Panorama petrolífero de 2005:
será que este ano a procura ultrapassará a oferta?

por Matthew R. Simmons [*]

Qual foi a maior história sobre petróleo em 2004? Coloquei agora esta questão a todos os especialistas petrolíferos da Simmons & Company. A lista de tópicos sugerida variou imensamente, o que testemunha a quantidade de acontecimentos ocorridos no petróleo no ano passado. Os preços do petróleo estavam na lista de quase toda a gente. O “escândalo das reservas provadas” também obteve muitos votos. A diminuição da capacidade produtiva de reserva, o disparar dos preços dos petroleiros, as margens historicamente sem precedentes entre o petróleo light/sweet e o heavy/sour, a procura de petróleo em ascensão ou simplesmente a “China” e os “Yukos”, todos obtiveram votos, em conjunto com o achatamento da não-oferta de petróleo da OPEP e mesmo o “Pico petrolífero” – um tema que recebeu mais atenção dos media, durante 2004, com um destaque mais substancial do que anteriormente.

O que esta miríade de histórias representa de facto é uma parte de um mosaico muito maior que está a emergir nos mercados globais do petróleo neste arranque de 2005. Parece que estamos a entrar numa nova era que pode ter pouca semelhança com o comportamento dos mercados de petróleo do passado.

Mas muitos ridicularizam esta sugestão. Uma parte dos especialistas ainda estão convencidos de que 2004 foi uma aberração e acreditam, alguns com paixão, que 2005 vai finalmente trazer um retorno à normalidade nos mercados do petróleo. Esta crença presume que o crescimento na procura petrolífera irá abrandar juntamente com uma resposta significativa por parte da oferta. Obviamente, esta combinação de eventos poderia ocorrer, mas é difícil encontrar quaisquer dados factuais para defender que a procura ficaria estagnada no momento em que a oferta ascendesse. A não ser que aconteça um ou outro (ou ambos), os mercados de petróleo irão permanecer sob pressão ou serão ainda mais pressionados do que em 2004.

Comecei a escrever World Oil's Outlook for Crude Oil story há 11 anos atrás. Na época, o petróleo tinha caído dos US$21 por barril seis meses antes para cerca de US$13. A sabedoria convencional assumiu que ele permaneceria nestes níveis baixos durante muitos anos, mas um novo salto para os US$20 por barril demorou uns meros seis meses. Ao longo dos 11 anos seguintes observei que afinal a sabedoria convencional estava quase sempre errada. Ao longo da década passada, muitos observadores do mercado de petróleo previram continuamente que o crescimento da procura pelo petróleo iria ser baixo. A maioria também acreditava que uma explosão de novas ofertas estava mesmo ao virar da esquina e que o custo de encontrar e desenvolver o petróleo poderia cair de forma constante, tornando provável um maior enfraquecimento dos preços do petróleo.

Neste período de 11 anos, os preços do petróleo caíram ocasionalmente. Por duas vezes o colapso foi bastante violento. Cada vez que caíam os preços do petróleo, um coro de peritos proclamava que se tratava de um ajustamento económico normal. Após cada colapso, que se tornava cada vez mais breve, o aumento subsequente tornava-se firmemente mais elevado.

Em 2004, os mercados de petróleo começaram finalmente a espatifar as crenças tradicionais. A crença amplamente generalizada de que o petróleo a US$30 causaria uma recessão não teve êxito. A ideia de que os preços elevados rapidamente induziriam uma explosão de novas ofertas de petróleo nunca se materializou. A teoria de que o crescimento sustentado da procura global do petróleo era pouco provável repentinamente alterou-se para uma questão mais ameaçadora: está o crescimento da procura do petróleo a transformar-se num comboio fugitivo?

A ideia de que os custos de descoberta e desenvolvimento (F&D) iriam cair firmemente agora também parece ilusória. Enquanto os custos F&D permaneceram numa margem de $5 a $7 por barril durante a década passada, os gastos de capital totais da exploração e produção aumentaram de uns firmes $55 a $60 mil milhões na primeira metade dos anos 90 para mais de $124 mil milhões em 2000. A única razão pela qual os preços de F&D por barril se mantiveram baixos foi o aumento das reservas comprovadas relatadas.

