Administração pública
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Mesmo antes de começarem as negociações entre os sindicatos da Função Pública e o governo, para a fixação dos salários para 2010, "conhecidos especialistas" (Medina Carreira, Silva Lopes, etc.), com acesso fácil aos grandes media, defenderam que os "salários na Função Pública não devem aumentar em 2010". Silva Lopes, que abandonou o Montepio com mais um reforma, e com 400.000 euros, e que agora é administrador da EDP renováveis onde naturalmente ainda ganha mais, "retratou o aumento salarial como uma fábrica de desemprego". Todos estes "especialistas" têm em comum o facto de não conhecerem a Função Pública, de não a estudarem, e de não apresentarem quaisquer argumentos válidos para o que dizem. Mesmo com inflação negativa em 2009, o poder de compra dos trabalhadores diminuiu -6% entre 2000 e 2009. Na Administração Pública Central, de acordo com dados divulgados em Novembro de 2009 pelo Ministério das Finanças, as "Despesas com pessoal" referentes aos dez primeiros meses de 2009, foram inferiores às de idêntico período de 2007 em -16,1% (menos 1.714,3 milhões de euros), enquanto as despesas com a "Aquisição de serviços" também nos dez primeiros meses de 2009 terem sido superiores, às de idêntico período de 2007, em + 11,6% (mais 70,5 milhões de euros). Portanto, com "aquisição de serviços", ou seja, com a contratação de empresas privadas, incluindo grandes escritórios de advogados e consultores, para fazer trabalho que antes era realizado por trabalhadores da Administração Pública, não tem havido restrições. Por outro lado, segundo também a DGO do Ministério das Finanças, as "Despesas com Pessoal " na Administração Local nos dez primeiros meses de 2009 foram superiores às de idêntico período de 2006 em + 16,8% (mais 252,3 milhões de euros), mas as despesas com a "Aquisição de bens e serviços", também nos primeiros dez meses de 2009, foram já superiores, às de idêntico período de 2006, em +23,9%. Por outras palavras, as "Despesas com pessoal" aumentaram, entre 2006 e 2009, em 252,3 milhões de euros (uma parte deste aumento resultou da transferência de trabalhadores do âmbito do Ministério da Educação para as Autarquias), enquanto as despesas com "Aquisição de bens e serviços " subiram , em idêntico período, 374,5 milhões de euros, ou seja, mais +48,4% do que a subida verificada nas "Despesas com pessoal". Se consolidarmos as "Despesas de Pessoal" de toda a Administração Pública (Central, Local e Regional), as "Despesas com Pessoal" nos dez primeiros meses de 2009 foram inferiores, às "Despesas com Pessoal" em idêntico período de 2007, em -11,1%, ou seja, em menos -1.406,1 milhões de euros. E tenha-se presente que se está a trabalhar com valores nominais, ou seja, sem se retirar o efeito corrosivo do aumento de preços. Se se retirar este efeito a diminuição é superior a -15% (menos 1.903,8 milhões ). Se medirmos as despesas em % do PIB, conclui-se que as "Despesas com Pessoal" da Administração Pública (Central, Local e Regional), diminuíram também, entre 2007 e 2009, em -11,3%, pois passaram de 9,3% do PIB para apenas 8,3% do PIB. E não se pense que a redução das "Despesas com Pessoal" calculada anteriormente é a única redução com efeitos nas suas condições de vida que sofreram os trabalhadores da Administração Pública. Isto porque para se poder avaliar a perda total que tiveram no seu poder de compra ter-se-ia de comparar o que receberão em 2009, não com o que obtiveram em 2007, mas sim com o que receberiam se os seus salários não tivessem subido menos que a inflação desde 2000, com excepção apenas de 2009, e também se as suas carreiras não tivessem sido congeladas Segundo o próprio governo (PEC:2008-2011) a redução das despesas na Administração Pública, que se obtém com as medidas que está a tomar relativamente às despesas que teria se essas medidas não fossem tomadas, seria, só em relação às "Despesas com pessoal", de -21.914,9 milhões de euros no período 2008-2011. E essas medidas são nomeadamente aumentos dos salários dos trabalhadores