Dívida ao estrangeiro aumentou 54% durante o governo Sócrates
No fim de 2008 o crédito ao imobiliário, à
construção e habitação era dez vezes superior ao
credito à agricultura, pesca e indústria
RESUMO DESTE ESTUDO
A politica de crédito dos bancos portugueses, de apoio essencialmente
às actividades especulativas (empresas de construção,
actividades imobiliárias e à habitação), e de
não apoio às actividades produtivas (agricultura, pesca e
indústria transformadora) contribuiu também para a grave crise
que o País enfrenta, o que prova que o mercado não é o
melhor instrumento para fazer uma afectação eficiente dos
recursos para o País, nem a crise actual é apenas uma crise de
confiança (psicológica) no sistema financeiro como se pretende
fazer crer.
Entre 2005 e 2008, ou seja, nos quatro anos de governo de Sócrates, o
défice da Balança Corrente Portuguesa agravou-se
significativamente. De acordo com o Banco de Portugal, entre 2005 e 2008, o
défice da Balança Corrente aumentou de 14.139 milhões de
euros para 20.163 milhões de euros. Como consequência, entre 2005
e 2008, este défice passou de 9,5% para 12,1% do PIB. Apesar do
défice nas relações de Portugal com o estrangeiro em 2008
ser superior a quatro vezes o défice orçamental, a
obsessão do governo pelo défice orçamental era e é
tão grande que o levou a ignorar completamente o défice da
Balança Corrente, apesar da sua extrema gravidade. E toda a politica
seguida por este governo nos últimos quatro anos levou ao seu
agravamento como prova o facto de ter aumentado 42,6%. E não é
com o "restabelecimento da confiança" que isso se resolve.
Como consequência, a divida ao estrangeiro disparou. Segundo o Banco de
Portugal, entre 2005 e 2008, ou seja, nos quatro anos de governo de
Sócrates, a Divida Total Bruta (o "Passivo" do País,
que corresponde à totalidade daquilo que se deve ao estrangeiro) cresceu
em 86.203,6 milhões de euros, pois passou de 357.914 milhões de
euros para 444.117,9 milhões de euros. E a Divida Líquida do
País ao estrangeiro ("Passivo" menos "Activo", que
se obtém subtraindo àquilo que o País possui no
estrangeiro aquilo que o País deve ao estrangeiro) atingiu, em 2008,
161.531 milhões de euros. Por outras palavras, O "Passivo" do
País (aquilo que ele deve ao estrangeiro) é já superior ao
seu "Activo" (o que tem a haver do estrangeiro) em 161.531
milhões de euros. A Divida Líquida do País
("Passivo" menos "Activo"), subiu, entre 2005 e 2008, de
70,2% para 97,2% do PIB, ou seja, é já quase igual à
riqueza criada num ano por todos os portugueses. E a Divida Total Bruta ao
estrangeiro ("Passivo" do País), no fim de 2008, era já
2,67 vezes superior ao PIB, ou seja, a toda a riqueza criada em Portugal nesse
ano. É evidente que não é com o "restabelecimento da
confiança na banca" que se resolve este grave problema nacional
E com maioria de razão se se tiver presente que uma das causas
importantes da destruição do aparelho produtivo nacional, que
teve como consequência o crescente défice da Balança
Corrente e o vertiginoso endividamento do País, foi precisamente a
politica de crédito do sistema financeiro, que tem privilegiado o apoio
às actividades especulativas em claro desprezo pelas actividades
produtivas. De acordo com o Banco de Portugal, em 2004, o credito concedido
às actividades essencialmente produtivas, ou seja, à Agricultura,
Pesca e Industria Transformadora era apenas de 13.705 milhões de euros,
enquanto o concedido a empresas de construção, de actividades
imobiliárias e à habitação somava 112.758
milhões de euros, ou seja, 8,2 vezes mais. Esta situação
agravou-se ainda mais durante os quatro anos de governo de Sócrates. No
fim de 2008, o credito total concedido à Agricultura, Pesca e à
Industria Transformadora somava apenas 16.455 milhões de euros, enquanto
o concedido a empresas de construção, de actividades
imobiliárias e à habitação totalizava 168.701
milhões de euros, ou seja, 10,2 vezes mais. Por outras palavras, em
2008, o crédito concedido à Agricultura, Pesca e Industria
Transformadora representava apenas 6,6% do credito total (entre 2004 e 2008,
diminuiu de 7,9% para 6,6%), enquanto o credito concedido às empresas de
construção, de actividade imobiliária e à
habitação representava, em 2008, 67,9% do credito total concedido
pelo sistema bancário (entre 2004 e 2008, aumentou de 65,1% para 67,9%).
