A inflação e o Federal Reserve

por Richard C. Cook [*]

Não há nenhum termo da "ciência lúgubre" da economia política mais equívoco do que "inflação". A palavra significa "subida de preços", mas é utilizada em diferentes momentos por pessoas diferentes para descrever fenómenos totalmente diferentes.

O tipo de inflação predominante é natural e ocorre à medida que as matérias-primas se esgotam e têm que ser repostas. Está ligado com a lei dos recursos em diminuição, ou entropia, e é superado pela inovação tecnológica. Um outro tipo de inflação exprime-se através das condições de procura e oferta, em permanente mudança, incluindo as flutuações no custo da mão-de-obra. E há ainda um outro tipo que resulta das práticas predatórias de fixação de preços feitas pelos monopólios tais como o cartel mundial do petróleo que fez subir o custo do petróleo para mais de 80 dólares por barril.

De tipo totalmente diferente é a inflação induzida pelos bancos centrais como o Federal Reserve, ao criar bolhas financeiras ou pelo governo federal, ao adoptar medidas inflacionárias como aumentos compostos anualmente nos salários dos funcionários públicos para reduzir o custo real da sua dívida astronómica. Estas medidas podem de facto ser encaradas como "grandes crimes e contravenções" que violam a cláusula de boas práticas da Constituição ao destruir ilegalmente o valor do património dos cidadãos.

De qualquer modo, a inflação é um facto da vida que é praticamente impossível de controlar, já para não falar de entender em toda a sua complexidade e pormenor. Este artigo concentra-se na inflação tal como ela é tratada pelo sistema monetário oficial.

Portanto, falemos de dinheiro. O dinheiro é obviamente um componente indispensável do nosso sistema económico. Se for constituído e administrado adequadamente, tem a capacidade não só de comprar os bens e serviços produzidos e comercializados dentro do sistema, mas também de encorajar e estimular novos tipos e quantidades de produção. A presença ou ausência de quantidades suficientes de dinheiro, a forma como ele é criado e introduzido na circulação, a forma como é estabelecido e mantido o seu valor, e a forma como ele é utilizado ou não para promover os ideais da sociedade, são questões críticas que deviam justamente cair sob a alçada do debate político.

Infelizmente, estas questões nunca são debatidas no seio do sistema político americano, que não cumpre assim algumas das suas responsabilidades mais fundamentais.

Estas questões não são debatidas porque as pessoas cometem o erro de considerar que o dinheiro é, ou devia ser, uma coisa de valor intrínseco, ou que este valor é criado pelas "forças do mercado", sendo pois de certa forma um "dado adquirido".

Há também muita gente que acredita que a política monetária é um assunto técnico só compreensível para os especialistas, e portanto deve estar fora da discussão política.

Mas a história demonstra que o dinheiro só serve os seus objectivos socialmente benéficos quando é encarado como um instrumento da lei e um meio de troca económico, e quando é regulamentado por um governo que possa dirigir responsavelmente os seus benefícios para o bem-estar comum de todos os cidadãos. Isso não acontece hoje em dia nos EU e noutras nações ocidentais.

Que os Pais Fundadores tinham uma visão progressista do dinheiro prova-se pelo facto de que a Constituição deu ao Congresso o poder de "Cunhar Moeda, regular o seu Valor e o da Moeda estrangeira, e fixar o Padrão de Pesos e Medidas". No século XIX, o Supremo Tribunal confirmou, em processos relativos aos famosos 'greenbacks' [NT 1] , que esta autoridade incluía a emissão de papel-moeda.

Através de grande parte da nossa história, o poder monetário foi implementado por meio de vários métodos, embora desde que foi criado o sistema privado do Federal Reserve em 1913, tenha sido exercido sobretudo pelo sistema da banca privada que concede o crédito em circulação e cobra juros pela sua utilização.

Hoje em dia é o poder político da banca e dos financeiros que impede que as questões monetárias sejam examinadas e debatidas como deveriam ser. Este poder é também a base da nossa memória de uma relíquia medieval no destrutivo e corrosivo sistema de reservas bancárias divisionárias. [NT 2]

A reserva bancária divisionária, sob a alçada de um banco central de propriedade privada, não é imposta pela nossa Constituição. Trata-se de uma construção extralegal resultante da abdicação pelo Congresso das suas próprias prerrogativas legais. Este sistema criou uma situação de escravatura crescente de dívida imposta à nossa população que está a sofrer de uma deficiência crónica do poder de compra suficiente para absorver a nossa produção nacional.

