Governo é responsável pelos défices das EPs de transportes
- Em 2009 os capitais próprios negativos de sete EPs já
correspondian a 3% do PIB
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A situação das empresa públicas de transportes colectivos (REFER, CP, Carris, ML, MP, STCP e Transtejo) está a atingir um nível insustentável, provocando a sua rápida degradação assim como dos serviços prestados à população. No fim de 2009, o Passivo daquelas sete empresas (o que estas empresas deviam) era superior ao seu Activo Liquido (o que estas empresas possuíam mais o que tinham a receber) em 4.994 milhões , ou seja, os seus Capitais Próprios eram negativos naquele elevado montante. Assim, em 2009, o Passivo das sete empresas somava já 13.241 milhões , enquanto o seu Activo Liquido era apenas de 8.248 milhões . No fim de 2009, o défice orçamental oculto nestas empresas, correspondia já a cerca de 3% do PIB desse ano (a juntar ao défice de 0,8% oculto nos Hospitais EPE). E ainda o mais grave, é o ritmo elevado a que está a aumentar. Entre 2006 e 2009, portanto em três anos de governo de Sócrates, os Capitais Próprios negativos daquelas sete empresas, passaram de -2784 milhões para -4994 milhões , ou seja, o seu valor negativo aumentou em 79,4%. Como consequência, no fim de 2009, o endividamento à banca destas empresas públicas atingia mais de 9.765 milhões , tendo sido obrigadas a suportar, em 2009, 514 milhões de encargos financeiros, portanto um valor superior a todas as Despesas de Pessoal, (inclui não só as remunerações dos trabalhadores mas também todas as outras despesas de pessoal, incluindo também as despesas com os administradores) que foi de 453 milhões . Para que esta empresas possam funcionar, o Estado, todos os anos, tem sido obrigado a dar garantias (ser fiador) a fim de obterem empréstimos para cobrir não só despesas de funcionamento mas também o pouco e insuficiente investimento que têm realizado. Estas empresas têm de fornecer à população serviços a preços sociais (por ex., o passe social), portanto abaixo dos seus custos, porque se isso não acontecesse os preços dos transportes colectivos disparariam. Por essa razão o Estado devia cobrir, através do Orçamento do Estado, a diferença entre o custo e o preço a que esse serviço é prestado à população (indemnizações compensatórias). Como isso não tem acontecido (no período 2006-2009, cada empresa recebeu, em média, por ano, apenas 20,4 milhões segundo o Relatórios sobre o SEE do Ministério das Finanças), prejuízos elevados têm-se acumulado nas sete empresas tornando a situação insustentável sob o ponto de vista económico-financeiro (no período 2006-2009, os prejuízos acumulados por aquelas sete empresas totalizaram 2.833 milhões ). A juntar a tudo isto, o governo praticamente não transferiu qualquer dotação para reforçar o capital destas empresas (apenas o Metro do Porto recebeu 2,5 milhões em 2008), que era necessário para apoiar os investimentos de ampliação (por ex., aumentar as linhas de Metro) e melhorar os serviços prestados à população (aquisição de mais carruagens, compra de locomotivas, etc.) Enquanto se verifica esta degradação destas empresas públicas, o custo das chamadas PPPs (Parcerias Público Privada) está subir de uma forma insustentável. Só no período 2010-2024, os portugueses terão de pagar a grandes grupos económicos privados (Mota Engil, Brisa dos Mellos, etc) 19597,3 milhões repartidos da seguinte forma: (1) No período 2010-2013, em média, 826,4 milhões /ano; (2) No período 2014-2024, em média, 1481 milhões (+79,2%) por ano. Mesmo aqui, observa-se uma clara promoção do transporte rodoviário (59,1% dos custos totais das PPP) em prejuízo do transporte ferroviário (apenas 10,9% dos custos totais). È neste cenário de forte e continuada degradação destas empresas públicas, em que os dois governos de Sócrates nada fizeram para resolver, associada a uma redução drástica dos seus investimentos com a consequente degradação dos serviços prestados à população, que a questão do TGV tem também de ser equacionada. Armando Pires num interessante artigo sobre o TGV em Portugal, e citando o Nobel Paul Krugman, escrevia o seguinte: Nesta situação Krugman defende que, a melhor estratégia do país com o centro mais periférico (Portugal), é desenvolver as redes de transporte internas, de forma a permitir ao seu centro explorar a sua hinterland. Para Krugman, só quando Lisboa se tornar num centro Ibérico é que se deve reduzir os custos de transporte entre Madrid e Lisboa. Neste sentido, o desenvolvimento da infra-estrutura rodoviária e ferroviária em Portugal apresenta-se como prioritário. Não comungamos da mesma posição em relação ao transporte rodoviário, um transporte caro, poluente e gerador de dependência em relação ao estrangeiro, mas fica a citação para reflexão do leitor, e para mostrar que não estamos isolados na análise económica que fazemos do TGV em Portugal ainda por cima numa situação de rápida e clara degradação dos transportes internos. |
A situação das empresas públicas de transportes colectivos
é ainda mais grave do que a dos
Hospitais EPE (públicos) que analisamos no estudo anterior
. O governo de Sócrates também tem
utilizado estas empresas para transferir e ocultar o défice
orçamental, agravando perigosamente a sua situação, e
degradando os serviços que prestam à população.
