Em 2007 a EDP obteve um lucro extraordinário de 250 milhões
cobrando aos portugueses preços superiores aos preços
comunitários
RESUMO DESTE ESTUDO
Já por diversas vezes denunciámos os lucros exagerados obtidos
pela EDP à custa de preços muito superiores aos praticados em
outros países da União Europeia, mesmo mais desenvolvidos e com
remunerações muito mais elevadas, perante a passividade, para
não dizer mesmo a conivência, do governo e da Autoridade da
Concorrência. Finalmente, esta última decidiu levantar um processo
para averiguar porque razão o preço da electricidade em Portugal
é muito superior ao preço espanhol. Mas logo o ministro da
Economia veio em defesa da EDP, desautorizando aquela entidade. Por isso,
interessa esclarecer mais uma vez a forma como actua a EDP e como também
obtém os elevados lucros que apresenta todos os anos. É o que se
faz neste estudo utilizando apenas dados do Eurostat e da
Direcção Geral de Energia e Geologia do Ministério da
Economia
Qualquer pessoa sabe, por pouco que conheça de gestão
empresarial, que os lucros de uma empresa são determinados pela
diferença entre os proveitos que obtém pelo que vende e os custos
que tem de suportar. E os preços que interessam são os chamados
preços à saída da fabrica, ou seja, os
preços sem incluir os impostos, porque as receitas destes revertem para
o Estado. De acordo com os dados oficiais do Eurostat, o preço da
electricidade em Portugal sem impostos era, em 2007, em média, superior
em 21,1% ao preço médio comunitário. Se a análise
for feita por países a diferença, em relação a
alguns deles, é ainda maior. Por exemplo, em 2007, o preço da
electricidade em Portugal sem impostos era superior em 114,8% ao da
Grécia; em 41,4% ao de Espanha; em 30,5% ao da Suécia; em 61,9%
ao da Dinamarca, etc.
Como consequência destes preços mais elevados, cerca de 250
milhões de euros dos 1120 milhões de euros de lucros
líquidos obtidos pela EDP em 2007, tiveram como origem precisamente a
diferença entre o preço praticado em Portugal, que é mais
elevado, e o preço médio comunitário. Só em 2007,
os cerca 4.700.000 consumidores domésticos tiveram de pagar pela
electricidade que consumiram, cada um deles, mais 53,31 euros do que pagariam
se o preço da electricidade em Portugal, sem impostos, fosse igual ao
preço médio comunitário.
Perante a evidência anterior, o ministro da Economia deste governo
responde normalmente o seguinte: como os preços da electricidade com
impostos não são muito superiores aos preços médios
comunitários, então os consumidores não são
prejudicados. E isto porque o Estado português cobra menos imposto e de
taxas sobre a electricidade que o cobrado em outros países. O ministro
esquece-se, ou por ignorância ou intencionalmente, que o facto de a EDP
conseguir vender a electricidade a um preço muito superior ao praticado
na generalidade dos países da UE, está a impedir que os
consumidores domésticos portugueses paguem pela electricidade um
preço mais baixo que esteja em linha com os salários mais baixos
que auferem ou então que sejam os contribuintes portugueses a suportar o
aumento de impostos que permita ao Estado obter uma receita equivalente
à que perde com os impostos mais baixos que cobra sobre a electricidade.
Em 2007, o Estado Português perdeu cerca de 274,7 milhões de euros
de receitas fiscais, ou seja, teve menos 274,7 milhões de euros da
receita que teria obtido se tivesse aplicada uma taxa média de imposto
igual àquela que incide sobre a electricidade na União Europeia.
Desta forma o governo permitiu que a EDP obtivesse um lucro
extraordinário que estimamos em 250 milhões de euros, e depois
compensou essa redução da receita fiscal através do
aumento de outros impostos (ex. IVA) ou então não baixando outros
impostos que podiam ter sido reduzidos (ex. IRS sobre os trabalhadores e
reformados) o que seria possível se a EDP não tivesse aquele
lucro extraordinário. Será que tudo isto está para
além dos limites de compreensão do ministro da Economia? Ou
será que o propósito descarado deste governo é permitir
à EDP obter lucros extraordinários sobrecarregando ainda mais os
portugueses com preços e impostos elevados?
