O ancestral do Pico Petrolífero:
O pico da produção carbonífera britânica na
década de 1920
Estamos há apenas uns poucos anos do Pico Petrolífero, o momento
em que a produção mundial de petróleo iniciará o
seu declínio irreversível. O que deveríamos esperar que
aconteça no momento do pico e depois disso? A história
hão é um guia directo, uma vez que não existem casos
passados de uma importante mercadoria global, tal como o petróleo, a
atingir o pico. Contudo, tem havido picos regionais com efeitos globais. O
caso mais bem conhecido é aquele da produção de
petróleo dos EUA que atingiu o pico em 1970, o que provocou a primeira
grande crise petrolífera nos anos que se seguiram. Mas este não
foi o primeiro caso de um importante recurso a atingir o pico e declinar,
houve um importante pico quase meio século antes: o Pico do
Carvão na Grã-Bretanha, na década de 1920.
O passado geológico deixou à Grã-Bretanha uma
dotação em carvão sem paralelo em qualquer outra
região da Europa. A exploração começou em eras
medievais e já no século XVIII tornara-se uma indústria em
crescimento exponencial. O carvão alimentou a Revolução
Industrial britânica, e estava também conectada ao poder
político, permitindo à Grã-Bretanha construir o primeiro,
e até então o único, império da história. A
importância do carvão é dificilmente subestimável.
Durante o período de expansão da indústria, um mineiro
britânico podia produzir quase 250 toneladas de carvão por ano
(Kirby 1977). Mesmo levando em conta que cerca de 20% tinha de ser utilizada
para minerar mais carvão, a produtividade de um mineiro de
carvão, em termos de energia, era centenas de vezes maior do que a de um
trabalhador agrícola. No apogeu do seu império, a
Grã-Bretanha empregava mais de um milhão de mineiros (Kirby
1977). Era a superpotência da época, sendo desafiada apenas por
outros Estados produtores de carvão. Na Primeira Guerra Mundial, o
carvão britânico combateu contra o carvão alemão: o
britânico venceu.
Mas o carvão não podia perdurar para sempre, mesmo para uma
Grã-Bretanha abundantemente dotada. Já em meados do
século XIX, William Stanley Jevons previu, no seu
The Coal Question
(1856), que o esgotamento um dia tornaria o carvão britânico
demasiado caro para a indústria britânica. Jevons não
declarou explicitamente o conceito de Pico Carbonífero
(Peak Coal)
mas, numa sentido qualitativo, sua análise foi semelhante
àquelas de Marion King Hubbert para a produção de
petróleo nos Estados Unidos (Hubbert, 1956). E Jevons estava certo: o
pico da produção carbonífera britânica verificou-se
em 1913. A indústria do carvão britânica lutou por manter
a produção mas não podia atingir novamente aquele
nível. A pressão sobre a indústria também pode ser
mostrada pelas duas grandes greves gerais de mineiros, de 1921 e 1926, que
provocaram uma queda de produção temporária. A
tendência descendente tornou-se evidente na década de 1930 e
não podia ser travada. A produção britânica seguiu
uma clássica curva em formato de sino em pleno acordo com o modelo de
Hubbert, com o melhor ajustamento da distribuição indicado um
pico em 1923, somente dez anos após o real. Hoje, a
produção de carvão na Grã-Bretanha é de
menos de um décimo do que foi no seu pico.
O pico da produção carbonífera britânica foi um
ponto de viragem na história; nunca antes uma importante região
produtora de energia começará o seu declínio. Há
analogias impressionantes entre o caso do Pico do Carvão Britânico
de 1923 e aquele do Pico Petrolífero Americano de 1970. Em ambos os
casos, os países estavam a produzir no momento do pico cerca de 20% do
total mundial. Em ambos os casos, as consequências à escala
mundial foram importantes. Antes do pico, a Grã-Bretanha estava a
exportar cerca de 25% da sua produção interna, e este montante
estivera a crescer exponencialmente juntamente com a produção.
Após o pico, as exportações começaram a declinar,
provocando uma escassez de carvão no mercado mundial. No caso dos EUA,
as exportações de petróleo não eram importantes
antes do pico (DOE 1993). Mas, após o pico, as
importações americanas de petróleo ascenderam rapidamente,
conduzindo também à escassez no mercado mundial. A escassez de
petróleo na década de 1970 deu origem aos saltos de preços
que provocaram a Grande Crise Petrolífera. Um salto semelhante teve
lugar para o carvão na década de 1920 (Australian Gov., 2006)
embora fosse menos pronunciado. Mas provavelmente, o salto do carvão
foi menos abrupto porque os controles de preços que estiveram em vigor
durante a guerra foram relaxados vagarosamente na década de 1920. Os
preços do carvão permaneceram elevados na década de 1920,
mas caíram com o crash de 1929.
