de outros.

Reparar-se-á que consideramos aqui apenas os investimentos financeiros que os agentes do resto do mundo efectuam nos Estados Unidos e não os seus investimentos em todos os países terceiros. Inversamente, tomamos em consideração todos os investimentos dos Estados Unidos em todos os países. Trata-se, então, de examinar a posição dos Estados Unidos enquanto investidor e enquanto lugar de investimento.

Figura 5.

A figura 5 mostra as taxas de rendimento nos investimentos dos agentes estadunidenses no estrangeiro e dos estrangeiros quando investem nos Estados Unidos. Foi feita uma correcção para a desvalorização da dívida pela inflação. Impõem-se dois tipos de comentários:

1- Os dois perfis são similares. Nota-se uma forte elevação dos rendimentos de cerca de 4 pontos de percentagem no fim dos anos setenta, o que marca a aparição das fortes taxas de juro características dos anos neoliberais. As taxas caíram um pouco nos anos noventa.

2- A principal descoberta é o desvio muito pronunciado dos rendimentos, cerca de 4% de uma ponta à outra do período. Esta diferença é a expressão de uma forte assimetria. Quando os Estados Unidos fazem investimentos financeiros no resto do mundo, eles são muito remuneradores, 7% ou 9% conforme o sub-período, e muito superiores aos rendimentos obtidos pelos estrangeiros que investem nos Estados Unidos. Este desvio de rendimentos aparece para cada componente do investimento financeiro, o investimento de carteira e o investimento directo [9] .

A composição dos investimentos dos Estados Unidos no estrangeiro é muito diferente do dos estrangeiros que investem nos Estados Unidos. É feita, em cerca de 50%, de investimentos directos, em lugar dos 20% para os estrangeiros nos Estados Unidos. Este país funciona então, na terminologia de Marx, como uma espécie de "capitalista activo", enquanto que os estrangeiros têm um comportamento mais de "emprestadores", sempre segundo a terminologia do Marx, que reunia os accionistas não participantes na gestão das empresas e os credores sob a rubrica de capital de empréstimo. Estes rentistas são, por exemplo, famílias ricas da América latina ou emires do Médio Oriente, ou ainda os bancos centrais que investem as suas reservas monetárias em dólares em obrigações do tesouro estadunidense, comportando-se assim como "Estados rentistas". Este desvio de composição explica em parte a diferença de rendimentos sobre o conjunto do investimento financeiro.

5- Uma trajectória insustentável

As secções precedentes iluminam penetrantemente o poderio do imperialismo estadunidense. A apropriação sobre o resto do mundo é formidável pelo seu tamanho, e pela sua eficácia, bem expressa nos seus rendimentos. Compreende-se, incidentalmente, que motivação pode ter este país, em particular o seu governo, em preservar por todos os meios, económicos, políticos e militares, esta empresa. Mas apreende-se igualmente a dependência assim criada. Esta trajectória é, no entanto, atravessada por uma contradição maior, de cuja natureza esta secção se dedica a descrever.

Vamos, em primeiro lugar, examinar a relação entre poupança e investimento nos Estados Unidos. Entende-se aqui por investimento o investimento em capital fixo das empresas, segundo as definições dadas anteriormente. Poupança e investimento são expressas em percentagem da produção total nos Estados Unidos (o produto interno líquido, PIL), igual ao rendimento total tendo em conta os fluxos de rendimentos com o estrangeiro.

O contraste entre as décadas neoliberais e as primeiras décadas do pós-guerra é surpreendente. Antes de 1980, as taxas de poupança e investimento dos Estados Unidos oscilavam em torno de 4 ou 5%. As duas taxas caíram com a entrada no neoliberalismo: uma diminuição moderada, ainda que significativa, da taxa de investimento, de 4,1% antes de 1980 para 3,5% posteriormente, e uma queda espectacular da taxa de poupança, de 4,5% para 1%, nos mesmos períodos. Com uma rapidez desconcertante, os Estados Unidos começaram a investir muito mais do que poupavam no início dos anos oitenta. Globalmente, isso significa que eles despendiam, em consumo e investimento, nitidamente mais que o seu rendimento.

