Até onde irá o crash e o que faremos nós?

por Richard C. Cook [*]

Queda do valor dos imóveis nos EUA. Os disparadores imediatos estão a ser descritos muito bem: o colapso do mercado de hipotecas subprime dos EUA; a vulnerabilidade do resto da economia à ressaca dos subprime, devido à "eficiência" dos mercados na diluição do risco; a super-extensão à escala mundial do crédito barato; o fracaso de grandes investidores institucionais e firmas de corretagem da Wall Street quanto ao comportamento responsável; e os efeitos a longo prazo dos défices comercial e fiscal dos EUA os quais agora retornam à casa de modo permanente.

Espantosamente, alguns comentaristas têm estado a perguntar "se a crise monetária afectará a economia produtiva" e se hverá uma recessão pela frente. Na realidade, a economia produtiva americana tem estado em recessão desde há um ano. Isto é claramente mostrado pelo declínio do M1, a porção da oferta monetária imediatamente disponível para as pessoas fazerem compras.

As causas do declínio do M1 são de duas ordens. Uma é o fraco poder de compra dos consumidores americanos, pois pelo menos a metade dos emprego pagos decentemente no sector manufactureiro foram eliminados pelo outsourcing, pelas fusões e pelas melhorias de produtividade durante as últimas duas décadas. A outra é que apesar de muitas das corporações americanas não conectadas ao sector habitacional terem estado a fazer tudo certo, o seu êxito dependeu de investimentos além mar, tais como a GE e a GM que investiram fortemente na China.

Este tipo de actividade nos negócios estimula os preços das acções destas corporações globais mas pouco faz pelo trabalho americano. A presunção de que a abundância de rendimentos dos accionistas beneficiarão o resto da nossa economia interna é a essência do "gotejamento" ("trickle-down"), a teoria económica da oferta, e é parte da justificação para o sistema que torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

Mas como relatou Barron no principio deste ano, grande parte dos lucros das corporações globais estão a ser mantidos como rendimentos retidos para crescimento futuro, ao invés de serem transferidos para os accionistas como dividendos. Devido à pesada carga de dívida que hoje oneram as corporações, elas actuam num modo crescer ou morrer. Mais uma vez, o resultado é o deficiente poder de compra que actua negando o já duvidoso efeito gotejamento.

A recessão tem sido mascarada por quatro factores: 1) os falsos números do PIB divulgados pelo governo, em que o exagero de transacções financeiras é mascarado como produção:; 2) a espuma sobre o mercado de acções, que elevou o Dow Jones Médio de pouco mais de 11.000 para um registo récord durante o período de um ano que terminou com o declínio principiado em meados de Julho; 3) a propensão do consumidor americano, que está agora a acabar, para continuar a comprar bens e serviços a crédito, incluindo necessidades vitais como cuidados de saúde; e 4) o crescimento modesto nos empregos de baixos salários na economia de serviços, a qual pode também a estar chegar ao fim.

Estas bolhas menores reflectiram as grandes que estão a estourar quando os prestamistas perdem confiança na capacidade dos prestatários de reembolsar. Estas são a bolha imobiliária, que afecta os consumidores; a bolha da aquisição, que afecta os equity funds; e as bolha da especulação, que afecta os hedge funds.

Quando o castelo de cartas desmorona, a principal pergunta nos sítios web e blogs financeiros é quão profundamente declinará. Será que para ao nível das recessões das décadas anteriores, incluindo 2000-2002, com um declínio que se reflicta no Dow Jones médio em algo em torno dos trinta e cinco por cento do seu pico? Ou será o cenário "Armagedão" que nos levaria para condições ao nível da depressão? Naturalmente, há múltiplas possibilidade baseadas em algo entre uma recessão e uma depressão que partilhariam algumas destas características.

A enlamear as águas está o facto de que hoje o Dow Jones médio é muito menos confiável do que no passado como medição da saúde económica. Isto ocorre porque actualmente a grande maioria das transacções financeiras já se verifica dentro do segredo furtivo dos mercados equity, hedge e derivativos. Ninguém sabe realmente o que está em andamento, excepto quando um dia qualquer surge o anúncio de que mais um fundo ou companhia foram liquidados.

