A política salarial do governo PS para a Administração
Pública só poderá determinar a sua degradação
RESUMO DESTE ESTUDO
A politica salarial do governo PS para a Administração
Pública só poderá causar a sua degradação,
sendo depois mais fácil privatizar serviços públicos. Para
isso, não se coíbe de dar o dito pelo não dito, de
utilizar argumentos sem qualquer consistência técnica visando
manipular a opinião pública.
Este governo mais uma vez dá o dito por não dito. No PEC
2005-2009 que enviou para Bruxelas afirmava que a tabela salarial da
Administração Publica seria actualizada, no referido
período, "em 2% ao ano", no entanto apresentou uma proposta
de aumento de 1,5% , que considera inegociável, transformando assim as
negociações num verdadeiro simulacro e dando um mau exemplo ao
patronato privado. Em relação ao subsidio de
refeição uma subida de 1,5% significa um aumento inferior a 6
cêntimos por dia. Mesmo aquele aumento nos salários de 1,5%
é ilusório, pois o governo pretende aumentar os descontos dos
trabalhadores para a ADSE de 1% para 1,5%, o que significa que a subida liquida
nos salários seria apenas de 1% em 2007. Como este governo pretende
introduzir o desconto de 1% para a ADSE sobre as pensões dos
aposentados, a proposta do governo é de um aumento de 1,5% nas
pensões até 600 euros, e de apenas 1% nas pensões a 600
euros e até 2.400 euros. As superiores a 2.400 euros teriam um
redução no seu valor de 1%. Tendo em conta que o aumento de
preços é de 2,6% em 2006, e estima-se em 2,8% para 2007, tudo
isto significaria uma redução importante no poder de compra dos
salários e das pensões na Administração
Pública.
Esta politica de rendimentos do governo está a agravar ainda mais as
desigualdades entre o sector privado e a Administração
Pública, já que representa um sério ataque não
só aos trabalhadores de mais baixos salários mas também
aos trabalhadores qualificados, contribuindo assim para a
degradação da Administração Pública. Entre
2001 e 2007, estimamos que o poder de compra dos salários no sector
privado diminua 1,5%, mas na Administração Pública a
redução é de - 7,7%.
A comparação entre a remuneração média no
sector privado e na Administração Pública, como o governo
e o pensamento neoliberal dominante nos media fazem habitualmente para virar os
trabalhadores do sector privado contra os do sector público, é
tecnicamente incorrecta e intelectualmente desonesta. E isto porque não
tem em conta realidades diferentes. Por ex., na Administração
Pública 47,7% dos trabalhadores têm um nível de
escolaridade superior, enquanto no sector privado a percentagem de
trabalhadores com formação superior é inferior a 13,7%.
Estudos recentes revelam que se a comparação for feita por
profissões conclui-se que as remunerações praticadas na
Administração Pública são significativamente
inferiores às remunerações praticadas no sector privado.
Tomando como base tudo aquilo que o trabalhador recebe, a diferença para
menos na Administração Pública, quando comparado com o
pago no sector privado, varia da seguinte forma por profissões: (1)
Grupo "Técnico": entre -188% e -156%; (2) Grupo
"Técnico profissional": entre -75% e -46%; (3) Grupo
"Administrativo": entre -89% e -55%; (4) Grupo de
"Auxiliares": entre -19% e -27%; (5) Grupo de
"Operários" entre -26% e -65%. Como confessou o
próprio secretário de Estado da Administração
Pública, o governo mandou fazer um estudo comparativo das
remunerações no privado e na Administração
Pública a uma empresa de consultoria privada, mas como as
conclusões do estudo não lhe agradaram, devolveu o estudo
à empresa para que ela alterasse a metodologia utilizada, naturalmente
para alterar as conclusões.
Igualmente, também não tem consistência técnica o
argumento utilizado pelo governo e pelo pensamento económico dominante
nos media para atacar os trabalhadores da Administração
Pública de que as despesas com pessoal em percentagem do PIB são
em Portugal significativamente superiores à média da União
Europeia.
Como se reconhece no próprio "Relatório" elaborado pela
Comissão de Carreiras e Remunerações nomeada por este
governo: "Em 2005, as despesas com a remunerações do pessoal
do sector público administrativo ascendiam em Portugal a 14,5% do PIB .
No mesmo ano, a média da UE15, excluindo Portugal era de 11,6%
.
Convém, contudo, ter presente que a comparação entre
países das despesas com pessoal poderá ser distorcida por um
conjunto de opções nacionais no que respeita à forma,
directa ou por via do mercado, como a Administração procede
à provisão dos bens e serviços que pretende fornecer aos
cidadãos" (págs. 26 e 27 do Relatório).