Na última legislatura, aquando do debate do Orçamento do Estado
em que sempre participamos, levantamos sistematicamente esta questão, e
ouvimos do então ministro dos Transportes, Mário Lino, sempre a
mesma resposta: que a situação era muito complicada, e que tinha
nomeado uma comissão para analisar a questão e para apresentar
uma solução, visando o saneamento financeiro destas empresas. A
verdade é que essa solução milagrosa
NUNCA
foi apresentada à Assembleia da República, certamente porque o
governo andava mais entretido com o TGV, apesar daquelas empresas serem muito
mais importantes para os portugueses e para o desenvolvimento do País do
que a alta velocidade.
O PASSIVO DE SETE EMPRESAS DE TRANSPORTES É JÁ SUPERIOR AOS SEUS
ACTIVOS EM MAIS DE 4994 MILHÕES E NÃO PARA DE CRESCER
O quadro seguinte construído com dados que retiramos dos
Relatórios e Contas das empresas REFER, CP, Carris, Metro de Lisboa,
Metro do Porto, STCP e Transtejo, mostra de uma forma a situação
insustentável que os governos de Sócrates deixaram chegar estas
empresas
Quadro 1 Activo Liquido, Passivo e Capitais Próprios
Período 2006/2009
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| REFER | 1.199 | 1.359 | 1.595 | 657 | 2.010 | 2.332 | 2.750 | 1.925 | -811 | -651 | -1.156 | -1.268 |
| CP | 1.396 | 1.351 | 1.355 | 1.577 | 3.034 | 3.175 | 3.368 | 3.811 | -1.638 | -1.824 | -2.013 | -2.234 |
| CARRIS | 194 | 180 | 181 | 169 | 576 | 599 | 793 | 903 | -383 | -419 | -612 | -734 |
| Metro do Porto | 2.019 | 2.012 | 2.061 | 2.183 | 1.811 | 1.942 | 2.129 | 2.337 | 208 | 70 | -68 | -155 |
| STCP | 71 | 90 | 92 | 84 | 247 | 292 | 339 | 350 | -176 | -202 | -247 | -267 |
| Transtejo | 80 | 73 | 72 | 85 | 129 | 119 | 151 | 181 | -49 | -47 | -78 | -96 |
| SOMA | 4.959 | 5.065 | 5.356 | 4.754 | 7.807 | 8.459 | 9.531 | 9.507 | -2.849 | -3.072 | -4.175 | -4.754 |
| Metro de Lisboa (*) | 3.421 | 3.459 | 3.494 | 3.494 (*) | 3.356 | 3.516 | 3.734 | 3.734 (*) | 65 | -57 | -240 | -240 (*) |
| TOTAL | 8.380 | 8.524 | 8.850 | 8.248 | 11.164 | 11.975 | 13.265 | 13.241 | -2.784 | -3.128 | -4.415 | -4.994 |
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Milhões |
Milhões |
Milhões |
Milhões |
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| REFER | 1.776 | 2.081 | 1.403 | 560 | 195 | 228 | 262 | 181 | 93 | 86 | 92 | 97 | -162 | -163 | -181 | -113 |
| CP | 2.482 | 2.617 | 2.812 | 2.850 | 89 | 128 | 148 | 148 | 140 | 134 | 141 | 135 | -193 | -184 | -190 | -218 |
| CARRIS | 315 | 337 | 294 | 608 | 20 | 26 | 34 | 32 | 101 | 88 | 72 | 81 | -52 | -39 | -17 | -42 |
| Metro do Porto | 1.684 | 1.825 | 2.011 | 2.230 | 42 | 62 | 69 | 54 | 6 | 6 | 6 | 6 | -122 | -145 | -149 | -138 |
| STCP | 148 | 251 | 288 | 271 | 8 | 11 | 26 | 10 | 40 | 38 | 39 | 38 | -26 | -27 | -39 | -20 |
| Transtejo | 65 | 76 | 89 | 99 | 3 | 3 | 4 | 5 | 14 | 14 | 14 | 14 | -17 | -17 | -22 | -17 |
| SOMA | 6.470 | 7.187 | 6.895 | 6.617 | 357 | 458 | 542 | 431 | 394 | 366 | 363 | 372 | -572 | -575 | -598 | -547 |
