A repartição da riqueza obtida pela banca em Portugal é
cada vez mais desfavorável para os trabalhadores bancários e pior
que no país
RESUMO DESTE ESTUDO
O FMI, num estudo recente, foi obrigado a concluir que a
globalização estava a determinar que a parte dos salários
no PIB diminuísse mesmo nos países avançados, sendo os
maiores beneficiados fundamentalmente as grandes empresas, que têm visto
os seus lucros aumentar vertiginosamente à custa da
redução significativa da riqueza criada que reverte para os
trabalhadores sob a forma de remunerações. Em Portugal, o que se
tem verificado a nível da banca confirma essa tendência, embora
com um ritmo e numa dimensão ainda maior.
De acordo com dados divulgados pela Associação de Bancos
Portugueses (APB), verificou-se nos últimos 9 anos (1999/2007) uma
tendência de diminuição da percentagem que os "Custos
com Pessoal" representam do VAB, interrompida apenas em três anos
(2000, 2002 e 2005), em que se verificou uma curta inversão. Como
consequência entre 1996 e 2007, essa percentagem diminuiu 4,5 pontos
percentuais pois passou de 38,6% para 34,1%. Se a análise for feita com
base nos "Vencimentos". cujo valor está muito mais
próximo do que é efectivamente recebido pelos trabalhadores,
conclui-se que, entre 1999 e 2004 (2004 é o ultimo ano em que a APB
divulgou dados do total de vencimentos pagos pela banca), a percentagem que os
Vencimentos" representam do VAB do sector diminuiu em 2,8 pontos
percentuais, pois passou de 29,2% para apenas 26,4% do VAB da banca
Mas foi entre 2006 e 2007, que se verificou a maior redução
naquela percentagem. De acordo com dados da APB, entre o 1º semestre de
2006 e o 1º semestre de 2007, a percentagem que os "Custos com
Pessoal" representam do VAB da banca diminuiu em 5,4 pontos percentuais,
pois passou de 39,5% apenas 34,1% do VAB. Em contrapartida, a percentagem que
os lucros representam do VAB aumentou 4,1 pontos percentuais pois passou,
durante o mesmo período, de 40,9% para 45%, sendo já superior
à parte dos "Custos de Pessoal" no VAB.
Se compararmos esta repartição da riqueza que se verifica a
nível do sector bancário com a registada a nível do
País, constamos que a 1ª é muito pior que a 2ª, apesar
de Portugal ser um dos países da U.E. que apresenta maior desigualdade.
Em 2006, por ex., a percentagem que as remunerações dos
trabalhadores portugueses representam do PIB correspondeu a 51%, enquanto,
nesse mesmo ano, a percentagem que os "Custos de Pessoal"
representaram do VAB do sector bancário foi apenas de 39,4%, ou seja,
menos 11,6 pontos percentuais (- 22,7%). Se a comparação for
feita com base nas "Remunerações sem
contribuições sociais " para o País, e nos
"Vencimentos" para a Banca concluí-se que , em 2004, tinha-se
para o País 35,1% do PIB, e para a Banca 26,4% do VAB. Portanto, a parte
que reverteu para os trabalhadores portugueses do PIB foi superior em 8,7
pontos percentuais à que reverteu do VAB da banca para os trabalhadores.
Entre 2004 e 2006, nos cinco maiores bancos BCP, CGD, Santander, BES e
BPI a percentagem que os "Custos com Pessoal" representaram do
VAB passou de 38,5% do VAB para 39,6%. No entanto, se analisarmos a
variação ano a ano, constamos que, entre 2004 e 2005, essa
percentagem aumentou 4,4 pontos percentuais enquanto, entre 2005 e 2006,
observou-se um redução de 3,3 pontos percentuais.
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O gráfico a seguir, retirado de um estudo realizado pelo FMI mostra a
variação da parte dos salários no PIB verificada nas
últimas 2,5 décadas, por grupo de países.
Como se conclui rapidamente deste gráfico elaborado pelo FMI, nos
últimos 25 anos, como consequência da globalização
(é essa mesmo a justificação dada pelo FMI), a parte dos
salários no PIB, ou seja, a parte da riqueza criada que reverteu para
os trabalhadores sob a forma de remunerações tem diminuído
de uma forma continua e significativa. E tem sido fundamentalmente as grandes
empresas nacionais e transaccionais as mais beneficiadas com esta
redução já que, como consequência, os seus lucros
subiram vertiginosamente.
