A inflação e o Federal Reserve
Não há nenhum termo da "ciência lúgubre"
da economia política mais equívoco do que
"inflação". A palavra significa "subida de
preços", mas é utilizada em diferentes momentos por pessoas
diferentes para descrever fenómenos totalmente diferentes.
O tipo de inflação predominante é natural e ocorre
à medida que as matérias-primas se esgotam e têm que ser
repostas. Está ligado com a lei dos recursos em
diminuição, ou entropia, e é superado pela
inovação tecnológica. Um outro tipo de
inflação exprime-se através das condições de
procura e oferta, em permanente mudança, incluindo as
flutuações no custo da mão-de-obra. E há ainda um
outro tipo que resulta das práticas predatórias de
fixação de preços feitas pelos monopólios tais como
o cartel mundial do petróleo que fez subir o custo do petróleo
para mais de 80 dólares por barril.
De tipo totalmente diferente é a inflação induzida pelos
bancos centrais como o Federal Reserve, ao criar bolhas financeiras ou pelo
governo federal, ao adoptar medidas inflacionárias como aumentos
compostos anualmente nos salários dos funcionários
públicos para reduzir o custo real da sua dívida
astronómica. Estas medidas podem de facto ser encaradas como
"grandes crimes e contravenções" que violam a
cláusula de boas práticas da Constituição ao
destruir ilegalmente o valor do património dos cidadãos.
De qualquer modo, a inflação é um facto da vida que
é praticamente impossível de controlar, já para não
falar de entender em toda a sua complexidade e pormenor. Este artigo
concentra-se na inflação tal como ela é tratada pelo
sistema monetário oficial.
Portanto, falemos de dinheiro. O dinheiro é obviamente um componente
indispensável do nosso sistema económico. Se for
constituído e administrado adequadamente, tem a capacidade não
só de comprar os bens e serviços produzidos e comercializados
dentro do sistema, mas também de encorajar e estimular novos tipos e
quantidades de produção. A presença ou ausência de
quantidades suficientes de dinheiro, a forma como ele é criado e
introduzido na circulação, a forma como é estabelecido e
mantido o seu valor, e a forma como ele é utilizado ou não para
promover os ideais da sociedade, são questões críticas que
deviam justamente cair sob a alçada do debate político.
Infelizmente, estas questões nunca são debatidas no seio do
sistema político americano, que não cumpre assim algumas das suas
responsabilidades mais fundamentais.
Estas questões não são debatidas porque as pessoas cometem
o erro de considerar que o dinheiro é, ou devia ser, uma coisa de valor
intrínseco, ou que este valor é criado pelas "forças
do mercado", sendo pois de certa forma um "dado adquirido".
Há também muita gente que acredita que a política
monetária é um assunto técnico só
compreensível para os especialistas, e portanto deve estar fora da
discussão política.
Mas a história demonstra que o dinheiro só serve os seus
objectivos socialmente benéficos quando é encarado como um
instrumento da lei e um meio de troca económico, e quando é
regulamentado por um governo que possa dirigir responsavelmente os seus
benefícios para o bem-estar comum de todos os cidadãos. Isso
não acontece hoje em dia nos EU e noutras nações
ocidentais.
Que os Pais Fundadores tinham uma visão progressista do dinheiro
prova-se pelo facto de que a Constituição deu ao Congresso o
poder de "Cunhar Moeda, regular o seu Valor e o da Moeda estrangeira, e
fixar o Padrão de Pesos e Medidas". No século XIX, o Supremo
Tribunal confirmou, em processos relativos aos famosos 'greenbacks'
[NT 1]
, que esta autoridade incluía a emissão de papel-moeda.
Através de grande parte da nossa história, o poder
monetário foi implementado por meio de vários métodos,
embora desde que foi criado o sistema privado do Federal Reserve em 1913, tenha
sido exercido sobretudo pelo sistema da banca privada que concede o
crédito em circulação e cobra juros pela sua
utilização.
Hoje em dia é o poder político da banca e dos financeiros que
impede que as questões monetárias sejam examinadas e debatidas
como deveriam ser. Este poder é também a base da nossa
memória de uma relíquia medieval no destrutivo e corrosivo
sistema de reservas bancárias divisionárias.
[NT 2]
A reserva bancária divisionária, sob a alçada de um banco
central de propriedade privada, não é imposta pela nossa
Constituição. Trata-se de uma construção extralegal
resultante da abdicação pelo Congresso das suas próprias
prerrogativas legais. Este sistema criou uma situação de
escravatura crescente de dívida imposta à nossa
população que está a sofrer de uma deficiência
crónica do poder de compra suficiente para absorver a nossa
produção nacional.
