A salvaguarda das famílias de mais baixos rendimentos e a
progressividade dos impostos de Vítor Gaspar não existem no
OE-2013
Vítor Gaspar, nas intervenções públicas que tem
feito, e também no relatório da proposta de Orçamento do
Estado para 2013 (pág. 68), aprovado pela "troika", tem
procurado fazer passar a ideia junto da opinião pública de que a
proposta de OE-2013 salvaguarda as famílias de mais baixos rendimentos e
aumenta a progressividade dos impostos. A análise da proposta de Lei do
OE-2013 mostra que isso não é verdade; o que se verifica é
precisamente o contrário. Para concluir isso, basta ter presente que o
número de escalões diminui de 8 para 5. Qualquer pessoa normal
conclui facilmente que a tabela de IRS do ministro é menos progressiva
que a atual, no entanto isso está para além da inteligência
V. Gaspar. Mas a situação é ainda mais grave, pois a
proposta de OE-2013 agrava muito a injustiça fiscal e torna
insustentável a vida dos portugueses como vamos mostrar. As palavras do
ministro, só podem ser interpretadas como enquadradas numa
operação de engano e manipulação da opinião
pública.
85% DO AUMENTO DAS RECEITAS FISCAIS EM 2013 TÊM COMO ORIGEM A SUBIDA DO
IRS, E 82% DO RENDIMENTO BRUTO TRIBUTÁVEL EM IRS SÃO RENDIMENTOS
DE TRABALHO E DE PENSÕES
Para se poder ficar com uma ideia como o governo pretende distribuir em 2013 o
aumento brutal pelas diferentes classes sociais interessa analisar a
repartição das receitas fiscais por impostos. O quadro1,
construído com dados constantes do Relatório do OE-2013, mostra
isso.
Quadro 1 Aumento das receitas de impostos em 2013 e sua
repartição
|
IMPOSTOS
|
2012
Milhões
|
2013
Milhões
|
Variação
Milhões
|
% Variação
do TOTAL
|
|
IMPOSTOS DIRETOS
|
13.896,7
|
16.635,9
|
2.739,2
|
82,5%
|
|
IRS
|
9.234,9
|
12.066,3
|
2.831,4
|
85,3%
|
|
IRC
|
4.386,8
|
4.559,5
|
172,7
|
5,2%
|
|
Outros
|
275,0
|
10,1
|
-264,9
|
-8,0%
|
|
IMPOSTOS INDIRETOS
|
18.730,3
|
19.311,8
|
581,5
|
17,5%
|
|
ISP (produtos petrolíferos)
|
2.143,6
|
2.173,4
|
29,8
|
0,9%
|
|
IVA
|
13.016,8
|
13.308,0
|
291,2
|
8,8%
|
|
ISV (sobre veículos)
|
385,5
|
380,1
|
-5,4
|
-0,2%
|
|
Imposto sobre o tabaco
|
1.350,0
|
1.386,4
|
36,4
|
1,1%
|
|
IABA (bebidas alcoólicas)
|
170,3
|
172,9
|
2,6
|
0,1%
|
|
Imposto selo
|
1.429,5
|
1.649,2
|
219,7
|
6,6%
|
|
IUC (veículos)
|
198,6
|
198,6
|
0,0
|
0,0%
|
|
Outros
|
36,0
|
43,2
|
7,2
|
0,2%
|
|
TOTAL RECEITA FISCAL
|
32.627,0
|
35.947,7
|
3.320,7
|
100,0%
|
Fonte: Relatório do OE-2013, pág. 190
Como revelam os dados do próprio Vítor Gaspar, 85,3% (2.831,4
milhões ) do aumento total de receitas fiscais constante do
OE-2013 (3.320,7 milhões ) tem como origem o IRS. E como mostra o
quadro 2, construído com os últimos dados divulgados pela
Autoridade Tributária e Aduaneira, em 2010 (e a situação
em 2013 não é diferente, pois ela tem-se agravado de ano para
ano, como revelam também os dados do quadro 2); repetindo, 89,1 % do
rendimento bruto sujeito a IRS são rendimento do trabalho e dos
pensionistas.