Se examinado de perto, este sistema poderia provavelmente ser declarado inconstitucional, tal como afirmado acima. Um sistema que força os cidadãos a uma dívida ruinosa é nitidamente uma violação das garantias constitucionais de boas práticas e de protecção igual das leis e pode mesmo considerar-se que viola a Décima Terceira Emenda, em que se afirma que "Nem a escravidão nem a servidão involuntária… existirão dentro dos Estados Unidos".

Teoricamente, o modo como o dinheiro é encarado aos olhos do sistema bancário é confundi-lo com "riqueza". "Riqueza" para eles significa depósitos bancários ou dinheiro vivo. A "riqueza" é encarada como pertença de indivíduos particulares, não do governo. Claro que o governo tem o poder de se apropriar da riqueza privada através do fisco, ou de a pedir emprestada através da venda de obrigações e outros títulos. E o governo também detém a posse de certos activos, incluindo terras, edifícios, equipamentos, etc.

Mas, de acordo com esta visão, o governo não origina riqueza. Portanto, o dinheiro, encarado originalmente como uma mercadoria com valor intrínseco e não como um instrumento de troca criado pela lei, não pode ser criado nem originado pelo governo. É este o pressuposto em que se baseia actualmente o sistema monetário orientado pela banca, o que explica porque é que ele é tão inadequado para satisfazer as necessidades da sociedade.
Os dogmas actuais negligenciam o facto de que em períodos críticos da nossa história, como durante a época colonial, a Guerra da Revolução, e durante e depois da Guerra Civil, com a emissão dos 'greenbacks', o governo emitiu de facto directamente o seu próprio dinheiro sem recorrer a instrumentos de dívida vendidos a bancos e/ou ao público nem à cobrança de impostos como suporte para a moeda. Ou seja, o governo exerceu nessas alturas o poder de utilizar a sua prerrogativa de soberania para criar "riqueza" a bem do povo de quem recebera a sua autoridade Assim, nessa altura utilizou esta riqueza para satisfazer objectivos públicos legítimos, como seja travar a guerra que lhe deu a sua independência ou a que preservou a União. O facto de essa riqueza ser "real" reflectiu-se na capacidade de o governo receber esses símbolos monetários como um pagamento cabal de impostos.
Por outro lado, o governo fez a riqueza circular sob a forma de moeda metálica, embora o seu valor monetário tenha sido praticamente eliminado pela inflação das notas do Federal Reserve que, desde a sua introdução, já destruíram noventa e cinco por cento do valor do dólar.

E uma visão ainda mais ampla da riqueza considera-a como a produtividade total da economia do país, tanto a presente como a potencial. Isto inclui as aptidões e a capacidade do povo que produz essa riqueza, bem como as leis, as instituições e as tradições que servem para desbloquear o seu potencial criativo. O dinheiro é então um simples símbolo utilizado para facilitar as trocas no interior deste complexo de factores. Com esta definição, a "riqueza" dos Estados Unidos inclui a nossa Declaração de Independência e a Constituição, incluindo a Declaração de Direitos.

Infelizmente, o actual estado de coisas, tal como definido pelo actual sistema do Federal Reserve que supervisiona o nosso sistema monetário, não cumpre estas utilizações correctas do dinheiro. Com a participação da indústria financeira, o Federal Reserve assegura sobretudo, como sua primeira prioridade, que a riqueza possuída pelos bancos nunca venha a ser por eles cedida e, se possível, nunca venha a ser reduzida.

Pelo contrário, essa tem que aumentar eternamente através dos juros cobrados pela sua utilização. Claro que o dinheiro pedido emprestado aos bancos pode ser utilizado pelos devedores para criar novos valores ou pode ser gasto simplesmente em bens de consumo. Mas quanto à riqueza dos bancos, essa nunca pode ficar comprometida.

Assim, os bancos tornaram-se no centro principal do poder dentro do nosso país. Isto está implícito sempre que se usa a palavra "estabilidade" em relação ao sistema financeiro. Os negócios, as famílias e os indivíduos podem ficar sujeitos à "destruição criativa" das forças do mercado, mas os bancos não. De igual modo, devido aos juros acumulados, um sistema monetário baseado no empréstimo leva inevitavelmente à migração de toda a riqueza de um país para as mãos daqueles que emprestam ao fim de algumas gerações. É o que está a acontecer hoje nos EUA.