| Metro de Lisboa (*) | 2.786 | 2.949 | 3.148 | 3.148 | 70 | 72 | 83 | 83 | 83 | 89 | 81 | 81 | -147 | -144 | -125 | -125 |
| TOTAL | 9.256 | 10.135 | 10.043 | 9.765 | 426 | 530 | 625 | 514 | 477 | 454 | 444 | 453 | -718 | -719 | -723 | -672 |
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(Stock de responsabilidades assumidas) Milhões |
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| REFER | 2.546,9 | 2.511,2 | 200,0 | 1.000,0 |
| CP | 733,7 | 733,7 | 500,0 | |
| CARRIS | 405,0 | 405,0 | 90,0 | |
| Metro do Porto | 976,1 | 970,5 | 60,0 | |
| STCP | 116,0 | 214,7 | 120,0 | |
| Transtejo | 0,0 | 55,0 | ||
| Metro Lisboa | 2.441,2 | 2.784,5 | 400,0 | |
| TOTAL | 7.218,9 | 7.674,7 | 660,0 | 1.710,0 |
Como as indemnizações compensatórias entregues às empresas (Carris, STCP, ML, MP) não têm sido em valores suficientes para cobrir os custos de exploração, para continuarem a operar as empresas têm recorrido, ao longo dos anos, ao endividamento, como fonte de financiamento permanente , o que tem acarretado o crescimento do seu endividamento, agravado pelos crescentes e avultados encargos financeiros, sendo que, em regra, já só conseguem amortizar capital em dívida à custa da contracção de novo endividamento bancário . Aliás, em 31 de Dezembro de 2008, o montante total em dívida destas empresas ascendia a 5,8 mil milhões de euros, o que representava um agravamento de 90% em relação a 2003 (as empresas operadoras de metro eram responsáveis por 85% desse endividamento)
Como as indemnizações compensatórias entregues às
empresas não têm sido em valores suficientes para cobrir os custos
de exploração,
para continuarem a operar as empresas têm recorrido, ao longo dos anos,
ao endividamento, como fonte de financiamento permanente
, o que tem acarretado o crescimento do seu endividamento, agravado pelos
crescentes e avultados encargos financeiros, sendo que, em regra, já
só conseguem amortizar capital em dívida à custa da
contracção de novo endividamento bancário.
Aliás, em 31 de Dezembro de 2008, o montante total em dívida
destas empresas ascendia a 5,8 mil milhões de euros, o que representava
um agravamento de 90% em relação a 2003 (as empresas operadoras
de metro eram responsáveis por 85% desse endividamento).
(ponto 40 das conclusões, pág. 10)
A juntar a tudo isto, o governo Sócrates praticamente não
transferiu qualquer dotação para reforçar o capital destas
empresas (apenas o Metro do Porto recebeu 2,5 milhões em 2008),
que era necessário para apoiar investimentos indispensáveis para
ampliar (por ex., aumentar a linha do Metro) e melhorar os serviços
prestados à população (aquisição de mais
carruagens, compras de locomotivas).
O CUSTO INSUPORTAVEL E CRESCENTE DAS PPPs
Uma das formas que o governo Sócrates tem utilizado para privatizar
serviços públicos são as chamadas PPPs (Parcerias Publico
Privada) cujos elevados custos, num futuro muito próximo, vão
também cair sobre os portugueses da forma como consta do quadro seguinte
construído com dados constantes do Relatório do Orçamento
do Estado para 2010.