Se examinado de perto, este sistema poderia provavelmente ser declarado
inconstitucional, tal como afirmado acima. Um sistema que força os
cidadãos a uma dívida ruinosa é nitidamente uma
violação das garantias constitucionais de boas práticas e
de protecção igual das leis e pode mesmo considerar-se que viola
a Décima Terceira Emenda, em que se afirma que "Nem a
escravidão nem a servidão involuntária
existirão dentro dos Estados Unidos".
Teoricamente, o modo como o dinheiro é encarado aos olhos do sistema
bancário é confundi-lo com "riqueza".
"Riqueza" para eles significa depósitos bancários ou
dinheiro vivo. A "riqueza" é encarada como pertença de
indivíduos particulares, não do governo. Claro que o governo tem
o poder de se apropriar da riqueza privada através do fisco, ou de a
pedir emprestada através da venda de obrigações e outros
títulos. E o governo também detém a posse de certos
activos, incluindo terras, edifícios, equipamentos, etc.
Mas, de acordo com esta visão, o governo não origina riqueza.
Portanto, o dinheiro, encarado originalmente como uma mercadoria com valor
intrínseco e não como um instrumento de troca criado pela lei,
não pode ser criado nem originado pelo governo. É este o
pressuposto em que se baseia actualmente o sistema monetário orientado
pela banca, o que explica porque é que ele é tão
inadequado para satisfazer as necessidades da sociedade.
Os dogmas actuais negligenciam o facto de que em períodos
críticos da nossa história, como durante a época colonial,
a Guerra da Revolução, e durante e depois da Guerra Civil, com a
emissão dos 'greenbacks', o governo emitiu de facto directamente o seu
próprio dinheiro sem recorrer a instrumentos de dívida vendidos a
bancos e/ou ao público nem à cobrança de impostos como
suporte para a moeda. Ou seja, o governo exerceu nessas alturas o poder de
utilizar a sua prerrogativa de soberania para criar "riqueza" a bem
do povo de quem recebera a sua autoridade Assim, nessa altura utilizou esta
riqueza para satisfazer objectivos públicos legítimos, como seja
travar a guerra que lhe deu a sua independência ou a que preservou a
União. O facto de essa riqueza ser "real" reflectiu-se na
capacidade de o governo receber esses símbolos monetários como um
pagamento cabal de impostos.
Por outro lado, o governo fez a riqueza circular sob a forma de moeda
metálica, embora o seu valor monetário tenha sido praticamente
eliminado pela inflação das notas do Federal Reserve que, desde a
sua introdução, já destruíram noventa e cinco por
cento do valor do dólar.
E uma visão ainda mais ampla da riqueza considera-a como a produtividade
total da economia do país, tanto a presente como a potencial. Isto
inclui as aptidões e a capacidade do povo que produz essa riqueza, bem
como as leis, as instituições e as tradições que
servem para desbloquear o seu potencial criativo. O dinheiro é
então um simples símbolo utilizado para facilitar as trocas no
interior deste complexo de factores. Com esta definição, a
"riqueza" dos Estados Unidos inclui a nossa Declaração
de Independência e a Constituição, incluindo a
Declaração de Direitos.
Infelizmente, o actual estado de coisas, tal como definido pelo actual sistema
do Federal Reserve que supervisiona o nosso sistema monetário,
não cumpre estas utilizações correctas do dinheiro. Com a
participação da indústria financeira, o Federal Reserve
assegura sobretudo, como sua primeira prioridade, que a riqueza possuída
pelos bancos nunca venha a ser por eles cedida e, se possível, nunca
venha a ser reduzida.
Pelo contrário, essa tem que aumentar eternamente através dos
juros cobrados pela sua utilização. Claro que o dinheiro pedido
emprestado aos bancos pode ser utilizado pelos devedores para criar novos
valores ou pode ser gasto simplesmente em bens de consumo. Mas quanto à
riqueza dos bancos, essa nunca pode ficar comprometida.
Assim, os bancos tornaram-se no centro principal do poder dentro do nosso
país. Isto está implícito sempre que se usa a palavra
"estabilidade" em relação ao sistema financeiro. Os
negócios, as famílias e os indivíduos podem ficar sujeitos
à "destruição criativa" das forças do
mercado, mas os bancos não. De igual modo, devido aos juros acumulados,
um sistema monetário baseado no empréstimo leva inevitavelmente
à migração de toda a riqueza de um país para as
mãos daqueles que emprestam ao fim de algumas gerações.
