O petróleo e os mitos da eficiência

por Rick Wolff [*]

Tudo o que os americanos fazem exige transporte porque as nossas casas individuais, assim como nossos empregos e locais de compras, estão todos a consideráveis distâncias uns dos outros, excepto nas nossas cidades maiores e mais densas. O automóvel privado impera. Tudo o que compramos numa loja chegou ali em camião. Dois terços do consumo de petróleo estado-unidense cabe ao transporte, a maior parte do qual aos automóveis privados. Os preços do petróleo e da gasolina são componentes chave das situações financeiras nacional e pessoais, assim como a produção e o consumo de petróleo e gasolina são as causas fundamentais do dano ambiental bem como de mortes e prejuízos não naturais. O transporte em massa é minimizado nos EUA e habitualmente sobrevive à míngua de apoio financeiro, quando existe.

Este sistema, se bem que muito lucrativo para certas indústrias e empresas, nunca foi "eficiente" a menos que se equipare lucratividade com eficiência, como se os lucros fossem medidos pela eficiência. Quando se leva em conta os custos não incluídos na contabilidade corporativa, a dita "eficiência" rapidamente desaparece. Os lucros são positivos para muitas corporações envolvidas directa ou indirectamente no transporte, porque elas não levam em conta os custos das mortes e prejuízos de dezenas de milhares de famílias afectadas todos os anos por acidentes automobilísticos. Mesmo as companhias de seguros contam apenas o que têm de pagar por estes acidentes, os quais são muito diferentes dos custos para toda a vida dos envolvidos nos mesmos. As corporações não começaram a medir, sem dizer contar, todos os custos da poluição do ar, da água e do solo. Ninguém repara no custo de guerras dispendiosas tais como a do Iraque, empreendida em parte para assegurar o petróleo desesperadamente necessário.

Em parte tais custos são impossíveis de medir, uma vez que afectam muitas pessoas de diferentes formas e prolongam-se num futuro não conhecível. Mas eles são custos muito reais. Eles tornam as habituais declarações acerca da "eficiência" do sistema americano de transporte baseado no automóvel privado, e da sua economicidade, no mínimo brincadeiras trágicas.

Nestes dias tudo isso influencia mais severamente o povo americano. Os preços do petróleo bruto estão a aproximar-se dos US$100 por barril e os preços médios da gasolina regular dos US$3,00 por galão [3,78 litros]. Nos anos 2005, 2006 e 2007, o aumento médio de todos os preços no consumidor excepto a energia foi cerca de 2,5 por cento ao ano, ao passo que o aumento médio nos preços do petróleo no mesmo período foi de mais de 12 por cento (5 vezes mais) e o aumento médio anual nos preços da gasolina foi de mais de 10 por cento. Em termos mais simples, os preços do petróleo e da gasolina estão agora a drenar dinheiro dos consumidores americanos. Eles têm menos para gastar em todas as outras coisas. E o seu gasto reduzido significa que aqueles consumidores estão agora a conduzir a economia dos EUA rumo à recessão.

A ascensão dos preços do petróleo também nos afecta pela alteração do cenário político internacional, dando a países como a Arábia Saudita, a Venezuela e a Rússia, dentre outros, a liberdade e os recursos para perseguir os seus interesses mais agressivamente do que o fariam em caso contrário. A ascensão dos preços do petróleo em outros lugares alimenta guerras civis virtuais (como por exemplo na Nigéria e no Iraque) que nos afectam de muitas maneiras. A ascensão dos preços do petróleo e suas consequências politicas são ainda outros custos não contados da dependência americana do petróleo.

E sem possibilidade de engano, a dependência americana do petróleo é fundamental para o que acontece no mercado petrolífero mundial, incluindo o que acontece aos preços do petróleo. Com os nossos 2,4 por cento da população mundial, os EUA consomem cerca de 25 por cento do petróleo mundial. E 60 por cento do que consumimos vem de fora. Os EUA utilizam 2,9 galões de petróleo por dia por pessoa, a média global é de 0,5 galão, e no resto do mundo industrializado a utilização é de 1,3 galão por dia. Os EUA condicionam o mercado petrolífero mundial mais do que qualquer outro país.

A confiança de outros países nos sistemas de transporte em massa é a principal razão porque eles utilizam muito menos petróleo por pessoa. A "eficiência" de um sistema de transportes americano baseado em veículos privados individuais produziu o seu extraordinário nível de dependência do petróleo e do mercado mundial de petróleo. Assim, naturalmente, a guerra no Iraque tem "algo a ver com o petróleo".

A economia americana foi construída sobre e em torno do modo de transporte privado automóvel. A nova reconfiguração suburbana dos locais de residência da nossa população após a II Guerra Mundial potenciou um boom imobiliário, uma revolução nas vendas, um vasto programa de investimento infraestrutural construído em torno de sistemas rodoviários, e assim por diante. As corporações aproveitaram-se de todos aquelas despesas bloqueadas com êxito e enfraqueceram todas as alternativas de modos de transporte casa-trabalho ou a construção de comunidades. Elas pressionaram por políticas governamentais para as mesmas finalidades.

Todo o sistema agora dependente do petróleo exige uma resposta sistemática se os imensos custos e riscos da dependência do petróleo tiverem de ser ultrapassados. Soluções pequenas ou fragmentadas não funcionaram. De modo que a situação continuou a deteriorar-se (excepto, naturalmente, para aqueles que se aproveitavam de tudo isto).

Mas talvez agora a situação venha a mudar. Porque finalmente a América corporativa está a ficar preocupada (pelo menos aquelas parte prejudicadas pela situação petrolífera). O maior empregador único dos EUA, WalMart, tem estado a culpabilizar pelos seus fracos registos de vendas em vários dos últimos trimestre o problema de que os seus clientes gastam demasiado com óleo combustível e gasolina de modo que têm de reduzir despesas nas lojas. Talvez toda a indústria dor retalho venha a actuar, em conjunto com outros aliados corporativos, e exigir concessões daquelas corporações que se aproveitam da dependência petrolífera. Pode ser que uma tal briga entre corporações possa fazer o que uma massa de população desorganizada e desmoralizada não pôde.

Mas então uma perspectiva deprimente provavelmente abrir-se-á mais uma vez. A "solução" que irá emergir de lutas entre corporações privadas provavelmente acomodará outra vez as suas preocupações de lucro a expensas da massa da população que não é consultada – sem mencionar a sua participação e ainda menos o seu controle do que virá a ser tal "solução". Assim foi no passado e assim será novamente a menos que um movimento de massa se levante para exigir e obter participação democrática real e controlar a resolução da confusão deixada pela "eficiente empresa privada".

11/Novembro/2007

[*] Professor de Ciências Económica na Universidade de Massachusetts - Amherst.   Autor de muitos livros e artigos , incluindo (com Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (com Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/wolff111107.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Nov/07