A actual crise remonta a 1979, quando o Federal Reserve iniciou uma grave recessão para combater a inflação que surgiu na sequência da Guerra do Vietname e da retirada em 1971 do padrão ouro para as transacções internacionais correntes. A situação era semelhante à que acontecera durante a corrida para a Grande Depressão, que começou muito antes da queda da bolsa em 1929.

Desde a recessão de 1979-83, a concentração da riqueza nas mãos dos grupos de rendimentos altos do país, ou seja, dos que têm dinheiro para emprestar ou investir, tem vindo a aumentar, sempre desde a recuperação económica dos meados e fins da década de 90 até hoje. As declarações do Federal Reserve, durante esse período, de que a inflação estava sob controlo são postas em causa pela experiência quotidiana, em que tanto os indivíduos como as famílias têm assistido a grandes aumentos de preços para as necessidades de habitação, serviços públicos, combustível, cuidados de saúde, educação, seguros, etc.
De facto, uma análise do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) publicado pelo Gabinete de Estatísticas de Trabalho mostra um registo de rígida e ininterrupta inflação de preços desde 1965. O ritmo desse aumento abrandou um pouco durante 1979-81, quando começou a recessão induzida pelo Fed, mas recomeçou a sua subida e continuou sempre a subir desde então. De facto, os preços têm estado praticamente fora de controlo durante os últimos trinta e oito anos, apesar dos desmentidos oficiais. Para esta situação, o Federal Reserve não apresentou quaisquer explicações.
O porquê desta inflação requer um estudo intenso. Há uma desconexão na política do Federal Reserve, na sua suposição de que a inflação, que segundo parece não teria sido provocada por ele, poderia ter sido corrigida por acções periódicas de subida das taxas de juro, contraindo assim a moeda. De facto, o Fed nunca teve qualquer razão para acreditar que podia regular a economia através das taxas de juro – a essência do monetarismo – a não ser através da interpretação mais simplista do seu papel. Com efeito, parece ter tido um certo excesso de confiança ao pensar que podia resolver um problema que obviamente nunca entendeu plenamente.

Conforme afirmado na sua publicação de 1994, "The Federal Reserve System: Purpose and Functions" (Sistema do Federal Reserve: Objectivos e Funções), o primeiro dever do Fed é "orientar a política monetária do país influenciando a moeda e as condições de crédito na economia na prossecução do pleno emprego e da estabilidade de preços".

Qual é pois o significado de nenhum destes dois objectivos ter sido atingido, desde a criação do Fed? Será porque, dada a forma como está constituído o nosso sistema monetário em torno do Fed, as duas metas de pleno emprego e de estabilidade de preços são contraditórias? Será mesmo que se pode dizer que o principal método que o Federal Reserve utiliza para conseguir a estabilidade de preços tem sido criar, ou pelo menos tolerar, a falta de empregos e o sub-emprego? Na verdade o Fed, com as suas operações, pelo menos desde 1979, tem tratado o pleno emprego e a estabilidade de preços como sendo mutuamente exclusivas. Se assim não fosse, não teria criado uma importante recessão nessa altura, em que o desemprego subiu sessenta e cinco por cento e foram dizimadas ou destruídas muitas empresas e até algumas indústrias importantes.

De facto, a aptidão do Fed para actuar de forma tão destrutiva é um dos princípios básicos do monetarismo. O Fed ataca a inflação restringindo a procura do consumidor através da pressão para reduzir os preços duma possível escalada de salários. Assim sendo, são os trabalhadores do país que, involuntariamente e sem o seu consentimento, são os soldados de infantaria na estratégia da batalha do Fed pela estabilidade dos preços.

O Fed exercita os seus poderes expandindo e contraindo a divisa por intermédio de três ferramentas: compra e venda de títulos do tesouro através de operações de mercado livre, recurso à janela de crédito no Federal Reserve Bank de Nova Iorque e instituição de condições de reserva para instituições financeiras que estão envolvidas em empréstimos de reservas divisionárias.

