O preço da electricidade em Portugal e na UE, os lucros da EDP e a
ignorância do ministro da Economia
RESUMO DESTE ESTUDO
O ministro da Economia afirmou que o preço da electricidade em Portugal
é mais baixo do que o praticado na generalidade dos países da UE,
para justificar os aumentos elevados de preços que o governo pretende
impor a fim de pagar o "défice tarifário" às
empresas, e assegurar lucros elevados à EDP (segundo os media, a EDP
"anunciou um crescimento dos lucros de 84%, para os 649 milhões de
euros"). Durante o debate do OE2007 na Assembleia da República,
confrontamos o ministro com dados do
Eurostat
sobre os preços da
electricidade nos diversos países da UE que provam precisamente o
contrário do que ele dissera. O ministro perdeu a compostura, e
respondeu com o ataque pessoal.
Interessa, por isso, analisar de uma forma tecnicamente fundamentada esta
questão. Para isso utilizam-se dados oficiais.
Segundo o Eurostat, entre 1995 e 2006, o preço da electricidade, sem
incluir os impostos,
aumentou em Portugal +6,6% enquanto o preço médio
comunitário (UE15) desceu em -0,7%. Em 2006 o preço da
electricidade em Portugal é superior ao preço médio
comunitário em 18%. Por países, em 2006, exceptuando o caso da
Alemanha em que o preço é superior ao de Portugal em apenas 3%,
da Itália (+16%) e de Luxemburgo (+4%), em todos os outros
países o preço da electricidade doméstica, sem impostos,
é inferior ao preço praticado em Portugal. Em alguns deles a
diferença é significativa como sucede na Grécia (-52%), na
Espanha (-30%), na França (-32%), na Áustria (-3%), na
Finlândia (-40%), na Inglaterra (-28%), na Suécia (-35%), e na
Noruega (-38%). É com um preço superior que a EDP obtém
lucros escandalosos.
Se a análise dos preços incluir os impostos, que são
receitas do Estado, a conclusão que se tira não é muito
diferente. Em 2006, utilizando preços-PPC, ou seja, com o mesmo poder de
compra para serem comparáveis, o preço médio da
electricidade era na UE25, segundo o Eurostat,
inferior ao preço praticado em Portugal em -13%. Por países,
conclui-se que num conjunto de 15 países incluindo Portugal, apenas em
quatro Dinamarca, Alemanha, Itália e Noruega os
preços da electricidade para consumidores domésticos eram
superiores ao preço praticado em Portugal. Nos outros 10 países,
os preços da electricidade para consumidores domésticos, medidos
em PPC, portanto uma comparação com maior consistência
técnica, eram muito mais baixos do que o praticado em Portugal
(Bélgica: -18%; Grécia: -50%; Espanha: -26,7%; França:
-33%; Irlanda: -26,7%; Finlândia: -42,5%; Inglaterra: -44,5%;
Suécia: -26%). A própria
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos
elaborou um estudo comparativo dos preços, incluindo impostos,
praticados nos diversos países da UE, o qual está
disponível no seu "site", de que retirou
o quadro que se transcreve na última página deste estudo, que
prova o contrário daquilo que o ministro da Economia afirmou.
Se a comparação for feita tomando como base
dados do Eurostat
sobre o salário hora médio auferido pelos trabalhadores em
Portugal e nos restantes países da União Europeia conclui-se o
seguinte: Para pagar o consumo de 100 kWh de electricidade, um trabalhador
português tem de entregar o corresponde a 1,18 vezes do seu
salário hora, enquanto na UE25 um trabalhador tem de entregar em
média o corresponde apenas a 57% do seu salário hora, ou seja,
tem de trabalhar menos de metade do tempo (34,2 minutos) que um trabalhador em
Portugal (70,8 m) para pagar 100 kWh. Por países a
situação era a seguinte: na Bélgica o trabalhador tem de
entregar o correspondente a 46% do salário hora; na Dinamarca 46,4%; na
Alemanha 76,8%; na Espanha 68,3%; na França 36,9%; na Itália
91,7%; no Luxemburgo 45,3%; na Holanda 50,5%; na Áustria 50,8%; no
Reino Unido 35,5%; na Suécia 42,2%
Em resumo,
os dados do
Eurostat
e do estudo da
ERSE
provam
que se o ministro da Economia não mentiu, e não o afirmamos
porque admitimos que não tenha tido tal intenção, pelo
menos revelou grande ignorância e incompetência técnica numa
área em que não é admissível um membro do governo
ter, por ser uma área da sua responsabilidade.
