O dilema do prisioneiro
A hipótese de Bretton Woods II

por Alejandro Nadal [*]

. Há uma pergunta que domina os círculos financeiros do mundo todo: Quanto tempo pode durar o principal devedor do mundo que vive de empréstimos? A resposta depende das expectativas dos seus credores. No fim, tudo se reduz a uma variante do bem conhecido dilema do prisioneiro: se se deixa de emprestar corre-se o risco de que o devedor não possa pagar jamais.

Os protagonistas deste dilema são os Estados Unidos e o resto do mundo ou, se se prefere, as economias da Ásia. Estas últimas estão a financiar o gigantesco défice em conta corrente dos estadunidenses. Enquanto a China e o Japão mantiverem sua paridade vinculada ao dólar e acumularem reservas nessa divisa, os Estados Unidos pensam que não diversificarão suas reservas mudando para outros activos, como por exemplo o euro. À sombra da China e do Japão gravitam economias mais pequenas, como a Tailândia, Malásia e Filipinas, que podem tirar proveito deste arranjo.

Desta forma, os bancos centrais da Ásia estão a reviver algo parecido ao sistema de paridades fixas e constituíram aquilo que os economistas do Deutsche Bank denominaram o sistema de Bretton Woods II (BWII).

Neste sistema, as economias emergentes da Ásia mantêm as suas moedas vinculadas ao dólar, de maneira análoga ao que faziam o Japão e a Europa no modelo original de Bretton Woods, e este sistema de paridades semi-fixas seria estável. A intervenção dos bancos centrais evitaria a apreciação das moedas asiáticas e permitiria continuar a financiar o enorme défice em conta corrente dos Estados Unidos.

Mas nem tudo é leite e mel. As reservas na China, Tailândia, Malásia e Filipinas, por exemplo, atingiram os US$230 mil milhões em 2004. Parte destas reservas provem do superávite em conta corrente destes países, mas 70% vem de entradas de capitais. A acumulação de reservas não pôde ser esterilizada e levou a um incremento na oferta monetária e a um aumento no crédito dos bancos. Por isso aumentaram os maus empréstimos, gerando borbulhas especulativas e aumentou a carteira dos créditos vencidos.

O caso da China é preocupante. Para este ano calcula-se que as reservas aumentarão para US$240 mil milhões. Menos da metade dessas reservas poderão ser esterilizadas pelo banco central, o que se traduzirá num aumento de 6% na base monetária, gerando maiores pressões inflacionárias. Se as autoridades chinesas decidirem esterilizar, terão que aumentar a taxa de juros, interrompendo o processo de ajuste e atraindo mais capitais num processo muito inestável.

A China e o Japão incorrem em grandes perdas ao manterem as suas reservas em dólares. Washington pensa que não lhes resta outro remédio senão continuar em frente porque ao diversificarem reservas provocariam um ajuste cambial no dólar com perdas astronómicas para esses países. Além disso, a depreciação da moeda estadunidense travaria as exportações para os Estados Unidos e o crescimento da China, com grandes repercussões sociais e, muito provavelmente, provocaria uma recessão mundial de alcance incalculável.

Nada disto convém à China, ao Japão ou à Europa. Por isso Washington pensa que mantem o resto do mundo preso pelo pescoço. As principais economias têm que aceitar o risco de perder com o ajuste do dólar. Estão presas no dilema do prisioneiro financeiro e têm de continuar a absorver papel verde com menor credibilidade e maiores riscos.

O corolário para Washington é que pode continuar o seu jogo irresponsável: pode reduzir impostos para os mais ricos, privatizar a segurança social desnecessariamente e com um grande custo fiscal, e pode dilapidar recursos na absurda guerra do Iraque. Além disso, pode manter uma taxa de poupança nacional líquida de 1,7%, a mais baixa das economias desenvolvidas, e acreditar que o resto do mundo continuará sempre a emprestar-lhe. Esta negligência benevolente de Washington face ao seu défice externo faz com que o BWII pareça o seu antecessor. Mas há que recordar que a negligência benevolente desmoronou-se em 1973 e Bretton Woods I desapareceu.

Os dados do problema são claros. A acumulação de reservas em dólares na China é insustentável. Como não é possível esterilizar toda a entrada de capitais, o excesso de investimentos, a especulação e a carteira vencida (que já atinge 50% do PIB) terão um impacto negativo decisivo, travando fortemente o crescimento e provocando uma crise parecida às das outras economias asiáticas em 1997.

Há evidentemente um problema compartilhado e os Estados Unidos não podem continuar a pretender que nada se passa. Pode manter a sua estratégia de não cooperação e forçar a China a continuar a financiar o seu jogo. Mas isto só vai adiar e tornar mais dura a aterrissagem. No fim, Bretton Woods II terminará num colapso doloroso se os Estados Unidos não corrigirem o seu défice fiscal e o seu desequilíbrio na conta corrente.

23/Fev/2005

[*] Economista, mexicano.

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/feb05/050223/027a1eco.php


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24/Fev/05