Um tenso círculo de crédito, uma derrocada mais selvagem
As altas finanças nunca foram mais sofisticadas. Os banqueiros nunca
foram mais "vivos". Agora, na onda de empréstimos
"subprime"
[1]
, os bancos dos Estados Unidos deixaram-se levar, antecipando, em hipoteca,
100% do valor dos imóveis, até mesmo para vadios sem dinheiro. De
acordo com um dos últimos folclores das finanças, um insolvente
incendiário também teria sua posição neste
negócio.
Os padrões de empréstimos para tais "private equity"
[2]
estão entrando em colapso na medida em que os riscos aumentam e os
retornos competem entre si para menos. Empréstimos "cov-lite"
[3]
estão na ordem do dia, significando isso que cessaram de ser aplicadas
restrições quanto ao valor do "interest cover"
[4]
do tomador e a análise do seu balanço patrimonial. Tais fatos
foram lembrados por Anthony Bolton, um dos mais admirados administradores de
fundos da Inglaterra, que chama nossa atenção para que
impeçamos a ruína derivada dessas causas.
Qual a explanação para tal, aparentemente, tão aberrante
comportamento?
Em nível um, é simplesmente porque os bancos não mais tem
que se preocupar sobre a qualidade dos empréstimos nos "securitised
markets"
[5]
onde os empréstimos que eles originam são imediatamente
vendidos.
Então, a mais pertinente questão é porque os investidores
fazem negócios com os bancos?
A resposta, atribuída a Henry Maxey, do "Ruffer Fund
Management", num
estudo a ser publicado pelo "Center for Study of Financial
Inovations", é que Wall Street está solucionando seus mais
prementes problemas com a invenção dos "strutured
products"
[6]
.
Tomem os "hedge funds", nos quais os investidores convencionais tais
como os fundos de pensão investem crescentemente via "hedge fund of
funds" ou "fundos de fundos de cobertura", ou seja, derivativos.
Esses intermediários financeiros tipicamente almejam um retorno de 1%
ao mês, livre de impostos, com baixa volatilidade. Se o "hedge
fund" que eles apoiam falhar em lhes dar esta performance num
período de 3 a 6 meses, ele é refugado.
O "hedge fund" precisa fazer um mínimo bruto de 20% ao ano,
antes das colossais taxas de impostos, para providenciar este 1% ao mês
de juros para seus aplicadores.
Tal retorno espetacular pode ser ganho ou por alta performance no mercado, o
que está além da capacidade da maioria dos gerentes de fundos, ou
tomando empréstimos alavancados ou negociando em derivativos.
Os muitos que adotarem estratégias alavancadoras em ativos
ilíquidos, devem evitar deixar o valor de seus capitais refém da
volatilidade do mercado.
Os "structured credit products" são talhados para esta tarefa.
Obrigações colaterais de débito e empréstimo (CDOs
Collateralised debt obrigations e CLOs - Collateralised loan obrigations)
[7]
são investimentos em ativos de má qualidade, tais como hipotecas
"subprime", ou empréstimos super alavancados para compra de
uma empresa (e que vendem seus passivos também de má qualidade
aos investidores).
Já a venda envolve uma transformação alquímica. O
pacote é dividido e jogado (como dados) em fatias de alto e baixo risco,
usualmente com mais de 80% sendo considerada AAA ou AA
[8]
e o resíduo sendo taxado de forma bem baixa ou não taxado.
Para os fundos de pensão e administradores de reservas oficiais o
resultado de papéis com tão alta classificação
é uma benção, num mundo onde o número de
corporações emprestadoras com taxa de risco AAA minguou para
poucas.
Para os "hedge funds" os papeis de baixa classificação,
que proporcionam um amortecedor contra os riscos não previstos na fatia
dos de alta classificação, são também uma
benção, especialmente, como apontado por Mr. Maxey, ao se prestar
para arbitragens
[9]
: os "hedge funds" assumem longas posições nas fatias
de alto risco e curtas posições
[10]
na fatias de baixo risco, que são relativamente caras.
Isto pode incrementar a eficiência do mercado desde que mais investidores
podem comprar ativos de crédito em realce, de baixa qualidade, num mesmo
depósito.
A peculiaridade deste negócio é que os lucros nunca são
arbitrados nas fases benignas do circulo de crédito porque suas
posições não são constantemente marcados pelo
mercado.