O Federal Reserve afirma que, quando altera a quantidade de dinheiro em circulação, não está a criar nem a eliminar riqueza. Pelo contrário, afirma, está apenas a afectar a quantidade de "liquidez" disponível para satisfazer as necessidades económicas existentes. Fá-lo, segundo diz, movimentando dinheiro de riqueza guardada; ou seja, formas que rendem juros, como sejam contas de poupança, para contas à ordem utilizadas para satisfazer necessidades financeiras imediatas.

Reconhecidamente, a capacidade do Fed para controlar a quantidade de dinheiro em circulação e para influenciar as consequências económicas, é limitada. Apesar de os investigadores considerarem que a chave para uma estratégia de investimentos saudável é a avaliação rigorosa do efeito da actuação do Fed sobre a economia, nunca se deve ter uma expectativa muito alta. O Fed não pode ditar directamente medidas como, por exemplo, até que ponto se deve tolerar um desemprego alto. E, embora as ferramentas ao seu dispor sejam poderosas e eficazes e tenham sido afiadas através de décadas de prática, elas continuam a ser desajeitadas e difíceis de manipular para poderem impedir efeitos indesejáveis ou mesmo catastróficos. Apesar disso, esses efeitos acabaram por ocorrer.

Voltando a 1979, altura em que o Fed tentou libertar a economia da inflação que criara nos anos a seguir à Guerra do Vietname – em parte através da liberalização das políticas monetárias de Arthur Burns, presidente do Fed no tempo do presidente Nixon. O Fed agiu elevando a taxa de fundos federais para poder fazer empréstimos aos bancos membros. Com o presidente Paul Volcker, que foi nomeado em 1976 pelo presidente Jimmy Carter, as taxas de juros subiram por vezes mais de vinte por cento nos anos seguintes, taxas sem precedente na história do país.

Estas acções tiveram apenas um leve impacto na redução da inflação, mas um custo terrível para a economia americana e para os trabalhadores, agricultores e pequenos comerciantes americanos. Também ficaram devastadas as áreas mais pobres das cidades americanas que tinham vindo a sair da pobreza a pouco e pouco. Como exemplos temos a destruição em locais como Baltimore ou Detroit, onde enormes áreas se transformaram em "zonas mortas".

Desde essa época, a economia dos EUA nunca mais recuperou. Foram estas as acções que destruíram as nossas indústrias de manufacturas e provocaram a chamada "economia de serviços". O país penou nesta situação enquanto as condições económicas abaixo da média se arrastaram durante os anos de Reagan e até ao fim do mandato do presidente George H.W. Bush. As difíceis condições económicas prolongadas contribuíram para que Bill Clinton derrotasse Bush em 1992, e mais tarde seguiu-se um período de alívio através da explosão económica de meados e fins dos anos 90, durante a chamada bolha 'dot.com'.

Nessa época, foram canalizadas enormes quantidades de capital de investimento, principalmente vindo de fora, para a implantação de empresas tecnológicas que lideravam as revoluções dos microcomputadores e da Internet. Mas com a recessão desencadeada pela queda da bolsa em 2000, esta prosperidade aparente revelou-se uma ilusão. Encontramo-nos hoje de novo numa fase grave de estagnação económica, marcada por um desemprego e sub-emprego cada vez maiores e por subidas maciças no consumo, nos negócios e na dívida governamental. E a inflação continua.

Confrontado com estas circunstâncias, o Federal Reserve parece não saber o que há-de fazer. Conforme confessa, não dispõe de medidas e de objectivos para regular a divisa. No início dos anos 80, o Fed passou por um período em que tentou estabelecer taxas de juro baseadas em objectivos monetários quantitativos. Sob a influência dos monetaristas, o Fed tentou avaliar a quantidade de dinheiro necessário à economia com medidas como o M1, o M2 e o M3. Esta política falhou, por isso hoje em dia ninguém, incluindo importantes economistas, considera que os "Ms" sejam um guia para a política monetária.

Uma das principais razões para este fracasso foi a proliferação de diversos tipos de contas financeiras resultantes da falta de regulamentação da instituição financeira. Esta proliferação tornou-se possível pelo crescimento da transferência electrónica de fundos, em que o dinheiro passou a ser uma simples mensagem electrónica, em vez de um cheque, dinheiro vivo, ou qualquer outro instrumento de papel. Com a utilização do processamento informático, o suprimento de dinheiro altera-se abruptamente todos os dias através do uso de ferramentas de gestão do dinheiro, tais como "reembolsos" ou acordos de re-aquisição.

