As propostas miseráveis do Fundo Monetário Internacional
por Juan Torres López
[*]
Há poucos meses o Fundo Monetário Internacional tomou novamente
as rédeas e dispõe-se a continuar a impor doutrina, agora com a
desculpa de que as suas medidas são imprescindíveis para sair da
crise e do problema de endividamento que esta provocou.
Os economistas do Fundo que têm ditado sentenças para a Espanha,
tal como fazem em tantos outros países, são os que pregam
austeridade àqueles que ganham umas centenas de euros ao passo que
estabelecem para si próprios salários multimilionários, os
quais exigem cortes de gastos dos governos como hotéis de cinco estrelas
e limusinas pagas pelos contribuintes. São os que se declaram
politicamente neutros mas tratam favoravelmente os ditadores e alteram sem
rubor as decisões democráticas tomadas pelos poderes
representativos. O Fundo é a instituição que reclama bom
governo aos Estados mas que actua com uma opacidade absoluta e sem controle
algum, diz defender a liberdade mas internamente tem um funcionamento
completamente anti-democrático. Reclama rigor e acerto aos governos, mas
nunca efectuou uma auto-crítica efectiva nem avaliou seriamente os seus
equívocos múltiplos e fatais.
O Fundo Monetário que agora diz à Espanha o que tem de fazer
é uma instituição doutrinária que aplica sempre uma
mesma receita, seja qual for a circunstância ou o país que
analisa: corte de despesas públicas, privatizações,
liberalização de serviços, desregulamentação
financeira, liberdade de movimento para os capitais, abertura de portas ao
capital estrangeiro... sempre o mesmo, sempre o velho credo liberal, seja qual
for a gravidade dos problemas provocados pela sua aplicação.
Mas o problema mais grave do Fundo não é nem sequer que seja
doutrinário e sim ser uma instituição incompetente. Os
seus economistas falham constantemente e de forma estrondosa. Os seus
preconceitos ideológicos não lhes permitem contemplar e analisar
correctamente a realidade, equivocam-se nos diagnósticos, não
sabem fazer previsões adequadas e, logicamente, nunca chegam a conseguir
os objectos que se propõem quando actuam (salvo, isso sim, o de dar
caminho livre aos poderosos).
Poderiam dar-se dezenas de exemplos de erros e falhas monumentais nos seus
relatórios e de previsões completamente equivocadas, mais
próprias de amadoras do que de autênticos profissionais.
Valha como simples amostra o despiste colossal que os economistas do FMI
manifestavam acerca da situação da economia mundial em Abril de
2007, quando já muitos outros, mais inteligentes e melhor preparados, ou
simplesmente mais honestos, haviam advertido do que se estava a passar. Dizia
então o Fundo em "Perspectivas da Economia Mundial"
(página XII): "os riscos para a economia mundial diminuíram
desde a edição de Setembro de 2006 (...) o que nos parece mais
provável é que o vigoroso crescimento mundial perdure (...)
comparando os dados actuais com os de Setembro (2006( não há
tantas razões de preocupação quanto à economia
mundial (...) a economia estado-unidense mantém-se em geral firme".
Ou também o erro de diagnóstico sobre o que poderia ocorrer no
nosso país quando em Março de 2009 dizia que o défice
público espanhol seria de 6% em 2009 e 2010, exactamente a metade do
efectivamente registado.
Com tal carência de olho clínico, é normal que o Fundo
Monetário Internacional nunca chegue a conseguir o que se propõe,
nem sequer em termos de taxas de crescimento e muito menos de estabilidade
macroeconómica e financeira. A evidência empírica
indiscutível é que na época em que se vem aplicando as
políticas recomendadas pelo FMI, desde os primeiros anos da
década de oitenta, o crescimento das economias (sem se considerar o da
China e outros países que não seguem as suas políticas)
foi muito mais baixo do que nas etapas (ou nos países) em que não
foram aplicadas. E um trabalho recente demonstrou que houve mais crises quando
predominaram as políticas liberais defendidas pelo FMI, nos anos trinta
e a partir dos oitenta do século XX, e que há uma grande
correlação entre a maior mobilidade do capital (outro dos
princípios políticos do Fundo) e as crises bancárias.
(Carmen M. Reinhart y Kenneth S. Rogoff, Banking Crises: An
EqualOpportunity Menace, National Bureau of Economic Research, Working
Paper 14587, 2008).