É o que está a acontecer hoje nos EUA.
A actual crise remonta a 1979, quando o Federal Reserve iniciou uma grave
recessão para combater a inflação que surgiu na
sequência da Guerra do Vietname e da retirada em 1971 do padrão
ouro para as transacções internacionais correntes. A
situação era semelhante à que acontecera durante a corrida
para a Grande Depressão, que começou muito antes da queda da
bolsa em 1929.
Desde a recessão de 1979-83, a concentração da riqueza nas
mãos dos grupos de rendimentos altos do país, ou seja, dos que
têm dinheiro para emprestar ou investir, tem vindo a aumentar, sempre
desde a recuperação económica dos meados e fins da
década de 90 até hoje. As declarações do Federal
Reserve, durante esse período, de que a inflação estava
sob controlo são postas em causa pela experiência quotidiana, em
que tanto os indivíduos como as famílias têm assistido a
grandes aumentos de preços para as necessidades de
habitação, serviços públicos, combustível,
cuidados de saúde, educação, seguros, etc.
De facto, uma análise do Índice de Preços ao Consumidor
(IPC) publicado pelo Gabinete de Estatísticas de Trabalho mostra um
registo de rígida e ininterrupta inflação de preços
desde 1965. O ritmo desse aumento abrandou um pouco durante 1979-81, quando
começou a recessão induzida pelo Fed, mas recomeçou a sua
subida e continuou sempre a subir desde então. De facto, os
preços têm estado praticamente fora de controlo durante os
últimos trinta e oito anos, apesar dos desmentidos oficiais. Para esta
situação, o Federal Reserve não apresentou quaisquer
explicações.
O porquê desta inflação requer um estudo intenso. Há
uma desconexão na política do Federal Reserve, na sua
suposição de que a inflação, que segundo parece
não teria sido provocada por ele, poderia ter sido corrigida por
acções periódicas de subida das taxas de juro, contraindo
assim a moeda. De facto, o Fed nunca teve qualquer razão para acreditar
que podia regular a economia através das taxas de juro a
essência do monetarismo a não ser através da
interpretação mais simplista do seu papel. Com efeito, parece ter
tido um certo excesso de confiança ao pensar que podia resolver um
problema que obviamente nunca entendeu plenamente.
Conforme afirmado na sua publicação de 1994, "The Federal
Reserve System: Purpose and Functions" (Sistema do Federal Reserve:
Objectivos e Funções), o primeiro dever do Fed é
"orientar a política monetária do país influenciando
a moeda e as condições de crédito na economia na
prossecução do pleno emprego e da estabilidade de
preços".
Qual é pois o significado de nenhum destes dois objectivos ter sido
atingido, desde a criação do Fed? Será porque, dada a
forma como está constituído o nosso sistema monetário em
torno do Fed, as duas metas de pleno emprego e de estabilidade de preços
são contraditórias? Será mesmo que se pode dizer que o
principal método que o Federal Reserve utiliza para conseguir a
estabilidade de preços tem sido criar, ou pelo menos tolerar, a falta de
empregos e o sub-emprego? Na verdade o Fed, com as suas
operações, pelo menos desde 1979, tem tratado o pleno emprego e a
estabilidade de preços como sendo mutuamente exclusivas. Se assim
não fosse, não teria criado uma importante recessão nessa
altura, em que o desemprego subiu sessenta e cinco por cento e foram dizimadas
ou destruídas muitas empresas e até algumas indústrias
importantes.
De facto, a aptidão do Fed para actuar de forma tão destrutiva
é um dos princípios básicos do monetarismo. O Fed ataca a
inflação restringindo a procura do consumidor através da
pressão para reduzir os preços duma possível escalada de
salários. Assim sendo, são os trabalhadores do país que,
involuntariamente e sem o seu consentimento, são os soldados de
infantaria na estratégia da batalha do Fed pela estabilidade dos
preços.
O Fed exercita os seus poderes expandindo e contraindo a divisa por
intermédio de três ferramentas: compra e venda de títulos
do tesouro através de operações de mercado livre, recurso
à janela de crédito no Federal Reserve Bank de Nova Iorque e
instituição de condições de reserva para
instituições financeiras que estão envolvidas em
empréstimos de reservas divisionárias.