A REPARTIÇÃO DA RIQUEZA NA BANCA PORTUGUESA É PIOR QUE A
NIVEL DO PAÍS
Em Portugal, a banca, que tem conseguido lucros chocantes, por serem muito
elevados, tem sido um sector altamente beneficiado com esta tendência de
baixa da parte das remunerações da riqueza obtida já que a
parcela que reverte para os trabalhadores tem sido sistematicamente muito
inferior mesmo à revelada no gráfico do FMI.
O quadro seguinte, construído com dados divulgados pela
Associação de Bancos, mostra não só a reduzida
percentagem que as remunerações representam do VAB, mas
também uma tendência de redução dessa parte.
O VAB é a medida que habitualmente se utiliza para medir a riqueza
criada ou obtida anualmente por uma empresa, ou um sector, ou um país. O
VAB, depois de retiradas as amortizações é repartido pelos
trabalhadores (remunerações), pelas diferentes classes de
capitalistas (juros, dividendos, etc) e pelo Estado.
O quadro I mostra, para o período 1999 a 2006, a variação
quer do VAB quer dos "Custos com Pessoal" quer ainda dos
"Vencimentos" . E a conclusão que se tira é que os
"Custos com Pessoal" relativamente ao VAB apresentam, no
período 1999-2006, uma tendência contínua de baixa, sendo
essa redução interrompida por um período curto de um ano
apenas três vezes (2000, 2002 e 2005). No entanto, os trabalhadores
não recebem a totalidade do valor dos "Custos com Pessoal"
pois estes incluem também os "Encargos Sociais" e "Outros
Custos com Pessoal". Se basearmos a análise nos
"Vencimentos", que é um valor que, em principio, está
mais próximo daquele que os trabalhadores efectivamente recebem (dizemos
em principio, porque esta rubrica também inclui os vencimentos dos
administradores, cujo valor é elevado); repetindo, a conclusão a
que se chega com base no valor dos "Vencimentos" é que a
parcela que reverteu para os trabalhadores é ainda menor e tem
diminuído de uma forma quase contínua. Entre 1999 e 2004, passou
de 29,2% para apenas 26,4% do VAB do sector bancário.
Para que se possa ficar com uma ideia mais clara da forte desigualdade na
repartição da riqueza que se verifica a nível da banca em
Portugal, interessa comparar com a que se observa a nível de todo o
País. E como se sabe, Portugal tem uma das piores
distribuições do rendimento entre os países que constituem
a União Europeia. O quadro seguinte, construído com dados
constantes do Relatório do Banco de Portugal relativo à
gerência de 2006, embora tenha sido publicado em 2007, permite fazer essa
comparação.
Se compararmos a percentagem que representam os "Custos com Pessoal"
da banca, que inclui os encargos sociais, no VAB do sector, com a percentagem
que representam as "Remunerações" recebidas pelos
trabalhadores portugueses, que inclui as "Contribuições
Patronais" para a Segurança Social, no PIB português,
concluímos que a percentagem a nível da banca é
significativamente inferior à verificada a nível do País.
Por ex., em 2000, para a banca foi de 40,8%, enquanto a nível do
País, para o mesmo ano, atingiu 49,9%. E, em 2006, foi para a banca
39,4% do VAB e para o País 51% do PIB.
Se a mesma comparação for feita em relação
às "Remunerações sem Contribuições do
País" e aos "Vencimentos " da Banca e conclui-se que, em
2000, as "Remunerações sem contribuições"
a nível do País representavam 35,6% do PIB enquanto os
"Vencimentos" correspondiam a 29,2% do VAB da Banca e, em 2004, as
primeiras representavam 35,1% do PIB do País enquanto as segundas, no
mesmo ano, correspondiam a 26,4% do VAB da Banca. Portanto, o fosso entre a
País e Banca que já era grande em 2000 (menos 6,4 pontos
percentuais para Banca) aumentou ainda mais em 2004 (menos 8,7 pontos
percentuais)
NA BANCA O VAB POR EMPREGADO É 2,5 VEZES SUPERIOR AOS "CUSTOS COM
PESSOAL" POR EMPREGADO, E 3,8 VEZES SUPERIOR AO VENCIMENTOS POR EMPREGADO
Se a análise for feita não com base em valores totais, mas sim em
valores por empregado, a desigualdade na repartição da riqueza
mantém-se. Observem-se, para isso, os dados do quadro seguinte que
também foram divulgados pela Associação Portuguesa de
Bancos.