O aumento da complexidade resultante da electrónica também tornou possíveis muitos outros tipos de crimes, incluindo o roubo electrónico, o desvio de fundos e a lavagem de dinheiro. Para complicar ainda mais a situação, apareceu a larga utilização de acções através de operações como as fusões, as compras de empresas com acções das próprias empresas, e o pagamento de compensações com direitos de opções.

Embora o Federal Reserve tenha uma noção genérica de que o suprimento de dinheiro tem que ser mantido em quantidade suficiente para satisfazer as necessidades da economia, encontra dificuldades em comparar o crescimento desses dois factores ou em definir como é que se devem relacionar um com o outro. Por isso em vez de vigiar objectivos monetários, o Fed afirma que a sua orientação se baseia naquilo a que chama uma política "amaciadora" de taxas de juro. Diz que escolhe um nível de divisas consistente com o crescimento económico na intenção de fornecer o dinheiro suficiente para alimentar a economia. O Fed afirma portanto que pretende estabelecer o preço do dinheiro certo para a economia em qualquer momento, embora esse objectivo seja esquivo.

Por outras palavras, o Fed não sabe o que anda a fazer. O que parece, outrossim, é que está a observar os mesmos indicadores económicos que toda a gente observa e, se acha que a economia está a "aquecer demais", aumenta as taxas de juro. Quando parece que as contracções de liquidez estão a ser demasiado destrutivas e começam a ouvir-se bem alto os protestos de indivíduos e de homens de negócios, então baixa-as. A não ser, claro, que os investidores estrangeiros comecem aos gritos, altura em que o Fed sobe de novo as taxas de juro ou as mantém fixas.

Incapaz de quantificar seja o suprimento de dinheiro seja a actividade económica real, pelos jeitos o Fed utiliza a inflação em sua substituição. Incapaz mesmo de avaliar a inflação com rigor, utiliza os salários dos trabalhadores em sua substituição. Assim, se os rendimentos individuais sobem, aparece a tampa da economia para os abaixar, como se as pessoas que trabalham para viver fossem apanhadas com a mão na lata das bolachas.

Depois de começar a aumentar as taxas de juro por volta de 1994 para fazer abrandar a economia durante a explosão 'dot.com' que foi engendrada por uma política de "dólar forte" pelo Tesouro americano para atrair o investimento externo, o Fed veio depois a baixá-las na tentativa de fazer reviver a economia, quando em 2001 começou a recessão. Mas isso nunca chegou a provocar verdadeiramente a tão desejada recuperação.

Em especial, as taxas de hipoteca da habitação atingiram as taxas mais baixas em quatro décadas, aumentando assim o dinheiro disponível aos consumidores através do refinanciamento das hipotecas existentes e através de empréstimos para novas casas. Esta actuação manteve-se em actividade numa economia que repousa hoje sobre os gastos de consumo em três quartas partes do valor das suas transacções. Claro que uma economia destas é altamente sensível às variações da confiança do consumidor, razão pela qual, depois do mergulho do mercado de acções a seguir aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, o presidente George W. Bush disse ao público para irem fazer compras.

Conforme se tornou claro com o rebentar da bolha da habitação, até mesmo esta rara luz, a brilhar na economia americana em declínio, pouco ajudou a melhorar o quadro do desemprego a não ser através de empregos mal pagos na área dos serviços. Entretanto, a capacidade dos consumidores para escorar a economia foi enfraquecida por um maior declínio na manufactura, devido à NAFTA, às políticas de comércio livre e à globalização da indústria. O dólar forte dos anos 90 levou a aumentos maciços no défice comercial e a uma confiança ainda maior da compra externa nos mercados de obrigações, acções e títulos do tesouro dos EU. Agora, com o valor do dólar a cair, a compra externa de acções e obrigações está também a decair.

Mas, uma vez mais, a inflação, quando avaliada pelo IPC a longo prazo, não baixou – o seu efeito acumulado desde 1965 tem sido devastador. No entanto, quando o Fed tenta considerar a inflação como a sua principal medida de êxito, está apenas agarrado ao que só se pode chamar um fetiche de "estabilidade de preços". E o Congresso também não está a tomar qualquer medida para contestar esta interpretação de objectivos adequados de política monetária. Na verdade, o Congresso mostra-se completamente passivo perante a própria confusão do Fed.

