"A Constituição está em grave perigo"
Al Gore, antigo vice-presidente dos Estados Unidos, pronunciou em 16 de Janeiro
um importante discurso no Constitution Hall, em Washington.
Trata-se de um documento que assinala a ruptura de um homem do sistema
elemento altamente responsável do Partido Democrata e membro da elite do
poder com o governo fascizante encabeçado por Bush.
Isto significa o estalar,
à luz do dia, da unidade interna dentro da classe dominante dos EUA.
Logo após o seu pronunciamento desceu um silêncio de
chumbo sobre este libelo de Al Gore.
O seu discurso, uma importante peça
jornalística em si mesma, foi omitido pelo conspícuo
New York Times,
pelas cadeias de TV e pela maior parte dos media corporativos dos EUA.
Os servis media portugueses, por sua vez, procuraram, numas poucas linhas,
minimizar a dimensão, a amplitude e o alcance destas denúncias
reduziram-nas a um mero caso de escutas telefónicas.
Por isso mesmo resistir.info publica este discurso na íntegra.
Apesar das nossas diferenças ideológicas e políticas,
concordamos fortemente em que os valores americanos que consideramos mais caros
foram colocados em risco sério pelas inauditas pretensões da
administração a uma expansão do poder executivo que
é realmente de tirar o fôlego.
No princípio deste novo ano, o Ramo Executivo do nosso governo foi
apanhado a escutar às escondidas um enorme número de
cidadãos americanos e declarou arrogantemente que tem o direito
unilateral de continuar a fazê-lo sem consideração para com
a lei estabelecida promulgada pelo Congresso a fim de impedir tais abusos.
É imperioso que o respeito pela regra da lei seja restaurado.
Assim, muitos de nós viemos aqui ao Constitution Hall a fim de soar um
alarme e apelar aos nossos companheiros cidadãos a porem de lado
diferenças partidárias e juntarem-se-nos na exigência de
que a nossa Constituição seja defendida e preservada.
É apropriado que façamos este apelo no dia que o nosso
país reservou para honrar a vida e o legado do Dr. Martin Luther King,
Jr., que desafiou a América a respirar o ar puro dos nossos antigos
valores com a extensão da sua esperança a todo o nosso povo.
Neste preciso Dia de Martin Luther King, é especialmente importante
recordar que durante os últimos anos da sua vida o Dr. King teve as suas
ligações telefónicas ilegalmente escutadas foi um
das centenas de milhares de americanos cujas comunicações
privadas foram interceptadas pelo governo dos EUA neste período.
O FBI, internamente, classificou King como "o líder negro mais
perigoso e efectivo do país" e jurou "derrubá-lo do seu
pedestal". O governo tentou mesmo destruir o seu casamento e chantageou-o
(blackmail him)
a cometer suicídio.
Esta campanha continuou até o assassínio do Dr. King. A
descoberta de que o FBI conduziu uma campanha duradoura e extensa de
vigilância electrónica secreta destinada a infiltrar os trabalhos
internos da Southern Christian Leadership Conference, e a saber os mais
íntimos pormenores da vida do Dr. King, ajudaram a convencer o Congresso
a promulgar restrições às escutas electrónicas
(wiretapping).
O resultado foi o
Foreign Intelligence and Surveillance Act
(FISA), o qual foi
aprovado expressamente para assegurar que a vigilância da
inteligência estrangeira seria apresentada a um juiz imparcial a fim de
verificar se há causa suficiente para tal vigilância. Votei por
esta lei durante o meu primeiro mandato no Congresso e durante quase trinta
anos o sistema demonstrou-se praticável e meio valioso de conceder um
nível de protecção a cidadãos privados, ao mesmo
tempo que permitia continuar a vigilância estrangeira.
Contudo, apenas um mês atrás, os americanos acordaram para as
chocantes notícias de que apesar desta lei há muito estabelecida,
o Ramo Executivo estivera a espiar secretamente grande número de
americanos durante os últimos quatro anos e a escutar secretamente
(eavesdropping)
"grandes volumes de chamadas telefónicas, mensagens email, e
outros tráfegos de Internet dentro dos Estados Unidos". O
New York Times
relatou que o presidente decidiu lançar este maciço programa de
escutas secretas "sem autorizações de busca ou quaisquer
novas leis que permitissem tal colecção de inteligência
interna".
Durante o período em que as escutas eram ainda secretas, o presidente
saiu do seu caminho para reassegurar o povo americano em mais de uma
ocasião de que, naturalmente, é exigida permissão judicial
a qualquer governo para espiar cidadãos americanos e que, naturalmente,
estas salvaguardas constitucionais ainda estavam em vigor.
Mas, surpreendentemente, as declarações tranquilizadoras do
presidente revelaram-se ser falsas. Além disso, tão logo este
maciço programa de espionagem interna foi descoberto pela imprensa, o
presidente não só confirmou que a notícia era verdadeira
como também declarou que não tinha intenção de por
fim a estas invasões por atacado da privacidade.
Neste momento, ainda temos muito a aprender acerca da vigilância interna
da National Security Agency (NSA). O que sabemos acerca destas escutas
secretas generalizadas praticamente obriga-nos à conclusão de que
o presidente dos Estados Unidos tem estado a infringir a lei repetidamente e
persistentemente.
UM PRESIDENTE QUE INFRINGE A LEI
Um presidente que infringe a lei é uma ameaça à
própria estrutura do nosso governo. Nossos Pais Fundadores estavam
certos de que haviam estabelecido um governo da lei e não dos homens.
Na verdade, eles reconheciam que a estrutura de governo que haviam santificado
na nossa Constituição nosso sistema de pesos e contrapesos
(checks and balances)
fora concebida com a finalidade central de assegurar que governariam
através da regra da lei. Como disse John Adams: "O executivo
nunca exercerá os poderes legislativo e judicial, ou um deles, a fim de
que possa haver um governo de leis e não de homens".
