Fundos comunitários não são utilizados, apesar da crise
6.653 milhões relegados até 30/Junho/2012
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(Período total de execução do QREN) |
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(Despesa validada até 30/6/2012) |
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| POT Factores Competitividade (FEDER+FC) | 3.103,8 | 2.403,1 | 1.266,9 | 52,7% | 1.136,3 | 40,8% | 1.069,3 |
| POT Potencial Humano (FSE) | 6.453,0 | 4.752,4 | 3.742,2 | 78,7% | 1.010,2 | 58,0% | 1.202,4 |
| POT Valorização Território (FEDER+FC) | 4.342,5 | 3.467,8 | 1.682,6 | 48,5% | 1.785,2 | 38,7% | 1.098,5 |
| POR Norte (FEDER) | 2.711,6 | 2.099,9 | 1.055,4 | 50,3% | 1.044,5 | 38,9% | 996,6 |
| POR Centro (FEDER) | 1.701,6 | 1.317,5 | 748,0 | 56,8% | 569,5 | 44,0% | 600,6 |
| POR Alentejo (FEDER) | 868,9 | 672,8 | 267,1 | 39,7% | 405,7 | 30,7% | 416,0 |
| POR´s Açores (FEDER+FSE+DE) | 1.156,3 | 895,3 | 663,7 | 74,1% | 231,6 | 57,4% | 240,6 |
| PO Assistência Técnica | 146,1 | 129,4 | 66,2 | 51,2% | 63,2 | 45,3% | 58,1 |
| QREN -Total -Convergência | 20.484,0 | 15.738,2 | 9.492,1 | 60,3% | 6.246,1 | 46,3% | 5.682,3 |
| POR Lisboa | 306,7 | 237,5 | 129,4 | 54,5% | 108,0 | 42,2% | 110,6 |
| POR Algarve | 175,0 | 162,6 | 47,5 | 29,2% | 115,1 | 27,2% | 118,0 |
| PO´s Madeira (FEDER+FSE) | 445,9 | 412,5 | 228,2 | 55,3% | 184,3 | 51,2% | 209,9 |
| QREN-TOTAL | 21.411,6 | 16.550,8 | 9.897,3 | 59,8% | 6.653,5 | 46,2% | 6.120,7 |
Para o período compreendido entre 1 de Janeiro de 2007 e 30 de Junho
2012, estavam orçamentados 16.550,8 milhões de fundos
comunitários, e neste período foram utilizados (despesa validada)
apenas 9.897,3 milhões (59,8% do total), tendo ficado por
utilizar 6.653,5 milhões . Se se comparar com a
situação existente em 31.12.2011, conclui-se que o valor por
utilizar aumentou em 6 meses em 532,8 milhões , pois passou de
6.120,7 milhões para 6.653,5 milhões .
Se a análise for feita por programa operacional conclui-se que, em 30 de
Junho de 2012, os montantes que ficaram por utilizar foram os seguintes: no
COMPETE, fundamental para o aumento da competitividade das empresas, 1.136,3
milhões ; no POPH, importante para a qualificação
dos trabalhadores, 1.010,2 milhões ; no POVT, vital para o combate
às assimetrias regionais e para o melhoramento de vida das
populações, 1.785,2 milhões ; no Programa
Operacional Regional do Norte ficaram por utilizar, até 30.6.2012,
1.044,5 milhões ; o restante não utilizado até
30.6.2012 (1.785,4 milhões ) refere-se aos programas regionais
(Centro, Alentejo e Algarve), aos programas operacionais das Regiões
Autónomas da Madeira e Açores e ao POAT. A gravidade da
não utilização até 30.6.2012 de 6.653,5
milhões , que podiam ser até a esta data, é ainda
maior se se tiver presente a situação económica e social
que o país enfrenta, em que o investimento se reduziu muito, e em que a
destruição de emprego se acelerou. É certo que os fundos
não utilizados poderão ser no futuro, no entanto verifica-se
perda de poder de compra devido subida de preços; investimento que podia
ter sido feito e não foi, e emprego que podia ter sido criado e
também não foi, o que contribuiu para agravar a crise
económica e social.
A REPROGRAMAÇÃO NÃO VAI DETERMINAR MELHORIA DA
SITUAÇÃO ECONÓMICA E SOCIAL
Após cinco anos de execução do QREN, não existem
dados disponíveis sobre o impacto do QREN a nível de
qualificação dos trabalhadores (que formação
obtiveram, quantos receberam certificados do 9º ano e do 12º ano,
etc.), a nível de empregabilidade (quantos conseguiram arranjar emprego
depois da formação), progressão na carreira,
criação de emprego (quantos novos empregos foram criados),
aumento da produtividade e competitividade, melhoramento do perfil
tecnológico, aumento da produção e da
exportação das empresas beneficiadas com fundos
comunitários, etc.; repetindo, após cinco anos de
execução do QREN nada se sabe sobre o impacto na economia e
sociedade portuguesa de 9.987,3 milhões de fundos
comunitários já gastos. A única coisa que se sabe é
quanto gastamos (Portugal é bom a gastar), mas nada se sabe dos
resultados obtidos com esse gasto. E este governo, sem qualquer
avaliação, decidiu fazer alterações no QREN.