O comprometimento do Congresso na chamada estabilidade de preços ficou demonstrado por uma série de análises nos finais dos anos 90 feitas pela sua Comissão Económica Conjunta e também pela ausência de qualquer tentativa de quem quer que fosse no Congresso para contestar as políticas do Fed. O que o Congresso devia discutir é que, para conseguir a estabilidade de preços, o desemprego e o sub-emprego tornaram-se na ferramenta de eleição utilizada tanto pelos gestores do dinheiro do Fed como pelos seus apoiantes no Congresso. A estabilidade de preços é de facto uma ferramenta da "guerra de classes" chefiada pelos interesses financeiros dos bancos nacionais, assim como pelo próprio Fed, contra os trabalhadores, agricultores e comerciantes responsáveis do país. A dicotomia entre estabilidade de preços e desemprego é mais uma relíquia da Idade Média da qual emergiu o nosso sistema de banca central.

Estes pontos mostram que o objectivo duma política monetária não deve ser nem a estabilidade de preços nem o pleno emprego. Não só porque estes dois objectivos são contraditório, como porque ambos exigem uma situação estática da economia em que não existam quaisquer mudanças. Claro está que nunca existe uma situação destas, a não ser provavelmente na morte. Como disse Heraclito, "Não há nada imutável a não ser a mudança". Nada que tenha vida está isento de mudança, como toda a gente sabe. E a economia de um país é sem dúvida uma coisa viva.

Isto leva-nos a uma avaliação do que deveria ser realmente o objectivo da política monetária. Dada a presença irrefutável de mudanças permanentes na vida, a estabilidade de preços como uma âncora que por si só pode afastar a incerteza, é uma ilusão. Claro que a estabilidade de preços é apenas uma fachada para o que o Fed está de facto a tentar fazer, ou seja, lucros estáveis para os que emprestam dinheiro a juros, sejam instituições, sejam indivíduos. Conforme já dito anteriormente, o dinheiro é considerado assim como uma mercadoria e uma constante matemática. Esta filosofia de rigidez eleva o dinheiro ao estatuto de um ídolo pagão a que devem ser sacrificados todos os outros valores económicos, assim como todos os seres humanos.

Hoje em dia, o dinheiro também é, ou devia ser, encarado como no início, um instrumento criado pela lei para funcionar como meio de troca, facilitando o comércio legítimo de bens e serviços no seio da economia. O Federal Reserve e os financeiros não encaram o dinheiro dessa maneira. O termo técnico para a definição de dinheiro como se fosse uma mercadoria é "valor intrínseco". Significa que o dinheiro é essencialmente o mesmo, quer seja utilizado ou não. Mas isso nunca pode acontecer.

Voltando à estabilidade de preços, é óbvio que uma situação destas é também inatingível devido às leis da física. Muito pelo contrário, os preços têm que subir constantemente, a não ser que sejam reprimidos por forças antinaturais, devido a) ao princípio físico da entropia, ou lei de recursos em diminuição; e b) ao consumo de recursos empregues na produção. Isto continua a acontecer até se conseguirem progressos tecnológicos que melhorem a produtividade através da aplicação do engenho e da criatividade humanas. Esses progressos criam ganhos em eficácia e produtividade e, em muitos casos, altera-se o quantum através de linhas de produtos e indústrias totalmente novas. Assim sendo, os preços têm que ser sempre flutuantes.

Isso aconteceu, por exemplo, com o domínio da electricidade por Edison, com a produção em massa de automóveis de Henry Ford, com o desenvolvimento dos aviões e viagens aéreas, e com a criação da indústria de microcomputadores por intermédio do programa espacial. Na verdade, o exemplo do quantum físico é instrutivo, visto que ele postula um universo de criatividade incessante em contraste com o dogma medieval de escassez e luta entre classes sociais pelo direito a existir. A perspectiva mais optimista das possibilidades humanas exemplificada pela ciência moderna produziu a explosão do desenvolvimento económico mundial a partir das descobertas do Renascimento Europeu iniciadas por volta de 1450.