É por esta razão que afirmamos que a crise actual é uma
crise sistémica, inerente ao próprio funcionamento do sistema
capitalista no seu afã de conseguir lucros elevados e imediatos, e
não meramente um problema de "falta de confiança no sistema
financeiro", como agora o pensamento único dominante nos media
pretende fazer crer.
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Há muito tempo que temos vindo a defender que mais grave do que o
défice orçamental era e é o défice crescente da
Balança Corrente (ex. intervenção final em Novembro de
2008, na Assembleia da República no debate do Orçamento do
Estado), que tem como consequência o endividamento vertiginoso do
País ao estrangeiro e a impossibilidade, no futuro, de um crescimento
económico elevado e sustentado. O pensamento económico neoliberal
dominante procurou sempre convencer os portugueses de que o crescimento em
Portugal era virtuoso, porque baseado nas exportações e
não no mercado interno, que a redução do défice
orçamental era essencial, pois reduzido este os problemas do País
resolver-se-iam como por milagre e de imediato, e que o mercado era o melhor
instrumento para fazer a afectação eficiente dos recursos para e
o País.
Perante o fracasso evidente de todas estas concepções, o mesmo
pensamento único procura, agora, reduzir a crise a um mero problema de
perda de confiança no sistema financeiro, a qual, restabelecida, tudo
voltaria à normalidade. Mas isto é também uma pura
mentira. E é porque a crise grave que o mundo enfrenta neste momento
é uma crise sistémica, inerente ao próprio funcionamento
do sistema mundial do capitalismo, e não é apenas
psicológica ou que só resulta da existência de maus
governos, de entidades de supervisão que não supervisionavam
nada, de gestores financeiros corruptos, gananciosos e mesmo criminosos, como
se pretende fazer crer.
Neste estudo, vamos provar isso, analisando apenas uma das causas da grave
crise que Portugal enfrenta. E esse aspecto é a politica de
crédito seguida por todos os bancos no nosso Pais, incluindo o banco do
Estado, a CGD, não orientada para apoiar a actividade produtiva.
O DÉFICE CRESCENTE DAS NOSSAS RELAÇÕES COM O ESTRANGEIRO
Embora o défice da Balança Corrente portuguesa seja muito
superior ao défice orçamental, o governo de Sócrates,
obcecado com este último, nunca mostrou preocupação com o
défice externo. O quadro seguinte, construído com dados acabados
de divulgar em Março de 2009 pelo Banco de Portugal, mostra como o
défice externo evoluiu durante o governo de Sócrates.
De acordo com o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, entre 2005 e
2008, o défice da Balança Corrente Portuguesa aumentou em 42,6%,
pois passou de 14.139 milhões de euros para 20.163 milhões de
euros, enquanto o PIB cresceu apenas 11,4%. Como consequência, entre 2005
e 2008, aquele défice passou de 9,5% do PIB para 12,1%. Apesar do
défice das relações de Portugal com o estrangeiro em 2008
ser superior em mais de quatro ao défice orçamental, a
obsessão do governo por este último défice era tão
grande que o levou a ignorar o défice da Balança Corrente, apesar
da sua extrema gravidade. E toda a politica seguida por este governo nos
últimos quatro anos levou ao seu agravamento como prova o facto de ter
aumentado 42,6%.
EM QUATRO ANOS, A DIVIDA EXTERNA LÍQUIDA PORTUGUESA AUMENTOU EM 54%
Como consequência do aumento vertiginoso do défice da
Balança Corrente, o endividamento do País ao estrangeiro disparou
durante o governo de Sócrates como mostra o quadro seguinte.
