A era pós-petróleo vai começar
Durante os três últimos anos, aumentaram consideravelmente as
preocupações com o esgotamento das reservas petrolíferas.
Agora, elas não se restringem às importações do
Oriente Médio, região de turbulências crônicas.
Abrangem o conjunto mundial de produção, refinação
e transporte de petróleo e gás natural. O sinal de alarme
é acionado cada vez mais freqüentemente, tanto pelos dirigentes
políticos quanto por especialistas independentes. Em seu último
relatório bienal "Perspectivas Energéticas Mundiais",
publicado em 7 de setembro de 2005 e relativo ao período de 2004 a 2030,
a Agência Internacional de Energia (AIE) expressa um sentimento quase
generalizado, ao afirmar que "os riscos para a segurança
energética aumentarão muito, em curto espaço de
tempo", e que "a vulnerabilidade a perturbações no
nível de reservas se acentuará com o aumento do comércio
global
[1]
". Durante seu discurso de ano novo, no dia 5 de abril de 2006, o
presidente francês Jacques Chirac, por sua vez, expressou a
"necessidade de preparar-se para a era pós-petróleo"
como a grande questão do século.
Considerado o principal substituto para o petróleo, o gás natural
ainda suscita preocupações, sobretudo depois de o maior
exportador mundial, a Rússia, suspender as entregas para a Ucrânia
e a Geórgia e as reduzir para a Hungria, Áustria e Itália,
por insuficiência de estoque. Essas perturbações foram
consideradas sérias o bastante para que o problema da segurança
energética dominasse a pauta do encontro do G-8 em fevereiro de 2006, em
San Petersburgo.
No discurso sobre o estado da União de 31 de janeiro, o presidente
norte-americano George W. Bush preconizou, baseado no habitual apelo à
segurança, a necessidade de os Estados Unidos reduzirem sua
dependência face às importações de hidrocarbonetos e
de "ir além do petróleo". A mesma opinião pode
ser ouvida na Europa, onde uma reunião de especialistas em energia,
realizada no dia 15 de fevereiro, em Berlim, destacou "o interesse
estratégico" na diminuição da dependência
européia de importações do Oriente Médio e da
Rússia, e no reforço das medidas de segurança que se
tornaram "cruciais", segundo Luc Werring, alto funcionário da
União Européia.
MAIS GUERREIROS E MAIS DEPENDENTES
Por que todo esse desconforto, quando a águia estadunidense estende suas
asas de um extremo ao outro do Oriente Médio, da Ásia Central e
da África, e os países exportadores não hesitam em abrir
as comportas para enfrentar a rápida aceleração da demanda
e evitar uma escassez de oferta?
Esse sentimento súbito e generalizado de insegurança é o
oposto do que muitos previam ou esperavam, antes da guerra contra o Iraque e da
tomada, por Washington, do país que possui as maiores reservas mundiais
de petróleo, depois da Arábia Saudita, Ele também
contraria as certezas que prevaleciam logo após a guerra do golfo
(1990-1991) e da libertação do Kuwait pelos Estados Unidos e seus
aliados.
Nessa época, ficou famosa uma frase James Schlesinger,
ex-secretário da Defesa e diretor da CIA (governo Nixon) e
ex-secretário de Energia (governo Carter). Ele afirmou, diante do
15º congresso do Conselho Mundial de Energia, (setembro de 1992, Madrid),
que, na opinião de altos funcionários do governo de Bush pai,
"o povo americano aprendeu com a guerra do golfo que é muito mais
fácil e divertido dar um pé na bunda do pessoal do Oriente
Médio que fazer sacrifícios para limitar a dependência em
relação ao petróleo importado".
Schlesinger explicitou seu raciocínio destacando que, depois da queda da
União Soviética e da ameaça soviética às
reservas do Oriente Médio, os temores em relação à
segurança das reservas de petróleo enfraqueceram
consideravelmente nos Estados Unidos. A cotação relativamente
baixa do preço do produto, que contribui para um aumento do nível
de importações e para a queda da produção nacional,
não era mais razão de inquietações.
A última constatação é que o cenário mudou
profundamente ao longo dos três últimos anos. Ao invés de
viabilizar um forte aumento da produção iraquiana e uma
conseqüente baixa nos preços, a invasão do Iraque, em
março de 2003, foi seguida por uma série de sabotagens, tomou a
dimensão de uma guerra civil e acabou provocando uma baixa na
produção de petróleo de 2,5 milhões para 1,5
milhões de barris
[2]
por dia, em um dos principais países exportadores.
Aliados a outros fatores, esse fenômeno levou a uma explosão das
cotações. Na média calculada pela
Organização dos Países Produtores de Petróleo
(OPEP), elas passaram de 24,36 dólares o barril, em 2002, US$ 50,58, em
2005.