Enquanto os preços da electricidade em Portugal são muito
superiores aos praticados em outros países da União Europeia, e
os lucros da EDP ultrapassam os 1.100 milhões de euros em 2007, a
nível de remunerações continua a suceder precisamente o
contrário. De acordo com o Eurostat, as remunerações
médias brutas dos trabalhadores portugueses, que constituem a maioria
dos consumidores, correspondiam ainda a cerca de 49,2% das
remunerações médias praticadas na União Europeia.
Se a análise for feita por países, em relação
à Suécia as remunerações portuguesas são
inferiores em -54,6%; à Inglaterra em -64,2%; em relação
à Finlândia em -53,3%; Dinamarca -67%; Bélgica -57,7%.
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Já por diversas vezes denunciamos os lucros exagerados das empresas de
energia em Portugal obtidos fundamentalmente à custa de preços
muito superiores aos praticados em outros países da União
Europeia, perante a passividade, para não dizer mesmo a
conivência, quer do governo quer da chamada Autoridade da
Concorrência. Finalmente, esta última decidiu abrir um processo
para averiguar porque razão os preços de electricidade em
Portugal são muito superiores aos preços espanhóis. Mas
logo o ministro da Economia deste governo, veio desautorizar esta entidade
afirmando que a diferença de preços da electricidade entre
Portugal e Espanha não era tão elevada, ou era mesmo inexistente.
Mais uma vez Manuel Pinho, colocou-se ao lado das grandes empresas de
electricidade contra os consumidores, na sua esmagadora maioria trabalhadores,
defendendo os elevados lucros destas empresas à custa de preços
sem impostos muito superiores aos preços médios da UE.
A EDP OBTEVE EM 2007 LUCROS SUPERIORES A 1.100 MILHÕES DE EUROS
TAMBÉM À CUSTA DE PREÇOS SUPERIORES EM 21% AOS
PREÇOS MÉDIOS COMUNITÁRIOS
Qualquer pessoa sabe, por pouco que conheça de gestão
empresarial, que os lucros de uma empresa são determinados pela
diferença entre os proveitos que obtém pelo que vende e os custos
que tem de suportar. E os proveitos são determinados pelos chamados
preços à saída da fabrica, daquilo que vende,
ou seja, resulta do que consegue cobrar pelo vende, portanto sem impostos, pois
estes revertem para o Estado. Se o Estado depois subsidia esses preços
ou faz incidir sobre eles impostos menos elevados para que o consumidor pague
menos essa é uma questão que já não interessa
à empresa, pois não influencia os seus lucros, já que essa
despesa ou receita fiscal a menos do Estado terá de ser suportada pelos
contribuintes através de outros impostos. É por esta
razão, que se quisermos analisar os benefícios para as empresa,
interessa que a comparação dos preços de electricidade
praticados em Portugal com os preços de outros países da
União Europeia seja feita com base nos preços "à
saída da fabrica", ou seja, sem impostos pois são estes que
determinam os lucros das empresas. É precisamente isso que o
serviço oficial de estatísticas da União Europeia, o
Eurostat, divulga os preços de electricidade praticados em todos os
países da União Europeia sem incluir os impostos. E os
preços sem impostos pagos pelos consumidores portugueses são
bastante superiores aos preços médios da União Europeia,
como mostra o quadro seguinte construído com dados do Eurostat.
Em 2007, o preço da electricidade em Portugal era, em média,
ainda superior em 21,1% ao preço médio comunitário. No
entanto, se a análise for feita por países da UE a
diferença, em relação a alguns deles, é ainda
maior. Por exemplo, em 2007, o preço da electricidade sem impostos era,
em Portugal, 114,8% superior ao da Grécia; 41,4% ao de Espanha, 30,5% ao
da Suécia; e 61,9% ao da Dinamarca. É esta diferença de
preços suportada pelos consumidores, que permite também às
empresas de electricidade obter elevadíssimos lucros (os lucros da EDP
atingiram, em 2007, cerca de 1.120 milhões de euros) que o ministro
Manuel Pinho defende.