O Federal Reserve afirma que, quando altera a quantidade de dinheiro em
circulação, não está a criar nem a eliminar
riqueza. Pelo contrário, afirma, está apenas a afectar a
quantidade de "liquidez" disponível para satisfazer as
necessidades económicas existentes. Fá-lo, segundo diz,
movimentando dinheiro de riqueza guardada; ou seja, formas que rendem juros,
como sejam contas de poupança, para contas à ordem utilizadas
para satisfazer necessidades financeiras imediatas.
Reconhecidamente, a capacidade do Fed para controlar a quantidade de dinheiro
em circulação e para influenciar as consequências
económicas, é limitada. Apesar de os investigadores considerarem
que a chave para uma estratégia de investimentos saudável
é a avaliação rigorosa do efeito da actuação
do Fed sobre a economia, nunca se deve ter uma expectativa muito alta. O Fed
não pode ditar directamente medidas como, por exemplo, até que
ponto se deve tolerar um desemprego alto. E, embora as ferramentas ao seu
dispor sejam poderosas e eficazes e tenham sido afiadas através de
décadas de prática, elas continuam a ser desajeitadas e
difíceis de manipular para poderem impedir efeitos indesejáveis
ou mesmo catastróficos. Apesar disso, esses efeitos acabaram por
ocorrer.
Voltando a 1979, altura em que o Fed tentou libertar a economia da
inflação que criara nos anos a seguir à Guerra do Vietname
em parte através da liberalização das
políticas monetárias de Arthur Burns, presidente do Fed no tempo
do presidente Nixon. O Fed agiu elevando a taxa de fundos federais para poder
fazer empréstimos aos bancos membros. Com o presidente Paul Volcker, que
foi nomeado em 1976 pelo presidente Jimmy Carter, as taxas de juros subiram por
vezes mais de vinte por cento nos anos seguintes, taxas sem precedente na
história do país.
Estas acções tiveram apenas um leve impacto na
redução da inflação, mas um custo terrível
para a economia americana e para os trabalhadores, agricultores e pequenos
comerciantes americanos. Também ficaram devastadas as áreas mais
pobres das cidades americanas que tinham vindo a sair da pobreza a pouco e
pouco. Como exemplos temos a destruição em locais como Baltimore
ou Detroit, onde enormes áreas se transformaram em "zonas
mortas".
Desde essa época, a economia dos EUA nunca mais recuperou. Foram estas
as acções que destruíram as nossas indústrias de
manufacturas e provocaram a chamada "economia de serviços". O
país penou nesta situação enquanto as
condições económicas abaixo da média se arrastaram
durante os anos de Reagan e até ao fim do mandato do presidente George
H.W. Bush. As difíceis condições económicas
prolongadas contribuíram para que Bill Clinton derrotasse Bush em 1992,
e mais tarde seguiu-se um período de alívio através da
explosão económica de meados e fins dos anos 90, durante a
chamada bolha 'dot.com'.
Nessa época, foram canalizadas enormes quantidades de capital de
investimento, principalmente vindo de fora, para a implantação de
empresas tecnológicas que lideravam as revoluções dos
microcomputadores e da Internet. Mas com a recessão desencadeada pela
queda da bolsa em 2000, esta prosperidade aparente revelou-se uma
ilusão. Encontramo-nos hoje de novo numa fase grave de
estagnação económica, marcada por um desemprego e
sub-emprego cada vez maiores e por subidas maciças no consumo, nos
negócios e na dívida governamental. E a inflação
continua.
Confrontado com estas circunstâncias, o Federal Reserve parece não
saber o que há-de fazer. Conforme confessa, não dispõe de
medidas e de objectivos para regular a divisa. No início dos anos 80, o
Fed passou por um período em que tentou estabelecer taxas de juro
baseadas em objectivos monetários quantitativos. Sob a influência
dos monetaristas, o Fed tentou avaliar a quantidade de dinheiro
necessário à economia com medidas como o M1, o M2 e o M3. Esta
política falhou, por isso hoje em dia ninguém, incluindo
importantes economistas, considera que os "Ms" sejam um guia para a
política monetária.
Uma das principais razões para este fracasso foi a
proliferação de diversos tipos de contas financeiras resultantes
da falta de regulamentação da instituição
financeira. Esta proliferação tornou-se possível pelo
crescimento da transferência electrónica de fundos, em que o
dinheiro passou a ser uma simples mensagem electrónica, em vez de um
cheque, dinheiro vivo, ou qualquer outro instrumento de papel. Com a
utilização do processamento informático, o suprimento de
dinheiro altera-se abruptamente todos os dias através do uso de
ferramentas de gestão do dinheiro, tais como "reembolsos" ou
acordos de re-aquisição.