Nem o Federal Reserve nem o governo dos EUA acreditam que têm uma obrigação de reunir ou publicar dados que ajudem o público a avaliar os efeitos desta crise nos seus lares ou empregos. Alguns podem chamar a esta negligência um crime contra a democracia. De facto, o Federal Reserve tornou-o ainda mais difícil ao cessar de relatar os números do M3 [NT 1] , mas investigadores tem mostrado que o crescimento do M3 está a ascender ao passo que o do M1 está a descer.

O que parece estar a acontecer agora é que o Federal Reserve, que fiscaliza a economia americana em nome das elites financeiras, corporativas e governamentais, está deliberadamente a tentar retirar tanta dívida quanto possível para fora da economia. Ele está a fazer isto com taxas de juros que são elevadas nas actuais condições, enquanto tenta evitar o cenário do Armagedão.

O Fed está a executar uma política de "aterragem suave" ao mandar o crédito restrito enquanto introduz "liquidez" no mercados numa base diária através da utilização de "reposições" overnight e do corte da taxa de desconto para o empréstimo bancário.

Mas "liquidez" é apenas um lindo nome para mais empréstimos. A única coisa de que podemos estar certos é que todo empréstimo tem encargos de juros os quais algum dia, de alguma forma, terão de ser pagos por uma pessoa que trabalha para viver.

E se perguntar onde é que o Fed obteve os US$ 34 mil milhões de liquidez que bombeou para os mercados na sexta-feira, 10 de Agosto, não será o único a fazê-lo. A resposta é que o Fed tem uma sala secreta nos pisos superiores onde guarda uma grande "máquina de imprimir". Isto é a contrafacção legalizada mas, como com qualquer moeda falsificada, se a aceitam em transacções ela actua exactamente como a moeda real — durante algum tempo.

O perigo, que está a ser destacado por muitos comentadores, é que o Fed desencadeie uma hiper-inflação, a qual pode estar a acontecer e pode realmente ser intencional por desvalorizar dívidas. É o que acontece quando dívidas são utilizadas para pagar dívidas e isto é de facto um imposto invisível. Tal inflação é difícil de perceber, mais uma vez por causa das enganosas estatísticas do governo. O mais importante indicador a observar é o preço do petróleo, o qual não é mostrado no índice do chamado "núcleo inflacionário" ("core inflation").

Mas há sinais de que a "aterragem suave" está a funcionar, assim como sinais de um modesto incremento nas exportações americanas. Reflectindo o dólar fraco, a China agora está a cobrar mais pelas suas próprias exportações, o que estimulará a nossa indústria interna. E corte de sexta-feira passada na taxa de desconto do Fed provocou uma modesta animação no mercado de acções.

Enquanto isso, há um debate sobre se agências quase-públicas como Fannie Mae e Freddie Mac deveriam ser utilizadas para disseminar as perdas do mercado habitacional por toda a população contribuinte. Enquanto a sociedade como um todo é tornada mais pobre, muito indivíduos que podem ser perdido as suas casas ou os seus empregos são poupados de algum sofrimento. É difícil argumentar contra isto. Mas este tipo de salvação (bail-out) beneficiaria mais proprietários individuais de casas do que os grandes bancos, de modo que os políticos conservadores e os comentaristas opõem-se a isto.

Mas há um quadro mais vasto. A estratégia do Fed provavelmente é permitir que a recessão prossiga mas ele quer fazer com que a economia mova-se outra vez antes que a retracção (dowturn) vá demasiado longe. De facto, eles provavelmente planeiam fazer isto a tempo para a eleição presidencial de 2008.

O Fed quer ver uma recuperação por essa altura de modo a que o público americano volte a dormir e eleja um outro político que proteja firmemente os privilégios e poderes dos magnatas que, através dele, dominam o mundo. Mesmo que um novo presidente tenha algumas ideias progressistas, ele ou ela não serão capazes de alterar muito se uma recuperação tiver começado.

A "aterragem suave" é uma aposta do poder político.

Foi o que eles fizeram em 1984, quando Ronald Reagan foi reeleito numa campanha com o tema "É despertar na América", depois de o Fed amenizar as taxas de vinte por cento que com que arruinou a economia produtiva entre 1979 e 1983. O Fed fez o mesmo com a bolha imobiliária a fim de conseguir a reeleição de George W. Bush em 2004.