Um executivo que se arroga o poder de ignorar as directivas legítimas do
Congresso ou de actuar liberto do controle do judiciário torna-se a
ameaça central que os Fundadores tentavam anular na
Constituição um executivo todo-poderoso que recordava
demasiado o rei de quem se haviam liberto. Nas palavras de James Madison,
"a acumulação de todos os poderes, legislativo, executivo e
judiciário, nas mesmas mãos, seja de um, uns poucos, ou muitos, e
seja hereditário, auto-designado, ou eleito, pode justamente ser
expresso como a própria definição de tirania".
Thomas Paine, cujo panfleto, "Sobre o bom senso"
("On Common Sense")
acendeu a Revolução Americana, descreveu sucintamente a
alternativa da América. Aqui, disse ele, pretendemos assegurar que
"a lei é rei".
A fidelidade vigilante à regra da lei fortalece a nossa democracia e
fortalece a América. Assegura que aqueles que nos governam operam
dentro da nossa estrutura constitucional, o que significa que nossas
instituições democráticas desempenham seu papel
indispensável em modelar a política e determinar a
direcção do nosso país. Isto significa que o povo deste
país determina finalmente o seu curso e não responsáveis
executivos a operarem em segredo sem constrangimento.
A regra da lei torna-nos mais fortes ao assegurar que as decisões
serão testadas, estudadas, revistas e examinadas através de
processos de governo que são concebidos para melhorar a política.
E o conhecimento de que eles serão revistos impede ultrapassagens e
controla o acréscimo de poder.
A MENTIRA DO INCIDENTE DO GOLFO DE TONQUIM
Um compromisso de abertura, honestidade e responsabilização
também ajuda o nosso país e evita erros muito sérios.
Recentemente, por exemplo, soubemos, através de documentos classificados
que foram recentemente desclassificados, que a Resolução do Golfo
de Tonquim, que autorizou a trágica Guerra do Vietnam, foi realmente
baseada em informação falsa. Agora soubemos que a decisão
do Congresso de autorizar o Guerra do Iraque, 38 anos depois, foi também
baseada em informação falsa. A América teria estado numa
situação melhor sabendo a verdade e evitando ambos destes erros
colossais na nossa história. Seguir a regra da lei torna-nos mais
seguros, não mais vulneráveis.
O presidente e eu concordamos numa coisa. A ameaça do terrorismo
é inteiramente real. Simplesmente não há dúvida de
que continuamos a enfrentar novos desafios na sequência do ataque do 11
de Setembro e que devemos estar sempre vigilantes a proteger nossos
cidadãos de danos.
Onde discordamos é que tenhamos de quebrar a lei ou sacrificar nosso
sistema de governo para proteger americanos de terrorismo. De facto, assim
fazer torna-nos mais fracos e mais vulneráveis.
Uma vez violada, a regra da lei está em perigo. Se não for
travada, a ilegalidade cresce. Quanto maior se tornar o poder do executivo,
mais difícil ficará para os outros ramos desempenhar os seus
papeis constitucionais. Como o executivo actua fora do papel que lhe é
constitucionalmente prescrito e é capaz de controlar o acesso à
informação que exporia suas acções, torna-se cada
vez mais difícil aos outros ramos policiá-lo. Uma vez perdida
tal capacidade, a própria democracia está ameaçada e
torna-se um governo de homens e não de leis.
Os homens do presidente têm falado de forma gentil acerca das leis da
América. O Procurador Geral admitiu abertamente que a
"espécie de vigilância" que agora sabemos terem eles
estado a efectuar exige uma ordem judicial a menos que autorizada pelo
estatuto. O Foreign Intelligence Surveillance Act muito evidentemente
não autoriza aquilo que o NSA tem estado a fazer, e ninguém
dentro ou fora da administração afirma que sim. Incrivelmente, a
administração afirma ao invés disso que a vigilância
foi implicitamente autorizada quando o Congresso votou pelo uso da força
contra aqueles que nos atacaram no 11 de Setembro.
Este argumento simplesmente não colhe. Sem entrar dentro das
intrincancias legais, ele confronta-se com um certo número de factos
embaraçosos. Primeiro, uma outra confissão do Procurador Geral:
ele admite que a administração sabia que o projecto da NSA era
proibido pela lei existente e que eles consultaram alguns membros do Congresso
acerca da mudança de estatuto. Gonzalez diz que lhes foi dito que isto
provavelmente não seria possível. Assim, como podem eles agora
argumentar que a Autorização para o Uso de Força Militar
(Authorization for the Use of Military Force, AUMF)
de alguma forma implicitamente autorizava isto tudo a avançar? Segundo,
quando a Autorização estava a ser debatida, a
administração procurou de facto ter uma linguagem inserida dentro
daquilo que os teria autorizado a usar força militar internamente
e o Congresso não concordou. O senador Ted Stevens e o representante
Jim McGovern, entre outros, fizeram declarações durante o debate
da Autorização reiterando claramente que aquela
Autorização não operava internamente.
Quando o presidente Bush fracassou em convencer o Congresso a dar-lhe todo o
poder que pretendia ao aprovar o AUMF, ele secretamente assumiu aquele
poder de qualquer forma, como se a autorização congressual fosse
um aborrecimento inútil. Mas, como escreveu outrora Justice
Frankfurter, "Encontrar autoridade tão explicitamente retirada
não é meramente desprezar num exemplo particular a vontade clara
do Congresso. É desprezar a totalidade do processo legislativo e a
divisão constitucional de autoridade entre o Presidente e o
Congresso".
Este é precisamente o "desprezo" pela lei que o Supremo
Tribunal deitou abaixo no caso da dominação férrea.
É este mesmo desprezo pela Constituição da América
que trouxe agora a nossa república à beira de uma ruptura
perigosa no tecido da Constituição. E o desprezo corporificado
nestas aparentes violações em massa da lei faz parte de um
padrão mais vasto de aparente indiferença para com a
Constituição que está a perturbar profundamente
milhões de americanos em ambos os partidos políticos.