Muitas regiões da Europa dependiam do carvão britânico, de
modo que a falta de carvão foi sentida por toda a parte. Vários
eventos que se seguiram ao pico do carvão britânico podem ser
relacionados com a redução da disponibilidade de energia: o
declínio do Império Britânico, a Grande Depressão da
década de 1930, bem como a reviravolta política geral da Europa
nas décadas de 1920 e 1930. Os jornais italianos dessa época
estão cheio de insultos contra a Grã-Bretanha por não
enviar para a Itália o carvão a que os italianos sentiam ter o
direito. Isto reflecte a espécie de atitude que os países
ocidentais adoptaram contra os produtores de petróleo do Médio
Oriente na década de 1970. Mas, se o carvão britânico
estava a minguar na década de 1930, o carvão alemão estava
ainda a aumentar; o seu pico só se seria alcançado na
década de 1940. A Alemanha nunca produziu carvão em grande
escala, nomeadamente o da melhor qualidade, como fez a Grã-Bretanha, mas
na década de 1930 tinha a vantagem de ainda poder aumentar a sua
produção, ao passo que a da Grã-Bretanha estava a
declinar. Na década de 1930 a Itália abandonou o seu aliado
tradicional, a Grã-Bretanha, pela Alemanha porque apenas a Alemanha
podia proporcionar o carvão que a indústria italiana precisava a
um preço que os italianos podiam comprar. Só mais tarde eles
perceberiam que o preço do carvão alemão era muito mais
alto do que havia parecido.
Na década de 1950, após a confusão da Segunda Guerra
Mundial, os problemas provocados pelo pico do carvão britânico
foram resolvidos por algum tempo pela comutação
para o petróleo. Da mesma forma, após a confusão da crise
petrolífera da década de 1970, os problemas provocados pelo pico
petrolífero americano foram resolvidos por algum tempo
pela transferência para outras regiões produtivas. Em ambos os
casos, nem o público, nem os políticos, nem os economistas viram
a relação entre os eventos políticos e económicos
da época e o atingir do pico da produção
petrolífera e carbonífera. Na década de 1930 eram
escritos muitos livros sobre o carvão (Neuman 1934) mas a palavra
esgotamento
(depletion)
dificilmente era mencionada. Em 1977, Kirby escreveu mais de 200
páginas sobre a história da indústria do carvão
britânica durante o período do pico sem nem sequer mencionar a
questão do esgotamento. Aparentemente, as pessoas não podiam
entender porque, enquanto ainda havia carvão a ser extraído, a
produção declinaria. Elas não entendiam que não
é a disponibilidade física que conta e sim o seu custo da
extracção, que aumenta com o esgotamento progressivo. Era um
conceito que Jevons já havia entendido quase um século antes mas
não havia sobrevivido na corrente principal das ciências
económicas. O caso do pico petrolífero americano foi semelhante,
o atingir do pico geralmente foi ignorado pelos economistas, apesar de Marion
King Hubbert tê-lo previsto correctamente. Tudo aquilo que aconteceu
depois foi atribuído a causas políticas. Ambos os picos logo
foram esquecidos.
Hoje, é a produção global de petróleo que
está a atingir o pico. É algo que todos nós estamos a
ver, mas não é politicamente correcto mencionar o facto. Atingir
o pico é um acontecimento grandioso, mas sugere uma realidade que a
maior parte das pessoas preferiria ignorar: a finitude dos recursos minerais.
Podemos bem ignorar o pico global, tal como a maior parte das
pessoas ignorou o pico carbonífero britânico dos anos 1920 e o
pico petrolífero americano de 1970. Mas, ainda assim, não
poderemos ignorar os seus efeitos.
Referências
Australian Government, the Treasury, 2006 (accessed)
www.treasury.gov.au/
Coal Authority, 2006 (accessed) www.coalminingreports.co.uk
Cook, C and Stevenson, J. 1996. The Longman Handbook of Modern British History,
1714-1995. Longman 3rd Edition. London and New York:
DOE 1993, DOE/EIA-0572 Report,
Hubbert, M.K. (1956). Nuclear Energy and the Fossil Fuels. Presented before the
Spring Meeting of the Southern District, American Petroleum Institute, Plaza
Hotel, San Antonio, Texas, March 7-8-9, 1956
Kirby, M. W., 1977 The British Coalmining Industry, 1870-1946, The Macmillan
Press Ltd, London and Birmingham.
Neuman A.M. 1934 Economic Organization of the British Coal Industry; Routledge.
[*]
Responsável pela secção italiana da
ASPO
,
ugo.bardi@unifi.it
O original encontra-se em
http://www.peakoil.ie/newsletter/en/htm/Newsletter73.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|