O pico petrolífero e os subúrbios

  • O autor mostra como – devido ao processo de suburbanização – a crise do Pico Petrolífero afectará mais severamente os EUA do que a Europa
  • por James Kunstler

    Recebo montes de cartas de pessoas de todo o país que estão histericamente perturbadas com o contínuo espectáculo do desenvolvimento suburbano. Mas ao invés de aderir a esta preocupação respondo declarando a minha serena convicção de que estamos no fim do ciclo — e com isto quero dizer o grande meta-ciclo do projecto suburbano como um todo. Está acabado. Seja como for que isto termine agora já é muito claro que ficaremos entalados nisto. As obras remanescentes ainda em construção são as últimas contorções de um organismo que está a morrer.

    Não é um acaso que a bolha imobiliária tenha coincidido com o fenómeno do Pico Petrolífero. Antes de mais nada, a bolha imobiliária deveria mais adequadamente ser chamada de bolha suburbana, pois a maior parte da actividade surge na forma de subdivisões habitacionais do "campo verde", e incluiu todos os acessórios enganosos que eles exigem: centros comerciais, subestações eléctricas, churrascarias em locais distantes, lavagens de carro, etc. A expansão suburbana foi baseada inteiramente na oferta de petróleo abundante e barato. Analogamente, não foi um acidente que o projecto suburbano vacilasse brevemente na década de 1970, quando a produção petrolífera americana entrou no seu longo declínio, a OPEP aproveitou o momento e os preços do óleo dispararam. Observe-se que a explosão suburbana final verificou-se depois de 1990, quando as descobertas das reservas do Mar do Norte e da Prudhoe Bay entraram em produção plena, neutralizando a OPEP, e um excesso de oferta de petróleo acabou por conduzir a preços tão baixos quanto dez dólares por barril (1999). Isto introduziu a fase quente dos subúrbios, representada por coisas como o padrão McMansion de 4000 pés quadrados [372 m 2 ] da Toll Brother e o apogeu dos SUV super-gigantes a fim de ir para lá.

    Metros quadrados de comércio a retalho per capita. O público americano não tem ideia de quão abrangente é isto tudo. A base está a ruir não apenas no mercado habitacional (como nas casas à venda) mas em todo o aparelho para a entrega de casas futuras, e a orientação para o carro associada a isso. A produção de construtores de casa, tais como Toll Brothers, Hovanian, Pulte, etc está prestes a cair e eles não voltarão a recuperar-se. Haverá muita vontade de que se possam recuperar, mas não poderão. Da mesma forma, os construtores comerciais de todas as várias formas de comércio retalhista suburbano ficarão à espera da "viragem da esquina". Mas descobrirão que a parede com a qual se chocaram não tem esquina. É apenas uma parede. Qualquer um que tenha a curiosidade de saber quanto espaço de comércio a retalho não precisamos dos EUA, basta olhar este gráfico que compara a quantidade de metros quadrados atribuídas aos cidadãos de cada país.

    Aqueles que estão a considerar a compra de mais acções da WalMart, prestem atenção.

    Alguns anos atrás, quando aqueles que observavam o cenário do petróleo começaram a unir-se no seu reconhecimento de que um pico na produção petrolífera mundial estava iminente e era enormemente significativo, desenvolveu-se o conceito de que este pico assumiria a forma de um "planalto inchado" ("bumpy plateau"). Isto significava que a oferta e procura balouçaria num relacionamento inconfortável por um certo período de tempo quando os mercados e as economias ajustar-se-iam à nova realidade oscilando de preços mais elevados para "destruir a procura" para a recessão e para a recuperação de preços mais elevados, e assim por diante. Esperava-se que isso perdurasse por um bocado de tempo até que o mundo realmente caísse num lento declínio permanente.