A não liquidez desse mercado requer que cada empresa seja avaliada em um
modelo aprovado por agencia de risco de crédito. Como vimos depois da
Enron e o fiasco das hipotecas "sub-prime", as agencias de risco de
crédito, as quais são pagas por aqueles a que elas avaliam,
não ajustam o risco de crédito para refletir a
deterioração econômica. Elas fecham as portas das
báias, depois dos vivazes cavalos terem fugido.
Segue-se, como Mr. Maxey nota, que relaxar os padrões de
empréstimo é perfeitamente racional. Para aumentar o volume de
empréstimos os bancos podem ou reduzir seus juros ou reduzir suas
cláusulas padrão. Com os investidores caçando rendimento,
esta prática não é cerebral.
O padrão do colapso tensiona agora o círculo de crédito,
assegurando que a atrasada derrocada será mais selvagem, quando suas
falhas originais finalmente acontecerem.
Isto subverte o argumento de que "structured products" uniformemente
realçam a eficiência do mercado.
O crédito está sendo depreciado com a cortesia das agências
de verificação, que são insensíveis ao risco do
mercado. Assista as conseqüências do sistema no devido curso.
Notas do Tradutor
[1] "Subprime": um emprestador "subprime" empresta para
quem não tem qualificativos para emprestar de bancos de primeira linha.
São emprestadores independentes mas ligados aos bancos de primeira
linha e operam com nomes diferentes. Diferenciam-se por seus juros que
são uniformemente mais altos do que os juros cobrados em bancos de
primeira linha.
[2] "Private equity": é um termo genérico para
referir-se a qualquer investimento em ativos que não são
livremente negociados em mercados de bolsa públicos. Se refere
também à maneira pela qual os fundos foram levantados no mercado
privado e não no mercado público.
[3] "Cov-lite": É uma operação de
empréstimos onde as tradicionais proteções oferecidas aos
emprestadores são removidas.
[4] "Interest cover": renda líquida antes das taxas da
empresa (ou ocasionalmente, capital de giro) dividida pelo valor de suas
obrigações de juros, por um determinado período.
[5] "Securitised markets": mercado de instrumentos de investimentos
outros que os derivados de políticas de seguros ou anualidades fixas,
emitidos pelo governo, corporações ou outras
organizações, que ofereçam a evidência de
rendimentos.
[6] "Strutured credit products": derivativos, hedge funds. Hedge fund
é a denominação original que significava "fundo de
cobertura", tornou-se mais geral para denominar Instituções
de investimentos alternativas. Deve-se esse conceito a Alfred
Winslow Jones (1949), o primeiro a combinar investimentos de curto e longo
prazo com fim de realizar uma cobertura da carteira frente a movimentos
do mercado.
[7] CDOs Collateralised debt obrigations são títulos cujo
pagamento da renda e re-pagamento do principal são dependentes de um
conjunto de instrumentos. Um CDO tem por trás de si um conjunto de
empréstimos e títulos de crédito comprados no mercado
secundário ou em bancos comerciais .
Há a probabilidade de pagamentos antecipados. Os emitentes têm
diferentes "tranches" de segurança, assim, se houver
pre-pagamento, a primeira fila será pré-paga em primeiro lugar, a
segunda em segundo etc. O preço de cada fatia reflete a probabilidade
de pagamento.
[8] A Standard & Poor's estabelece faixas de risco para investimento, variando
de AAA, AA, A, BBB, para os mais dignos de crédito, até BB, B,
CCC, CC e C, para os investimentos mais problemáticos.
[9] Arbitragens: lucros conseguidos pela diferença de preços no
mesmo título, moeda ou commodity, que são transacionados em dois
ou mais mercados.
[10]
Long hedge:
Cobertura longa. Alguém que faça a cobertura e que precise de
mercadoria à vista compra um contrato de futuros para cobrir as suas
necessidades futuras. Pela compra de um contrato de futuros, quando se tem uma
posição curta à vista
está-se a estabelecer uma cobertura longa. A cobertura longa é
também conhecida como compra de substituição ou cobertura
de antecipação.
Short hedge:
Venda compensadora. Quando a pessoa que cobre tem uma posição
longa (está a manter um inventário ou a cultivar uma colheita),
introduz uma venda compensadora vendendo um contrato de futuros. Uma venda ou
venda compensadora é também conhecida como venda substituta.
O original encontra-se no
Financial Times,
22/Maio/2007. Tradução de Ciro de Oliveira Machado.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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