UM MUNDO VICIADO EM ÓLEO
Ao contrário das crises de petróleo de 1973-1974 e de 1979-1980,
esta alta completamente inesperada e o desconforto com relação
à segurança de suprimento não são
conseqüências de um embargo, de uma baixa nas
exportações ou da utilização do "ouro
negro" como arma por determinado país produtor. Ela encontra suas
origens numa série de fatores especialmente nos atentados e na
instabilidade política no Oriente Médio, nas tensões em
torno do programa nuclear iraniano, nos conflitos étnicos na
Nigéria
[3]
], etc. Há razões ainda mais preocupantes e duradouras, já
que envolvem o equilíbrio entre oferta e procura.
Vivemos uma aceleração inesperada do ritmo de aumento das
demandas de consumo. Após um crescimento médio de 1,54% ao ano,
durante o período 1992-2002, a demanda mundial aumentou 1,93% em 2003 e
3,7% em 2004. Atingiu um recorde de 82,1 milhões de barris por dia em
2005. Em apenas três anos, a demanda por petróleo aumentou em 5,5
milhões de barris por dia. O crescimento foi assombroso especialmente na
China, com um salto de 7,6% em 2003 e 15,8% em 2004.
Este aumento da demanda levou os países produtores a extrair até
o limite de sua capacidade. Eles não têm como obter mais
petróleo. A esse fator adiciona-se a saturação da
capacidade de transporte e refino, sobretudo nos Estados Unidos, que aumentou
naturalmente a espiral ascendente dos preços.
As estimativas disponíveis, sobretudo as da Agência Internacional
de Energia (AIE) e do Departamento norte-americano de Energia (DoE)
prevêem um aumento de cerca de 50% no nível mundial de consumo,
durante os próximos 25 anos. Isso provocaria um salto de 83,2
milhões de barris/dia, em 2005, para 115,4 milhões, em 2030,
segundo a AIE (ou 131 milhões, de acordo com o DoE). Como bem diz um
anuncio publicitário recente do grupo norte-americano Chevron Texaco:
foram necessários 125 anos para que o mundo consumisse o primeiro
trilhão de barris de petróleo, mas serão
necessários apenas 30 anos para que se consuma o segundo o que
corresponde ao total das reservas comprovadas.
Como e a que custo poderíamos responder a essa rápida escalada da
demanda? A resposta a essa questão depende de duas variáveis: de
um lado, a confiabilidade dos números existentes sobre a estimativa das
reservas; de outro, o possível aumento da capacidade de
produção.
E SE AS RESERVAS FOREM AINDA MENORES?
Apesar de não serem novas, as suspeitas a respeito do real volume de
reservas foram recentemente reforçadas por revisões para baixo
anunciadas por algumas empresas petroleiras, e por novas estimativas feitas por
geólogos independentes. No que se refere aos membros da OPEP, as
dúvidas a respeito das estimativas oficiais remontam aos anos 80, quando
os países do Golfo Pérsico realizaram, um após outro,
reavaliações espetaculares de suas reservas, sem que isso jamais
fosse respaldado por novas descobertas, altas de preço ou novos estudos.
Entre 1985 e 1986, os Emirados Árabes Unidos aumentaram a estimativa
oficial de suas reservas de 33,9 para 97,2 mil milhões de barris. A
Arábia Saudita aumentou a sua estimativa de reservas em 50%, levando-a
de 169,6 mil milhões (1987) para 254,9 mil milhões de barris
(1988). O Iraque dobrou seus cálculos, que passaram de 32 mil
milhões de barris (1981) para 65 mil milhões (a partir de 1983),
chegando depois a 115 mil milhões (2001). Esse inchamento das
estimativas ocorreu em uma época em que os países-membros da OPEP
fixavam suas quotas nacionais de produção essencialmente em
função das reservas comprovadas de cada país. Entre 1983 e
1988, o total das reservas estimadas pela OPEP aumentou em 62%, saltando de 470
para 764,4 mil milhões de barris. Novas reavaliações, nos
mesmos países, elevaram em seguida estas reservas para 896,6 mil
milhões de barris em primeiro de janeiro de 2005.
Algumas dessas revisões certamente foram conseqüência de
novas descobertas, ou de progressos tecnológicos que influenciaram a
capacidade de extração. Outras são objeto de
desconfiança, mesmo porque a quase totalidade dessas reservas é
controlada por empresas estatais, que recusam qualquer controle ou
análise externa. As estimativas oficiais das reservas da OPEP ditas
"comprovadas" são superiores em cerca de 400 mil
milhões de barris às feitas por entidades independentes, entre
elas a
Association for the Study of Peak Oil
(ASPO). Os volumes chamados por
alguns especialistas de "barris fictícios", correspondem a 44%
do total das estimativas oficiais da OPEP. Isso evidentemente não
significa que os números apresentados pelos orgãos independentes
sejam mais próximos da realidade que os anunciados pelos países
em questão. De todo modo, a enorme diferença entre os estimativas
permite ter idéia da complexidade dos critérios técnicos e
econômicos utilizados, e das dúvidas que cercam os dados
disponíveis.
