O discurso económico infantil de Passos Coelho

por Eugénio Rosa [*]

Numa das suas habituais tiradas, Passos Coelho expressou mais um dos seus "pensamentos profundos" sobre economia. E desta vez ultrapassou os limites. Na RTP online de 29/10/2014 pode-se ler sobre a sua afirmação na conferência do 36º aniversário da UGT: "O primeiro-ministro considera que o debate sobre o crescimento e a austeridade a propósito da crise da dívida é "o debate mais infantil" a que assistiu". E como era previsível nenhum dos presentes contestou esta infantilidade económica de Passos Coelho (estava-se numa conferencia da UGT e não era previsível outra reação). Pelo menos os órgãos de comunicação maciçamente presentes nada disseram sobre isso.

No entanto, se Passos Coelho conhecesse alguma coisa da ciência económica e se se tivesse dado ao trabalho de refletir um pouco sobre alguns dos dados divulgados pelo INE certamente não diria o que disse. Qualquer estudante de economia sabe que o que afirmou Passos Coelho não é verdade. Para provar isso vamos utilizar, entre as muitas matérias que podiam ser analisadas, apenas uma – o investimento – que é essencial.

CRESCIMENTO ECONOMICO E CRIAÇÃO DE EMPREGO DEPENDEM DO INVESTIMENTO E ESTE TEM SIDO INSUFICIENTE PARA COMPENSAR OS GASTOS DO "STOCK" DE CAPITAL

Observem-se os dados do INE constantes do quadro 1 que revelam o investimento bruto e liquido em Portugal no período 1995-2013

Quadro 1 – Investimento Bruto, Amortizações e Investimento Liquido em Portugal

Como mostram os dados do INE, o Investimento total realizado em Portugal a partir de 2010, portanto com a politica de austeridade imposta ao país pela "troika" e pelo governo PSD/CDS, nem tem sido suficiente para cobrir o desgaste (consumo de capital fixo) do "stock" de investimento total existente no país. E ainda se diz que é um "debate infantil".

A partir de 2010, surgiu em Portugal uma situação inédita e altamente preocupante para o futuro do futuro do país e dos portugueses. A Formação de Capital Fixo liquida vital para que o país se possa modernizar e desenvolver e para criar emprego, ou seja, o investimento liquido que tinha sido sempre positivo, passou a ser negativo, ou seja, o desgaste do stock de capital fixo passou a ser superior ao investimento (FBCF) realizado em cada ano. O país está a consumir já uma parcela da sua capacidade produtiva que constituiu no passado, não a renovando e muito menos não a ampliando e modernizando, colocando assim em perigo a capacidade de desenvolvimento futuro.

Que um cidadão comum sem conhecimentos de economia não se aperceba desta situação dramática ainda é compreensível, mas que um 1º ministro diga aquela infantilidade económica sem provocar qualquer reação quer dos presentes na dita conferencia da UGT quer nos media, e nomeadamente dos comentadores habituais, é grave e mostra bem a que nível de submissão e de vassalagem ao poder politico o pensamento económico dominante nos media chegou.

A QUEBRA NO INVESTIMENTO PÚBLICO EM PORTUGAL É SUPERIOR À VERIFICADA NOS PAÍSES DA U.E. APESAR DO ATRASO DO NOSSO PAÍSL SER MUITO MAIOR

Esta total incompreensão revelada por Passos Coelho do funcionamento da economia tem também expressão, com consequências graves e desastrosas para o país e para os portugueses, na quebra brutal do investimento público resultante da política de austeridade. Os dados do Eurostat constantes do quadro 2 mostram com clareza isso.

Quadro 2 – O investimento público em Portugal e na U.E. em percentagem do PIB

Até 2010, o investimento público, medido em percentagem do PIB, em Portugal foi sempre superior à média quer dos países da União Europeia quer dos países da Zona Euro. E isso compreendia-se com a necessidade de recuperar o atraso em relação à média dos países da União Europeia.

A partir de 2010, com a politica de austeridade, a situação inverte-se de uma forma dramática e o investimento público reduz-se brutalmente (entre 2010 e 2013 diminuiu 63,2% em Portugal, enquanto nos países da U.E. a redução foi apenas de 18,5%), representando em 2013, em percentagem do PIB, apenas 63,6% da média dos países da União Europeia quando em 2010 correspondia a 146,2%.

Um 1º ministro não perceber os efeitos desastrosos para o presente e o futuro do país e dos portugueses da politica de austeridade imposta pela "troika" e pelo seu governo, e ter ainda a desfaçatez de afirmar que isso é "um debate infantil", é certamente ultrapassar os limites do admissível. E não ter provocado qualquer reação por parte dos comentadores habituais dos media é esclarecedor do pensamento económico dominante nestes.

02/Novembro/2014

[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
05/Nov/14