Esta discussão coloca também algumas questões filosóficas sobre a natureza do homem. Nesta perspectiva, todas as ideologias associadas aos conceitos do Darwinismo social, por exemplo, têm que ser encaradas como pressupondo um nível de consciência essencialmente animalesco, conforme expresso historicamente através das barbaridades da Idade Média europeia. Segundo esta ideologia, que pode ter dado origem ao actual sistema bancário e à escola da economia do laissez-faire, as pessoas são animais que lutam por recursos finitos como cães esfomeados.

Mas, se fosse verdade que quem sobrevive são os cães maiores, mais ferozes, mais cruéis, ou seja, "os mais aptos", então a humanidade tinha que estar obrigatoriamente no fim de uma espiral evolucionária descendente. Mas isso contraria a experiência humana, onde se pode discernir nitidamente uma tendência progressista ao longo de uma análise prolongada da história da humanidade. Parece que a humanidade tem aprendido alguma coisa, embora por vezes pareça que aprendemos da forma mais difícil e por cada passo que avançamos, damos meio passo para trás. Contrariamente às ideologias baseadas na selvajaria humana – e a qualquer ideologia que considere o potencial do homem inferior a quedas infinitas nessa categoria – a abordagem do quantum na economia define um mundo que é verdadeiramente humano ao considerar as possibilidades infindáveis expressas no ambiente material para a criatividade, a imaginação e a evolução. Um sistema monetário digno de apoio tem pois que facilitar estas características.

Uma abordagem humanista do desenvolvimento económico não significa que o pleno emprego se torne numa imagem esculpida para adoração, substituindo a estabilidade dos preços. Nunca se poderá atingir o pleno emprego. Como todos os economistas sabem, há empregos que estão constantemente a tornar-se obsoletos, também em consequência das mesmas forças de mudança. Assim, é de aceitar um certo nível de "desemprego estrutural" como questão prática. Trata-se apenas de bom senso. Mas isso leva também à obrigação social de apoiar os trabalhadores despedidos até eles poderem ser readaptados ou transferidos para trabalhar noutros locais utilizando ferramentas e procedimentos aperfeiçoados.

Significa também que o objectivo de uma política monetária e política deve substituir o actual paradigma baseado primeiro que tudo e antes do mais nos lucros dos que emprestam dinheiro por outro que possa facilitar a adaptação à mudança e a ultrapassagem da entropia, apoiando as necessidades humanas da força de trabalho. Pode também significar reformas para que as pessoas possam finalmente começar a gozar os dividendos de ócio que deviam resultar do desenvolvimento tecnológico e não fossem obrigadas a trabalhar permanentemente.

Como é se pode fazer isto? Precisamente através dos métodos implícitos ou estabelecidos nos documentos fundadores da cultura americana, como a Declaração de Independência, redigida por Thomas Jefferson, que afirma, "Todos os homens nascem iguais". Portanto, a todos deve ser dada igual possibilidade de viver, crescer e adaptar-se à mudança, sem que haja colisão com os direitos dos outros a fazer o mesmo.

Mais ainda, o Preâmbulo da Constituição estabelece o princípio do bem estar geral, não só para a sociedade existente, mas para a posteridade. Portanto, a lei e a consciência exigem que o governo proporcione os meios para que tal seja alcançado. Através da experiência podemos ver claramente que isso inclui uma educação decente, o acesso à água e ao saneamento básico, um local limpo e saudável para viver, o acesso aos recursos energéticos, a cuidados de saúde adequados, a transportes, etc. É da responsabilidade dos adultos contribuir para tornar disponível tudo isto, não só para eles próprios e suas famílias, mas para toda a sociedade.

Estes elementos de infra-estrutura social tornam-se portanto uma exigência da vida comum e é dever do governo representativo a todos os níveis implementá-los. A partir daí, as pessoas podem construir a vida económica a que têm direito através do sistema competitivo de empresa privada que define a economia americana. Qualquer país moderno de sucesso tem uma combinação de uma sólida infra-estrutura pública com um sector privado dinâmico, em vez de uma baseada na "privatização" crescente dos serviços públicos.

É dever dos responsáveis pelas políticas monetárias e económicas facilitar o desenvolvimento duma sociedade assim. Mas actualmente, nem o Federal Reserve, nem outras entidades como o Congresso ou o Departamento do Tesouro, nem o gabinete executivo do Presidente estão a cumprir o cargo como deviam. Pelo contrário, estão a manipular o sistema monetário para vantagem e benefício de bancos privados e de mercados financeiros privados. Isto é incorrecto, e tem que ser alterado.