Quadro 2 Rendimentos brutos sujeitos a IRS
|
CATEGORIAS
|
2008
Milhões
|
2009
Milhões
|
2010
Milhões
|
|
Rendimentos do trabalho e pensões
|
73.550
|
75.348
|
76.907
|
|
RENDIMENTO BRUTO TOTAL (sujeito a IRS)
|
83.801
|
85.054
|
86.267
|
|
% que representam rendimentos do trabalho e pensões no rendimento bruto
total sujeito a IRS
|
87,8%
|
88,6%
|
89,1%
|
Fonte: Estatísticas - IRS - Autoridade Tributária e
Aduaneira
Portanto, em 2010, apenas 10,9% dos rendimentos brutos totais sujeitos a IRS
tiveram como origem rendimentos do capital e da propriedade. Por outro lado,
segundo a Autoridade Tributária e Aduaneira, dos 8.502 milhões de
IRS liquidado em 2010, apenas 1.606 milhões , ou seja, 18,9%
é que não tiveram qualquer parcela como origem rendimentos do
trabalho e de pensões. Afirmar, como fez Vítor Gaspar, que a
proposta de OE-2012 aumenta a progressividade dos impostos, estando
implícito uma maior justiça fiscal, é faltar
deliberadamente à verdade. E isto quando em 2010, segundo o INE, os
rendimentos do capital e da propriedade distribuídos atingiram 41.100
milhões , como revela o quadro 3
Quadro 3 Rendimentos de capital (Milhões de euros)
|
ANO
|
TOTAL
|
Juros
|
Rendimentos
Distribuídos
das Sociedades
|
Rendimentos de Propriedade
atribuídos aos detentores
de apólices de seguro
|
Rendas
|
|
2010
|
44.084
|
23.331
|
17.958
|
2.189
|
606
|
|
2011
|
51.961
|
32.581
|
16.657
|
2.198
|
526
|
Fonte: INE, Contas económicas anuais para o total economia, 2012
Todos estes rendimentos deviam ser declarados à Autoridade
Tributária e Aduaneira. No entanto, como rapidamente se conclui,
comparando os dados de 2010 divulgados no Portal das Finanças e pelo
INE, uma parte muito importante dos rendimentos do capital não
está sujeita a IRS, e não o paga imposto, ou porque está
isenta ou porque foge ao fisco. Por isso são os trabalhadores e
pensionistas que suportam a esmagadora maioria da carga fiscal do IRS.
AS SUBIDAS NAS TAXAS DE IMPOSTOS DOS ESCALÕES MAIS BAIXOS MUITO
SUPERIORES À DOS ESCALÕES MAIS ALTOS DE RENDIMENTO, AGRAVANDO
AINDA MAIS A INJUSTIÇA FISCAL
Comecemos por analisar as alterações que se verificam nas taxas
da tabela de IRS. Contrariamente ao que afirma Vítor Gaspar não
se regista uma maior progressividade do imposto; o que realmente sucede
é que se observa um agravamento ainda maior da injustiça fiscal
em consequência das novas tabelas de IRS como o gráfico 1 revela.
Os escalões do gráfico foram construídos com base nas
tabelas de IRS de 2012 e de 2013 mas de forma que permitisse fazer uma
análise comparativa. O aumento percentual que se verifica na taxa de IRS
entre 2012 e 2013 (em 2012, inclui a taxa de solidariedade de 2,5% sobre
rendimentos superiores a 153.300; em 2013 inclui a sobretaxa de 4% e a
taxa de solidariedade de 2,5% sobre os rendimentos superiores a 80.000 ;
) é muito mais elevado nos escalões de rendimentos mais baixos do
que nos escalões de rendimento mais elevados. Por exemplo, nos
três primeiros escalões de IRS que construímos (até
4898; de 4899 até 7000; e de 7001 a 7410) o
aumento da taxa de IRS é, respetivamente de 61%; de 32% e de 132%;
enquanto nos três escalões mais elevados (de 61245
até 66045; de 66046 até 80000; e superior a
80000) a subida é, respetivamente, de apenas 13%, de 25% e de 11%,
portanto subidas muito inferiores às que se verificam nos três
escalões mais baixos de IRS. Perante estes dados afirmar que existe
equidade é mentir descaradamente para enganar.
GOVERNO REDUZ AS DEDUÇÕES NO IMPOSTO QUE BENEFICIAVAM
PRINCIPALMENTE TRABALHADORES E PENSIONISTAS, AGRAVANDO AINDA MAIS A CARGA FISCAL
Os media tem falado muito das alterações à tabela IRS, mas
têm-se "esquecido" das reduções nas
deduções do imposto que também se verificam, cujo efeito
negativo deve ser adicionado ao efeito das tabelas, que agrava ainda mais a
carga e a injustiça fiscal em 2013.
Para que se possa avaliar a importância destas deduções, e
a dimensão do agravamento da carga fiscal que a sua
redução determina, interessa recordar o que aconteceu em 2012,
que passou inicialmente despercebido à maioria dos portugueses, mas
cujos efeitos serão dramáticos quando, em 2013, tiveram de fazer
o pagamento final do IRS referente a 2012. Em 2012, o governo PSD/CDS reduziu a
percentagem das despesas de saúde que podem ser descontadas no IRS de
30% para 10%. Segundo dados das Finanças, o valor das despesas de
saúde deduzidas pelos contribuintes no IRS rondava os 650 milhões
por ano. A redução de 30% para 10%, significa que,
relativamente aos rendimentos de 2012, os portugueses terão de pagar
mais 433 milhões de IRS só como consequência da
diminuição desta dedução. Vítor Gaspar
pretende não só manter esta redução mas
também acrescentar muitas outras como revela o quadro 4.