O aumento da complexidade resultante da electrónica também tornou
possíveis muitos outros tipos de crimes, incluindo o roubo
electrónico, o desvio de fundos e a lavagem de dinheiro. Para complicar
ainda mais a situação, apareceu a larga utilização
de acções através de operações como as
fusões, as compras de empresas com acções das
próprias empresas, e o pagamento de compensações com
direitos de opções.
Embora o Federal Reserve tenha uma noção genérica de que o
suprimento de dinheiro tem que ser mantido em quantidade suficiente para
satisfazer as necessidades da economia, encontra dificuldades em comparar o
crescimento desses dois factores ou em definir como é que se devem
relacionar um com o outro. Por isso em vez de vigiar objectivos
monetários, o Fed afirma que a sua orientação se baseia
naquilo a que chama uma política "amaciadora" de taxas de
juro. Diz que escolhe um nível de divisas consistente com o crescimento
económico na intenção de fornecer o dinheiro suficiente
para alimentar a economia. O Fed afirma portanto que pretende estabelecer o
preço do dinheiro certo para a economia em qualquer momento, embora esse
objectivo seja esquivo.
Por outras palavras, o Fed não sabe o que anda a fazer. O que parece,
outrossim, é que está a observar os mesmos indicadores
económicos que toda a gente observa e, se acha que a economia
está a "aquecer demais", aumenta as taxas de juro. Quando
parece que as contracções de liquidez estão a ser
demasiado destrutivas e começam a ouvir-se bem alto os protestos de
indivíduos e de homens de negócios, então baixa-as. A
não ser, claro, que os investidores estrangeiros comecem aos gritos,
altura em que o Fed sobe de novo as taxas de juro ou as mantém fixas.
Incapaz de quantificar seja o suprimento de dinheiro seja a actividade
económica real, pelos jeitos o Fed utiliza a inflação em
sua substituição. Incapaz mesmo de avaliar a
inflação com rigor, utiliza os salários dos trabalhadores
em sua substituição. Assim, se os rendimentos individuais sobem,
aparece a tampa da economia para os abaixar, como se as pessoas que trabalham
para viver fossem apanhadas com a mão na lata das bolachas.
Depois de começar a aumentar as taxas de juro por volta de 1994 para
fazer abrandar a economia durante a explosão 'dot.com' que foi
engendrada por uma política de "dólar forte" pelo
Tesouro americano para atrair o investimento externo, o Fed veio depois a
baixá-las na tentativa de fazer reviver a economia, quando em 2001
começou a recessão. Mas isso nunca chegou a provocar
verdadeiramente a tão desejada recuperação.
Em especial, as taxas de hipoteca da habitação atingiram as taxas
mais baixas em quatro décadas, aumentando assim o dinheiro
disponível aos consumidores através do refinanciamento das
hipotecas existentes e através de empréstimos para novas casas.
Esta actuação manteve-se em actividade numa economia que repousa
hoje sobre os gastos de consumo em três quartas partes do valor das suas
transacções. Claro que uma economia destas é altamente
sensível às variações da confiança do
consumidor, razão pela qual, depois do mergulho do mercado de
acções a seguir aos ataques terroristas de 11 de Setembro de
2001, o presidente George W. Bush disse ao público para irem fazer
compras.
Conforme se tornou claro com o rebentar da bolha da habitação,
até mesmo esta rara luz, a brilhar na economia americana em
declínio, pouco ajudou a melhorar o quadro do desemprego a não
ser através de empregos mal pagos na área dos serviços.
Entretanto, a capacidade dos consumidores para escorar a economia foi
enfraquecida por um maior declínio na manufactura, devido à
NAFTA, às políticas de comércio livre e à
globalização da indústria. O dólar forte dos anos
90 levou a aumentos maciços no défice comercial e a uma
confiança ainda maior da compra externa nos mercados de
obrigações, acções e títulos do tesouro dos
EU. Agora, com o valor do dólar a cair, a compra externa de
acções e obrigações está também a
decair.
Mas, uma vez mais, a inflação, quando avaliada pelo IPC a longo
prazo, não baixou o seu efeito acumulado desde 1965 tem sido
devastador. No entanto, quando o Fed tenta considerar a inflação
como a sua principal medida de êxito, está apenas agarrado ao que
só se pode chamar um fetiche de "estabilidade de
preços". E o Congresso também não está a tomar
qualquer medida para contestar esta interpretação de objectivos
adequados de política monetária. Na verdade, o Congresso
mostra-se completamente passivo perante a própria confusão do
Fed.