250 MILHÕES DE EUROS DE LUCROS EXTRAORDINÁRIOS ARRRECADADOS PELA
EDP EM 2007 TÊM COMO ORIGEM PREÇOS DE ELECTRICIDADE SUPERIORES AOS
PREÇOS MÉDIOS COMUNITÁRIOS
Em 2007, apesar da crise que grassa no País e dos sacrifícios que
os portugueses estão a suportar, a EDP obteve 1.119,9 milhões de
euros de lucros líquidos, um valor superior ao de 2006. Uma parcela
importante destes lucros teve como origem o preço superior ao
preço médio comunitário cobrado pela EDP aos consumidores
domésticos portugueses como mostra o quadro.
Utilizando dados do Eurostat, da própria EDP e da Direcção
Geral de Geologia e Energia do Ministério da Economia estimamos que,
só em 2007, a EDP tenha arrecado cerca de 250 milhões de euros
de lucros extraordinários apenas por ter vendido a electricidade que
produz 21% superior ao preço médio de electricidade praticado na
União Europeia. Este lucro extraordinário custou a cada
consumidor doméstico um sobrecusto que calculamos em 53,31 euros.
É a manutenção deste encargo adicional que permite
à EDP ter um lucro extraordinário de 250 milhões de euros
só em 2007 financiado pelos consumidores domésticos portugueses
CONTRARIAMENTE AO QUE O MINISTRO DA ECONOMIA AFIRMA O LUCRO
EXTRAORDINÁRIO DA EDP É PAGO PELOS CONTRIBUINTES
A lógica primária do ministro da Economia é a seguinte:
como o preço da electricidade com impostos não é muito
superior ao preço médio comunitário, como consta do quadro
III, os consumidores portugueses não são prejudicados. E isto
porque o Estado português cobra menos imposto sobre a electricidade que o
cobrado nos outros países. O ministro esquece-se, ou por
ignorância ou intencionalmente, que o facto de a EDP conseguir vender a
electricidade, por ter a conivência quer do governo quer da Autoridade da
Concorrência, a um preço superior ao praticado na generalidade dos
países da U.E., está a impedir que os consumidores
domésticos portugueses paguem pela electricidade um preço mais
baixo que esteja em linha com os salários mais baixos praticados em
Portugal ou então que sejam os contribuintes portugueses que têm
de suportar, com mais impostos, um aumento da receita que compense o Estado da
perda de receita devido a cobrar sobre a electricidade menos impostos do que a
média comunitária.
O quadro seguinte, construído com dados da Direcção Geral
de Geologia e Energia do ministério da Economia, mostra os preços
com impostos praticados em 2007 nos países da União Europeia.
Em 2007, o Estado Português perdeu cerca de 274,7 milhões de euros
de receitas fiscais, ou seja, teve menos 274,7 milhões de euros da
receita que teria obtido se tivesse cobrada a taxa média de imposto que
incide sobre a electricidade na União Europeia. Desta forma permitiu
que a EDP tivesse um lucro extraordinário que estimamos em 250
milhões de euros, o que depois compensou com o aumento de outros
impostos (ex. IVA) ou não baixando outros que podiam ter sido reduzidos
(ex. IRS sobre os trabalhadores e reformados).
PREÇO DE ELECTRICIDADE EM PORTUGAL SUPERIOR EM 21% AO PREÇO
MÉDIO COMUNITÁRIO MAS REMUNERAÇÕES INFERIORES EM
50% ÀS REMUNERAÇÕES MÉDIAS DA U.E.
O preço da electricidade em Portugal é superior em cerca 21% ao
preço médio comunitário e, em relação a
certos países da U.E., muito superior mesmo àquela percentagem ,
mas as remunerações em Portugal continuam a ser bastantes
inferiores às remunerações pagas aos trabalhadores na
maioria dos países da U.E., como mostram os dados do Eurostat constantes
do quadro.
As remunerações médias brutas dos trabalhadores
portugueses da indústria e dos serviços correspondem a cerca de
49,2% das remunerações médias pagas na União
Europeia. Se a análise for feita por países com preços de
electricidade mais baixos do que Portugal, relativamente a alguns deles a
diferença é ainda maior. Por exemplo, em relação
à Suécia as remunerações portuguesas são
inferiores em -54,6%; em relação à Inglaterra em -64,2%;
relativamente à Finlândia -53,3%; no que respeita à
Dinamarca em -67%; e em relação à Bélgica em
-57,7%.
18/Março/2008
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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