Para além do financiamento dos lucros da EDP, os consumidores
domésticos do Continente ainda são obrigados a financiar os
chamados Custos de Interesse Geral, que abrangem os pagamentos às
Autarquias pela utilização da rede (234 milhões de euros
em 2006), os sobrecustos de cogeração (164 milhões de
euros em 2006) e de aquisição de energias renováveis (157
milhões de euros em 2006), ou seja, os lucros também destas
empresas, assim como os custos de convergência tarifária das
Regiões Autónomas (118 milhões de euros em 2006), ou seja,
das tarifas mais baixas praticadas nestas regiões, o que não
sucede em outros países da UE em relação a muitos destes
custos. Em 2006, estes custos somaram 673 milhões de euros e, em 2007,
atingirão 742 milhões de euros.
É com um preço de electricidade superior aos preços
praticados em muitos países da UE e que financia já tudo isto,
que o governo pretende impor em 2007 e nos anos seguintes aumentos elevados do
preço da electricidade para pagar o chamado "défice
tarifário" que atingiu, só em 2006, mais de 399
milhões de euros, o que agravará a situação em
relação à UE.
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O ministro da Economia tem afirmado que o preço da electricidade em
Portugal é inferior ao praticado na generalidade dos países da
União Europeia, certamente com o objectivo de justificar os aumentos
elevados do preço da electricidade já decidido pelo governo para
2007 (+6%), e os dos anos seguintes. Confrontado por nós na Assembleia
da República, durante o debate do OE2007, com dados publicados pelo
Eurostat, que mostravam precisamente o contrário, o ministro da Economia
perdeu a compostura, e entrou no ataque e mesmo na ofensa pessoal. Interessa,
por isso, analisar com objectividade utilizando dados publicados pelo Eurostat
e pela ERSE esta questão que afecta a vida de milhões de
portugueses.
OS LUCROS ELEVADOS DA EDP E OS PREÇOS DA ELECTRICIDADE EM PORTUGAL E NA
UE
A EDP, que produz a maior parte da electricidade consumida em Portugal, tem
alcançado elevados lucros, nomeadamente depois da sua
privatização. Em 24 de Novembro de 2006 podia ler no
"site" da Agência Financeira: "EDP pode alcançar
lucros recorde no final do ano. Ontem, a eléctrica anunciou um
crescimento dos lucros de 84% para os 649 milhões de euros".
Perceber porque razão a EDP obtém lucros tão elevados,
quando a maioria dos mais de cinco milhões consumidores de electricidade
domésticos enfrentam dificuldades crescentes, devido à grave
crise económica e social em que o país está mergulhado,
é importante. Esta situação é mais um exemplo
concreto da politica dos governos que se têm sucedido ao longo dos anos
no nosso País, nomeadamente daqueles que privatizaram as grandes
empresas públicas (Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso e
Sócrates). E isto porque
uma das razões apresentadas para justificar essas
privatizações, em particular a da EDP, foi precisamente a de que
os consumidores iriam ser beneficiados com preços mais baixos de
electricidade
. Mas o que sucedeu foi precisamente o contrário como revela o quadro I,
construído com dados publicados pelo Eurostat, o serviço oficial
de estatística da UE.
Entre 1995 e 2006, o preços da electricidade, sem impostos, aumentou em
Portugal +6,6% enquanto o preço médio comunitário desceu
em -0,7%. E isto apesar de o preço da electricidade em Portugal, em
1995, ser já superior à média comunitária em +14%.
Como mostram também os dados do quadro I, em 2006 o preço
médio da electricidade sem impostos na UE15 era inferior ao preço
praticado em Portugal em -18%, e exceptuando o caso da Alemanha em que o
preço é superior ao de Portugal em apenas +3%, da Itália
(+16%) e de Luxemburgo (+4%), em todos os outros países o preço
da electricidade para os consumidores domésticos, sem impostos, é
significativamente inferior ao preço praticado em Portugal. E em alguns
desses países a diferença para menos é muito significativa
como sucede na Grécia (-52%), na Espanha (-30%), na França
(-32%), na Áustria (-33%), na Finlândia (-40%), na Inglaterra
(-28%), na Suécia (-35%), e na Noruega (-38%). É precisamente o
preço elevado da electricidade praticado em Portugal, quando o
comparamos com muitos países da UE, que tornam possível os
elevados, para não dizer, escandalosos lucros obtidos pela EDP.
Foram precisamente com estes dados do Eurostat, que desmentem as
afirmações do ministro da Economia, que o confrontamos durante o
debate do OE2007 na Assembleia da República, e que o fizeram perder a
compostura e enveredar pelo ataque pessoal. E a justificação
utilizada foi que estes preços não incluíam os impostos.
