Pico petrolífero: Cortes na energia eléctrica
por Railton Frith
As nossas empresas de energia, água e comunicações
são actualmente extremamente interdependentes e particularmente
energívoras sendo incapazes de resistirem a
interrupções da sua fonte de energia por mais do que umas poucas
horas, ou no máximo alguns dias. O pico iminente na
produção mundial de petróleo terá
consequências imprevistas para o abastecimento de todas as empresas, as
quais são de alcance vasto e potencialmente severas. A Curva Hubbert,
que pode ser utilizada para prever a oferta de petróleo, sugere um
declínio inicialmente suave nos fluxos de petróleo, em torno dos
3% a 6% ao ano. Mas as consequências de tal declínio serão
tudo menos suaves e, a menos que sejam tomadas medidas rapidamente, isto
potenciará um colapso simultâneo e catastrófico de todas as
nossas empresas de serviços públicos
(utilities)
e, com isto, do nosso actual modo de vida.
RESERVA GIRANTE E PARADA
Em quase todos os países a produção e transporte de
energia eléctrica faz-se através de redes nacionais de alta
tensão que permitem a combinação instantânea de
muitas centrais produtoras para atender a procura e melhorar a
resiliência em caso de falhas no funcionamento do sistema interligado.
Esta configuração permite que picos localizados na procura sejam
satisfeitos de um modo ordenado e previsível desde que haja alhures
reserva girante com capacidade produtora .
Actualmente, a electricidade é produzida por diferentes vias, que
vão desde o petróleo, o gás, o carvão, o nuclear e,
numa menor extensão, o vento e as ondas do mar. Mas todas elas exigem
grandes investimentos de capital. Em consequência, até agora o
excesso de reserva girante tem permanecido uns poucos por cento acima da
procura instantânea.
FUTURAS DESINSTALAÇÕES DE POTÊNCIA
A pesada dependência dos EUA e do Reino Unido em relação a
centrais térmicas a gás, a carvão e fuelóleo para
produzir electricidade e o envelhecimento das centrais nucleares prestes
a serem retiradas de serviço resultará num esmagamento da
potência instalada que coincidirá aproximadamente com o momento do
pico petrolífero. No número de Julho de 2006 do
Energy Review,
do governo britânico, estima-se que uma potência instalada,
actualmente de 18 gigawatts, equivalente a cerca de 25% do total actual,
será perdida por saídas de serviço até 2023.
No Reino Unidos, por exemplo, termoeléctricas a gás representam
mais de 40% da oferta, a carvão 33% e nucleares em torno de 19%
[1]
. Foi previsto que de 2011
[2]
a 2030
[3]
o mais tardar, a oferta mundial de petróleo atingirá o pico e
com isto a dependência em relação ao gás russo
aumentará (uma vez que a produção do Mar do Norte
já atingiu o pico por volta de 1999
[4]
) e então declina e desaparece quando a oferta de gás europeu
atingir o pico em 2010
[5]
.
A oferta de gás russo tem sido congelada numa aberta
demonstração de força e pode muito bem voltar a ser. Ao
mesmo tempo, a produção nuclear diminuirá para cerca da
metade da potência actual. Um quadro semelhante também é
verdadeiro em relação à América, dependente como
está do rápido declínio dos campos de gás e de um
programa nuclear estagnado e com reactores obrigados a serem postos fora de
serviço. A perda de uma fonte de energia primária tal como a
oferta de gás ou a nuclear está a tornar-se mais real e a margem
de reserva girante ou parada cada vez mais delgada, ao ponto de uma
variação brusca
(surge)
na procura devido, digamos, a uma onda de frio ou a um disparo inesperado de
uma central electro-produtora faz reduzir esta margem a zero (ou até a
um valor negativo).