Entre 2003 e 2006, a riqueza obtida por empregado, ou seja, o VAB por
empregado, aumentou 9.143 euros, enquanto os Custos com Pessoal por empregado
subiram 8.167 euros, o que determinou que uma parcela maior em euros do VAB
ficasse para a banca, tendo essa parcela aumentado de 74.775 euros para 75,752
euros por empregado. E isto apesar dos Custos com Pessoal ter aumentado 3,9
p.p. (pontos percentuais) entre 2003 e 2006.
Se se analisar o número de vezes que o VAB por empregado é
superior ao aos "Custos com Pessoal" por empregado conclui-se que,
entre 2003 e 2005, verificou-se uma melhoria a favor dos trabalhadores pois
diminuiu de 2,8 vezes para 2,4 vezes, tendo-se invertido essa
evolução a partir de 2005 pois, entre 2005 e 2006, o numero de
vezes aumentou de 2,4 vezes para 2,5 vezes. Em relação aos
"Vencimentos por empregado", para os anos em que APB disponibilizou
dados, o número de vezes que o "VAB por empregado" foi
superior ao "Vencimento por empregado" alcançou 3,8 vezes,
portanto superior ao número de vezes referido anteriormente.
EM 2007 A DESIGUALDADE AGRAVOU-SE AINDA MAIS NA BANCA PORTUGUESA
A Associação dos Bancos Portugueses já divulgou os dados
da banca referentes ao 1º semestre de 2007. E esses dados, que constam do
quadro seguinte, revelam, por um lado, um agravamento significativo na
repartição da riqueza entre Trabalhadores e Capital e, por outro
lado, um crescimentos rápido da parte que representa os lucros no VAB,
sendo já superior à de Custos com Pessoal.
Entre 1º semestre de 2006 e 0 1º semestre de 2007, a percentagem que
os Custos do Pessoal representam do VAB diminuiu 5,1 pontos percentuais
(-13,7%) pois passou de 39,5% do VAB para apenas 34,1%, enquanto a percentagem
que os Resultados antes dos impostos representam também do VAB aumentou
4,1 pontos percentuais (+10%) pois passou de 40,9% do VAB para 45%. Isto
significa que a redução registada nos "Custos com
Pessoal" reverteu, quase integralmente, em beneficio dos lucros do capital
(em euros, os Custos com Pessoal subiram apenas 11 milhões de euros,
enquanto os Resultados cresceram 405 milhões de euros, ou seja, 36,8
vezes mais). Os dados referentes ao 1º semestre de 2007 confirmam, de uma
forma clara aquilo que se tinha referido no inicio, ou seja, que se está
a verificar na banca a funcionar em Portugal uma redistribuição
rápida da riqueza obtida anualmente a favor do Capital e em claro
prejuízo dos trabalhadores da banca.
A EVOLUÇÃO DOS "CINCO MAIORES BANCOS + 1" NO PERIODO
2003 2006
Os cinco maiores bancos a funcionar em Portugal CGD, BCP, BES,
Santander-Totta e BPI controlam mais de 80% do mercado bancário
português. Para os restantes, que são mais de 40, fica apenas uma
parte muito pequena desse mercado. Por isso, interessa analisar com mais
pormenor a evolução verificada dos "cinco maiores bancos
" durante os últimos anos.
Acrescentamos aos cinco maiores bancos também o Montepio, por ser uma
caixa económica que está ligado a uma associação
mutualista, mas que devido à gestão puramente bancária
imposta por Silva Lopes/Tomás, está-se a transformar num
autêntico banco, com práticas que não se diferenciam dos
grandes bancos, perdendo progressivamente a atractividade que tinha para os
seus associados (esta prática exterior tem sido acompanhada internamente
por uma forte repressão da Comissão de Trabalhadores e pela
tentativa de marginalização de uma associação
sindical do sector). O quadro seguinte, construído com dados
também divulgados pela Associação Portuguesa de Bancos
mostra a evolução que se verificou nos cinco maiores bancos e no
Montepio no período 2004-2006.