No entanto, no debate que se estava a realizar porque razão com
lucros tão elevados a EDP não suportava o défice
tarifário era evidente que tecnicamente não interessava
considerar preços com impostos pois estes não revertem para a EDP
mas constituem receitas do Estado.
O PREÇO DA ELECTRICIDADE COM IMPOSTOS EM PORTUGAL E NOS PAÍSES DA
UE
O ministro da Economia para se justificar afirmou que o preço da
electricidade em Portugal, incluindo impostos, era inferior ao praticado nos
outros países da UE, com excepção de Espanha. Mas isso
também não é verdade como mostram os dados do Eurostat do
quadro.
Em termos de consumidores a comparação que interessa fazer, para
ser tecnicamente consistente, deve ser ou de preços - Paridade de Poder
de Compra, ou seja, euros com mesmo poder de compra, ou então que
percentagem do seu salário hora gasta um trabalhador em Portugal e nos
outros países da UE para pagar um kWh de consumo de electricidade.
A primeira análise é possível fazer com base nos
preços PPC divulgados pelo Eurostat constantes do quadro anterior (ver
coluna marcada com um asterisco: * ). E como se conclui rapidamente o
preço de um kWh de electricidade, incluindo os impostos, é, em
2006, em média na UE25 inferior ao preço praticado em Portugal em
cerca de -13%. Se a análise for feita por países, conclui-se que
num conjunto de 15 países incluindo Portugal (os mais desenvolvidos),
apenas em quatro (Dinamarca: +5,3%; Alemanha: +2,1%; Itália:+24,3%;
Noruega:+5,3%) é que os preços da electricidade para consumidores
domésticos são superiores ao preço que os portugueses
são obrigados a pagar. Nos restantes dez países constantes do
quadro, os preços da electricidade para consumidores domésticos,
medidos em PPC, portanto uma comparação com maior
consistência técnica, são mais baixos do que o praticado em
Portugal e, em alguns, significativamente (Bélgica:-14%;
Grécia:-50%; Espanha:-26,7%; França:-33%; Irlanda:26,7%;
Finlândia:-42,5%; Inglaterra:-44,5%; Suécia:-26%), o que prova que
o ministro da Economia, pelo menos, revela ignorância sobre esta
matéria.
Uma outra análise com consistência técnica que se pode
fazer para avaliar se a situação em Portugal é melhor ou
pior que a verificada em outros países da UE para os consumidores
é, tomando como base o valor médio do salário hora
auferido em cada país da UE, calcular que percentagem do salário
representa o preço, com impostos, de 100 kWh. Como os dados mais
recentes relativos a salários divulgados pelo Eurostat são os de
2004, a comparação teve de ser feita para o ano de 2004. Mas
é evidente que as conclusões para 2006 seriam ainda piores para
os consumidores portugueses já que a subida dos salários em
Portugal nos anos de 2005 e 2006 foi inferior à média
comunitária e o aumento dos preços de electricidade foi superior.
Os resultados dos cálculos feitos constam do quadro III.
Em Portugal, para pagar o consumo de 100 kWh de electricidade, um trabalhador
português tem de entregar o corresponde a 1,18 vezes o seu salário
hora, enquanto a média na UE25 corresponde apenas a 57% do
salário hora de um trabalhador. Por países a
situação era a seguinte: na Bélgica o trabalhador
só tem de entregar o correspondente a 46% do seu salário hora
para pagar 100 kWh; na Dinamarca 46,4%; na Alemanha 76,8%; na Espanha 68,3%; na
França 36,9%; na Itália 91,7%; no Luxemburgo 45,3%; na Holanda
50,5%; na Áustria 50,8%; no Reino Unido 35,5%; na Suécia 42,2%.
Portanto, é o consumidor português que se encontra em pior
situação. Pretender fazer crer, como tem feito o ministro da
Economia do governo de Sócrates, que a situação dos
consumidores em Portugal é mais favorável do que a generalidade
dos países da União Europeia revela, pelo menos, grande
incompetência técnica e grave ignorância que não
é admissível a um membro de um governo.
