O estranho aumento da esperança de vida aos 65 anos em 2010 e a redução das pensões em 2011 dos trabalhadores que se reformarem ou aposentarem no próximo ano e futuros
por Eugénio Rosa
[*]
O
INE
acabou de divulgar um valor provisório da esperança de vida
aos 65 anos para 2010. Estranhamente esse valor provisório revela um
aumento muito
significativo na esperança de vida, quando comparamos esse valor com os
dos anos anteriores. De acordo o INE, entre 2006 e 2007, a esperança de
vida aos 65 anos em Portugal aumentou 0,6%; entre 2007 e 2008, a subida foi de
0,8%; entre 2008 e 2009, o aumento foi apenas de 0,3%; mas entre 2009 e 2010, o
aumento seria já de 1,5%. Portanto uma subida muito significativa, e um
ritmo muito diferente do verificado em anos anteriores que, a confirmar-se pelo
INE através dos valores definitivos, determinará uma
redução importante no valor das pensões dos trabalhadores
que se reformarem ou aposentarem em 2011 como vamos mostrar.
No período compreendido entre 2004 e 2009, até se verifica uma tendência de aumento do numero de mortes em Portugal, registando-se até, em 2009, um numero de mortes superior ao numero de nascimentos em 4.943. Com o agravamento da situação social em 2010, e com aumento das dificuldades das famílias, seria previsível que, em 2010, a esperança de vida ao 65 anos, que é muito influenciada pelo numero de óbitos, tivesse uma aumento muito reduzido ou até nulo. No entanto, vamos esperar que o INE divulgue os dados definitivos. Como já vários trabalhadores nos puseram esta questão por email e, como é uma matéria que interessará a muitos mais trabalhadores, aqui ficam os esclarecimentos possíveis neste momento. O QUE É UM FACTOR DE SUSTENTABILIDADE, COMO SE CALCULA, E COMO SE APLICA AO VALOR DA PENSÃO OBTIDA, E SUAS CONSEQUENCIAS PARA OS TRABALHADORES O factor de sustentabilidade é um factor, aprovado pelo governo de Sócrates, que sempre denunciamos, contra a propaganda do governo e dos seus defensores, que iria reduzir significativamente o valor das pensões dos trabalhadores quer do sector privado quer da Administração Pública que se reformarem ou aposentarem no futuro, e essa redução será tanto maior quantos mais anos passarem. O factor de sustentabilidade foi criado pela Lei 4/2007 (a Lei de Bases da Segurança Social) constando do seu artº 64º, e a sua fórmula de cálculo consta do artº 35º do Decreto-Lei 187/2007. A sua aplicação também aos trabalhadores da Administração Pública foi feita através da Lei 52/2007 (artº 1º que alterou o artº 5º da Lei 60/2005). De acordo com a lei (Decreto-Lei 187/2007 e Lei 52/2007), este factor calcula-se dividindo a Esperança de Vida aos 65 anos verificada em 2006 em Portugal pela Esperança de Vida também aos 65 anos registada também em Portugal no ano anterior àquele que o trabalhador se reforma ou aposenta (EV65_2006 : EV65_x-1 , em que x é o ano em que o trabalhador se reforma ou aposenta ) . Como a esperança de vida aos 65 anos está, em princípio, a aumentar, portanto a esperança de vida aos 65 anos verificada depois de 2006 é superior à de 2006. Logo se se dividir a de 2006 pela de um ano posterior, que é maior, obtenho um valor inferior a 1 (um) . É esse valor inferior a 1 (um) que depois se multiplica pelo valor da pensão calculada. Por outras palavras, em primeiro lugar calculo a pensão do trabalhador do sector privado utilizando as regras da Segurança Social (em www.eugeniorosa.com está um documento que explica como se calcula); se for um trabalhador da Administração Pública calcula-se a sua pensão utilizando as regras do Estatuto da Aposentação com todas as alterações introduzidas pelo governo de Sócrates (também em www.eugeniorosa.com encontra-se um documento que explica como se calcula). E depois o valor assim obtido multiplica-se pelo factor de sustentabilidade, que é um valor menor que 1 (um), por isso reduz o valor da pensão. E este factor que reduz a pensão tanto se aplica aos trabalhadores do sector privado como aos da Função Pública. E aplica-se aos que se reformem ou aposentem com a pensão completa ou antecipadamente. A DIMENSÃO DA REDUÇÃO DA PENSÃO QUE SOFRERÃO OS TRABALHADORES DO SECTOR PRIVADO E DA ADMINISTRAÇÃO QUE SE REFORMAREM OU APOSENTAREM EM 2011 E UMA PREVISÃO PARA OS ANOS POSTERIORES No quadro seguinte constam os valores reais do factor de sustentabilidade de 2008 (1º ano em que se aplicou); de 2009 e de 2010; assim como o de 2011, se os dados provisórios divulgados pelo INE se confirmarem. Para que se possa ficar com uma ideia da redução da pensão determinada pelo chamado factor de sustentabilidade ao longo do tempo, se o aumento da esperança de vida aos 65 anos em 2010 (+1,5% segundo os dados provisórios do INE) se se verificasse nos anos posteriores calculamos o factor de sustentabilidade até ao ano 2050. Quadro 2 A variação do Factor de Sustentabilidade e a diminuição das pensões dos trabalhadores do sector privado e da Administração Pública
Assim, em 2008, primeiro ano em que se aplicou o factor de sustentabilidade, a redução da pensão dos trabalhadores que se reformaram ou aposentaram nesse ano foi de 0,56%; os que se reformaram ou aposentaram em 2009 já sofreram um redução de 1,32%; em 2010, a redução atingiu 1,65%; e, em 2011, se os dados do INE se confirmarem a redução no valor da pensão dos trabalhadores que se reformarem ou aposentarem será já 3,14%. Por outro lado, se a esperança de vida aos 65 anos aumentasse depois de 2010 ao ritmo que se verificou entre 2009 e 2010, os trabalhadores que se reformarem ou aposentarem em 2020, por ex., sofreriam um redução na sua pensão de 15,29%; em 2030 a redução seria de 27,01%; em 2040, a redução atingiria 37,1%; e, em 2050, a redução na pensão seria de 45,8%. E isto só devido ao factor de sustentabilidade aprovado pelo governo de Sócrates. Tudo isto mostra a necessidade de reformular toda a "reforma" da Segurança Social e da CGA do governo de Sócrates, e estudar de uma forma profunda todo os seu sistema de financiamento, diversificando-o e modernizando as suas fontes de financiamento, de forma a garantir a sua sustentabilidade e o pagamento de pensões dignas.
02/Dezembro/2010
Economista,
edr2@netcabo.pt
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