Há duas componentes nesta formidável vaga de despesas. Antes de mais e muito subitamente, um forte défice orçamental apareceu no início dos anos oitenta. Resultava da alta das taxas de juro, da diminuição das receitas e da alta das despesas militares (a "guerra das estrelas" de Ronald Reagan). Mas existe outra componente, que se impôs gradualmente e sem remissão; é a alta do consumo das famílias descrita na figura 3, que provocou a queda das suas taxas de poupança, e de que notámos que é o produto da despesa imoderada das camadas mais abastadas.

Como é isto possível?

1- Por razões contabilísticas, o desvio entre a poupança e o investimento da figura 6 é igual ao saldo da balança corrente dos Estados Unidos, isto é, à soma da balança comercial (exportações menos importações) e o saldo dos fluxos de rendimentos com o estrangeiro (a menos de transferências unilaterais) [NT2] . É a primeira componente, os fluxos comerciais, que aumentou o desvio. A figura 6 manifesta então um défice da balança de pagamentos correntes ao longo dos anos neoliberais.

2- Quando os Estados Unidos importam mais do que exportam, os estrangeiros recebem pagamentos em dólares, sem contrapartida financeira (esses dólares não resultam de um empréstimo, por exemplo). Se os estrangeiros vendessem esses dólares, o curso desta moeda baixaria, o que tenderia a corrigir o défice exterior (sem que um tal ajustamento seja automático). Na verdade, os estrangeiros, devido à força da economia estadunidense e da fraqueza da situação macro-económica dos seus próprios países, efectuam investimentos financeiros em activos estadunidenses. Tomam assim lugar no financiamento da economia dos Estados Unidos, comprando acções, emprestando às empresas, às famílias ou ao Estado. A política monetária dos Estados Unidos, que ajusta as massas de créditos domésticos ao nível requerido pela continuação de uma actividade estável, doseia os complementos a este aporte exterior [10] . Este curso das coisas pode continuar enquanto os estrangeiros estiverem satisfeitos com esta utilização do seu poder de compra em dólares.

Figura 6.

Figura 7.

Um aspecto evidente de uma tal trajectória é o crescimento relativo dos activos dos estrangeiros nos Estados Unidos em relação aos activos deste país no resto do mundo. A figura 7 descreve estes dois stocks de activos, divididos pela produção estadunidense.

Pode-se observar o aumento gradual dos activos dos Estados Unidos no resto do mundo, de cerca de 11% nos anos cinquenta para 36% no final do período. A curva dos activos do resto do mundo nos Estados Unidos inicia-se bem abaixo da precedente, mas cruza-a em 1985, em 22%. A ascenção é irreversível, até 78% da produção dos Estados Unidos. A terceira curva dá a medida do desvio entre os dois stocks. Os valores negativos do primeiro período exprimem o excedente dos activos dos Estados Unidos no resto do mundo, até à mudança de sinal em 1985. Em 2003, o excedente dos activos do resto do mundo sobre os dos Estados Unidos representou 40% da produção deste país! Fala-se por vezes de uma dívida exterior, mas estes activos contêm elementos, como as acções, que não têm a natureza de um endividamento. Pode-se, no entanto, afirmar que o essencial da deterioração corresponde a uma dívida crescente.

Isso é grave? Um primeiro problema é o da vontade dos estrangeiros de conservar estes dólares e, então, de efectuar estes investimentos financeiros (dado que eles não têm evidentemente interesse em conservar os seus activos líquidos, sem remuneração) – sabendo que se fala aqui do total dos investimentos estrangeiros, independentemente dos investimentos dos Estados Unidos no estrangeiro. Em vista dos primeiros meses de 2004, pode-se perguntar se a queda do dólar desde 2002 é a expressão de um tal retorno. É contudo preciso notar que o dólar estava em alta em 2002. Pode-se igualmente pensar que os Estados Unidos desejaram e, muito provavelmente, contribuíram para esta baixa para sustentar a sua economia em recessão. Mas mesmo sob a hipótese da continuação destes investimentos financeiros estrangeiros, vê-se surgir uma contradição que põe em causa a continuação duradoura da trajectória da economia estadunidense.