Os piores temores dos financeiros é que as coisas fiquem tão más que o povo americano reeleja um reformador em 2008. Até agora a imprensa corporativa tem mantido nas sombras dois dos tais reformadores — Ron Paul e Denni Kucinich. Agora que Hillary Clinton começa a soar mais progressista, ataca-a abertamente uma vez que é um actor demasiado grande para poder ser ignorado. O Washington Post já começou.

Assim, veremos no próximo par de anos se o plano do Fed terá tanto êxito como no passado. Nesse meio tempo, o que permanece firmemente ancorado é o regime monetarista através do qual os financeiros e o Fed dominaram a América ao longo dos últimos 36 anos, desde 1971 quando o presidente Richard Nixon encerrou o guiché do ouro para transacções internacionais.

Durante este período vimos vários fenómenos inter-relacionados: 1) taxas de juro muito mais altas do que no período anterior do New Deal e na sua sequência, que durou até a década de 1960; 2) inflação que corroeu 80 por cento do valor do dólar; 3) substituição da nossa economia de produção industrial por uma economia de serviços dominada pela alta finança; 4) guerra quase contínua com um objectivo claro de dominação mundial cujo propósito é escorar o dólar como a divisa de reserva do mundo; 5) dívida pública, privada e imobiliária sempre em aprofundamento; 6) o fosso sempre crescente entre ricos e pobres, com números em crescimento de pobres, sem casa e famintos que são relegados para fora da vida económica do país; 7) uma crise na infraestrutura em desmoronamento do país; e 8) a constante espoliação de mais de 200 milhões de pessoas comuns.

Nossos cidadãos são golpeados como bolas de ping pong entre condições alternativas de alta e de baixa a cada poucos anos. Muitos deles vêem desaparecer do dia para a noite as suas casas, pensões, poupanças, seguro de saúde e empregos. A acrescer a isto está a crise (stress) que corroeu a saúde e mesmo a expectativa de vida da população americana.

É um quadro horrível criado por um sistema odioso. Eis porque líderes religiosos durante milhares de anos caracterizaram a usura, e uma cultura regida pela usura, como um crime contra Deus e a humanidade. O domínio monetarista do Federal Reserve é a usura legal e institucionalizada. Ao longo dos anos eles dominaram todas as ferramentas do comércio, cujo objectivo é permitir continuamente que a superestrutura financeira desnate a economia produtiva. Não é como a Mafia costumava trabalhar com a sua protecção e chantagens de empréstimos extorsivos?

E pode alguma coisa ser feito quanto a isto? Naturalmente.

Em artigos anteriores no sítio web Global Research e alhures este escritor apresentou uma lista de reformas — principalmente monetárias — que poderiam e deveriam ser efectuadas. Todas elas envolvem o reconhecimento do crédito como uma utilidade pública (public utility), parte do terreno comum da sociedade, não o recreio privado dos financeiros, tendo o Fed como seu facilitador.

O crédito a baixo custo sob a fiscalização do governo federal foi bloco de construção básico do New Deal. Isto foi feito por pessoas fortes com um ideal de serviço público, embora sob muitos aspectos elas não fossem suficientemente longe e confiassem demasiado na Segunda Guerra Mundial e nos armamentos para alcançar uma economia de pleno emprego. Agora precisamos de um New Deal para o século XXI que corrigisse os viéses do anterior, resolvesse a crise actual e nos transportasse para um futuro que beneficiasse a todos, não apenas uns poucos privilegiados.

18/Agosto/2007

[NT 1] O Federal Reserve cessou de publicar os dados da oferta de moeda M3 do dólar americano em 23 de Março de 2006. Ver http://www.federalreserve.gov/releases/h6/discm3.htm . O M3 é a quantidade de moeda disponível numa economia para a compra de bens e serviços.

[*] Analista federal aposentado. Trabalhou na U.S. Civil Service Commission, na Food and Drug Administration, na Casa Branca sob Carter e na NASA, bem como 21 anos no Departamento do Tesouro dos EUA. Seus artigos sobre reforma monetária, teoria económica e política espacial tem aparecido em Global Research, Economy in Crisis, Dissident Voice, Atlantic Free Press e outras publicações. É autor de Challenger Revealed: An Insider's Account of How the Reagan Administration Caused the Greatest Tragedy of the Space Age Seu sítio web é www.richardccook.com .

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=6575


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
20/Ago/07