Por exemplo: o presidente também declarou que tem um poder inerente,
até aqui não reconhecido, para capturar e aprisionar qualquer
cidadão americano que ele sozinho considera ser uma ameaça ao
nosso país, e que, não obstante sua cidadania americana, a pessoa
aprisionada não tem direito a conversar com um advogado nem mesmo
a argumentar que o presidente ou os seus nomeados cometeram um erro e
aprisionaram a pessoa errada.
O presidente afirma que pode aprisionar cidadãos americanos
indefinidamente pelo resto das suas vidas sem um mandado de prisão
(arrest warrant),
sem notificá-los acerca das acusações que impendem contra
eles, e sem informar as suas famílias de que foram aprisionados.
Ao mesmo tempo, o Ramo Executivo tem reivindicado uma autoridade anteriormente
não reconhecida para maltratar prisioneiros sob a sua custódia de
formas que claramente constituem tortura, num padrão que agora foi
documentado em instalações dos EUA localizadas em vários
países por todo o mundo.
Mais de 100 destes cativos foram confirmadamente mortos enquanto estavam a ser
torturados pelos interrogadores do Ramo Executivo e muitos mais foram mutilados
e humilhados. Na notória prisão de Abu Ghraib, investigadores
que documentaram o padrão de tortura estimam que mais de 90 por cento
das vítimas estavam inocentes de quaisquer acusações.
VERGONHOSO EXERCÍCIO DE PODER
Este vergonhoso exercício de poder subverte um conjunto de
princípios que o nosso país tem observado desde que o general
Washington os enunciou pela primeira vez durante a nossa Guerra
Revolucionária e que têm sido observados por todos os presidentes
desde então até agora. Estas práticas violam as
Convenções de Genebra e a Convenção Internacional
Contra a Tortura, sem mencionar as nossas próprias leis contra a tortura.
O presidente também afirmou que tem autoridade para sequestrar
indivíduos em países estrangeiros e entregá-los para
aprisionamento e interrogatório em nosso nome a regimes
autocráticos em países que são infames pela crueldade das
suas técnicas de tortura.
Alguns dos nossos aliados tradicionais ficaram chocados por estas novas
práticas da parte do nosso país. O Embaixador Britânico no
Uzbequistão um daqueles países com pior
reputação por tortura nas suas prisões registou uma
queixa junto ao seu ministério acerca da insensatez e crueldade da nova
prática americana: "Este material é inútil
estamos a vender nossas almas por dejectos. Isto é de facto
positivamente daninho".
Poderá ser verdadeiro que algum presidente tenha realmente tais poderes
sob a nossa Constituição? Se a resposta for "sim",
então, sob a teoria pela qual estes actos são cometidos,
haverá quaisquer actos que possam ser proibidos? Se o presidente tem a
autoridade inerente para efectuar escutas secretas, aprisionar cidadãos
à sua própria vontade, sequestrar e torturas, então o que
é que ele não pode fazer?
O Deão da Yale Law School, Harold Koh, depois de analisar as
afirmações do Ramo Executivo acerca destes poderes anteriormente
não reconhecidos, disse: "Se o presidente tem poder de
comandante-em-chefe para cometer tortura, ele tem o poder para cometer
genocídio, para aprovar a escravidão, para promover o apartheid,
para autorizar a execução sumária".
O facto de as nossas salvaguardas normais terem até agora falhado na
contenção desta expansão sem precedentes do poder
executivo é profundamente perturbador. Este fracasso é em parte
devido ao facto de que o Ramo Executivo tem seguido uma estratégia
determinada a confundir, retardar, reter informação, aparentar
capitular mas a seguir recusar-se a faze-lo e dissimular a fim de frustrar os
esforços dos ramos legislativo e judicial para restaurar nosso
equilíbrio constitucional.
Por exemplo: depois de aparentemente apoiar a legislação
patrocinada por John McCain no sentido de travar a continuação da
tortura, o presidente declarou no acto de assinar a lei que se reservava o
direito de não cumprir com a mesma.
De modo semelhante, o Ramo Executivo afirmou que podia unilateralmente
aprisionar cidadãos americanos sem lhes dar acesso a revisão por
qualquer tribunal. O Supremo Tribunal discordou, mas o presidente empenhou-se
em manobras legais destinadas a impedir o Tribunal de proporcionar
conteúdo significativo aos direitos dos seus cidadãos.
Um jurista conservador do Fourth Circuit Court of Appeals escreveu que o
tratamento do Ramo Executivo de um tal processo parecia envolver o
súbito abandono do princípio "a custos substanciais para a
credibilidade do governo perante os tribunais".
Em resultado da sua reclamação sem precedentes de novos poderes
unilaterais, o Ramo Executivo acaba de colocar em grave risco o nosso
desígnio constitucional. Os riscos para a democracia representativa na
América são muito mais elevados do que tem sido geralmente
reconhecido.
Estas reclamações devem ser rejeitadas e restaurado um
saudável equilíbrio de poder na nossa República. Em caso
contrário, a natureza fundamental da nossa democracia poderá
muito bem sofrer uma transformação radical.
Durante mais de dois séculos as liberdades da América têm
sido preservadas em parte pela sábia decisão dos nossos
fundadores de separarem o poder agregado do nosso governo em três ramos
equiparados, cada um dos quais serve para controlar e equilibrar o poder dos
outros dois.
Em mais do que umas poucas ocasiões, a interacção
dinâmica entre todos os três ramos resultou em colisões e
impasses temporários que criam aquilo que é invariavelmente
etiquetado "crise constitucional". Estas crises muitas vezes foram
perigosas e trouxeram tempos incertos à nossa República. Mas em
cada um destes casos, até agora, encontrámos uma
solução para a crise através da renovação do
nosso acordo comum para viver sob a regra da lei.
O princípio alternativo à democracia ao longo da história
tem sido a consolidação de virtualmente todo o poder do estado
nas mãos de um único homem forte ou de um pequeno grupo que
exerce em conjunto aquele poder sem o consentimento informado dos governados.