O problema é simples. À força de permitir o financiamento exterior pelo nível das suas importações, os Estados Unidos deram ao aporte dos estrangeiros um lugar importante no financiamento da sua economia e têm, a esse título, que remunerá-los. Muito felizmente para a economia estadunidense, os investimentos dos estrangeiros são mal retribuídos, mas, no entanto, a punção sobre os rendimentos do capital nos Estados Unidos vai em crescendo.

Figura 8.

A figura 8 mostra os fluxos de rendimentos entre os Estados Unidos e o resto do mundo, fluxos de entrada e de saída. A primeira curva (– –) descreve, como na figura 4, o fluxo de rendimentos que entram, mas o denominador é, desta vez, a produção dos Estados Unidos. Estes fluxos representaram 4% do PIL em 2000. Esta percentagem é menos impressionante que aquela da figura 4, mas é preciso ter presente que os lucros das sociedades só representam uma "fraca" fracção do rendimento total [11] . A mesma figura mostra também a percentagem crescente dos fluxos que saem (---).

Pode-se distinguir três períodos. De 1946 a 1972, as duas percentagens elevaram-se lentamente, enquanto o seu desvio aumentava, também, suavemente. O período 1973-1979 ocupa uma posição intermédia. Os fluxos de entrada cresceram mais rapidamente, até 2,7%, e os fluxos de saída, somente até 1,5%. Mas essa alta dos fluxos de entrada não estava à altura da subida espectacular destes no curso das duas últimas décadas. Enquanto os fluxos de entrada estagnavam, os fluxos de saída continuaram a sua ascensão até alcançá-los, atingindo um máximo de 4% em 2000.

A terceira linha da figura (--) descreve o desvio entre os dois fluxos, ou seja, o fluxo de entrada líquido dos Estados Unidos. Estes fluxos líquidos, vantajosos para os Estados Unidos, cresceram sensivelmente entre 1973 e 1980. Mas a inovação radical foi a interrupção deste crescimento, depois a queda nos anos seguintes. Esse acréscimo dos rendimentos retirados pelos Estados Unidos do resto do mundo anulou-se então, e, desde 2002, tornou-se mesmo negativo durante certos trimestres.

A explicação desta degradação é, evidentemente, o excedente crescente dos activos estrangeiros nos Estados Unidos descrito na figura 7. Apesar da forte rentabilidade dos investimentos deste país no estrangeiro, a sua posição externa deteriorou-se a tal ponto que começam a pagar aos estrangeiros mais rendimentos financeiros do que os que deles recebem. Recordar-se-á que a causa deste movimento é a vaga de consumo das famílias mais ricas.

Figura 9.

Pode-se ilustrar esta nova situação examinando os fluxos de rendimentos entre os Estados Unidos e a América Latina na figura 9. Os fluxos considerados são fluxos líquidos, quer dizer, os fluxos que entram nos Estados Unidos a partir da América Latina, menos os fluxos que saem daquele país com destino a esta região do mundo. Uma curva diz respeito ao total, e duas curvas aos fluxos correspondentes aos investimentos directos e de carteira, as duas componentes do fluxo total.

A figura 9 mostra que os fluxos líquidos totais a favor dos Estados Unidos subiram até mais de 0,5% da produção deste país no início dos anos 1980 (estes fluxos não têm em conta a desvalorização das dívidas pela inflação). Em seguida, diminuíram até a um patamar de 0,15% por ano, antes de mergulhar na crise do fim do século (recessão estadunidense e crise na América Latina, nomeadamente na Argentina). A América Latina é, pois, uma das regiões do mundo que contribuiu para a baixa dos fluxos de rendimentos do resto do mundo a favor dos Estados Unidos.