Até à espantosa reclassificação das reservas pela Shell Oil em 2004, poucos observadores da indústria alguma vez questionaram a exactidão dos acréscimos de reservas em toda a indústria que pareciam sempre exceder a produção corrente.

Em retrospectiva, poucas empresas desfrutaram de facto qualquer produção significativa na proporção dos seus ganhos com as reservas provadas relatadas. Esta anomalia sugere que os custos mais baixos de F&D podem ter advido primariamente de custos de perfuração e de serviços anormalmente baixos, uma redução no número de avaliações de poços perfurados, e um decréscimo substancial na condução de análises ao núcleo e outros testes dispendiosos de poços. Estes factores reduziram as despesas com F&D e levaram a um exagero das reservas comprovadas. Com menos dados sobre perfurações, foi fácil assumir que os acréscimos de reservas eram mais elevados.

Um assunto chave a que a indústria precisa atender em 2005 é a forma como as reservas comprovadas são registadas. Também devemos decidir se estão a ser realizados testes suficientes para justificar um registo agressivo de acréscimos de reservas por parte de muitas empresas relativamente àquilo que elas acabam por produzir.

Foram em 2004 os preços do petróleo anormalmente elevados, ou esta mudança de preços assinala uma nova era nos mercados de petróleo? Foram estes elevados preços devidos a factores de medo que encorajaram muitos negociantes de fundos de investimento especulativos (hedge funds) e de commodities a apostar nos preços de petróleo em ascensão devido à oferta e à procura? Ou os preços foram elevados porque os inventários de petróleo tendiam a ser bastante baixos? Está a indústria a perder a sua capacidade excedente? Se sim, como podem ser criados rapidamente acréscimos de capacidade? Se o factor medo foi um dos acusados, quanto deste medo foi justificado?

Existe uma variedade de dados que lançam alguma luz sobre estas perguntas aparentemente retóricas.

A PROCURA DO PETRÓLEO: A VERDADEIRA HISTÓRIA

Há 10 anos atrás existia a crença generalizada de ser pouco provável que a procura pelo petróleo alguma vez assumisse qualquer crescimento significativo a longo prazo. O maior contribuidor para esta crença era o facto de a procura global pelo petróleo ter permanecido numa banda estreita de 66 a 68 milhões de barris/dia durante os sete anos anteriores. O primeiro ano em que a procura global pelo petróleo ultrapassou os 70 milhões de barris/dia foi 1995. Durante os 9 anos seguintes, a procura global de petróleo cresceu de 70 para 82,4 milhões de barris/dia (Fig. 1). É fácil apontar o salto aparentemente surpreendente da China, que desempenhou um papel fulcral. Mas a razão pela qual o crescimento na utilização do petróleo foi tão poderoso foi por ter surgido de toda a parte.

Procura mundial.

A utilização de petróleo nos países da OCDE cresceu cerca de 5 milhões de barris/dia de 1995 a 2004. Nos países não pertencentes à OCDE a utilização cresceu ainda mais depressa, expandindo-se em 7,7 milhões de barris/dia. A China contribuiu muito, mas representou apenas 39% deste crescimento naqueles não pertencentes à OCDE. A história de como a procura ultrapassou a oferta não foi originada nem envolveu apenas a China. Era um problema que se vinha acumulando há anos.

Existem várias razões que explicam porque a procura pelo petróleo foi particularmente forte em 2004. Os países prósperos, liderados pelos Estados Unidos, gozaram de um crescimento económico sólido apesar dos preços mais elevados do petróleo. O clima no Inverno no hemisfério norte não foi tão moderado como em anos anteriores. E, finalmente, quase todas as economias globais em desenvolvimento gozaram de um crescimento. Será esta taxa de crescimento sustentável? Apenas o tempo o dirá, mas não existiram factores incomuns a estimular um crescimento tão forte. A procura em 2005 pode crescer tão depressa quando antes.

A OFERTA DO PETRÓLEO: A VERDADEIRA HISTÓRIA

A teoria de que preços mais elevados de petróleo levariam rapidamente a uma explosão na oferta foi outro mito dos últimos anos. Ao longo da última década, a oferta global do petróleo não-OPEP cresceu 7,6 milhões de barris/dia. Mas o inesperado aumento da oferta da ex-União Soviética justificou 4 milhões de barris/dia, ou mais de 50% do total da mudança estimada na procura. Durante os últimos 5 anos, a oferta de petróleo dos não OCDE e da ex-União Soviética praticamente não se alterou.