Quadro 4 Custo anual das PPP Período 2010/2027
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em % do TOTAL |
% do TOTAL |
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| 2010 | 142,9 | 382,7 | 224,8 | 750,4 | 19,0% | 51,0% |
| 2011 | 85,0 | 532,0 | 266,1 | 883,1 | 9,6% | 60,2% |
| 2012 | 0,0 | 334,0 | 428,5 | 762,5 | 0,0% | 43,8% |
| 2013 | 0,0 | 320,8 | 589,0 | 909,8 | 0,0% | 35,3% |
| 2014 | 169,7 | 964,4 | 498,3 | 1.632,4 | 10,4% | 59,1% |
| 2015 | 171,2 | 1.034,4 | 512,8 | 1.718,4 | 10,0% | 60,2% |
| 2016 | 172,8 | 1.001,3 | 527,7 | 1.701,8 | 10,2% | 58,8% |
| 2017 | 174,4 | 988,1 | 542,7 | 1.705,2 | 10,2% | 57,9% |
| 2018 | 176,0 | 999,1 | 536,5 | 1.711,6 | 10,3% | 58,4% |
| 2019 | 177,7 | 927,7 | 666,2 | 1.771,6 | 10,0% | 52,4% |
| 2020 | 179,3 | 975,4 | 378,3 | 1.533,0 | 11,7% | 63,6% |
| 2021 | 181,0 | 904,7 | 268,5 | 1.354,2 | 13,4% | 66,8% |
| 2022 | 182,8 | 863,2 | 155,6 | 1.201,6 | 15,2% | 71,8% |
| 2023 | 184,6 | 709,1 | 136,1 | 1.029,8 | 17,9% | 68,9% |
| 2024 | 143,7 | 646,6 | 141,6 | 931,9 | 15,4% | 69,4% |
| TOTAL | 2.141,1 | 11.583,5 | 5.872,7 | 19.597,3 | 10,9% | 59,1% |
Assumindo que os centros económicos da Península Ibérica são Madrid e Lisboa, isto poderia revelar-se benéfico para Portugal, se os ganhos de Lisboa compensassem as perdas nas restantes regiões. Infelizmente, Lisboa não é um centro económico a nível Ibérico. Num trabalho meu demonstrei que existem três centros na Península Ibérica: Madrid, Catalunha e o País Basco. Lisboa a região mais central de Portugal só é marginalmente mais central que a região mais periférica da Espanha, a Galiza. Sendo assim, segundo as teorias de Krugman, Portugal sairia perdedor com uma redução dos custos de ligação a Espanha. Curiosamente, Krugman chegou a analisar um caso semelhante ao de Espanha e de Portugal: dois países, cada um com o seu centro económico (Madrid e Lisboa), mas em que um deles é mais periférico que o outro (assim como Madrid é mais central que Lisboa). Nesta situação Krugman defende que, a melhor estratégia do país com o centro mais periférico (Portugal), é desenvolver as redes de transporte internas, de forma a permitir ao seu centro explorar a sua hinterland. Para Krugman, só quando Lisboa se tornar num centro Ibérico é que se deve reduzir os custos de transporte entre Madrid e Lisboa. Neste sentido, o desenvolvimento da infra-estrutura rodoviária e ferroviária em Portugal apresenta-se como prioritário. No entanto, enquanto que os sucessivos governos apostaram na primeira, a segunda tem sido bastante negligenciada. O desinvestimento ferroviário é ainda mais preocupante pois é sabido, da experiência do TGV noutros países, que este só é eficaz se interligado com as linhas convencionais de comboios. Ora, enquanto que estas estão amplamente desenvolvidas em Espanha, tal não é o caso em Portugal. Corre-se pois o risco de o investimento no TGV se revelar ineficiente. Para além do mais, a existência de uma rede ferroviária forte em Portugal, poderia ser a alternativa que as populações defendem às estradas pagas. No entanto, a mentalidade rodoviária está tão enraizada que a opção ferroviária não é sequer considerada na discussão sobre as SCUTs.
Os comentários parecem-nos inúteis mas fica a
citação para reflexão do leitor e para mostrar que
não estamos isolados na análise económica que fazemos do
TGV em Portugal, embora não tenhamos a mesma posição em
relação ao transporte rodoviário, que é caro,
poluente e gerador da dependência em relação ao
estrangeiro. A estratégia errada adoptada em Portugal pelos governos do
PSD e PS de investir, a nível de transportes, fundamentalmente em
auto-estradas, promovendo desta forma o transporte rodoviário,
está a custar muito caro aos portugueses e ao País, em
impostos, portagens e importações de petróleo (4,84 mil milhões
de euros em 2009). Ela irá revelar-se dramática no futuro
numa situação de crescimento anémico da economia
portuguesa em que a politica governamental é dominada pela
obsessão da redução do défice, que é
sinónimo de medidas fortemente recessivas e mais em plena crise
estrutural que é aquela que o nosso País actualmente enfrenta.
Tal situação é ainda agravada pelo facto de se ter
promovido o transporte rodoviário individual a gasolina e a
gasóleo, preterindo absurdamente o gás natural que é mais
barato e menos poluente. A generalização dos veículos a
gás natural certamente determinaria uma redução dos lucros
das petrolíferas, com considerável benefício para o
país.