Podíamos olhar para a questão da inflação por outro ângulo, aquele que os economistas têm assinalado, de que os períodos de inflação parece coincidirem com os de guerra. As causas desta confluência parecem complexas e podem incluir a manipulação de preços por parte dos fornecedores do governo, o medo e o pânico que levam as pessoas a inflacionar os preços para garantir a sua situação económica, um prémio integrado nos preços para compensar a atmosfera geral de incerteza económica, ou o influxo súbito de dinheiro novo devido à precipitada contracção de um empréstimo pelo governo. Provavelmente todos estes factores desempenham o seu papel. Se voltarmos a olhar para a história da inflação de preços desde 1915, reparamos numa subida acentuada dos preços durante os períodos da I e da II Guerras Mundiais. Isto acentua a confirmação da hipótese de um elo com a inflação.

Mas e então esta vaga de inflação mais alta desde 1965? O que é típico neste período é que a nação tem estado numa situação de permanente mobilização para a guerra desde o conflito do Vietname. Seria necessária uma grande quantidade de investigação económica para testar a hipótese de que o alto nível de gastos com a defesa tem provocado de facto uma alta inflação, mas um estudo desses teria muito interesse.

Pode acrescentar-se outra hipótese que será difícil de medir mas que também devia ser considerada. E é que esse dinheiro gasto numa permanente mobilização para a guerra é essencialmente não produtivo em termos de produção de bens e serviços de valor para a economia civil, mais alargada; ou seja, tem um efeito multiplicador relativamente baixo. Os custos com a guerra também podem ser menos aptos para estimular o tipo de investigação científica e o desenvolvimento necessário para melhorar a economia na maior parte dos aspectos da vida quotidiana. Nunca obtivemos os "dividendos da paz" que nos prometeram que iríamos obter, resultantes do fim da Guerra Fria. Pelo contrário, o complexo militar-industrial progrediu sem cessar até que neste momento a Guerra contra o Terrorismo e as possíveis futuras guerras contra o Irão e outros países proporcionam uma nova justificação para uma perpétua mobilização para a guerra.

A questão económica é saber se uma sociedade em guerra permanente ou que está sempre a preparar-se para a guerra tem condições para ultrapassar a entropia natural que levará a que os seus procedimentos de produção se tornem cada vez menos eficazes. Se não tiver essas condições, então não há reforma que possa resolver os seus problemas. Sabemos que nenhuma civilização da história, que tenha tido a guerra como preocupação principal, sobreviveu durante muito tempo, a não ser quando percebeu o erro da sua opção e a alterou, ou então quando acabou por ser destruída.

A antiga Grécia nunca recuperou depois das Guerras do Peloponeso. O Império Romano, endividado e socialmente estratificado, esgotou-se num braseiro de conflitos militares e depois assistiu à sua derrota e dissolução. O Império Britânico entrou em falência numa só geração, entre 1914 e 1945. Os EU cambaleiam agora à beira do maior colapso financeiro. Na verdade, os que têm dinheiro estão a tentar proteger a sua riqueza pela calada, enquanto que os desgraçados que estão pesadamente hipotecados ou encurralados em pensões de reforma estáticas ficam para trás a sofrer as consequências. Será que o Império Americano consegue sobreviver às forças económicas que condenaram os impérios do passado? Ou será que o "Novo Século Americano", como há quem lhe chame, virá a ser o "Século Não Americano"?

[1] Papel moeda emitido pelo governo dos EUA em 1862 durante a Guerra Civil (assim chamados porque a parte de trás era impressa a verde).
[2] Acerca da reserva bancária divisionária ver também Segredos do dinheiro, dos juros e da inflação, http://resistir.info/financas/secrets_of_money_p.html


[*] Analista federal reformado. Sua carreira incluiu a prestação de serviços na U.S. Civil Service Commission, na Food and Drug Administration, na Casa Branca de Carter, e na NASA, seguido por vinte e um anos no Departamento do Tesouro dos EUA. Os seus artigos sobre reforma monetária, economia e política especial têm aparecido em Global Research, Economy in Crisis, Dissident Voice, Atlantic Free Press, e outros. É o autor de "Challenger Revealed: An Insider's Account of How the Reagan Administration Caused the Greatest Tragedy of the Space Age." A sua URL é www.richardccook.com.

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=6966
Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
08/Out/07