No entanto, uma análise objectiva da reprogramação do QREN
do governo revela que ela, por um lado, não liberta fundos para a
economia e, por outro lado, não contém quaisquer medidas que
possam ter efeitos com alguma importância na melhoria da
situação social e económica do país.
Em primeiro lugar, a reprogramação do governo, contrariamente
à ideia que a propaganda governamental procurou criar junto da
opinião pública, não determinou qualquer aumento nos
fundos comunitários que a UE tinha já posto à
disposição do país para o período 2007/2013. O
único programa comunitário que tem um reforço é o
Programa Operacional Factores de Competitividade (COMPETE), sendo o aumento de
apenas 70 milhões foi feito à custa da
redução dos fundos comunitários que tinham sido
atribuídos ao Programa Operacional Regional (POR) Norte (-50
milhões ); ao POR Centro (-15 milhões ); e ao POR
Alentejo (5 milhões ).
Em segundo lugar, as alterações mais importantes determinadas
pela reprogramação elaborada pelo governo traduzem-se apenas em
transferências de verbas entre os diversos eixos no interior de cada
programa visando atenuar, mas sem resultados visíveis, os efeitos mais
gravosos da politica de austeridade fortemente recessiva que o governo e
"troika" estão a impor ao país com consequências
dramáticas para as empresas portuguesas e para os portugueses. No
Programa Operacional Potencial Humano (POPH), no Eixo 2, cujos fundos
comunitários se destinam à formação e
qualificação de trabalhadores empregados, tão
necessário ao aumento da produtividade e competitividade das empresas e
à luta contra o desemprego, o governo cortou 561 milhões ,
e no Eixo 3, cujos fundos são destinados à
qualificação dos trabalhadores da Função
Pública para aumentar a qualidade e eficiência da
Administração Pública o governo cortou mais 36
milhões . E depois estes 597 milhões obtidos com os
cortes que fez, repartiu 164 milhões pelo Eixo 1, destinado
à qualificação de jovens para reduzir o abandono escolar
que está a aumentar com o agravamento da situação social;
203 milhões pelo Eixo 4 para pagar bolsas a estudantes
universitários e a bolseiros que estavam em risco de não poder
continuar a estudar devido aos cortes feitos nos apoios sociais pelo governo;
56,2 milhões foram transferidos para o Eixo 5 para financiar
estágios com a duração de 6 meses; e 173,9 milhões
foram afectos ao Eixo 6 para desenvolver acções contra a
exclusão social provocada pela austeridade do governo. No COMPETE, a
reprogramação do governo traduziu-se também num corte 50
milhões à Administração Pública (mais
uma vez ela é atingida; na reprogramação anterior
já tinha sofrido um corte de 400 milhões ); num corte de
42,5 milhões nas acções destinadas a promover o
associativismo empresarial, e num corte de 13,2 milhões nos
incentivos às empresas (eixo II), e depois o valor assim obtido foi
repartido da seguinte forma: 123,5 milhões para as universidades
através do SAESCTN para atenuar os cortes que o governo fez nos seus
orçamentos; 52,5 milhões foram atribuídos ao Eixo
III com o objectivo de apoiar o financiamento do capital de risco para atenuar
a quebra no crédito às empresas, mas manifestamente insuficiente
para compensar o corte feito pela banca como mostra o quadro 2. No Programa
Operacional Valorização do Território (POVT), a
reprogramação resumiu-se à transferência de 334,9
milhões do Eixo I (corte nas redes rodoviárias e
ferroviárias) para o Eixo II (134,9 milhões destinadas a
suportar o aumento da taxa de co-financiamento para 85%) , para o Eixo III (65
milhões , para a RA Açores) e para o Eixo IV (135
milhões , para a RA da Madeira). Os resultados que serão
alcançados com estes cortes e reforços serão
manifestamente insuficientes, para não dizer mesmo nulos, perante a
gravidade da situação económica e social. Até
porque os incentivos e apoios mais importantes às empresas continuam a
ser canalizados principalmente para as empresas exportadores, esquecendo as
empresas que produzem bens transaccionáveis que substituem
importações.
A medida que pode ter efeitos positivos, facilitando a execução
de projectos, será o aumento da taxa de co-financiamento público
dos projectos com fundos comunitários para 85%, mas também tem
efeitos negativos importantes que importa não esquecer nem ocultar.