    O mais recente trabalho estatístico elaborado pelo geólogo Jeffrey Brown, de Dallas, publicado em The Oil Drum.com [1] , sugere que está a acontecer outra coisa, algo que não estava previsto: uma iminente crise das exportações de petróleo. Esta Teoria da Exportação declara que os países exportadores terão muito menos petróleo disponível para exportar do que era anteriormente considerado com os modelos mais antigos. [2] A teoria declara que as taxas de exportação cairão numa percentagem muito maior do que as taxas de declínio da produção líquida em qualquer dado país exportador. Por exemplo: a porção britânica dos campos petrolíferos do Mar do Norte podem estar a mostrar um declínio anual de nove por cento no último par de anos. Mas a sua capacidade exportadora declinou sessenta por cento. Algo semelhante está na calha para a Arábia Saudita, Rússia, México, Venezuela – em suma, todo o conjunto de grandes personalidades na exportação mundial. Todos eles estão a produzir menos e estão a utilizar mais do seu próprio petróleo, e dispõem de menos para enviar a outros lugares.

    A matemática de Brown sugere que as exportações petrolíferas mundiais cairão em cinquenta por cento dentro dos próximos cinco anos, o que certamente é suficiente para disparar uma ruptura sistémica na partilha dos mercados, significando uma séria escassez de oferta entre os países importadores. Ou seja, nós. Nós importamos dois terços do petróleo que utilizamos.

    A implicação de tudo isto é que as actividade que se tornaram "normais" para nós durante o período pós Segunda Guerra Mundial muito em breve tornar-se-ão indefensáveis. Uma economia baseada na expansão suburbana e na incessante motorização está no topo da lista de actividades supostamente "normais" que não poderão continuar. Eu sustentaria que mesmo se dispuséssemos de vinte anos pela frente, nenhuma combinação de biocombustíveis e outras alternativas nos permitiria manter os subúrbios em funcionamento. Mas este estudo mais recente indica que temos muito menos tempo para adaptar-nos.

    Esta nova informação é coerente com a minha visão de que temos de preferência de nos prepararmos para fazer outros planos de acção para viver neste país, pelos quais quero dizer especificamente re-localizar, des-globalizar, com uma ênfase na agricultura local sempre que possível, a restauração de emergência do serviço ferroviário de passageiros e modos relacionados de transporte público, a reconstrução de infraestruturas comerciais locais, e um repensar radical de como habitamos a paisagem sob novas linhas urbanísticas.

    Talvez o perigo mais iminente seja o de os mercados financeiros, os quais tem estado a conduzir-nos a esta insanidade, esvaziando a economia, reconheçam em breve o que está prestes a acontecer e impludam, criando uma crise de capital que nos deixará incapazes de fazer quaisquer investimentos de emergência, como os que seriam exigidos para reconstruir o sistema ferroviário. Os mercados de acções certamente piscaram na semana passada quando afundaram dois hedge funds baseados sobre obrigações lixo (phony-baloney) de dívida colaterizada. A garantia colateral subjacente a esta carga de "riqueza" alucinada compreende contratos feitos pelas insolventes casas suburbanas que valem muito menos do que o valor declarado nos contratos – com todos os sinais de que o valor real continuará a cair.

    Em qualquer caso, para aqueles que continuam a aferrar as mãos no comando dos bulldozers que nivelam terrenos de pradaria, ou campos de milho, ou desertos – tais pessoas aflitas podem dirigir a sua ansiedade para outro lado qualquer. Preocupem-se menos sobre se o resto de um centro comercial entrará em decadência e pensem mais detidamente sobre como irá alimentar a si próprio e a sua família dentro de um par de anos quando o estupendo moloch motorizado da vida americana começar a romper-se, e os abastecimentos de batatas fritas não estiverem mais disponíveis nas prateleiras dos supermercados, e tudo aquilo que é "normal" estiver a esvanecer-se no ar.

    25/Junho/2007

    [1] http://www.theoildrum.com/
    [2] http://www.theoildrum.com/node/2689#more


    Do mesmo autor:
  • A longa emergência
  • Depois do petróleo: Por que não nos salvarão os combustíveis alternativos

    O original encontra-se em http://jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 17/Jul/07