Foi em revolta contra tal regime, afinal de contas, que a América foi
fundada. Quando Lincoln declarou ao tempo da nossa maior crise que a
questão final a ser decidida na Guerra Civil era "se aquela
nação, ou qualquer nação assim concebida, e assim
dedicada, poderia perdurar muito", ele não estava não
só a salvar nossa união como também a reconhecer o facto
de que democracias são raras na história. E quando elas
fracassam, como aconteceu com Atenas e a República Romana sobre cujas
concepções nossos fundadores muito aproveitaram, o que emerge em
seu lugar é um outro regime de homem forte.
Houve naturalmente outros períodos da história americana em que o
Ramo Executivo arrogou-se novos poderes que foram posteriormente considerados
excessivos e errados. Nosso segundo presidente, John Adams, aprovou o infame
Alien and Sediction Acts e reduziu ao silêncio e aprisionou
críticos e opositores políticos.
Quando o seu sucessor, Thomas Jefferson, eliminou os abusos ele disse:
"[Os princípios essenciais do nosso governo] constituem a brilhante
constelação que tem avançado diante de nós e guiado
nossos passos através de uma era de revolução e reforma...
Se deles nos desviarmos em momentos de erro ou de alarme, vamo-nos apressar
para voltar atrás sobre nossos passo e retomar a estrada que conduz
à paz, liberdade e segurança".
O nosso maior presidente, Abraham Lincoln, suspendeu o habeas corpus durante a
Guerra Civil. Alguns dos piores abusos anteriores àqueles da actual
administração foram cometidos pelo presidente Wilson durante e
após a Primeira Guerra Mundial com os notórios Red Scare
[1]
e o Palmer Raids
[2]
. O internamento de americanos de origem japonesa durante a Segunda Guerra
Mundial marcou um ponto baixo quanto ao respeito do direitos individuais nas
mãos do executivo. E, durante a Guerra do Vietnam, o notório
programa
COINTELPRO
foi parte integrante dos abusos experimentados pelo Dr. King e milhares de
outros.
Mas em cada um destes casos, quando o conflito e a agitação
acalmaram, o país recuperou o seu equilíbrio e absorveu as
lições aprendidas num ciclo recorrente de excesso e
arrependimento.
Há razões para preocupação desta vez quanto a que
as condições possam estar a mudar e que o ciclo possa não
repetir-se. Em primeiro lugar, temos durante décadas testemunhado a
lenta e firme acumulação de poder presidencial. Num ambiente
global de armas nucleares e tensões da guerra fria, o Congresso e o Povo
americano aceitaram sempre ampliar as esferas de iniciativa presidencial para
conduzir actividades de inteligência e contra-inteligência e para
dispor nossas forças militares no cenário global. Quando a
força militar tem sido utilizada como um instrumento de política
externa ou em resposta a pedidos humanitários, isto quase sempre tem
sido o resultado da iniciativa e liderança presidencial. Como escreveu
Justice Frankfurter no Steel Seizure Case, "A acumulação de
poder perigoso não chega num só dia. Ela vem, ainda que
vagarosamente, da força geradora do desrespeito sem peias das
restrições que cercam mesmo a maioria desinteressada da
afirmação da autoridade".
Uma segunda razão para acreditarmos que podemos estar a experimentar
algo novo é que a administração nos diz que o estado de
guerra sobre a qual tenta colocar o país é para perdurar
"até o fim pelo resto das nossas vidas". Assim, dizem-nos que
as condições de ameaça nacional que foram utilizadas por
outros presidentes para justificar usurpações de poder
persistirão em quase perpetuidade.
TECNOLOGIAS DE VIGILÃNCIA
Terceiro, precisamos estar conscientes dos avanços em escutas
clandestinas
(eavesdropping)
e tecnologias de vigilância com a sua capacidade para vasculhar e
analisar enormes quantidades de informação e peneirá-la
para inteligência. Isto acrescenta vulnerabilidade significativa
à privacidade e liberdade de enorme número de pessoas inocentes
juntamente com o poder potencial daquelas tecnologias. Estas tecnologias tem o
potencial para alterar o equilíbrio de poder entre o aparelho do estado
e a liberdade do indivíduo de modos tanto subtis como profundos.
Não me compreendam mal: a ameaça de ataques de terror adicional
é inteiramente real e seus esforços concertados para adquirir
armas de destruição em massa criam um imperativo real para
exercer os poderes do Ramo Executivo com rapidez e agilidade. Além
disso, há de facto um poder inerente que a Constituição
confere ao presidente para tomar acção unilateral para proteger o
país de uma ameaça súbita e imediata, mas é
simplesmente impossível definir precisamente em termos legais
exactamente quando aquele poder é apropriado e quando não
é.
Mas a existência daquele poder inerente não pode ser utilizada
para justificar uma captura de poder bruta e excessiva durável por anos
que produz um sério desequilíbrio no relacionamento entre o
executivo e os dois outros ramos do governo.
Há uma razão final para nos preocuparmos em que possamos estar a
experimentar algo mais do que apenas um outro ciclo de excesso e
arrependimento. Esta administração chegou ao poder sob o
domínio de uma teoria legal que pretende convencer-nos de que esta
concentração excessiva de autoridade presidencial é
exactamente o que pretendia a nossa Constituição.
Esta teoria legal, cujos proponentes chamam teoria do executivo unitário
mas que é mais precisamente descrita como teoria do executivo
unilateral, ameaça expandir os poderes do presidente até que os
contornos da constituição que os seus arquitectos realmente nos
deixaram se tornem obliterados para além de qualquer reconhecimento.
Sob esta teoria, a autoridade do presidente quando a actuar como
Comandante-em-Chefe ou quando a fazer política externa não pode
ser revista pelo judiciário ou verificada pelo Congresso. O presidente
Bush tem pressionado as implicações desta ideia ao seu ponto
máximo ao enfatizar continuamente seu papel como Comandante-em-Chefe,
invocando-o tão frequentemente quanto pode, misturando-o com os seus
outros papeis, internos e externos. Quando acrescentado à ideia de que
entrámos num estado de guerra perpétuo, as
implicações desta teoria estendem-se bastante literalmente num
futuro tão distante quanto possamos imaginar.