As transnacionais também superestimam
Tais dúvidas são reforçadas pelo fato de os números
publicados por certos membros da OPEP permanecerem inalterados durante
períodos muito longos, como se cada barril extraído fosse
miraculosamente substituído naquele instante por uma nova descoberta ou
reavaliação. O Iraque, por exemplo manteve sua estimativa em 100
mil milhões de barris ao longo de todo o período de 1987 a 1995,
quando a elevou para 115 mil milhões. Não menos surpreendente
é o exemplo do Kuwait, que manteve intacta, entre 1991 e 2002, a
estimativa de 96,5 mil milhões de barris em suas reservas comprovadas
apesar de uma extração acumulada de 8,4 mil milhões
de barris, no período. Baseando-se em dados que teriam sido fornecidos
por altos funcionários do governo do Kuwait, o semanário
americano Petroleum Intelligence Weekly sustenta que as estimativas oficiais
são uma mescla de reservas comprovadas, prováveis e
possíveis. As reservas realmente comprovadas não passariam de 48
mil milhões de barris...
O volume das reservas comprovadas da Federação Russa permanece
incerto, devido tanto à falta de transparência das
estatísticas do país quanto ao método de
avaliação utilizado. De acordo com fontes ocidentais, o volume
real das reservas seria de 30 a 40% inferior às estimativas oficiais, de
72,3 mil milhões de barris.
Mesmo no que diz respeito às empresas multinacionais, com
ações negociadas na bolsa e submetidas a controles
contábeis e empresas de auditoria, há fortes dúvidas
sobretudo depois do caso Shell. Depois de uma forte queda na
produção de suas jazidas de Yebal, em Omã, e outras perdas
em todo o mundo, a companhia teve que reconhecer, em janeiro de 2004, que suas
reservas haviam sido superestimadas em algo próximo de um terço.
Poucos meses mais tarde, a empresa americana El Paso anunciou também uma
reavaliação para baixo em cerca de 11%. Mais recentemente
(janeiro de 2006) o grupo espanhol Repsol-YPF teve também que diminuir
em 1,25 mil milhões de barris suas supostas reservas isto
é, 25% do total do que fora estimado antes. Assim como ocorrera com a
Shell, o grupo foi alvo de uma avalanche de ações judiciais por
parte de seus acionistas.
EXTRAÇÃO SUPERA AS NOVAS DESCOBERTAS
Uma outra causa de preocupação é o fato de que o volume de
petróleo extraído do subsolo é, há 20 anos,
superior ao volume descoberto. Algumas multinacionais, com dificuldades em
manter o nível de produção, compram, quando podem, ativos
de outras empresas. O episódio mais recente foi o da ChevronTexaco, que
pagou alto preço para adquirir, em 2005, a empresa norte-americana
Unocal, cobiçada pela estatal chinesa CNOOC. Sem esta
aquisição, a taxa de renovação de reservas da
ChevronTexaco não ultrapassaria os 40-45% em 2005.
Junto com a desaceleração das descobertas e com a baixa, lenta
mais inexorável, da proporção
reservas/extração, um outro risco pesa sobre o mercado do
petróleo. Trata-se do declínio na produção, num bom
número de países, e da insuficiência de investimentos
voltados para desenvolver as novas tecnologias necessárias para o
suprimento da demanda.
Por causa da baixa na produção e do aumento de suas necessidades
nacionais, certos países, antes grandes exportadores de petróleo,
tornaram-se importadores (Indonésia, Egito e Tunísia; sem
esquecer, é claro, os Estados Unidos), ou estão em vias de se
tornar (Gabão, Omã e Síria). No México, um estudo
realizado em 2005 pela companhia nacional Pemex, alerta para o risco de um
declínio na extração muito mais rápido que o
previsto principalmente no campo de Cantarell, que, com 2 mil
milhões de barris, representa cerca de 60% do total da
produção no país. No Mar do Norte, a AIE prevê o
declínio das reservas, de 6,6 mil milhões de barris (2002) para
4,8 mil milhões (2010) e apenas 2,2 mil milhões (2030).