O mais interessante é, no entanto, a decomposição pelo tipo de investimento. Encontra-se aí características já identificadas. Em primeiro lugar, a figura revela a importância e a estabilidade dos rendimentos retirados dos investimentos directos das transnacionais estadunidenses, que se estabelece em cerca de 0,2% da produção deste país. Em segundo lugar, observa-se a queda dos rendimentos líquidos nos investimentos de carteira, depois a negatividades destes fluxos, o que significa que os Estados Unidos pagaram, e continuavam a fazê-lo no final do período, rendimentos financeiros, juros e dividendos, a investidores da América Latina superiores aos que recebiam (apesar da dívida da periferia). Está aí a imagem da fuga de capitais das classes abastadas desses países em direcção à mãe pátria capitalista estadunidense. Pode-se notar, em particular, a alta destes fluxos líquidos de rendimento (uma baixa na figura) a partir de 2000. Este movimento reflecte um fluxo líquido crescente de investimento de carteira. Com a excepção do ano de 1998, a América Latina financiou, de facto, o longo boom estadunidense da segunda metade dos anos noventa. Este quadro da América latina, credora dos Estados Unidos, caracteriza de maneira surpreendente a nova configuração das relações financeiras no plano mundial. Para esta região do mundo, o problema é, bem entendido, a separação entre os Estados e empresas endividadas e certas famílias ricas. Como todos sabem, nem toda a gente sofre no continente latino-americano.

6- Conclusão

Os mecanismos descritos nas secções precedentes revelam a existência duma contradição no sistema do imperialismo estadunidense na época neoliberal. Pode-se resumir a cadeia completa da seguinte maneira:

Rendimentos elevados e ganhos em capitais das camadas abastadas
(reforçadas pela punção sobre o resto do mundo)
e política monetária relativamente laxista
|
V
Crescimento do consumo das camadas abastadas
|
V
Défice crescente das contas correntes
|
V
Crescimento da dívida externa
|
V
Crescimento dos fluxos de rendimentos pagos aos resto do mundo
|
V
Diminuição dos rendimentos do capital nos Estados Unidos


A continuação da trajectória actual está submetida a duas condições imediatas: (1) que os estrangeiros aceitem investir os seus dólares nos Estados Unidos, e portanto que o curso do dólar se mantenha; (2) que o desvio de remuneração dos investimentos financeiros dos estrangeiros (figura 5) em relação aos investimentos estadunidenses não diminua. Pode-se notar, em relação a este último ponto, que se os Estados Unidos tivessem que pagar aos estrangeiros taxas de rendimento iguais às de que beneficiam, o fluxo de saída seria igual ao total do lucro interno das sociedades estadunidenses! É escusado dizer que uma tal situação não será nunca atingida.

De um ponto de vista estadunidense, esta trajectória longa não pode ser prolongada sem repor em questão a dominação deste país e a opulência das suas classes dominantes. Ela transformaria os Estados Unidos em fornecedores de rendimentos financeiros para o resto do mundo, em detrimento da sua própria classe dominante. O que está em questão é então uma mudança de trajectória.

Na discussão de cenários para o futuro, convém distinguir bem entre neoliberalismo e imperialismo. Em primeiro lugar, da mesma forma que os Estados Unidos eram já imperialistas durante as décadas do compromisso keynesiano (na verdade, desde que existem), portanto antes do neoliberalismo, eles continuariam a sê-lo na eventualidade de uma nova fase, para além do neoliberalismo. Em segundo lugar, é preciso notar que o problema posto pelo encadeamento acima exposto se deve ao neoliberalismo e não ao imperialismo. A capacidade imperialista dos Estados Unidos permanece plena e inteira, e até reforçada.

Que mudanças? Pode-se ver aí quatro componentes [12] : (1) a redução do consumo das camadas mais desafogadas; (2) taxas de acumulação mais elevadas e financiadas pelo próprio país; (3) uma procura dirigida para a produção nacional; (4) eventualmente, uma pressão exterior acrescida sobre o resto do mundo. Os problemas são, contudo, múltiplos:

1- O novo curso poderia entrar em contradição com a continuação da empresa neoliberal. Um método, de que o passado revelou a eficácia, para restabelecer as taxas de acumulação, é conservar os lucros nas sociedades não financeiras, em vez de pagá-los em juros e dividendos. Mas que sucede então com os rendimentos das classes dominantes e, bem entendido, com o seu modo de vida? Pode-se também encarar medidas estimuladoras do investimento das empresas. Taxas de juro mais fracas levariam, mais uma vez, ao choque com os objectivos do neoliberalismo. Mas o Estado poderia envolver-se no financiamento de taxas diferenciais ou de medidas de promoção fiscal, assim como a tomada a cargo dos riscos, o que faz já para os empréstimos das famílias.