Este esforço para reformular a concepção constitucional
cuidadosamente equilibrada da América numa estrutura desigual (lopsided)
dominada por um Ramo Executivo todo poderoso com um Congresso e
judiciário subservientes é ironicamente acompanhado
por um esforço por parte da mesma administração para
reformular a política externa da América daquela que é
baseada primariamente sobre a autoridade moral dos EUA numa baseada num
desorientado e auto-derrotante esforço para estabelecer dominância
no mundo.
INSTINTO PARA INTIMIDAR E CONTROLAR
O denominador comum parece estar baseado num instinto para intimidar e
controlar.
O mesmo padrão tem caracterizado o esforço para silenciar
visões divergentes dentro do Ramo Executivo, para censurar
informação que possa ser inconsistente com os seus declarados
objectivos ideológicos, e para exigir conformidade a todos os empregados
do Ramo Executivo.
Exemplo: Analistas da CIA que discordem fortemente da afirmação
da Casa Branca de que Osama bin Laden estava ligado a Saddam Hussein
descobriram-se sob pressão no trabalho e tornaram-se temerosos de perder
promoções e aumentos de salários.
Ironicamente, foi exactamente o que acontecer a responsáveis do FBI na
década de 1960 que discordaram da visão de J. Edgar Hoover de que
o Dr. King estava estreitamente ligado aos comunistas. O cabeça da
divisão de inteligência interna do FBI disse que o seu
esforço para contar a verdade acerca da inocência de King quanto
àquela acusação resultou em que ele e os seus colegas
ficaram isolados e sob pressão. "Era evidente que tínhamos
de mudar nossos caminhos ou estaríamos todos na rua... Os homens e eu
discutimos como nos livrarmos do problema. Ter problemas com o sr. Hoover era
um assunto sério. Estes homens estavam a tentar comprar casas, tinham
hipotecas sobre elas, filhos na escola. Eles viviam no medo de serem
transferidos, perderem dinheiro com as suas casas, como acontecia
habitualmente. ... assim, eles quiseram redigir um outro memorando para que
nos livrássemos do enguiço em que estávamos".
Os arquitectos da Constituição entenderam este dilema, assim como
Alexander Hamilton que colocou: "um poder sobre o sustento de um homem
é um poder sobre a sua vontade" (
Federalist
Nº 73).
Em pouco tempo deixou de haver diferenças de opinião dentro do
FBI. A falsa acusação tornou-se a visão unânime.
Exactamente do mesmo modo, a CIA de George Tenet acabou por juntar no apoio a
uma visão manifestamente falsa de que havia uma ligação
entre a al Qaeda e o governo do Iraque.
Palavras de George Orwell: "Somos capazes de acreditar em coisas que
sabemos serem não verdadeiras e então, quando finalmente se prova
que estamos errados, insolentemente torcemos os factos de modo a mostrar que
estávamos certos. Intelectualmente, é possível continuar
este processo por um tempo indefinido: o único controle sobre ele
é que mais cedo ou mais tarde uma falsa crença choca-se contra a
sólida realidade, habitualmente sobre um campo de batalha".
Todas as vezes em que o poder é incontrolado e irresponsável isto
quase inevitavelmente conduz a erros e abusos. Na ausência de
responsabilização rigorosa, a incompetência floresce. A
desonestidade é encorajada e premiada.
Na semana passada, por exemplo, o vice-presidente Cheney tentou defender as
escutas clandestinas da administração aos cidadãos da
América dizendo que se tivessem conduzido este programa antes do 11 de
Setembro eles teriam descoberto os nomes de alguns dos sequestradores.
Tragicamente, ele aparentemente ainda não sabia que a
administração tinha de facto os nomes de pelo menos dois dos
sequestradores bem antes do 11 de Setembro e tinha disponível
informação que podia facilmente levar à
identificação da maior parte dos outros sequestradores. E com
isso, devido à incompetência no tratamento desta
informação, ela nunca foi utilizada para proteger o povo
americano.
PODER PARA MASCARAR RESPONSABILIDADES
Muitas vezes acontece que um Ramo Executivo, seduzido pela busca de poder
não controlado, responda aos seus próprios erros com a proposta
reflexiva de que lhe sejam dados ainda mais poderes. Frequentemente, o
próprio pedido é utilizado para mascarar responsabilidades por
erros na utilização de poderes que ela já tem.
Além disso, se o padrão de prática principiado por esta
administração não for desafiado, ele pode muito bem
tornar-se uma parte permanente do sistema americano. Muitos conservadores tem
destacado que conceder poder não controlado a este presidente significa
que o próximo presidente terá igualmente poder não
controlado. E o presidente seguinte pode ser alguém em cujos valores e
crenças você não confia. E é por isto que tanto
Republicanos como Democratas deveriam preocupar-se com o que este presidente
tem feito. Se esta tentativa do presidente para expandir dramaticamente o
poder executivo ficar incontestado, nossa concepção
constitucional dos pesos e contrapesos estará perdida. E o
próximo presidente ou algum futuro presidente será capaz, em nome
da segurança nacional, de restringir nossas liberdades de um modo que os
arquitectos [da Constituição] nunca teriam considerado
possível.
O mesmo instinto para expandir o seu poder e estabelecer domínio
caracteriza o relacionamento desta administração com os tribunais
e o Congresso.
Num sistema a funcionar adequadamente, o Ramo Judicial serviria como o
árbitro constitucional para assegurar que os ramos do governo
observassem as suas esferas próprias de autoridade, observasse as
liberdades civis e aderrise à regra da lei. Infelizmente, o executivo
unilateralmente tem tentado com empenho frustrar a capacidade do
judiciário para tomar decisões através da
manutenção de controvérsias que estão fora das suas
mãos nomeadamente aquela de desafiar sua capacidade de deter
indivíduos sem processo legal da nomeação de juizes
que serão deferente para com o seu exercício do poder e do seu
apoio a assaltos à independência do terceiro ramo.