OS CONSUMIDORES DO CONTINENTE FINANCIAM OS LUCROS DA EDP E MUITAS MAIS COISAS
Em 2006, por força do nº4 do Decreto-Lei 187/95 o aumento dos
preços da electricidade para os consumidores domésticos
não foi superior à taxa de inflação. No entanto, o
Estado assinou contratos com as empresas produtoras de electricidade que
permitem a estas aumentar os seus preços mais do que a
inflação, o que contribuiu para gerar o chamado
"défice tarifário". Para além de financiar os
lucros da EDP os consumidores domésticos do Continente também
têm de pagar os Custos de Interesse Geral, que abrangem os pagamentos
às Autarquias pela utilização da rede (234 milhões
de euros em 2006), os sobrecustos de cogeração (164
milhões de euros em 2006) e os sobrecustos de aquisição de
energia renováveis (157 milhões de euros em 2006), ou seja, os
lucros também destas empresas, assim como os custos de
convergência tarifária das Regiões Autónomas (118
milhões de euros em 2006), ou seja, das tarifas mais baixas praticadas
nestas regiões. Em 2006, estes custos somaram 673 milhões de
euros e, em 2007, atingirão 742 milhões de euros (em 1999,
representavam 3,5% do preço pago pelo consumidor e, em 2007,
representarão já 13,4%). E como resultado de tudo isto é
que surge o "défice tarifário" que, só em 2006,
atingiu 399 milhões de euros.
Em 2006, o governo Sócrates publicou o Decreto-Lei 90/2006, cujos
efeitos o ministro da Economia desconhece, apesar de pertencer ao governo,
pois na Assembleia da República foi incapaz de responder às
questões colocadas sobre os seus efeitos, o qual estabelece que aquele
"défice" terá de ser pago pelos consumidores
domésticos do Continente. O governo, ao invés de obrigar a EDP e
as outras empresas a suportar tais custos e a reduzir os seus elevados lucros,
preferiu sobrecarregar os consumidores domésticos com aumentos elevados
do preço de electricidade em 2007 (inicialmente cerca de 15%, mas devido
ao escândalo que representava tal aumento foi reduzido para 6%, que
continua a ser bastante elevado tendo em conta o reduzida subida prevista dos
salários ) e nos anos futuros (o aumento de 6% em 2007, apenas permite
pagar 15% do défice tarifário de 399 milhões de euros
referentes a 2006), o que determinará um agravamento ainda maior da
situação de Portugal relativamente a outros países da UE.
A IGNORÂNCIA DO MINISTRO DA ECONOMIA
A ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos), dependente
do Ministério da Economia e da Inovação, elaborou um
estudo com o titulo
"Comparação internacional dos preços de
electricidade",
que se encontra disponível no
sítio web desta entidade
. O ministro da Economia afirmou, durante o debate do OE2007 na Assembleia da
República, que os preços de electricidade para consumidores
domésticos, incluindo os impostos, praticados em Portugal eram
inferiores aos praticados nos outros países da UE, com
excepção de Espanha. E quando o confrontamos directamente com
dados do Eurostat, que provavam que isso não era verdade, pois existiam
mais países da UE onde os preços eram mais baixos, o ministro
perdeu a compostura e entrou no ataque e mesmo na ofensa pessoal.
O quadro 4 (ver abaixo), que se encontra na pág. 37 do estudo da ERSE,
prova que o ministro da Economia se não mentiu, e admitimos
que isso não tenha sucedido porque não terá sido
intencionalmente, pelo menos revelou grande ignorância e
incompetência técnica. E isto porque em muitos países da
UE, de que são exemplos a França e a Inglaterra, o preço
da electricidade, incluindo impostos, é inferior ao preço pago
pelos consumidores portugueses.
NO: Noruega; DK: Dinamarca; IE: Irlanda; SE: Suécia; LU: Luxemburgo; DE:
Alemanha; NL: Holanda; BE: Bélgica: FI: Finlândia; SK:
Eslováquia ; CZ :República Checa; AT: Áustria; FR:
França; CY: Chipre; PL: Polónia; ES: Espanha;
PT: Portugal;
UK: Inglaterra; HU: Hungria; IT: Itália; LT: Lituânia; EE:
Grécia; LV: Eslovénia; MT: Malta
No "grupo Dc" estão 36,4% dos consumidores portugueses, cujo
consumo representa 48,2% de todo o consumo. Esses consumidores têm de
pagar em Portugal por cada kWh de electricidade 14,1 cêntimos, enquanto
na Áustria paga-se 13,40; na França 12,05; na Polónia
11,90; na Espanha 11,47; na Finlândia 10,78; na Hungria 10,75; na
Inglaterra 10,20; na Grécia 7,31 cêntimos, etc.. O estudo da
própria ERSE prova também que aquilo que o ministro afirmou na
Assembleia da República não corresponde à verdade.
03/Dezembro/2006
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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