2- Uma solução encarada para remediar o défice exterior é deixar diminuir o curso do dólar. Conhece-se os limites deste procedimento. Certos países indexaram, de facto, a sua moeda ao dólar e uma mudança do curso não modifica as condições do comércio entre estes países e os Estados Unidos. Não existe panaceia. O exemplo do comércio entre os Estados Unidos e o Japão mostra que a alta do yen não chega para rectificar as trajectórias. Mas uma taxa de câmbio fraca do dólar e a ameaça da continuação da sua baixa são geralmente consideradas incompatíveis com os intuitos imperialistas dos Estados Unidos. Da mesma forma, novos avanços para um proteccionismo acrescido, ou toda a limitação à mobilidade dos capitais se eles se retirassem perigosamente dos Estados Unidos, desencadeariam medidas recíprocas minando a dominação imperial estadunidense, nas suas modalidades neoliberais.

3- Uma rectificação da trajectória tornar-se-á delicada pela necessidade de estabilizar a situação macroeconómica do país. É aí que ressurge a questão da crise, não enquanto episódio catastrófico, destabilizando definitivamente a ordem capitalista e imperialista, mas como constrangimento na continuação da trajectória estadunidense. A política monetária sustenta a procura neste país, deixando seguir a dívida das famílias. É o mecanismo central de sustento da procura, para além do pouco ortodoxo défice orçamental. O endividamento das famílias continuou a crescer durante a recessão do início dos anos 2000, e toda a tentativa de travagem arriscava-se a transformar a recessão num desabar de muito maior envergadura. Conciliar a rectificação dos desequilíbrios exteriores, causada pela despesa excessiva das famílias, e o sustento da procura interior é uma tarefa altamente problemática – sem falar do risco corrido pelo Estado devido à transferência para organismos públicos das dívidas das famílias junto do sistema bancário.

4- Pode-se evidentemente conjecturar que os Estados Unidos farão tudo o que puderem para acentuar a apropriação sobre o resto do mundo. Mas a deterioração da sua posição exterior poderia encarecer o custo do seu financiamento estrangeiro pelo aparecimento de um prémio de risco em desfavor dos Estados Unidos.

Por detrás destes mecanismos, é preciso identificar uma gigantesca luta de classes e de poder. A saída será, então, política. Como dizia Marx, os homens fazem a sua própria história, mas fazem-na em condições determinadas. A ambição deste artigo é dar uma representação dessas condições, essencialmente económicas. Mas isso não destrói o primado da política.

Estas lutas devem ser apreendidas ao duplo nível nacional e internacional:
1- No plano nacional, o neoliberalismo assenta num compromisso social com as classes médias superiores, detentoras de títulos, directamente ou nos seus fundos de pensão. Estas camadas adquiriram o sentimento de aceder ao universo maravilhoso da propriedade capitalista. Se a distribuição de dividendos e as taxas de juro reais fossem revistas em baixa, este compromisso seria posto em questão. Em que sentido? Em direcção a um novo compromisso social para além do neoliberalismo, mais "democrático", como o compromisso keynesiano anterior, ou em direcção a uma ordem social mais autoritária e repressiva?

2- No plano internacional, novas formas de luta aparecem, aquelas de certos Estados da periferia que tomam consciência da sorte que lhes é reservada neste mundo dos poderosos (recorde-se o fracasso das negociações de Cancun em 2003), e aquela das camadas da população que se apercebem da convergência dos seus interesses no plano mundial, no movimento "altermundialista". Estas lutas desenvolvem-se, tendo como pano de fundo a escalada de movimentos extremistas, sejam os do integrismo islâmico ou os dos novos cruzados da direita.