É evidente que se o Estado decide fornecer directamente os
serviços, como sucede em Portugal, tem de ter mais trabalhadores para
os realizar e por isso terá de ter mais despesas na rubrica
"Despesas de Pessoal". Se recorre a privados para a
realização desses serviços, como sucede em outros
países da União Europeia, continua a ter as mesmas despesas , ou
mesmo mais, mas elas já não aparecem na rubrica "Despesas de
Pessoal" , mas sim em outras rubricas. Dados que incluem as "Despesas
com Pessoal + Prestações sociais em espécie + Consumos
intermédios" revelam que as despesas do Estado em vários
países europeus são superiores a Portugal (Portugal: 21,7% do
PIB; Finlândia, o país modelo para Sócrates: 25,3% do
PIB).
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Tal como sucedeu em 2005, o governo está a impor aos sindicatos da
Administração Pública um simulacro de
negociação, pois logo à partida estabeleceu valores para
os aumentos de vencimentos, abonos e de pensões que considera
inegociáveis. Para além desta atitude prepotente o governo falta
a compromissos, manipula dados e utiliza argumentos sem o mínimo de
consistência técnica. Não resta dúvida que este
governo dá um mau exemplo ao patronato privado.
O GOVERNO PS DÁ MAIS UMA VEZ O DITO POR NÃO DITO
Na pág. 49 do "Programa de Estabilidade e Crescimento
2005-2009" que enviou para Bruxelas, este governo comprometia-se "a
moderar os custos com pessoal da Administração Pública
actualizando a tabela salarial em 2% ao ano". Mesmo este baixo valor
insuficiente para compensar o aumento de preços verificado ou previsto
recusa a aceitar. Como consequência está-se a verificar na
Administração Pública uma quebra muito mais acentuada dos
salários reais do que no sector privado, como os dados do quadro
seguinte mostram.
Como consequência da politica de rendimentos deste governo, entre 2001 e
2007, verificar-se-á uma redução continua do poder de
compra de todos os trabalhadores portugueses, sendo na
Administração Pública consideravelmente superior ao
verificado no sector privado. Como mostram os dados do quadro, percentualmente,
a redução do poder de compra das remunerações na
Administração Pública é 5,1 vezes superior
à verificada no sector privado durante este período.
Esta evolução agrava as desigualdades no País, e contribui
também para a degradação da Administração
Pública pois os sectores desta mais atingidos são os de mais
baixos salários e fundamentalmente os trabalhadores qualificados cujas
remunerações até foram congeladas durante dois anos (em
2003 e 2004, as remunerações superiores a pouco mais de 1000
euros não tiveram qualquer aumento), o que leva à
desmotivação e à saída de muitos deles.
A MANIPULAÇÃO DA OPINIÃO PUBLICA COM BASE NA
COMPARAÇÃO ENTRE REMUNERAÇÕES MÉDIAS DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DO SECTOR PRIVADO
Um aspecto que tem sido utilizado frequentemente quer pelo governo, quer pela
direita, quer ainda pelos media para denegrir a imagem dos trabalhadores da
Administração Pública, e virar os outros trabalhadores
contra os da Administração Pública, é a
questão das remunerações.
Segundo os detractores dos trabalhadores da Administração
Pública, estes receberiam remunerações muito superiores
aos trabalhadores do sector privado. Para isso comparam ganhos médios
da Administração Pública com ganhos médios no
sector privado, e concluem que os da Administração Publica
seriam o dobro dos pagos pelo sector privado, afirmando que eles seriam "
uns privilegiados"
No documento entregue pelo governo PS para justificar o aumento de 1,5% nos
vencimentos para 2007 aparece, na pág. 2, um gráfico, denominado
"Salários Públicos Privados", que pretende transmitir a
mesma mensagem. Este argumento para além de ser tecnicamente incorrecto
é intelectualmente desonesto. E isto porque compara realidades muito
diferentes.
Como se sabe em todos os países, e ainda mais fortemente em Portugal, as
remunerações são muito determinadas pelo nível de
escolaridade. E o nível de escolaridade da maioria dos trabalhadores da
Administração Pública é muito superior ao do sector
privado, como provam os dados oficiais constantes do quadro II.
A percentagem de trabalhadores da Administração Pública
com apenas o ensino básico ou menos é 2,3 vezes inferior à
registada a nível de toda a população empregada; a
percentagem de trabalhadores da Administração Pública com
o ensino secundário é 1,5 vezes superior à verificada a
nível de todo o País; e a percentagem de trabalhadores com um
nível de escolaridade superior é, na Administração
Pública, 3,2 vezes superior à verificada na
população empregada portuguesa.
