Enganados novamente
A esperança ingênua dos apoiantes de Bernie Sanders
construir um movimento político de bases, mudar o partido
democrático por dentro e empurrar Hillary Clinton para a esquerda
fracassaram. H. Clinton, ciente de que as camadas liberais e a esquerda
não irão exercer uma genuína resistência, prossegue
tendo Mitt Romney como instrumento. As elites empresariais em todo o espectro
político, republicano e democrata, uniram-se alegremente para consagrar
o seu Presidente. Tudo o que resta da "revolução"
Sanders é um modo de obter isenção de impostos
[1]
projetado para arrecadar dinheiro, incluindo de doadores anônimos, ricos,
para garantir que ele será um senador vitalício. Como Karl Marx
ironizou, os grandes acontecimentos históricos acontecem duas vezes,
primeiro como tragédia e depois como farsa.
A extravagância de milhares de milhões de dólares do nosso
circo eleitoral é parte da cortina de fumo que cobre a
devastação em curso promovida pela globalização:
desindustrialização, acordos de comércio como a Parceria
do Transpacífico (TPP), guerras sem fim, alterações
climáticas
[NR]
e a intrusão em cada recanto das nossas vidas pela segurança e
vigilância do Estado. A nossa democracia está morta.
Clinton e Donald Trump não têm o poder ou o interesse em
reaviva-la. Eles ajoelham-se diante da máquina de guerra, que consome
milhões de milhões de dólares para travar guerras
inúteis e exibir um poder militar exagerado. Desafiar a força do
Estado é suicídio político, porém para a Wall
Street os políticos não passam de cortesãos. Os candidatos
enchem a boca de frases feitas sobre justiça, melhorias na igualdade de
rendimentos e escolhas democráticas, mas é um jogo cínico.
Assim que termina, os vencedores vão para Washington trabalhar com
lobistas e elites financeiras levando a cabo os verdadeiros processos de
decisão.
Embora haja uma diferença no temperamento dos dois principais candidatos
presidenciais, essa diferença influi apenas na forma como o veneno nos
será ministrado. As personalidades da política servem os centros
do poder empresarial global, não os controlam. Barack Obama ilustra isto
mesmo.
Para os neoliberais tudo e todos são descartáveis. Os Estados
falhados que criaram em todo o Médio Oriente, África,
Cáucaso e Ásia com o fim da guerra fria representam o que
há a esperar de um mundo neoliberal, impulsionado pela ganância,
corrupção, violência e desespero.
Os traficantes de drogas, contrabandistas, piratas, sequestradores, jihadistas,
gangues criminosas e milícias que vagueiam em enormes áreas de
território onde a autoridade central desapareceu são os
verdadeiros rostos da globalização. Estes niilistas constituem o
Estado islâmico, assim como constituem o Estado das transnacionais. A
corrupção pode estar mais à vista e ser mais rudimentar no
Afeganistão ou no Iraque, mas tem seu paralelo na venda dos
políticos e partidos políticos que dominam nos Estados Unidos e
na Europa. O bem comum a construção de comunidade e
solidariedade foi substituído por décadas de
doutrinação a favor da empresa privada com apelos para se
acumular tudo o que se puder para si próprio e deixar os outros a
sangrar na berma da estrada.
Será a Goldman Sachs, que manobra os preços futuros de arroz,
trigo, milho, açúcar e gado para os fazer subir no mercado
global, deixando as pessoas pobres e vitimas da fome na África,
Ásia, Oriente Médio e América Latina, moralmente menos
repugnante do que o traficante de drogas? Serão os pilotos de F-16 que
incineram famílias em Raqqa moralmente distintos dos jihadistas que
queimaram numa gaiola um piloto jordaniano capturado? Será a tortura num
dos nossos locais secretos ou em colônias penais offshore menos
bárbara que a tortura às mãos do estado islâmico?
Será a decapitação de crianças por drones militares
mais defensável do que a decapitação de trabalhadores
egípcios numa praia da Líbia por autodesignados guerreiros
sagrados? É Heather Bresch, o administrador executivo da Mylan, que
aumentou os preços do salva-vidas EpiPen em 400% ou mais, e que passou
desde 2007 a auferir mais 600% acima de 18 milhões de
dólares por ano menos venal do que um traficante que envia um
barco sobrecarregado e seus ocupantes para a morte ao largo da Líbia.
Há uma nova ordem mundial. Está baseada na
exploração nua e crua. Não na democracia, é o que
nós temos exportado em todo o globo. E isto se parece muito com
o Estado anárquico que Hobbes temia
. As gangues que entregam os migrantes para a
Europa fazem aproximadamente 100 milhões de dólares por mês
pelo seu trabalho. Exploram o tráfego de seres humanos como apenas os
altamente pagos executivos das grandes empresas fazem.
Os Estados falhados do Iraque, da Síria e da Líbia, um resultado
direto da globalização, têm a sua contrapartida em Detroit,
St Louis, Oakland, Memphis, Baltimore, Atlanta, Milwaukee e o lado sul de
Chicago. Eles são as nossas versões de Mogadíscio, com
ilegalidade, mortes sem sentido, bandos armados, fome generalizada, medo, uma
população que se abandona no abraço entorpecente de
opiáceos, crescente pobreza, instituições de um Estado
disfuncional, o crescimento de empresas de segurança privadas para
protegerem as elites e violência indiscriminada da polícia que
cria um reinado de terror visando os pobres.