Os poderes financeiros internacionais beneficiam-se com as políticas do
Fundo não por serem eficazes para o que dizem buscar (crescimento,
emprego, estabilidade, ...) e sim porque são as que proporcionam as
melhorar condições para aumentar os seus lucros. E podem
conseguir isso porque o Fundo nunca avalia o impacto social ou sobre a
desigualdade e a pobreza que têm as suas políticas, como ele
próprio reconheceu (IMF, Poverty and Social Impact Analysis in
PRGF - Supported Programmes, Washington, 2002), porque é
completamente alheio e cego quanto ao bem-estar social ou ao cuidado do meio
ambiente.
E é esta instituição de economistas bastante incompetentes
que agora vem à Espanha dizer o que deve fazer um governo
legítimo eleito pelos cidadãos para enfrentar uma crise provocada
pela banca internacional.
As suas três propostas principais são exactamente as mesmas que
fazem o patronato, a banca, o Banco de Espanha e os economistas que
estão ao seu serviço.
A primeira é a privatização progressiva das caixas de
poupança.
O FMI não diz nada da banca espanhola, cala-se para ocultar que a sua
situação é exactamente igual à das caixas.
Não reclama transparência, não faz nem diz nada para
obrigar a que a banca seja o que deveria ser: a fonte de financiamento da
actividade económica. Nada propõe para que as empresas e as
famílias voltem a ter o crédito que se precisa para recuperar a
actividade.
Foi a banca que quebrou e que provocou a crise e o que o FMI propõe
é que como prémio se lhe entreguem as caixas de poupança.
É difícil imaginar uma perversidade maior. Com muito palavreado
mas sem descobrir a situação da banca, a única coisa que o
FMI procura é por as caixas de poupanças na bandeja do capital
privado para que assim se recupere uma banca insolvente, aproveitando o mercado
que deixariam as caixas e adquirindo os seus activos, como em tantas outras
ocasiões, a preço de saldo.
A segunda proposta do Fundo já é conhecida: a
redução da despesas publica. Expliquei em outros textos que numa
conjuntura recessiva isso só pode conduzir à depressão e a
afunda ainda mais a nossa economia. Foi o que ocorreu em muitíssimas
outras ocasiões e em outros países quando se actuou assim.
Como acaba de assinalar o Prémio Nobel Joseph Stiglitz, "a
austeridade leva ao desastre" (
Le Monde,
22/05/2010) e é aí que nos quer levar o FMI para que os bancos e
as grandes empresas ganhem ainda mais dinheiro.
A terceira proposta é a reforma laboral "radical e urgente" na
linha solicitada pelo patronato e que se baseia principalmente em reduzir a
capacidade de negociação dos trabalhadores mediante a
descentralização da negociação colectiva e o
estabelecimento de novos tipos de contrato.
Dizer que pode resolver o problema do emprego flexibilizando o mercado laboral
ao mesmo tempo que, como acabo de assinalar, deprime-se a actividade
enfraquecendo a procura efectiva é simplesmente uma mentira gritante e
grotesca. Dessa maneira é impossível que as empresas (sobretudo
as médias e pequenas) criem postos de trabalho. Só se consegue
que ganhem mais as muito grandes que têm uma procura cativa graças
ao seu poder sobre o mercado, que é o que se tenta salvar.
Definitivamente, o Fundo Monetário mente quando apresenta as suas
propostas para a economia espanhola porque não diz o que na verdade
pretende; oculta os efeitos reais que terão as políticas que
propõe e, para cúmulo, não permite o debate social sobre
elas uma vez que se limita a impô-las, porque a sua incompetência
impede-o de argumentá-las científica e rigorosamente.
[*]
Catedrático de Economia Aplicada do Departamento de Teoria
Económica e Economia Política da Universidade de Sevilha. Autor
do manual
Economía Política
(seis edições),
Economía de la Comunicación de masas; La empresa industrial
granadina; Análisis Económico del Derecho. Panorama doctrinal;
Tecnologías de la Información. Impactos y usos sociales;
Desigualdad y crisis económica. El reparto de la tarta
(duas edições);
Economía del delito y de las penas
(com Alberto Montero);
La Economía Andaluza; España va bien y el mundo tampoco;
Neoliberalismo. Sociedad, trabajo y poder financiero; Toma el dinero y corre.
La globalización neoliberal del dinero y las finanzas.
Coordenou e dirigiu livros colectivos como
La otra cara de la política económica. España 1984-1994;
Pensiones Públicas, ¿y mañana qué?
e
Venezuela a contracorriente. Los orígenes y las claves de la
revolución bolivariana.
Recentemente publicou
La crisis financiera. Guía para entenderla y explicarla
com a colaboração de Alberto Garzón, texto de
divulgação
também distribuído gratuitamente em versão pdf
.
O original encontra-se em
http://hl33.dinaserver.com/hosting/juantorreslopez.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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