A era do petróleo caro
A flutuações diárias ou semanais das
cotações do barril de petróleo bruto no mercado de Nova
York são devidas a uma multidão de factores de origem e de
âmbito muito diferentes.
Os comentadores citam habitualmente as produções da OPEP, o
estado dos stocks comerciais americanos, o estado do tempo, os especuladores, o
terrorismo, a fraqueza das capacidades de refinação, a
situação no Iraque, no Irão, na Nigéria, na
Venezuela, na Rússia.
Mas estas "explicações" parecem válidas qualquer
que seja o nível das cotações do barril, 30, 40 ou 50
dólares..., de modo que falta-nos a explicação principal
sobre o próprio nível, 60 dólares hoje. Três
factores decisivos pressionam de forma duradoura a cotação para a
alta: a rarefacção geológica do petróleo
convencional (de extracção pouco cara), a entrada num mundo de
terrorismo e de guerras permanentes pelo controle do petróleo, o forte
aumento da procura devido ao crescimento asiático e à
manutenção do consumo ocidental. É a
antecipação deste último factor pelos negociantes que hoje
inflama as cotações.
Durante o primeiro século e meio da era do petróleo, de 1859 a
2004, a procura mundial foi sempre satisfeita pela oferta. Queria mais
petróleo? Tínhamos margens de manobra. Abríamos mais as
torneiras, ele corria e vendíamos mais.
Os choques petrolíferos de outrora eram políticos, não
económicos. Hoje, quando a procura mundial média em 2005
aproximar-se-á dos 84 milhões de barris por dia (Mb/d), as
margens de manobra da oferta são quase inexistentes.
Todas as torneiras debitam à sua capacidade máxima, no limite da
procura, e com o risco de que um acontecimento (greve, sabotagem, conflito
local...) reduza os abastecimentos. Segue-se uma situação de
penúria relativa, pressionando os preços para cima.
Enquanto a oferta não chegar a satisfazer a procura, o preço do
petróleo aumentará até que um número suficiente de
consumidores eles são milhares de milhões! ajustem
o seu consumo às possibilidades do seu orçamento. Se a oferta
mundial estacionar nos 84 Mb/d, os preços estabelecer-se-ão no
nível necessário para que o consumo não ultrapasse estes
84 Mb/d. E quando o esgotamento geológico se acentuar, o
declínio absoluto da oferta mundial terá lugar a uma taxa de pelo
menos 2% ao ano. Os preços terão então tendência a
aumentar ainda mais para excluir mais consumidores e reduzir o consumo.
Mas a longa dependência do petróleo de numerosos países
leva-me a pensar que a procura continuará forte para necessidades
vitais. A busca do crescimento e o aumento da população mundial
continuarão a alimentar uma progressão da procura da ordem dos
1,5% ao ano. Com efeito, os números mostram que a procura de
petróleo é relativamente inelástica em
relação ao preço (ao contrário da procura de
morangos). Dito por outras palavras, não é porque os
preços vão subir que a procura vai diminuir.
Em 2004 a procura cresceu mais de 3,5%, ou seja, 2,7 Mb/d, a alta mais forte
dos últimos vinte e cinco anos, ao passo que a cotação do
barril médio passou de 26 dólares em 2002 para 31 dólares
em 2003 e 41 dólares em 2004. Desde o princípio de 1999
até o fim de 2004, as cotações do bruto aumentaram 350% e
a procura em 10%, ao contrário de todas as previsões. Este
fenómeno poderia quase denominar-se elasticidade inversa: a procura
cresce quando as cotações sobem. Entretanto, esta
"regra" surpreendente não vale senão até um
certo nível dos preços, para uma velocidade moderada da subida, e
para uma duração limitada de preços elevados.
Uma outra crença convencional e falsa diz que preços altos do
petróleo desaceleram a economia. Pode-se constatar o contrário:
preços bastante elevados tendem a pressionar o crescimento mundial, que
em 2004 foi o mais forte dos últimos quinze anos. Com efeito, quando a
cotação do barril sobe, os volumes consideráveis de
petrodólares colectados pelas companhias petrolíferas, privadas e
sobretudo nacionalizadas, reciclam-se em compras de matérias-primas, de
produtos acabados ou de géneros agrícolas junto aos países
exportadores destes bens, diferentes dos países exportadores de
petróleo. O comércio cresce, implicando mesmo certos
países pobres que transformam rapidamente o produto da venda das suas
matérias de base em compra de bens manufacturados que lhes faltam.