Quanto mais as forças do capitalismo transnacional extraem de nós
em nome da austeridade e da maximização do lucro, mais zonas dos
EUA vão decair para versões domésticas dos Estados
falhados no exterior. O mesmo sistema existe aqui e no exterior. E tem o mesmo
resultado aqui e no exterior. Pode aparecer primeiro na Somália, Mali,
Guiné-Bissau e Líbia, mas em breve virá a caracterizar
grande parte da América. A proliferação de armas
fará na nossa sociedade o que tem feito em todos ou outros Estados
falhados onde houve acesso descontrolado aos arsenais entregar o poder
àqueles com pendor para a violência.
Escreveu Elias Canetti em
Multidões e poder (Crowds and Power):
"Quem queira governar os homens tem primeiro que tentar
humilhá-los, enganá-los acerca dos seus direitos e sua capacidade
de resistência, até que eles se tornem tão impotentes como
animais. Ele depois usa-os como animais e, mesmo que não lhes diga isso,
sabe muito claramente que significam muito pouco para ele; quando fala aos seus
mais próximos chamará os outros de carneiros ou gado. Seu
objetivo final é incorporá-los em função dos seus
interesses e sugar-lhes toda a substância. O que resta deles depois,
não importa. Quanto pior os tratou mais os despreza. Quando não
têm mais utilidade, descarta-os como faz com excrementos, bastando saber
que não envenenam o ar da sua casa".
A História demonstrou amplamente como isto vai acabar. A persistente
exploração por uma elite descontrolada, o aumento dos
níveis de pobreza e insegurança, desencadeará uma
legítima revolta entre os desesperados. Eles vão perceber o que
se passa para além das mentiras e da propaganda das elites. Vão
exigir redistribuição de rendimentos. Voltarão para
aqueles que expressam o ódio que sentem pelos poderosos e pelas
instituições que foram projetadas para dar-lhes voz, mas que
agora servem para os enganar. Buscarão não reformas, mas a
destruição de um sistema que os traiu. Estados falhados a
Rússia czarista, a República de Weimar, a antiga
Jugoslávia podem dar origem a monstruosidades políticas.
Connosco não será diferente.
Formas de fascismo já tomaram conta de duas nações da UE,
a Hungria e a Polónia. Partidos de extrema-direita, reagindo à
vaga de mais de 1 milhão de migrantes que caiu sobre a Europa no ano
passado, estão a ganhar terreno na França, Áustria,
Suécia, Alemanha e Grécia. O nacionalismo, alimentado por uma
deificação das forças armadas, será usado para
compensar a impotência individual e a perda da identidade nacional. Nos
EUA a dissidência tornar-se-á "antiamericana", uma forma
de traição. Os inimigos internos vão ser vilipendiados
juntamente com os inimigos externos. E isto levará a mais guerras no
Médio Oriente. Os partidos políticos de extrema-direita da Europa
Oriental alardeiam uma retórica de conflito militar com a Rússia.
Devido à sua associação com a NATO, os EUA seriam
obrigados a apoiar quaisquer hostilidades.
Votar em Hillary Clinton não irá interromper este deslize para o
apocalipse. Só vai acelerá-lo. Donald Trump pode desaparecer do
cenário político, mas alguém ainda mais venal e
provavelmente mais inteligente, vai tomar seu lugar. Nosso trabalho é
desmontar os mecanismos que nos estão a empurrar para o abismo. E isto
significa sustentada e maciça desobediência civil, como se tornou
evidente pelos protestos na
Reserva de Sioux Rock
e pelas
paragens de trabalho
de sexta-feira passada realizadas pelos presos de toda a nação.
Significa fazer todo o possível para não cooperar com os
elementos da autoridade. Significa interromper os mecanismos do poder.
Significa superar o medo. Significa não acreditar nas mentiras que nos
são ditas.
13/Setembro/2016
[1] O texto menciona "501(c) (4)", a secção do
código de impostos sobre rendimentos dos EUA que isenta
organizações de assistência social sem fins lucrativos. A
participação direta ou indireta ou intervenção em
campanhas políticas não está prevista nesta
isenção. No entanto, as atividades políticas de uma
organização de assistência social podem ficar ao abrigo do
clausulado da 501(c)(4) desde que não sejam a sua principal atividade.
[NR] Sempre houve alterações climáticas ao longo de toda a
história do planeta Terra. Assim, é incorrecto atribuí-las
à globalização. As referidas alterações
são apenas um outro nome para o hipotético aquecimento global.
Ver
A impostura global
.
[*]
Jornalista. Passou quase duas décadas como correspondente estrangeiro na
América Central, Médio Oriente, África e Balcãs.
Fez reportagens em mais de 50 países. Trabalhou para o
The Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News
e
The New York Times,
do qual foi correspondente no estrangeiro durante 15 anos.
O original encontra-se em
www.informationclearinghouse.info/article45448.htm
. Tradução de DVC.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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