Se o centro das atenções se focar nos 19 países não OPEP inscritos na base de dados da Agência Internacional de Energia como produtores-chave, ou nos 11 produtores da OPEP, é difícil encontrar países produtores de petróleo que possam somar quantidades significativas à oferta global no futuro a curto/médio prazo.

A lista de produtores-chave que parece terem alcançado um limite de produção ou até mesmo ter ultrapassado o seu pico de produção está a tornar-se bastante extensa. Ela inclui produtores-chave, Tabela 1. Colectivamente, estes 14 países produziram mais de 25 milhões de barris/dia em 2004. Poucos destes países, como a Líbia, puderam ver um salto na sua produção de petróleo a partir da sua base actual, mas provavelmente nenhum regressará aos seus níveis de pico.

Tabela 1.

A lista de produtores-chave que ainda podem ser capazes de expandir significativamente a sua capacidade, supondo que sejam feitos os investimentos-chave, está muito mais curta. Ela inclui a Argélia, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Brasil, Angola, o Equador, o Tchade, o Sudão, a Guiné Equatorial e a Malásia. Estes países produzem actualmente menos de 10 milhões de barris/dia.

Registaria como “discutível” uma terceira coluna de produtores. Eles podem ter alguma capacidade adicional, ou podem também estar a atingir o pico de emissão. Esta lista inclui alguns produtores de petróleo poderosos como a Arábia Saudita, a Rússia, a Noruega, o México, a China e a Índia. Todos poderão ainda ver grandes acréscimos de produção, mas cada um dos países desta lista pode estar agora a atingir uma era de declínios produtivos. Os países nesta lista chave produzem actualmente 29 milhões de barris/dia.

Testemunhar como os mercados de petróleo russos mudarão e evoluirão será a grande história durante 2005. Se a Rússia alcançou grandes aumentos de produção durante os últimos cinco anos, é discutível que estes ganhos sejam sustentáveis. Esta questão da sustentabilidade foi ampliada em 2004 quando a dissolução dos Yukos começou a dominar as notícias sobre petróleo. A forma como a Rússia enfrenta uma capacidade de exportação em definhamento deve ser outra história a observar em 2005.

Há uma lista impressionante de novos projectos de oferta de petróleo que devem entrar em produção em 2005 e 2006. Se todos eles forem bem sucedidos, poderemos observar uma capacidade de produção adicional de 4 a 6 milhões de barris/dia. Não está claro quão rapidamente estes projectos podem atingir o pico de produção ou quão cedo eles atingirão o pico e quando começarão a declinar. Isto também implica que todos os novos projectos funcionem como fora planeado.

Se estas novas ofertas serão suficientes para fazer face ao crescimento da procura é uma outra questão. A base de dados da oferta global não pode fornecer informação sobre o nível de declínio que iremos ver na actual produção. Muitos dos novos projectos em regiões chave do mundo apenas ajudarão a compensar um declínio crescente da base existente. Estes declínios estão a ser acelerados pela tecnologia, a qual permite que os reservatórios sejam drenados mais depressa do que anteriormente e a partir de múltiplas zonas de produção.

Tal como a história da procura alteada, a da estagnação da oferta do petróleo não é única para 2004. Uma elevada percentagem do petróleo do mundo ainda provem de descobertas que foram feitas há muitas décadas atrás. Muitos destes grandes campos estão actualmente em declínio ou depressa entrarão em queda. Muitos dos acréscimos de novos campos em anos recentes são pequenos, atingem o pico depressa e entram em queda ainda mais depressa.

CAPACIDADE PRODUTIVA DE SUBSTITUIÇÃO

A falta de capacidade produtiva de substituição existe em cada passo da cadeia de oferta. Desde a perfuração à produção, ao transporte, e até ao processamento, há muito pouco ou nenhuma capacidade excedente disponível para acomodar um crescimento da procura semelhante ao de 2004.

Se ainda existe alguma capacidade de raiz, é para o petróleo bruto tanto pesado (heavy) como do ácido (sour). As refinarias que estão equipadas para processar este tipo de bruto estão actualmente a operar a 100% da sua capacidade. Combinado com este problema está o facto de a oferta mundial do bruto light sweet estar também em queda. Quase 90% dos novos projectos petrolíferos produzem quer do tipo ácido quer do pesado, ou ambos.