Estes países não poupam, eles possuem uma forte propensão
marginal para o consumo. Todo rendimento suplementar é convertido em
importação daquilo que eles não têm.
Este esquema aplicou-se aos pequenos dragões asiáticos,
Singapura, Coreia do Sul e Taiwan nos anos 1970, quando as
cotações do petróleo haviam aumentado mais de 400% entre
1973 e 1981. Ele corresponde hoje ao boom da China, da Índia, do
Paquistão e do Brasil. A procura mundial de petróleo está
portanto ligada ao nível das cotações do petróleo
bruto em Nova York até um certo nível e, contudo, até uma
certa velocidade da subida.
Um choque petrolífero pode, com um intervalo de tempo, provocar uma
desaceleração ou uma recessão numa região do mundo
e, simultaneamente, estimular a economia numa outra região. É a
mundialização enquanto dinâmica planetária que
importa, não as economias de energia de determinados países do
Norte, anuladas pela voracidade energética de determinados países
emergentes. No total, uma transferência de actividades intensivas em
energia dos países do Norte para os países emergentes soma-se a
um aumento do tráfego mundial de mercadorias para acrescer finalmente o
consumo de energia. As pretensas "economias do conhecimento"
pós-industriais da OCDE repousam numa transferência maciça
da sua base material e energética para as "economias
emergentes".
Se as cotações continuarem a subir de uma forma tendencialmente
rápida, a partir dos 70 ou 80 dólares por barril é
verosímil que as consequências inflacionistas da alta das
cotações do petróleo sejam suficientemente pronunciadas
para que os governadores dos bancos centrais dos países ricos e
petro-vorazes, a América do Norte, o Japão, a União
Europeia, aumentem as taxas de juro para conter a inflação.
Este remédio aumentará a dor, reactivando aquele que já
provámos aquando do segundo choque petrolífero dos anos
1979-1983, sob o impulso ultraliberal de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan.
Com efeito, quando o custo do dinheiro aumenta, os mercados financeiros
contraem-se e as empresas deparam-se com mais dificuldades para se financiarem
através da Bolsa ou de empréstimos, o que enfraquece a actividade
económica. Se o dinheiro for mais caro, tudo se torna mais caro, a
inflação aumenta.
Para tentar, por um segundo meio, jugulá-la, os bancos imprimem mais
dinheiro, o que provoca o resultado inverso: o prosseguimento da
inflação. Assim, o método da alta das taxas, destinado a
luta contra a inflação, provoca ao contrário a
contracção do mercados financeiros e a inflação do
dinheiro, depois dos preços, a destruição dos empregos e
as dificuldades das empresas.
O petróleo é menos um produto final do que um factor de
produção, frequentemente um pequeno factor no custo de
produção total. Resultam daí, por enquanto, pouco
incentivos à substituição do petróleo ou à
redução da procura. Mesmo a mudança climática e
seus efeitos letais não dissuadiram o comprador de um 4 X 4 cuja
avó morreu durante a canícula do verão de 2003.
[1]
Esta relativa rigidez reforçará a gravidade das
consequências económicas e sociais do triplo choque que se
avizinha. Nada estando preparado, ele será severo. Pois, desta vez,
não haverá qualquer retorno longo à baixa das
cotações, ao preços baixos dos produtos
petrolíferos. A inflação arrisca-se a ser forte, a
recessão também.
Do que aqui se fala não é "do fim do petróleo" e
sim "do fim do petróleo barato". Isto lamentavelmente
será suficiente para provocar enormes instabilidades económicas e
sociais, para deslocar os poderes políticos e provocar guerras. A
infelicidade é que, apesar das advertências bradadas por alguns,
os responsáveis económicos e políticos não previram
a situação que se anuncia, como o mostra o indigente projecto de
lei de orientação energética adoptada pela Assembleia
Nacional em 23 de Junho. O choque é portanto inevitável.
Não há plano B.
[2]
Não existe senão uma
semi-solução, a sobriedade imediata, para reduzir um pouco os
efeitos devastadores do choque fazendo recuar um pouco a sua vinda
inelutável.
[1]
Alusão ao verão em França no qual morreram
cerca de 15 mil idosos que haviam sido abandonados em casa por famílias
em viagem de férias (NT).
[2] O mesmo se pode dizer em relação a Portugal (NT).
[*]
Antigo ministro francês da Organização do
Território e do Ambiente, deputado por Paris (Verde). Seu sítio
web é
http://www.yvescochet.net/
O original encontra-se em
http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-0@2-3232,36-671455,0.html
.
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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