É evidente que estas diferenças tão grandes a nível
de escolaridade que se verifica entre a Administração
Pública e o sector privado têm de ter consequências
importantes a nível de remunerações médias, como
acontece naturalmente entre empresas do sector privado com trabalhadores com
níveis de escolaridade radicalmente diferentes. Basta comparar a
remuneração média nas empresas de vestuário e a
remuneração média praticada nas empresas de
telecomunicações para chagar a idênticas conclusões.
É evidente, que a comparação da remuneração
média entre o sector privado e a Administração
Pública como faz o governo e o pensamento económico neoliberal
é não só tecnicamente incorrecta mas também
intelectualmente desonesta porque visa, objectivamente, manipular a
opinião pública atirando trabalhadores contra trabalhadores.
Lamentavelmente conhecidos jornalistas (ex: a peça publicada no
Diário de Noticias
de 6 de Outubro), virando as costas à objectividade que devia orientar
a sua actividade, têm utilizado o mesmo argumento para atacar os
trabalhadores.
O GOVERNO MANDA ALTERAR AS CONCLUSÕES DE UM ESTUDO QUE MANDOU FAZER
SOBRE AS REMUNERAÇÕES NA ADMINISTRAÇÃO E NO SECTOR
PRIVADO
Contrariamente àquilo que o governo e o pensamento económico
neoliberal dominante nos media afirmam as remunerações de
idênticas profissões da Administração Pública
são significativamente inferiores quando comparamos com idênticas
profissões do sector privado.
Efectivamente estudos recentes revelaram que, tomando como base tudo aquilo que
o trabalhador recebe, a diferença para menos na
Administração Pública, quando comparada com o pago no
sector privado, varia da seguinte forma por profissões: (1) Grupo
"Técnico": entre -188% e -156%; (2) Grupo "Técnico
profissional": entre -75% e -46%; (3) Grupo "Administrativo":
entre -89% e -55%; (4) Grupo de "Auxiliares": entre -19% e -27%; (5)
Grupo de "Operários" entre -26% e -65%.
Na reunião realizada em 13 de Outubro com o governo foi perguntado ao
secretário de Estado da Administração Pública, que
presidia à delegação do governo, se este não tinha
mandado fazer um estudo comparativo das remunerações por
profissões entre o sector privado e a Administração
Pública a uma empresa de consultoria privada, já que no
Relatório da Comissão de Revisão do Sistema de Carreiras e
Remunerações dirigida pelo agora demitido Prof. Fábrica se
referia que "quanto aos estudos encomendados (e um deles era este)
.. não puderam sequer ser levados em conta no presente
Relatório, sob pena de se atrasar intoleravelmente a conclusão
deste" (pág. 14). E ouvimos a surpreendente resposta daquele
secretário de Estado: "Que o estudo tinha sido realizado, mas que o
governo não aceitou a metodologia usada, em particular a amostra
utilizada, e por isso tinha devolvido o estudo e dado orientações
à empresa para a alterar". Ficou assim claro que as
conclusões do estudo não agradaram, pois elas naturalmente
desmentiram a mensagem de manipulação da opinião
pública que os trabalhadores da Administração
Pública ganham muito mais do que no sector privado.
O ARGUMENTO DO EXCESSIVO PESO DAS REMUNERAÇÕES DOS TRABALHADORES
DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA EM RELAÇÃO AO PIB
TAMBÉM É FALSO
Outro argumento, pretensamente técnico, utilizado amplamente pelo
governo e pelo pensamento económico neoliberal dominante nos media para
justificar a necessidade da redução continuada e significativa do
poder de compra dos trabalhadores da Administração Pública
seria o seu excessivo peso destas despesas em relação ao PIB
quando comparado com o de outros países da União Europeia. Esta
comparação também não é tecnicamente
correcta.
E isto porque está-se a comparar realidades diferentes. Em muitos
países da União Europeia, o Estado recorre amplamente ao
outsourcing
e a outras formas de privatização de serviços
públicos. Em Portugal, isso ainda não sucede. Por essa
razão, nesses países as despesas do Estado com o pagamento a
privados não sai pela rubrica de "Despesas de Pessoal", mas
sim através de outras rubricas, o que determina que o que aparece na
rubrica de "Despesas de Pessoal" nesses países seja
significativamente inferior.
O próprio "Relatório" elaborado pela Comissão de
Revisão do Sistema de Carreiras e Remunerações nomeada por
este governo reconhece esse facto. Assim, pode-se ler o seguinte nesse
Relatório: "Em 2005, as despesas com a remunerações
do pessoal do sector público administrativo ascendiam em Portugal a
14,5% do PIB . No mesmo ano, a média da UE15, excluindo Portugal era de
11,6%
. Convém, contudo, ter presente que a
comparação entre países das despesas com pessoal
poderá ser distorcida por um conjunto de opções nacionais
no que respeita à forma, directa ou por via do mercado, como a
Administração procede à provisão dos bens e
serviços que pretende fornecer aos cidadãos" (págs.