A rede mundial de oleodutos de bruto está actualmente também a operar virtualmente a 100% da capacidade. Durante a maior parte de 2004, o sistema mundial de navios petroleiros operou também na capacidade máxima. Isto estimulou um aumento sem precedentes nas taxas dos petroleiros, que somou mais $5 ou $6 por barril ao preço de raiz do petróleo em alguns percursos chave de exportação de longa distância.

A frota de plataformas (rigs) de perfuração de alta qualidade está agora próximo dos 100% de utilização, apesar da utilização permanecer fraca em mercados de perfuração como o Golfo do México, Venezuela e o Mar do Norte. Uma elevada percentagem da frota de perfuração de alto-mar está a aproximar-se de uma idade que costumava assinalar a obsolescência, contudo a capacidade global para substituir até 10% ou 15% da frota existente durante os próximos cinco anos é praticamente não existente. Muitos destes estreitamentos na capacidade podem ser corrigidos com o tempo, partindo do princípio de que se façam investimentos suficientes. A indústria deve começar a substituir a envelhecida frota de plataformas, mas a sua expansão é necessária também para perfurar mais poços e para lutar contra a curva de declínio crescente.

A falta de mão-de-obra qualificada surge no topo da lista dos problemas da capacidade. Além dos muitos despedimentos (layoffs) e reduções de pessoal (downsizings) sofridos pela nossa indústria, apenas temos estado a contratar um punhado de funcionários por ano. Como consequência, temos agora uma força de trabalho em envelhecimento numa altura em que a intensidade técnica da indústria aumenta a cada ano. Este assunto da mão-de-obra é um problema de toda a indústria e há poucas evidências de que alguém esteja a desenvolver um plano para resolver o problema.

Entretanto, a volatilidade dos preços do gás e do petróleo cresce enquanto a indústria funciona inteiramente com uma mentalidade de mercado para venda à vista. Estas oscilações cada vez maiores estão a corroer as indicações de preços como os guias normais de como a indústria deveria comportar-se.

Os inventários do petróleo também se aproximaram tanto dos fornecimentos just-in-time que qualquer interrupção repentina pode fazer com que os preços subam em espiral. No Outono de 2004, o furacão Ivan atravessou o Golfo do México com força suficiente para destruir muitas das infra-estruturas de produção, mas afinal acabou apenas num simples sopro. Ainda assim, os poucos prejuízos provocados pelo Ivan fez com que várias refinarias da Costa do Golfo tivessem de pedir petróleo emprestado à Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA a fim de se manterem operacionais.

Sempre que se verifica uma subida nos inventários de petróleo (como é necessária se a procurar continuar a crescer), ela é encarada habitualmente pelos negociantes de petróleo e pelos analistas como um sinal de excesso de oferta pendente ao invés de ser recebida como uma influência calmante num mercado de petróleo extremamente rígido. A oferta just-in-time no negócio do petróleo é uma forma perigosa de roleta russa.

Nenhuma destas tendências são fáceis de travar. Poucas delas reflectem sinais de uma indústria saudável, sustentável e próspera. Será interessante observar como tudo isto se vai conjugar durante 2005. Se a procura de petróleo tiver este ano um crescimento semelhante à de 2004, é difícil ver como a oferta pode acompanhá-la.

Há a hipótese de que um clima extremamente suave possa diminuir a procura de Inverno. O tempo no verão poderia tornar-se tão suave que retardasse a utilização do ar condicionado. As economias globais também poderiam enfraquecer a ponto de aplainar a procura de petróleo. A China pode experimentar uma aterragem difícil ou atravessar um caos social. O tsunami asiático pode desfazer o crescimento económico asiático. Uma epidemia de surpresa como o SARS ou a gripe asiática poderia conter ainda mais a procura pelo petróleo.

Qualquer destes cenários é possível, mas se eles não ocorrerem é difícil ver como a oferta irá superar a procura em 2005.

[*] Presidente e Director-geral da Simmons & Company International, Houston. Os estudos e apresentações de Simmons são publicados regularmente em numerosas publicações e jornais da indústria do petróleo e do gás.

O original encontra-se em http://www.worldoil.com/ . Tradução de TB.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

08/Mar/05