Este declínio poderia ser compensado a tempo por países
exportadores? Não há nada mais incerto. No que diz respeito ao
Oriente Médio, cuja produção deveria supostamente dobrar
até 2025, para saciar a crescente demanda global, as
projeções da AIE e do departamento americano de Energia parecem
ser totalmente irrealistas. Somente a Arábia Saudita pôs em marcha
um programa que visa o aumento de sua capacidade dos atuais 10,8 mil
milhões de barris dia para 12,5 mil milhões de barris dia em
2009. Nos demais países, a situação é bem menos
promissora, sobretudo no Irã, Iraque e Kwait. A situação
política no Iraque e as tensões envolvendo o programa nuclear
iraniano comprometem a capacidade produtiva desses países. O famoso
"projeto Kuwait", que deveria dobrar a produção do
país, avança lentamente há dez anos, enquanto as antigas
jazidas de Burgan e de Raudhatain, que totalizam 67% da produção
do país, começam a dar sinais de esgotamento.
Nesse contexto, marcado por uma demanda cada vez maior e recursos cada vez mais
raros, os principais perigos que rondam a segurança do abastecimento
são o desequilíbrio entre a oferta e a procura e a
concorrência e risco de conflitos, entre os principais países
consumidores. Essa rivalidade explica a corrida em que se lançaram os
Estados Unidos, os países europeus, a China, o Japão e a
Índia, para pôr os pés nos países detentores de
reservas e controlar as rotas marítimas e terrestres entre os centros de
produção e as grandes zonas de consumo. A guerra do Iraque, que
permitiu a Washington livrar-se da presença francesa, russa e italiana
naquele país; o novo oleoduto Bakou-Tbilissi-Ceyhan (BTC); e o recente
acordo entre Alemanha e Rússia sobre o gasoduto norte-europeu (GNE), que
será construído sob o Báltico, são exemplos de
grandes manobras tendo em vista a segurança de abastecimento
energético dos países envolvidos.
Depois da crise de 1973/1974, os perigos mudaram de natureza. A palavra embargo
foi banida do vocabulário dos países exportadores. Por maior que
seja a ironia, são os países industrializados que utilizam o
petróleo como arma, contra os países exportadores. Isso se deu,
por exemplo, por meio das sanções da ONU contra o Iraque (no
período 1990-2003) ou de sanções norte-americanas contra
Irá, Líbia por meio do ato de sanção contra
a Líbia e o Irã (ILSA)
[4]
e Sudão. Ao contrário do que supõe um preconceito
tão absurdo quanto perigoso, há uma verdadeira complementaridade
entre os países importadores e exportadores. À legitima
preocupação dos primeiros, para garantir suas
importações de petróleo e gás, corresponde a
não menos legítima e não menos vital
preocupação dos segundos, interessados em garantir seus mercados
e receitas de exportação, indispensáveis para o
desenvolvimento de suas economias. Quanto às divergências sobre os
preços, elas mesmas têm se atenuado. A nova tendência de
alta favorece uma necessidade imperativa. Ela permite conseguir
aprovação para investimentos colossais no desenvolvimento da
capacidade de produção e de outras fontes de energia mais caras.
Com o petróleo destinado a se tornar cada dia mais caro e mais raro, o
problema da segurança de abastecimento requer um comportamento
político bem diferente daquele de trinta anos atrás. Os
antagonismos e os riscos de conflitos situam-se hoje bem menos entre os
países produtores e os importadores. Concentram-se entre os
próprios países importadores, cujo aumento de demanda e o
declínio na produção doméstica levam
inevitavelmente a depender ainda mais de importações, sobretudo
provenientes de países do Oriente Médio. Algumas velhas receitas
para a manutenção da segurança, entre elas a
diversificação das fontes de abastecimento ou o exercício
da pressão sobre os países produtores a fim de se beneficiar de
petróleo abundante e barato, tornaram-se ineficazes. Os novos desafios
somente podem ser enfrentados mediante relações baseadas no
equilíbrio de interesses entre os países soberanos.
[1]
http://www.iea.org/Textbase/press/pressdetail.asp?PRESS_REL_ID=163
[2] 1 barril = 159 litros.
[3] Ler Jean-Christophe Servant, "Caos e Ira nos campos da
Nigéria", Le Monde Diplomatique-Brasil, abril de 2006.
[4] O ILSA foi votado pelo congresso norte-americano em 1996. O projeto
estabelece sanções a empresas estrangeiras que investirem mais de
40 milhões de dólares no setor energético iraniano (A
Líbia teve o embargo suspenso depois do relaxamento das tensões
com os Estados Unidos). Apesar de o texto nunca ter estado em vigor, conseguiu
dissuadir algumas empresas de investir no Irã.
[*]
Director do Centro Árabe de Estudos Petrolíferos e
da revista
Le Pétrole et le Gaz arabes,
Paris.
O original encontra-se na edição brasileira de
Le Monde Diplomatique
.
Tradução de Leonardo Abreu.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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