26 e 27 do Relatório).
É evidente que se o Estado decide fornecer directamente os
serviços tem de ter mais trabalhadores para os realizar e por isso
terá de ter mais despesas na rubrica "Despesas de Pessoal". Se
recorre a privados para a realização desses serviços,
continua a ter as mesmas despesas , ou mesmo mais, mas elas já
não aparecem na rubrica "Despesas de Pessoal" , mas sim em
outras rubricas.
Assim, se a comparação não se limitar às
"Despesas com Pessoal" mas incluir outras rubricas através das
quais são pagos esses serviços a privados, as conclusões
já são diferentes. De acordo com a mesma comissão nomeada
pelo actual governo, em 2005, a soma das despesas do Estado com "Despesas
com Pessoal" mais "Prestações Sociais em
espécie" (ex. cuidados de saúde) mais "Consumos
intermédios" (aquisições a privados) correspondiam,
em Portugal, a 21,7% do PIB, enquanto na Finlândia, o país modelo
de Sócrates, atingiam 25,3% do PIB e, na Holanda, um dos países
mais desenvolvidos da União Europeia e com reduzido défice
orçamental, eram 25,1% do PIB.
Se a comparação não se limitar às "Despesas
com Pessoal", mas sim às despesas totais do Estado, para evitar as
distorções de que fala a comissão nomeada pelo actual
governo, a situação de Portugal é muito semelhante
à de outros países. De acordo com o Eurostat, em 2005, a Despesa
Total do Estado correspondia a 47,8% do PIB em Portugal, enquanto a
média na "Área do euro", a que Portugal pertence, era
47,5% do PIB, na Bélgica 50,1% do PIB, na Dinamarca 53,2% do PIB, etc.
UMA POLÍTICA SALARIAL QUE VISA A DEGRAÇÃO DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O governo propõe um aumento
inferior a seis cêntimos no subsidio de refeição da
Administração Pública
A proposta do governo, que considera inegociável, é de apenas um
aumento de 1,5% não só nos salários, mas também nos
restantes abonos, e igualmente no subsidio de refeição. Mesmo
aquele aumento de 1,5% nos salários é reduzido para apenas 1%,
pois o governo pretende aumentar o desconto para a ADSE do actual 1% para 1,5%.
Para se poder ficar com uma ideia da dimensão destes aumentos, basta
referir o caso do subsidio de refeição, cujo valor actual
é 3,95 euros, o que determina que um aumento de 1,5% corresponda a uma
subida de apenas 5,9 cêntimos, nem chega a 6 cêntimos por dia.
Em relação aos aposentados a proposta do governo é de um
aumento de 2,5% nas pensões de aposentação inferiores a
1,5 Salário Mínimo Nacional (SMN), ou seja, inferior a cerca de
600 euros; de 1,5% para as pensões superiores a 1,5 SMN (600 euros) e
inferiores a 6 SMN (2.400 euros); e congelamento para as pensões
superiores a 6 SMN (2.400 euros).
Como apenas 38% dos aposentados da Administração Pública
recebem pensões inferiores a 1,5 Salário Mínimos
Nacional, isto significa que 62 em 100 aposentados da
Administração Pública verão em 2005 as suas
pensões perder de novo poder de compra.
Tal como sucede em relação aos trabalhadores no activo, mesmo
estes aumentos para os reformados são ilusórios. E isto porque o
governo pretende que eles comecem a descontar 1% nas suas pensões para a
ADSE, o que reduz o aumento de 2,5% das pensões inferiores a 1,5 SMN
para apenas 1,5%; e o aumento de 1,5% para as pensões superiores a 1,5
SMN e inferiores a 6 SMN para apenas 0,5%, e as superiores terão uma
redução no seu poder de compra de 1%. A isto haveria ainda a
acrescentar uma eventual redução do abatimento no seu rendimento
para efeitos de IRS que, em 2006, determinou uma redução nas
pensões de cerca de 1%.
É evidente que esta politica salarial só poderá determinar
a desmotivação dos trabalhadores e a saída dos mais
qualificados degradando a Administração Pública, sendo
depois mais fácil privatizar os serviços públicos
"rentáveis" para o sector privado com o pretexto da falta de
qualidade e/ou que têm custos elevados.
15/Outubro/2006
[*]
Economista,
edr@mail.telapac.pt
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