A decisão do presidente de ignorar a FISA foi um assalto directo ao
poder dos juizes que têm assento naquele tribunal. O Congresso
estabeleceu o tribunal FISA precisamente para constituir um controle às
escutas clandestinas
(wiretap)
do poder executivo. Mas, para assegurar que o tribunal não pudesse
funcionar como controle sobre o poder executivo, o presidente simplesmente
não lhe encaminhou questões e não o deixou saber que
estava a ser ultrapassado.
NOMEAÇÃO DE JUIZES SUBSERVIENTES
As nomeações judiciais do presidente são destinadas
claramente a assegurar que os tribunais não sirvam de controle efectivo
do poder executivo. Como soubemos todos nós, o Juiz Altio é
há muito apoiante de um executivo poderoso um apoiante do assim
chamado executivo unitário, o qual é mais adequadamente
denominado executivo unilateral. Quer você apoie a sua
confirmação ou não e eu não apoio
temos todos de concordar em que ele não votará como um controle
efectivo da expansão do poder executivo. Da mesma forma, o Chief
Justice Roberts tornou clara sua deferência para com a expansão do
poder executivo através do seu apoio à elaboração
de regras pela agência executiva.
E a administração tem apoiado o assalto à
independência judicial que tem sido amplamente efectuado dentro do
Congresso. Este assalto inclui uma ameaça da parte da maioria
republicana no Senado de mudar permanentemente as regras a fim de eliminar o
direito da minoria em empenhar-se em debate extenso quanto aos candidatos
judiciais do presidente. Os assalto estendeu-se a esforços legislativos
para restringir a jurisdição de tribunais em assuntos que
vão desde o habeas corpus até o juramento de lealdade. Em suma,
a administração demonstrou seu desprezo pelo papel do
judiciário e procura evadir-se à revisão judicial dos seus
actos a cada passo.
Mas o dano mais sério foi feito ao ramo legislativo. O declínio
agudo do poder e autonomia do Congresso nos últimos anos foi quase
tão chocante quanto os esforços do Ramo Executivo para
alcançar uma expansão maciça do seu poder.
Fui eleito para o Congresso em 1976 e servi oito anos na casa, 8 anos no Senado
e presidi sobre o Senado durante 8 anos como vice-presidente. Quando jovem, vi
o Congresso pela primeira vez como filho de um senador. Meu pai foi eleito
para o Congresso em 1938, 10 anos antes de eu ter nascido, e deixou o Senado em
1971.
O Congresso que hoje temos é irreconhecível quando comparado
àquele no qual serviu meu pai. Há muitos distintos senadores e
congressistas a servi-lo. Estou honrado por alguns deles estarem aqui neste
salão. Mas o ramo legislativo do governo sob a sua actual
liderança opera agora como se estivesse inteiramente subserviente ao
Ramo Executivo.
Além disso, demasiados membros da Casa e do Senado sentem-se agora
obrigados a gastar a maior parte do seu tempo não no debate reflectido
das questões, mas sim no levantamento de dinheiro para comprar 30
segundos nas TVs comerciais.
Há duas ou três gerações de congressistas que
realmente não sabem o que é uma audiência de
supervisão
(oversight hearing).
Nas décadas de 70 e 80, as audiências de supervisão em
que meus colegas e eu participávamos levavam os pés do Ramo
Executivo ao fogo não importava qual partido estava no poder.
Mas a supervisão é quase desconhecida no Congresso de hoje.
O papel dos comités de autorização declinou na
insignificância. As 13 contas de apropriação
(appropriation bills)
anuais dificilmente são passadas. Tudo é amontoado dentro de
uma única medida gigante que nem mesmo está disponível
para os Membros do Congresso lerem antes de a votarem.
Membros do partido minoritário agora são excluídos
rotineiramente dos comités de conferência, e as emendas
muitas vezes não são permitidas durante a
discussão dos projectos de lei no plenário.
O VOTO PELA INVASÃO DO IRAQUE
No Senado dos Estados Unidos, que tinha o orgulho de ser "o maior corpo
legislativo do mundo", o debate significativo é agora uma raridade.
Mesmo na véspera do voto fatídico para autorizar a
invasão do Iraque, o senador Robert Byrd perguntou de forma
memorável: "Por que está esta câmara vazia?"
Na Casa dos Representantes, o número que enfrenta uma
eleição genuinamente competitiva a cada dois anos é
tipicamente menos de uma dúzia em 435.
E demasiados eleitos vieram a acreditar que a chave para o acesso
contínuo ao dinheiro para a reeleição é permanecer
do lado bom daqueles que têm dinheiro para dar e, no caso do partido
majoritário, a totalidade do processo é em grande medida
controlada pelo presidente eleito e a sua organização
política.
De modo que a disposição do Congresso para desafiar a
administração é ainda mais limitada quando o mesmo partido
controla tanto o Congresso como o Ramo Executivo.
O Ramo Executivo, cooptou novamente o papel do Congresso, e este muitas vezes
tem sido um cúmplice satisfeito com a entrega do seu próprio
poder.
Veja-se por exemplo o papel do Congresso na
"fiscalização" desta campanha maciça de escutas
telefónicas ao longo de quatro anos que parece violar tão
frontalmente a Carta dos Direitos. Diz o presidente que ele informou o
Congresso, mas o que ele realmente quer dizer é que conversou com o
chairman
e membros do comité de inteligência da Casa e do Senado e com os
líderes de topo de ambas. Este pequeno grupo, por sua vez, reclamou que
não lhes foram dados os factos completos, apesar de pelo menos um dos
líderes do comité de inteligência haver escrito uma carta a
manifestar preocupação dirigida a VP Cheney e ter colocado uma
cópia no seu próprio cofre.