Assim, se num projecto apresentado por uma empresa ou uma Câmara, o
financiamento realizado com fundos comunitários passar de 70% para 85%,
isto significa que a parte que cabe ao empresário ou ao Município
suportar desce de 30% para 15%. Por ex., num projecto de um milhão
, antes o empresário ou o Município teria de suportar
300.000 ; se a taxa de co-financiamento por fundos comunitários
sobe de 70% para 85%, isto significa que 850.000 serão
financiados com fundos comunitários e apenas 150.000 será
suportado pelo empresário ou pelo Município. É evidente
que isto facilita a execução do projecto (a entidade que o
executa tem de arranjar menos dinheiro, por ex., através de
crédito bancário). No entanto, isto tem também um forte
inconveniente: realizam-se muitos menos projectos, e faz-se muito menos
investimento. Em 30.6.2012 ainda não tinham sido utilizados 11.514,3
milhões dos 21.411,6 milhões de fundos
comunitários que a União Europeia disponibilizou a Portugal para
o período 2007-2013. Se a taxa de co-financiamento fosse 70% o
investimento total que poderia ser realizado com aqueles 11.514,3
milhões seria 16.449 milhões ; com uma taxa de
co-financiamento de 85% só serão realizados apenas 13.546
milhões , ou seja, menos 2.903 milhões .
CREDITO ÀS FAMILIAS E ÀS EMPRESAS CONTINUA A CAIR, COM
EXCEPÇÃO DAS GRANDES EMPRESAS, O QUE AGRAVA A RECESSÃO
ECONÓMICA E A SITUAÇAO SOCIAL
A redução do crédito pela banca está a contribuir
também, e de uma forma muito significativa, para agravar a
recessão económica e a crise social. Apenas as grandes empresas
e, dentro destas, as exportadoras não têm tido atingidas pela
redução no crédito (quadro 2). E na
reprogramação do QREN as medidas tomadas são claramente
insuficientes como mostramos
Quadro 2- Evolução do credito às empresas não
financeiras e aos particulares - 2010/2012
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Milhões |
Milhões |
Milhões |
Milhões |
Milhões |
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| SOCIEDADES NÃO FINANCEIRAS | 118.957 | 115.345 | 111.633 | -7.324 | -3.712 | -6,2% | -3,2% |
| PME | 92.143 | 88.963 | 84.615 | -7.528 | -4.348 | -8,2% | -4,9% |
| Grandes empresas | 16.144 | 16.495 | 16.870 | +726 | +375 | +4,5% | +2,3% |
| Grandes empresas Exportadoras | 13.043 | 13.501 | 14.269 | +1.226 | +768 | +9,4% | +5,7% |
| PARTICULARES | 155.507 | 152.152 | 148.211 | -7.296 | -3.941 | -4,7% | -2,6% |
| Habitação | 119.936 | 119.120 | 117.246 | -2.690 | -1.874 | -2,2% | -1,6% |
| Consumo e Outros fins | 35.371 | 33.032 | 31.275 | -4.096 | -1.757 | -11,6% | -5,3% |
| TOTAL | 274.464 | 267.497 | 259.844 | -14.620 | -7.653 | -5,3% | -2,9% |
Entre Dezembro de 2010 e Junho de 2012, o crédito às empresas e
às famílias reduziu-se em 14.620 milhões (-7.324
milhões às empresas, e -7.296 milhões
às famílias). Se se considerar apenas 2012, a quebra foi muito
mais acentuada, pois só nos 6 primeiros meses deste ano a
redução do crédito atingiu 7.653 milhões
(-3.712 milhões às empresas, e -3.941 milhões
às famílias). No entanto, nem todas as empresas foram
atingidas por esta redução do crédito. As grandes empresas
(apenas 1.084 num total de 1.144.150 empresas) até tiveram aumento de
crédito, pois o valor aumentou + 726 milhões entre 2010 e
2012, e + 375 milhões nos primeiros 6 meses de 2012. E dentro
destas últimas as mais beneficiadas com o aumento do crédito
foram as grandes empresas exportadoras (mais 1.226 milhões entre
2010 e 2012, e mais 768 milhões nos primeiros 6 meses de 2012).
Esta desigualdade de tratamento mesmo a nível das empresas vai-se
agravar ainda mais porque os fundos comunitários destinados às
empresas estão orientados fundamentalmente para o apoio às
grandes empresas exportadoras, não tendo sido alterado nesta
reprogramação do QREN pelo governo. O INVEST QREN com 1000
milhões , em que metade tem origem num empréstimo obtido
junto do BEI, para além de ser insuficiente como mostram os dados do
quadro 2, vai ser inevitavelmente canalizado para as grandes empresas
exportadoras, aquelas que já são mais altamente beneficiadas com
o pouco crédito concedido pela banca como também revelam os dados
do Banco de Portugal.