Segundo o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, entre 2005 e 2008, o
"Activo" de Portugal no estrangeiro, ou seja, tudo aquilo que o
País possui no exterior, aumentou apenas 29.353,9 milhões de
euros, ou seja, somente 11,6%, enquanto o "Passivo" de Portugal ao
estrangeiro, ou seja, a Divida Bruta (aquilo que o País deve ao estrangeiro) cresceu em 86.203,6 milhões de euros. A Divida Liquida do
nosso País ao estrangeiro, que se obtém subtraindo ao
"Activo" do País o "Passivo" do País,
aumentou em 56,849,7 milhões , atingindo, em 2008, 161.531
milhões de euros. Como consequência, a Divida Bruta (o
"Passivo" do País), em 2008, era 2,67 vezes superior ao PIB,
ou seja, a toda a riqueza criada em Portugal nesse ano. E a Divida Liquida do
País ("Passivo" menos "Activo"), medida em
percentagem do PIB, cresceu de 70,2% para 97,2%. Por outras palavras, O
"Passivo" do País ao exterior (aquilo que ele deve ao
estrangeiro) é já superior ao seu "Activo" no
estrangeiro (o que tem a haver do estrangeiro) em 161.531 milhões .
EM 2008, O CRÉDITO BANCÁRIO APLICADO NO IMOBILIÁRIO E NA
HABITAÇÃO ERA DEZ VESES SUPERIOR AO CRÉDITO APLICADO NA
AGRICULTURA E NA INDÚSTRIA
Uma das causas importantes do défice elevado da Balança Corrente
e, consequentemente, do aumento da divida de Portugal ao estrangeiro, é
a destruição do aparelho produtivo nacional. E uma das
razões desta destruição prende-se com a politica de
crédito dos bancos, mais interessados em apoiar actividades
especulativas, para assim obterem lucros elevados, fáceis e seguros, do
que apoiar à actividade produtiva, necessária ao desenvolvimento
e à independência económica do País. O quadro
seguinte, com dados do Banco de Portugal, prova isso.
De acordo com os dados divulgados pelo Banco de Portugal no seu Boletim
Estatístico de Março de 2009, em 2004, o crédito concedido
às actividades essencialmente produtivas, ou seja, à Agricultura,
Pesca e Indústria Transformadora era apenas de 13.705 milhões de
euros, enquanto o concedido às empresas de construção,
actividades imobiliárias e à habitação somava
112.758 milhões de euros, ou seja, 8,2 vezes mais. Esta
situação agravou-se ainda mais durante os quatro anos de governo
Sócrates. No fim de 2008, o credito total concedido à
Agricultura, Pesca e à Industria Transformadora somava apenas 16.455
milhões de euros, enquanto o concedido a empresas de
construção, actividades imobiliárias e à
habitação totalizava já 168.701 milhões de euros,
ou seja, 10,2 vezes mais. Por outras palavras, o crédito concedido
à Agricultura, Pesca e Industria Transformadora representava apenas 6,6%
do crédito total (entre 2004 e 2008, diminuiu de 7,9% para 6,6%),
enquanto o credito concedido às empresas de construção,
actividade imobiliária e à habitação representava,
em 2008, 67,9% do credito total concedido pelo sistema bancário (entre
2004 e 2008, aumentou de 65,1% para 67,9%).
Estes dados do Banco de Portugal mostram de uma forma clara que os bancos em
Portugal estão muito mais interessados em apoiar as actividades
especulativas do que as actividades produtivas. Pode-se afirmar que a
destruição da actividade produtiva em Portugal, que conduziu o
nosso País à situação de dependência do
exterior, traduzido no elevado e crescente défice da Balança
Corrente e no vertiginoso endividamento do País ao estrangeiro, tem como
causa também esta politica de crédito contrária aos
interesses de desenvolvimento nacional, a que não escapou a
própria CGD. A prova disso está não só a sua
politica de crédito, que não se tem diferenciado dos bancos
privados, mas também os elevados empréstimos concedidos a
conhecidos capitalistas para especular na bolsa, de que são exemplos os
casos já conhecidos de Manuel Fino, João Rendeiro, João
Berardo, Teixeira Duarte (e há mais, o presidente da CGD mencionou na
Assembleia da República a existência de 12), a quem a CGD concedeu
empréstimos que rondam os 2.000 milhões de euros, estando agora
em sérias dificuldades para obter o seu reembolso.
22/Março/2009
[*]
Economista ,
edr@mail.telepac.pt
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