Embora eu simpatize com a posição embaraçosa em que foram
colocados estes homens e mulheres, não posso discordar da Liberty
Coaltion quando ela diz que tanto Democratas como Republicanos no Congresso
devem partilhar a culpa por não haver acção para protestar
e procurar impedir o que eles consideram um programa brutalmente
inconstitucional.
CORRUPÇÃO INSTITUCIONALIZADA
Além disso, no Congresso como um todo tanto a Casa como o Senado
o avançado papel do dinheiro no processo de
reeleição, a par de um papel agudamente diminuído para a
deliberação fundamentada e o debate, produziu uma atmosfera
conducente à corrupção institucionalizada difusa
(pervasive institutionalized corruption).
O escândalo Abramoff é apenas o topo de um iceberg gigante que
ameaça a integridade de todo o ramo legislativo do governo.
É o lamentável estado do nosso ramo legislativo que explica
primariamente o fracasso dos nossos louvados pesos e contrapesos para impedir a
perigosa extensão do nosso Ramo Executivo, a qual ameaça agora
uma transformação radical do sistema americano.
Apelo hoje aos membros Democráticos e Republicanos do Congresso a
confirmarem seu juramento de posse e defenderem a Constituição.
Parem de cooperar para se entenderem com eles. Comecem a actuar como o ramo de
governo independente e equivalente
(co-equal)
que são supostos ser.
Mas há ainda outro actor Constitucional cujo pulso deve ser tomado e
cujo papel deve ser examinado a fim de entender o perigoso desequilíbrio
que emergiu com os esforços do Ramo Executivo para dominar nosso sistema
constitucional.
Nós o povo ainda somos colectivamente a chave para a
sobrevivência da democracia na América. Nós como
afirmou Lincoln, "mesmo aqui" devemos examinar nosso
próprio papel como cidadãos ao permitir e não impedir a
chocante decadência e degradação da nossa democracia.
Thomas Jefferson afirmou: "Uma cidadania informada é o
único verdadeiro repositório da vontade pública".
O ponto de partida revolucionário sobre o qual foi baseada a ideia da
América foi a crença audaciosa de que o povo pode governar a si
próprio e exercer responsavelmente a autoridade final em auto-governo.
Esta visão decorreu inevitavelmente do princípio fundamental
articulado pelo filósofo iluminista John Locke: "Todo poder justo
é derivado do consentimento dos governados".
O intrincado e cuidadosamente equilibrado sistema constitucional que agora
está em tamanho perigo foi criado com a plena e generalizada
participação da população como um todo. Os
Federalist Papers eram, naqueles dias recuados, ensaios em jornais lidos
amplamente, e eles representaram apenas uma das 24 séries de ensaios que
encheram o vibrante mercado de ideias no qual fazendeiros e lojistas
recapitulavam os debates que se efectuavam tão frutiferamente em
Filadelfia.
Na verdade, depois de a Convenção ter feito o melhor que pode,
foi o povo nos seus vários estados que se recusou a
confirmar o resultado até que, por sua insistência, a Carta de
Direitos foi integrada no documento enviado novamente para
ratificação.
E é "Nós o povo" que devemos agora descobrir outra vez
a capacidade que tivemos outrora para desempenhar um papel integral para salvar
nossa Constituição.
O PAPEL NEFASTO DA TELEVISÃO
E aqui há causa tanto para preocupação como grandes
esperanças. A era dos panfletos impressos e ensaios políticos
foi há muito substituída pela televisão um meio
perturbador
(distracting)
e absorvente que parece determinado antes a entreter e a vender do que a
informar e educar.
O apelo memorável de Lincoln durante a Guerra Civil é
aplicável de uma nova forma ao nosso dilema de hoje: "Devemos
libertar-nos
(disenthrall)
a nós próprios, e assim salvaremos nosso país".
Quarenta anos se passaram desde que a maioria dos americanos adoptou a
televisão como sua fonte de informação principal. Seu
domínio tornou-se tão extenso que virtualmente toda
comunicação política significativa agora tem lugar dentro
dos limites de ininterruptos anúncios televisivos de 30 segundos
E a economia política apoiada por estes curtos mas caros anúncios
de televisão é tão diferente da vibrante política
do primeiro século da América quanto as políticas foram
diferentes do feudalismo que prosperou sobre a ignorância das massas de
povo na Baixa Idade Média
(Dark Ages).
CONTROLE DO FLUXO DE INFORMAÇÃO
O constrangido papel das ideias no sistema político americano de hoje
encorajou esforços do Ramo Executivo para controlar o fluxo de
informação como meio de controlar os resultados de importantes
decisões que ainda repousam nas mãos do povo.
A administração afirma vigorosamente seu poder de manter o
segredo das suas operações. Depois de tudo, os outros ramos
não podem controlar um abuso de poder se não souberem o que
está a acontecer.
Por exemplo: quando a administração estava a tentar persuadir o
Congresso a aprovar o benefício da Medicare de prescrição
de droga, muitos na Casa e no Senado levantaram preocupações
acerca do custo e da concepção do programa. Mas, ao invés
de se empenhar em debate aberto com base em dados factuais, a
administração reteve factos e impediu o Congresso de ouvir
testemunhos que provinha do principal perito da administração que
havia compilado informação mostrando antes da
votação que na verdade os verdadeiros custos estimados eram muito
mais elevados do que os números apresentados ao Congresso pelo
presidente.
Privado daquela informação, e acreditando nos números
falsos dados em seu lugar, o Congresso aprovou o programa. Tragicamente, toda
a iniciativa está agora a entrar em colapso por todo o
país com a administração a fazer um apelo
exactamente neste fim de semana às grandes companhias de seguros para
voluntariamente virem em socorro.
Vamos ver outro exemplo: advertências científicas acerca das
consequências catastróficas o aquecimento global descontrolado
foram censuradas por um nomeado político da Casa Branca que não
tem treinamento científico. E hoje foi ordenado a um dos principais
peritos da NASA acerca do aquecimento global que não falasse com
representantes da imprensa e que mantivesse um registo cuidadoso de toda a
gente com que se encontrasse de modo a que o Ramo Executivo pudesse monitorar e
controlar suas discussões acerca do aquecimento global.