EXCESSO DE PROCURA
Se for apresentado à rede um excesso instantâneo de procura maior
do que a reserva girante, esta pode sofrer disparos parciais
(brownouts)
provocados por abaixamentos na tensão de transporte. Isto pode resultar
pelos aumentos da corrente de transporte. De facto, o objectivo de utilizar uma
rede de alta tensão é minimizar a corrente de transporte a fim de
diminuir as perdas de energia devidas ao efeito de Joule provocado pelo
aquecimento. A perda de energia é proporcional ao quadrado da corrente
de modo que a duplicação da corrente quadruplica a energia
perdida no transporte
[6]
. Quando a corrente aumenta, a eficiência do transporte de electricidade
reduz-se de modo que quando a procura aumenta outra vez, aumenta ainda mais a
corrente que está fisicamente limitada pelas secções dos
cabos das linhas de transporte que podem deixar de suportar a sobrecarga da
procura. A rede tentará libertar a carga pelo disparo automático
de protecções de sobrecarga, provocando cortes localizados de
fornecimento de energia e provocando aumentos de potência na rede quando
os níveis de tensão recuperarem. Se uma secção da
rede, que contenha centrais electroprodutoras ou permita acesso a centrais,
desconectar-se, então a carga remanescente tem de ser fornecida
através de menor número de centrais. Quando a procura está
próxima ou acima da potência em funcionamento isto pode provocar
mais sobrecargas
(surges)
e um disparo em cadeia
(cascading fault)
que poderá finalmente desligar todas as centrais electroprodutoras que
estavam ligadas à rede. Quando as centrais são desligadas da rede
e ficam de repente sem carga, podem ocorrer danos no próprio equipamento
electroprodutor.
FALHAS EM CADEIA
Quando a procura ultrapassa a potência máxima das centrais em
funcionamento, a rede torna-se essencialmente caótica e completamente
incontrolável. Este comportamento imprevisível pode ser visto em
lugares onde a infraestrura da rede de electricidade é inadequada ou
está danificada devido a efeitos de guerra. Exemplos de
oscilações isoladas de energia eléctrica que flutuam
(flicker)
ligando-se e desligando-se podem ser vistos por todo o mundo em desenvolvimento
e não apenas na espinhosa guerra do Iraque. Quando a potência
eléctrica é perdida, as estações de bombagem de
água paralisam em simultâneo juntamente com muitas outras empresas
de serviços públicos. Uma vez iniciada esta instabilidade
mesmo sem uma guerra torna-se extremamente difícil recuperar
certos equipamentos eléctricos como disjuntores, seccionadores e
transformadores sofrem falhas repetidas à medida que são sujeitos
a um serviço com sobrecargas que provocam falhanços mais adiante.
Algumas destas falhas são momentâneas ou são mais
rápidas de reparar, como os seccionadores de circuitos aéreos,
outras, como nos transformadores de alta tensão, podem levar dias,
semanas e mesmo meses para reparar.
PREVENÇÃO DE FALHAS
O ciclo de falhas seguidas em cadeia persiste até que o excesso de
procura seja removido. Em termos simples, quem tem responsabilidade na
produção de energia eléctrica tentará prevenir esta
situação de falhas através da separação
selectiva e deliberada de secções da rede de um modo controlado a
fim de que a rede jamais entre numa situação caótica e
imprevisível. A separação selectiva e controlada na
satisfação da oferta permite que haja suficiente flexibilidade
topológica na rede e que as centrais electroprodutoras possam ser
isoladas de secções da rede para reduzir a procura. Finalmente,
quando a rede é progressivamente desligada, suas secções
mais remotas e portanto menos eficientes serão cortadas antes daquelas
secções próximas a fim de que as centrais
electroprodutoras permaneçam online. Porque muitas das redes são
transnacionais, quando isto ocorre visto do espaço, o planeta
parecerá apagado e a localização das centrais
tornar-se-á visível como velas num bolo de aniversário tal
como na viragem para o século XX, antes do advento das redes modernas.
RACIONAMENTO DA OFERTA ELÉCTRICA
A perspectiva a longo prazo, em termos de meses, anos e décadas,
é de que o actual sistema electroprodutor interligado tornar-se-á
demasiado caro para operar e, ainda mais importante, demasiado ineficiente para
continuar viável. A produção centralizada de energia
eléctrica e a rede acabarão finalmente por dar lugar à
produção localizada com grandes áreas populacionais tendo
ou de racionar as centrais produtoras remanescentes quando forem ligadas uma ou
duas horas por dia, ou retornar a um estilo de vida mais afim àqueles
dos séculos XVIII e XIX.