Entre 2004 e 2006, nos cinco maiores bancos, a percentagem que os "Custos
com Pessoal" representam do VAB aumentou entre 2004 e 2005, 4,4 pontos
percentuais pois passou de 38,5% para 42,9%, mas diminuiu ,entre 2005 e 2006,
em 3,3 pontos percentuais pois passou de 42,9% para 39,6% do VAB.. No Montepio,
de uma situação que existia em 2004, que devia ser alterada,
passou-se, em apenas dois anos, para uma situação diferente. Os
"Custos com Pessoal" em 2004 representavam 51,6% do VAB e, em 2006,
desceram para 48,2%, ou seja, registaram uma diminuição de 3,4
pontos percentuais em apenas 2 anos, sem que isso se tenha traduzido em
qualquer beneficio visível para os associados do Montepio (nos anos 2005
e 2006, o Montepio gastou só em publicidade mais de 24 milhões de
euros, ou seja, mais de 4,8 milhões de contos o que determinou que tenha
ficado muito pouco para a associação mutualista com o objectivo
de financiar benefícios para os associados, já que os resultados
aumentaram apenas em 6 milhões de euros).
Se a análise destes "cinco bancos + 1" fosse feita com base
nos vencimentos a desproporção ainda seria maior. Não
fazemos porque a APB não disponibilizou esses dados na sua
publicação.
Em contrapartida, apenas em dois anos 2005/2006 nos cinco maiores
bancos a percentagem que os "Resultados" representam do VAB aumentou
8 pontos percentuais (+19,3%), pois subiu de 37,9% para 45,2% do VAB., tendo
sido já bastante superior à percentagem que os "Custos com
Pessoal" representam do VAB (em 2006, esta percentagem foi apenas de 39,5%
do VAB, ou seja, menos 12,4% que a referente à dos lucros). É
clara a redistribuição da riqueza nos cinco maiores bancos em
claro beneficio do grande capital nacional e estrangeiro, e em prejuízo
dos trabalhadores bancários.
No Montepio, no mesmo período, os "Resultados" subiram de
45,6% do VAB para 49,6%, enquanto a percentagem que os "Custos de
Pessoal" representam em relação ao VAB desceu de 51,6% para
48,2% do VAB, sendo a dos "Resultados" também já
superior à dos "Custos com pessoal" (em 2006, respectivamente
49,6% e 48,2% do VAB)
Há dois outros aspectos muito importantes que caracterizam a banca que
não são analisados neste estudo, mas que interessa lembrar. O
primeiro, prende-se fundamentalmente com o facto da banca, através da
função de intermediária que desempenha, não criar a
maior parte do valor que obtém (embora os seus trabalhadores, como
quaisquer outros trabalhadores, também criem valor), mas
fundamentalmente apropria-se do valor criado pelos trabalhadores dos sectores
produtivos. E o segundo aspecto importante que caracteriza a banca em Portugal
tem tido consequências negativas no crescimento económico do
País pois a banca, incluindo a CGD e o Montepio, não tem estado
interessada em apoiar o investimento produtivo, ou seja, aquele que cria
efectivamente riqueza e desenvolve o País, porque o considera arriscado
e pouco rentável, preferindo conceder crédito aos sectores
especulativos (ex. imobiliário) ou com garantias reais seguras (ex.
habitação). Como é evidente, esta distorção
na politica do crédito tem tido também consequências muito
negativas no crescimento económico do País, pois tem
contribuído para a forte desindustrialização que se tem
verificado em Portugal. Pode-se mesmo dizer que a banca, com a politica de
crédito distorcido que adoptou para maximizar os seus lucros, tem criado
fortes obstáculos ao crescimento económico sustentável e
é, por isso, também responsável pela crise actual em que
está mergulhado o País e pelo previsível agravamento
devido à crise financeira.
10/Outubro/2007
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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