A LINGUAGEM E A POLÍTICA DO MEDO
Outra forma como a administração tem tentado controlar o fluxo de
informação é através do recurso sistemático
à linguagem e a política do medo a fim de curto-circuitar o
debate e levar a sua agenda adiante sem considerar as evidências ou o
interesse público. Como disse o presidente Einsenhower, "Qualquer
um que actue como se a defesa da liberdade tivesse de encontrada na
opressão, suspeição e medo está a confessar uma
doutrina que é estranha à América".
O medo expulsa a razão. O medo suprime a política do discurso e
abre a porta à política da destruição. Justice
Brandeis escreveu outrora: "Os homens temem as feiticeiras e queimam
mulheres".
Os fundadores do nosso país enfrentavam terríveis ameaças.
Se eles fracassassem nos seus esforços, teriam sido enforcados como
traidores. A simples existência do nosso país constituiu um risco.
Mas, mesmo nos dentes daqueles perigos, eles insistiram em estabelecer a Carta
dos Direitos.
Estará hoje o nosso Congresso em maiores perigos do que estiveram os
seus antecessores quando o exército britânico estava a marchar
sobre o Capitólio? Estará o mundo perigoso do que quando
enfrentávamos um inimigo ideológico com dezenas de milhares de
mísseis prontos a serem lançados contra nós e aniquilar o
nosso país em poucos instantes? Estará a América em maior
perigo agora do que quando enfrentávamos o fascismo em avanço por
todo o mundo quando nossos pais combateram e venceram duas Guerras
Mundiais simultaneamente?
É simplesmente um insulto àqueles que vieram antes de nós
e sacrificaram-se tanto em nosso benefício insinuar que temos mais
razões para estarmos receosos do que ele. Mas eles protegeram fielmente
nossas liberdades e agora devemos estar prontos para fazer o mesmo.
Como americanos temos o dever de defender o direito dos cidadãos
não só à vida como também à liberdade e
à busca da felicidade. É portanto vital nas nossas actuais
circunstâncias que sejam tomados passos imediatos para salvaguardar nossa
Constituição contra o actual perigo colocado pela ultrapassagem
intrusiva da parte do Ramo Executivo e pela crença aparente do
presidente de que não precisa viver sob a regra da lei.
Endosso as palavras de Bob Barr, quando disse: "O presidente desafiou o
povo americano a fazer algo acerca disto. Para o bem da
Constituição, espero que o faça".
Um conselho especial deveria ser nomeado imediatamente pelo Procurador Geral a
fim de remediar o óbvio conflito de interesse que o impede de investigar
o que muitos acreditam serem sérias violações da lei
cometidas pelo presidente. Tivemos uma demonstração recente de
como uma investigação independente feita por um conselho especial
com integridade pode reconstruir a confiança no nosso sistema de
justiça. Patrick Fitzgerald, segundo a opinião geral, não
mostrou nem medo nem favoritismo ao investigar alegações de que o
Ramo Executivo violou outras leis.
Tanto os membros republicanos como democratas do Congresso deveriam apoiar o
apelo bipartidário da Coligação da Liberdade para a
nomeação de um conselho especial para investigar as
questões criminais levantadas pelas escutas de americanos efectuadas sem
permissão por parte do presidente.
Segundo, novas protecções a informantes deveriam ser
estabelecidas de imediato para os membros do Ramo Executivo que relatem
evidências de transgressões especialmente onde elas
envolvem o abuso de autoridade do Ramo Executivo nas áreas
sensíveis da segurança nacional.
Terceiro, ambas as Casas do Congresso deveriam organizar audiências
abrangentes e não apenas superficiais quanto a estas
sérias alegações de comportamento criminal por parte do
presidente. E elas deveriam seguir as provas aonde quer que conduzam.
Quarto, os extensos novos poderes requeridos pelo Ramo Executivo na sua
proposta de estender e ampliar o Patriot Act não deveriam, sob nenhumas
circunstâncias, serem concedidos, a menos e até que haja
salvaguardas adequadas e forçosas para proteger a
Constituição e os direitos do povo americano contra as
espécies de abusos que foram recentemente revelados.
CUMPLICIDADE DAS COMPANHIAS TELEFÓNICAS
Quinto, qualquer companhia de telecomunicações que proporcione ao
governo acesso a informação privada referente a
comunicações de americanos sem uma garantia adequada deveria
imediatamente cessar e desistir da sua cumplicidade nesta invasão
aparentemente ilegal da privacidade de cidadãos americanos.
A liberdade de comunicação é um pre-requisito essencial
para restaurar a saúde da nossa democracia.
É particularmente importante que a liberdade da Internet seja protegida
tanto contra a intrusão do governo como contra os esforços de
controle por parte dos grandes conglomerados de media. O futuro da nossa
democracia depende disto.
Mencionei que juntamente com motivos de preocupação há
razões para esperança. Ao falar aqui hoje estou cheio do
optimismo de que a América esteja na véspera de uma era
dourada na qual a vitalidade da nossa democracia será restabelecida e
florescerá mais vibrantemente do que nunca. Na verdade, posso sentir
isto neste salão.
Como disse outrora o Dr. King: "Talvez um novo espírito esteja a
ascender entre nós. Se assim é, vamos seguir seus movimentos e
orar para que o nosso próprio ser interior possa ser sensível
à sua orientação, pois estamos profundamente precisado de
um novo caminho para além da escuridão que parece fechar-se em
torno de nós".
Notas
[1] Red Scare: períodos de medo geral dos comunistas, na década
de 1920 e de 1950
[2] Palmer Raids: Assaltos na década de 1920 ordenados pelo Procurador
Geral Mitchell Palmer contra suspeitos de socialismo, que eram aprisionados e
muitas vezes deportados.
O original encontra-se em
http://www.informationclearinghouse.info/article11584.htm
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
.
|