REACÇÃO DOS GOVERNOS
As consequências civis da distribuição desigual de energia
eléctrica serão agudas pois alguns grupos continuarão
quase sem ser afectados ao passo que a maioria dos outros será
totalmente removida do nosso moderno modo de vida devorador de energia. Algumas
escolhas difíceis terão de ser feitas pelos governos, que
terão de priorizar a utilização do seu combustível
fóssil para impedir que partes da população se revoltem
contra o seu recém-descoberto estilo de vida eco-amistoso. Inicialmente,
isto será através da protecção agressiva dos seus
abastecimentos e da obrigatoriedade de outros países menos ricos e menos
avançados militarmente consumirem menos. A divisão resultante e a
comoção civil provocada pela perda de serviços
básicos como aquecimento, luz e água servirão como uma
advertência sombria. Governos ocidentais por todo o mundo podem ser
tentados a restringir a liberdade e o movimento.
Será que a opção dos governos se reduz outra vez à
escolha de Hobson
[NT]
, quando os abastecimentos de gás e petróleo se contraírem
e a oferta finalmente não puder mais acompanhar a procura por
gás, e petróleo para electricidade ou para transporte? Nenhuma
das duas opções é bem vinda.
PLANEAMENTO PARA O FRACASSO
Há dois lados quanto ao uso da energia eléctrica: a oferta e a
procura. Actualmente, apenas a oferta tem sido coordenada através de uma
super-oferta de uma rede, e isto tem sido possível devido a um excesso
de oferta de combustível fóssil. Onde a rede fracassou na
satisfação do excesso de procura, os governos tiveram a
capacidade, com a tecnologia moderna, de coordenar o lado da procura. Isto
é feito (a) coordenando a procura da população por energia
eléctrica; e (b) impedindo o excesso de procura, a fim de que a rede
não falhe. Utilizando um gráfico que compara a potência
disponível para a oferta minuto a minuto durante a próxima
década seria possível de forma inteligente comutar o ligar e o
desligar de cada uma delas e de todas as unidades dos equipamentos dos
consumidores.
Há mais fontes potenciais de energia no mundo de modo que a
utilização da geotermia, ondas, vento e marés pode ajudar
a cobrir as deficiências o que, quando combinado com a
coordenação activa da procura, permitiria que continuasse a vida
normal para todos embora forçada a um estilo de vida mais eco-amistoso
seguindo a Curva de Hubbert pós pico petrolífero e com a
recuperação de energia utilizando fontes de energias
renováveis.
ACTUAR AGORA, PLANEAR DEPOIS
Uma questão de grande preocupação é quando
será introduzida a coordenação activa da procura com
fontes de energia renováveis? Quanto mais for adiada mais difícil
será evitar irreparáveis falhas de rede e o grande risco para a
sociedade. Para mitigar os efeitos das falhas de energia em cadeia, um programa
planeado de distribuição localizada através de
micro-geradores utilizando sistemas combinados de calor e energia naquelas
localizações mais distantes das centrais electroprodutoras
será necessário. Tristemente, parece ser de pouco interesse para
o governo promover esta abordagem prevendo o futuro quando nós
cambaleamos em direcção às noites negras de uma nova era
sombria.
15/Junho/2007
[1] The Last Oil Shock, 217.
[2] Ver análise de Chris Skrebowski, Ibid., 209.
[3] International Energy Agency, Ibid., 209.
[4] Ibid., 75.
[5] Ver trabalho de Laherrère citado em The Last Oil Shock, Ibid., 217.
[6] A aplicação da Lei de Ohm dá a fórmula P=I
2
R ou Perda = (Corrente)
2
x Resistência eléctrica do cabo.
[NT]
Hobson's choice
: uma falsa ilusão de escolha.
O original encontra-se em
http://www.sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1257
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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