Quadro 4 alterações nas deduções ao imposto
e ao rendimento em 2013
|
DEDUÇÕES NO IRS
|
2012
|
2013
|
2013-2012
|
|
Dedução à colecta (no IRS) por sujeito passivo de IRS
|
261
|
214
|
-48
|
|
Dedução especifica dos rendimentos do trabalho em famílias
monoparentais
|
380
|
333
|
-48
|
|
Dedução à colecta (no IRS) por cada filho
|
190
|
214
|
24
|
|
Dedução na colecta (no IRS) de juros do credito à
habitação
|
591
|
296
|
-295
|
|
Dedução na IRS de prestações pagas a cooperativas
de habitação
|
591
|
296
|
-295
|
|
Regime simplificado (independentes) - rendimento sujeito a IRS
|
70%
|
80%
|
14,3%
|
|
Rendimento da categoria B - Percentagem de retenção
|
21,5%
|
25,0%
|
16,3%
|
Para que se possa avaliar os efeitos das alterações das
deduções vamos procurar quantificar os efeitos de duas que
são: (1) A redução da dedução à
coleta por sujeito passivo; (2) A redução dos juros do credito
à habitação que podem ser deduzidos no IRS.
Segundo as estatísticas divulgadas pela Autoridade Tributária e
Aduaneira o número de agregados que liquidam IRS em Portugal ronda os 2
milhões, como cada agregado é constituído, em
média, por dois sujeitos passivos dá 4 milhões, o que
multiplicado pela diminuição da dedução à
coleta por sujeito passivo em 2013 48 euros dá um aumento
de imposto estimado em 192 milhões . Mesmo se admitirmos que um
milhão de agregados são constituídos apenas por um sujeito
passivo, mesmo assim o aumento de IRS determinado por esta
dedução na coleta atinge 144 milhões a adicionar o
aumento de IRS resultante da alteração da tabela de IRS. Este
aumento de IRS não é progressivo; é igual (em ) para
todos os contribuintes que tenham um rendimento anual sujeito a imposto de
5000 ou 200.000.
Mas o aumento provocado pela redução das deduções
não se limita a este. Outra redução que atinge centenas
de milhares de famílias trabalhadoras é a
diminuição da dedução no IRS de juros de
crédito de habitação cujo limite máximo passa de
591 para 296 , ou seja, sofre uma redução de 49,9%. A
redução do IRS determinada pela dedução dos juros
de crédito à habitação deverá rondar
atualmente, segundo a Autoridade Tributária e Aduaneira, 570
milhões (em 2010, de acordo com dados divulgados pelas
Finanças, foi de 569 milhões ), uma redução
de 49,9% neste valor representa um aumento de IRS que estimamos em 284,5
milhões . Mesmo admitindo que um terço dos contribuintes
tem a dedução majorada em 20% por pertencerem ao 2º
escalão do rendimento coletável, mesmo assim o aumento de IRS
determinado por esta redução da dedução é de
268 milhões .
Se somarmos o aumento de IRS em 2013 determinada pela redução
destas duas deduções 144 milhões mais 268
milhões - obtém-se 412 milhões a juntar ao
efeito de agravamento da carga fiscal causada pelas alterações da
tabela de IRS.
Para finalizar, interessa referir a matéria coletável sujeita a
IRS dos independentes, nos quais se incluem os chamados "recibos
verdes", sendo muito deles trabalhadores por conta de outrem, aumenta,
administrativamente de 70% para 80%, o que fará subir o IRS a pagar
em14%, e a retenção na fonte sobe de21,5% para 25%, ou seja,
aumenta em 16,3% o que provocará uma diminuição no seu
rendimento disponível anual, agravando ainda mais a
situação difícil em que já se encontram a maioria
dos trabalhadores a "recibo verde".
Perante este quadro geral afirmar, como afirmou Vítor Gaspar, que esta
austeridade é equitativa e teve a preocupação de
salvaguardar as classes de mais baixos rendimentos, ou é fruto de grande
incompetência que o impede de ver as consequências sociais do OE
que elaborou, ou então é uma mentira descarada que visa enganar a
opinião pública.
O leitor encontrará em
www.eugeniorosa.com
, na pasta
ULTIMO ESTUDO,
a partir de 23/10/2012, uma folha de Excel com dois programas que lhe
permitirá, introduzindo os seus dados pessoais (rendimento e
composição do agregado familiar), calcular o valor do IRS a pagar
em 2012 e em 2013. Faça esses cálculos e prepare-se para uma
surpresa muito desagradável Concluirá que o seu rendimento
liquido disponível sofrerá um corte brutal devido ao aumento do
IRS. Os portugueses têm-se de unir para alterar esta
situação que é inaceitável e insuportável a
qual revela uma total insensibilidade social. E ainda mais quando tais
sacrifícios são inúteis pois o país com esta
politica afunda-se cada vez mais.
21/Outubro/2012
[*]
Economista,
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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