O vigor da pressão que estas lutas são susceptíveis de exercer dependerá fortemente das contradições da trajectória económica estadunidense que este artigo procurou descrever. Quem saberá então reagir com mais eficácia a estas tensões? As forças da reacção social ou as do progresso para esse mundo melhor tão esperado? Muito esperto, quem possa prever o desenlace de tais afrontamentos.

Referências
Chesnais F. (éd.), 2004, La finance mondialisée : racines sociales et politiques, configuration et conséquences, La découverte, Paris.
Duménil G., Lévy D., 2000, Crise et sortie de crise. Ordre et désordres néolibéraux , Presses Universitaires de France, Paris.
Duménil G., Lévy D., 2004, Capital Resurgent. The Roots of the Neoliberal Revolution, Harvard University Press, Harvard, Massachusetts.
Lénine V., 1916, " L'impérialisme, stade suprême du capitalisme ", Œuvres, tome 22, pp. 201-327, Éditions sociales, Paris (1977).
Maki D., Palumbo M., 2001, “Disentangling the Wealth Effect : A Cohort Analysis of the Household Saving in the 1990s”, Federal Reserve, Washington.
Mataloni R.J., 2000, “An Examination of the Low Rates of Return of Foreign-Owned U.S. Companies”, Survey of Current Business, March.
Marx K., 1853 " La domination britannique aux Indes ", Œuvres IV, Politique I, pp. 714-720, La Pléiade, Gallimard, Paris (1994).
Piketty T., Saez E., 2003, “Income Inequality in the United States, 1913-1998”, The Quarterly Journal of Economics, Vol. CXVIII, num. 1, pp. 1-39.
Wolff E., 1996, Top Heavy, The New Press, New York.

Notas:
1- G. Duménil, D. Lévy, 2004.
2- G. Duménil, D. Lévy, 2004, ch. 23.
3- F. Chesnais, 2004.
4- V. Lenine, 1916.
5- Já descritas por Marx: 1853
6 6- T. Piketty, E. Saez, 2003.
7- E. Wolff, 1996.
8- D. Maki, M. Palumbo, 2001.
9- R. J. Mataloni, 2000.
10- Este controlo da procura mostra-se, em média, eficaz, mas produzem-se "derrapagens" recorrentes: sobreaquecimentos e recessões.
11- Em 2000, os lucros domésticos depois dos impostos elevaram-se a 7,1% do PIL das sociedades, que é, ele próprio, igual a 61,6% do PIL do conjunto da economia.
12- Este estudo faz abstracção das novas tendências da mudança técnica e das pressões para reduzir o custo do trabalho. Ver G Duménil, D. Lévy, 2000.

Notas do tradutor:
NT1- National Income and Product Accounts do Bureau of Economic Analysis.
NT2- Em artigo mais recente, os autores explicitam o raciocínio. O PIB é o valor da produção total nos Estados Unidos. É a soma do consumo, do investimento físico e das exportações, menos as importações. O PNB é igual ao PIB, mais o fluxo líquido de rendimento do resto do mundo, ou seja, o rendimento total. Tem-se:
PIB = consumo + investimento físico (investimento fixo e variação dos inventários) + exportações – importações + rendimento recebido do resto do mundo – rendimento pago ao resto do mundo
A poupança é a diferença entre o rendimento total e o consumo:
Poupança = GNP – consumo = investimento físico + exportações – importações + rendimento recebido do resto do mundo – rendimento pago ao resto do mundo
Logo (abstraindo de transferências unilaterais, tais como a ajuda internacional):
Poupança = investimento físico + balança de transações correntes


[*] MODEM-CNRS, Université de Paris X – Nanterre, 200, av. de la Republique, 92000 Nanterre, France. gerard.dumenil@u-paris10.fr .

[**] CEPREMAP_ENS, 48, bd Jourdan, 75014 Paris, France. dominique.levy@cepremap.ens.fr .

O original encontra-se em http://netx.u-paris10.fr/actuelmarx/m4levy.htm


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Ago/05