O comprometimento do Congresso na chamada estabilidade de preços ficou
demonstrado por uma série de análises nos finais dos anos 90
feitas pela sua Comissão Económica Conjunta e também pela
ausência de qualquer tentativa de quem quer que fosse no Congresso para
contestar as políticas do Fed. O que o Congresso devia discutir é
que, para conseguir a estabilidade de preços, o desemprego e o
sub-emprego tornaram-se na ferramenta de eleição utilizada tanto
pelos gestores do dinheiro do Fed como pelos seus apoiantes no Congresso. A
estabilidade de preços é de facto uma ferramenta da "guerra
de classes" chefiada pelos interesses financeiros dos bancos nacionais,
assim como pelo próprio Fed, contra os trabalhadores, agricultores e
comerciantes responsáveis do país. A dicotomia entre estabilidade
de preços e desemprego é mais uma relíquia da Idade
Média da qual emergiu o nosso sistema de banca central.
Estes pontos mostram que o objectivo duma política monetária
não deve ser nem a estabilidade de preços nem o pleno emprego.
Não só porque estes dois objectivos são
contraditório, como porque ambos exigem uma situação
estática da economia em que não existam quaisquer
mudanças. Claro está que nunca existe uma situação
destas, a não ser provavelmente na morte. Como disse Heraclito,
"Não há nada imutável a não ser a
mudança". Nada que tenha vida está isento de mudança,
como toda a gente sabe. E a economia de um país é sem
dúvida uma coisa viva.
Isto leva-nos a uma avaliação do que deveria ser realmente o
objectivo da política monetária. Dada a presença
irrefutável de mudanças permanentes na vida, a estabilidade de
preços como uma âncora que por si só pode afastar a
incerteza, é uma ilusão. Claro que a estabilidade de
preços é apenas uma fachada para o que o Fed está de facto
a tentar fazer, ou seja, lucros estáveis para os que emprestam dinheiro
a juros, sejam instituições, sejam indivíduos. Conforme
já dito anteriormente, o dinheiro é considerado assim como uma
mercadoria e uma constante matemática. Esta filosofia de rigidez eleva o
dinheiro ao estatuto de um ídolo pagão a que devem ser
sacrificados todos os outros valores económicos, assim como todos os
seres humanos.
Hoje em dia, o dinheiro também é, ou devia ser, encarado como no
início, um instrumento criado pela lei para funcionar como meio de
troca, facilitando o comércio legítimo de bens e serviços
no seio da economia. O Federal Reserve e os financeiros não encaram o
dinheiro dessa maneira. O termo técnico para a definição
de dinheiro como se fosse uma mercadoria é "valor
intrínseco". Significa que o dinheiro é essencialmente o
mesmo, quer seja utilizado ou não. Mas isso nunca pode acontecer.
Voltando à estabilidade de preços, é óbvio que uma
situação destas é também inatingível devido
às leis da física. Muito pelo contrário, os preços
têm que subir constantemente, a não ser que sejam reprimidos por
forças antinaturais, devido a) ao princípio físico da
entropia, ou lei de recursos em diminuição; e b) ao consumo de
recursos empregues na produção. Isto continua a acontecer
até se conseguirem progressos tecnológicos que melhorem a
produtividade através da aplicação do engenho e da
criatividade humanas. Esses progressos criam ganhos em eficácia e
produtividade e, em muitos casos, altera-se o quantum através de linhas
de produtos e indústrias totalmente novas. Assim sendo, os preços
têm que ser sempre flutuantes.
Isso aconteceu, por exemplo, com o domínio da electricidade por Edison,
com a produção em massa de automóveis de Henry Ford, com o
desenvolvimento dos aviões e viagens aéreas, e com a
criação da indústria de microcomputadores por
intermédio do programa espacial. Na verdade, o exemplo do quantum
físico é instrutivo, visto que ele postula um universo de
criatividade incessante em contraste com o dogma medieval de escassez e luta
entre classes sociais pelo direito a existir. A perspectiva mais optimista das
possibilidades humanas exemplificada pela ciência moderna produziu a
explosão do desenvolvimento económico mundial a partir das
descobertas do Renascimento Europeu iniciadas por volta de 1450.
Esta discussão coloca também algumas questões
filosóficas sobre a natureza do homem. Nesta perspectiva, todas as
ideologias associadas aos conceitos do Darwinismo social, por exemplo,
têm que ser encaradas como pressupondo um nível de
consciência essencialmente animalesco, conforme expresso historicamente
através das barbaridades da Idade Média europeia. Segundo esta
ideologia, que pode ter dado origem ao actual sistema bancário e
à escola da economia do laissez-faire, as pessoas são animais que
lutam por recursos finitos como cães esfomeados.
Mas, se fosse verdade que quem sobrevive são os cães maiores,
mais ferozes, mais cruéis, ou seja, "os mais aptos",
então a humanidade tinha que estar obrigatoriamente no fim de uma
espiral evolucionária descendente. Mas isso contraria a
experiência humana, onde se pode discernir nitidamente uma
tendência progressista ao longo de uma análise prolongada da
história da humanidade. Parece que a humanidade tem aprendido alguma
coisa, embora por vezes pareça que aprendemos da forma mais
difícil e por cada passo que avançamos, damos meio passo para
trás. Contrariamente às ideologias baseadas na selvajaria humana
e a qualquer ideologia que considere o potencial do homem inferior a
quedas infinitas nessa categoria a abordagem do quantum na economia
define um mundo que é verdadeiramente humano ao considerar as
possibilidades infindáveis expressas no ambiente material para a
criatividade, a imaginação e a evolução. Um sistema
monetário digno de apoio tem pois que facilitar estas
características.
Uma abordagem humanista do desenvolvimento económico não
significa que o pleno emprego se torne numa imagem esculpida para
adoração, substituindo a estabilidade dos preços. Nunca se
poderá atingir o pleno emprego. Como todos os economistas sabem,
há empregos que estão constantemente a tornar-se obsoletos,
também em consequência das mesmas forças de mudança.
Assim, é de aceitar um certo nível de "desemprego
estrutural" como questão prática. Trata-se apenas de bom
senso. Mas isso leva também à obrigação social de
apoiar os trabalhadores despedidos até eles poderem ser readaptados ou
transferidos para trabalhar noutros locais utilizando ferramentas e
procedimentos aperfeiçoados.
Significa também que o objectivo de uma política monetária
e política deve substituir o actual paradigma baseado primeiro que tudo
e antes do mais nos lucros dos que emprestam dinheiro por outro que possa
facilitar a adaptação à mudança e a ultrapassagem
da entropia, apoiando as necessidades humanas da força de trabalho. Pode
também significar reformas para que as pessoas possam finalmente
começar a gozar os dividendos de ócio que deviam resultar do
desenvolvimento tecnológico e não fossem obrigadas a trabalhar
permanentemente.
Como é se pode fazer isto? Precisamente através dos
métodos implícitos ou estabelecidos nos documentos fundadores da
cultura americana, como a Declaração de Independência,
redigida por Thomas Jefferson, que afirma, "Todos os homens nascem
iguais". Portanto, a todos deve ser dada igual possibilidade de viver,
crescer e adaptar-se à mudança, sem que haja colisão com
os direitos dos outros a fazer o mesmo.
Mais ainda, o Preâmbulo da Constituição estabelece o
princípio do bem estar geral, não só para a sociedade
existente, mas para a posteridade. Portanto, a lei e a consciência exigem
que o governo proporcione os meios para que tal seja alcançado.
Através da experiência podemos ver claramente que isso inclui uma
educação decente, o acesso à água e ao saneamento
básico, um local limpo e saudável para viver, o acesso aos
recursos energéticos, a cuidados de saúde adequados, a
transportes, etc. É da responsabilidade dos adultos contribuir para
tornar disponível tudo isto, não só para eles
próprios e suas famílias, mas para toda a sociedade.
Estes elementos de infra-estrutura social tornam-se portanto uma
exigência da vida comum e é dever do governo representativo a
todos os níveis implementá-los. A partir daí, as pessoas
podem construir a vida económica a que têm direito através
do sistema competitivo de empresa privada que define a economia americana.
Qualquer país moderno de sucesso tem uma combinação de uma
sólida infra-estrutura pública com um sector privado
dinâmico, em vez de uma baseada na "privatização"
crescente dos serviços públicos.
É dever dos responsáveis pelas políticas monetárias
e económicas facilitar o desenvolvimento duma sociedade assim. Mas
actualmente, nem o Federal Reserve, nem outras entidades como o Congresso ou o
Departamento do Tesouro, nem o gabinete executivo do Presidente estão a
cumprir o cargo como deviam. Pelo contrário, estão a manipular o
sistema monetário para vantagem e benefício de bancos privados e
de mercados financeiros privados. Isto é incorrecto, e tem que ser
alterado.
Podíamos olhar para a questão da inflação por outro
ângulo, aquele que os economistas têm assinalado, de que os
períodos de inflação parece coincidirem com os de guerra.
As causas desta confluência parecem complexas e podem incluir a
manipulação de preços por parte dos fornecedores do
governo, o medo e o pânico que levam as pessoas a inflacionar os
preços para garantir a sua situação económica, um
prémio integrado nos preços para compensar a atmosfera geral de
incerteza económica, ou o influxo súbito de dinheiro novo devido
à precipitada contracção de um empréstimo pelo
governo. Provavelmente todos estes factores desempenham o seu papel. Se
voltarmos a olhar para a história da inflação de
preços desde 1915, reparamos numa subida acentuada dos preços
durante os períodos da I e da II Guerras Mundiais. Isto acentua a
confirmação da hipótese de um elo com a
inflação.
Mas e então esta vaga de inflação mais alta desde 1965? O
que é típico neste período é que a
nação tem estado numa situação de permanente
mobilização para a guerra desde o conflito do Vietname. Seria
necessária uma grande quantidade de investigação
económica para testar a hipótese de que o alto nível de
gastos com a defesa tem provocado de facto uma alta inflação, mas
um estudo desses teria muito interesse.
Pode acrescentar-se outra hipótese que será difícil de
medir mas que também devia ser considerada. E é que esse dinheiro
gasto numa permanente mobilização para a guerra é
essencialmente não produtivo em termos de produção de bens
e serviços de valor para a economia civil, mais alargada; ou seja, tem
um efeito multiplicador relativamente baixo. Os custos com a guerra
também podem ser menos aptos para estimular o tipo de
investigação científica e o desenvolvimento
necessário para melhorar a economia na maior parte dos aspectos da vida
quotidiana. Nunca obtivemos os "dividendos da paz" que nos prometeram
que iríamos obter, resultantes do fim da Guerra Fria. Pelo
contrário, o complexo militar-industrial progrediu sem cessar até
que neste momento a Guerra contra o Terrorismo e as possíveis futuras
guerras contra o Irão e outros países proporcionam uma nova
justificação para uma perpétua mobilização
para a guerra.
A questão económica é saber se uma sociedade em guerra
permanente ou que está sempre a preparar-se para a guerra tem
condições para ultrapassar a entropia natural que levará a
que os seus procedimentos de produção se tornem cada vez menos
eficazes. Se não tiver essas condições, então
não há reforma que possa resolver os seus problemas. Sabemos que
nenhuma civilização da história, que tenha tido a guerra
como preocupação principal, sobreviveu durante muito tempo, a
não ser quando percebeu o erro da sua opção e a alterou,
ou então quando acabou por ser destruída.
A antiga Grécia nunca recuperou depois das Guerras do Peloponeso. O
Império Romano, endividado e socialmente estratificado, esgotou-se num
braseiro de conflitos militares e depois assistiu à sua derrota e
dissolução. O Império Britânico entrou em
falência numa só geração, entre 1914 e 1945. Os EU
cambaleiam agora à beira do maior colapso financeiro. Na verdade, os que
têm dinheiro estão a tentar proteger a sua riqueza pela calada,
enquanto que os desgraçados que estão pesadamente hipotecados ou
encurralados em pensões de reforma estáticas ficam para
trás a sofrer as consequências. Será que o Império
Americano consegue sobreviver às forças económicas que
condenaram os impérios do passado? Ou será que o "Novo
Século Americano", como há quem lhe chame, virá a ser
o "Século Não Americano"?
[1] Papel moeda emitido pelo governo dos EUA em 1862 durante a Guerra Civil
(assim chamados porque a parte de trás era impressa a verde).
[2] Acerca da reserva bancária divisionária ver também
Segredos do dinheiro, dos juros e da inflação,
http://resistir.info/financas/secrets_of_money_p.html
[*]
Analista federal reformado. Sua carreira incluiu a prestação
de serviços na U.S. Civil Service Commission, na Food and Drug
Administration, na Casa Branca de Carter, e na NASA, seguido por vinte e um
anos no Departamento do Tesouro dos EUA. Os seus artigos sobre reforma
monetária, economia e política especial têm aparecido em
Global Research, Economy in Crisis, Dissident Voice, Atlantic Free Press, e
outros. É o autor de "Challenger Revealed: An Insider's Account of
How the Reagan Administration Caused the Greatest Tragedy of the Space
Age." A sua URL é www.richardccook.com.
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=6966
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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