da Administração Pública inferiores à subida verificada na taxa de inflação; congelamento das carreiras (que, na prática, continua actualmente); e destruição de emprego público (entre 2005 e Junho de 2009, foram destruídos 57.732 empregos na Administração Pública, segundo o Boletim do Observatório do Emprego Público, de Setembro de 2009, o que contribuiu para agravar ainda mais o desemprego no nosso País). A questão que se coloca agora é saber se o governo tenciona, ouvindo aqueles arautos de mais sacrifícios para os outros mas não para eles próprios, continuar ou não a politica que vinha prosseguindo de aumentos de salários inferiores às subidas de preços; de congelamento das carreiras (não na lei, mas de facto e na prática); e de destruição de emprego publico, o que agravaria não só as condições de vida dos trabalhadores da Administração Pública, mas também a própria crise em que o País se encontra mergulhado. É isso o que veremos com a apresentação do OE2010 e com o inicio das negociações (que se espera que sejam verdadeiras negociações e não o que tem acontecido nos últimos anos), com os sindicatos da Função Pública. |
Ainda não começaram as negociações entre os
sindicatos da Função Pública e o governo com o objectivo
de fixar os salários para 2010, e já as vozes habituais, que
têm acesso fácil aos grandes meios de comunicação
social, se fizeram ouvir defendendo o congelamento dos salários
reduzidos dos trabalhadores da Administração Pública. E
isso sem se darem ao trabalho de estudar o que tem acontecido na
Administração Pública. É isso o que vamos procurar
fazer neste estudo, dando a conhecer e analisando alguns dados importantes
divulgados pelo próprio governo.
AS DESPESAS COM PESSOAL DIMINUEM NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
CENTRAL,
MAS AS DESPESAS COM AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS AUMENTAM
O quadro seguinte, construído com dados da execução do
Orçamento do Estado referentes aos dez primeiros meses de cada ano (de
Janeiro a Outubro, pois os de 2009 só estão disponíveis
até Outubro) divulgados pela Direcção Geral do
Orçamento do Ministério das Finanças e da
Administração Pública, mostra o que se tem verificado em
relação a "Despesas com Pessoal" e com
"Aquisições de serviços" na
Administração Pública Central
QUADRO I Despesas com pessoal e com Aquisição de
serviços na
Administração Pública Central - Janeiro a Outubro
Execução do Orçamento do Estado
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certas e permanentes |
de serviços |
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| 2007 | 10.659,2 | 6.581,1 | 607,2 |
| 2008 | 10.939,1 | 6.568,4 | 670,6 |
| 2009 | 8.944,9 | 6.577,8 | 677,7 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 Milhões | -1.714,3 | -3,3 | +70,5 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 Em % | -16,1% | -0,1% | +11,6% |
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DE BENS E SERVIÇOS |
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| 2006 | 1.459,0 | 962,6 |
| 2007 | 1.465,7 | 1.078,8 |
| 2008 | 1.551,8 | 1.191,9 |
| 2009 | 1.711,3 | 1.337,1 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 Milhões | +252,3 | +374,5 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 | +16,8% | +23,9% |
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Central |
Local |
(Administração Central + Local) |
Regional |
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| 2007 | 10.659,2 | 1.465,7 | 12.124,9 | 507,7 | 12.632,6 |
| 2008 | 10.939,1 | 1.551,8 | 12.490,9 | 546,4 | 13.037,3 |
| 2009 | 8.944,9 | 1.711,3 | 10.656,2 | 570,3 | 11.226,5 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 Milhões | -1.714,3 | +245,6 | -1.468,7 | +62,6 | -1.406,1 |
| VARIAÇÂO 2007-2009 Em % | -16,1% | +16,8% | -12,1% | +12,3% | -11,1% |
Uma parte do aumento das "Despesas de pessoal" na
Administração Local deve-se à transferência de
trabalhadores da Administração Central para a
Administração Local nomeadamente na área do ensino. Mas se
consolidarmos as "Despesas de Pessoal" da Administração
Pública o erro que resulta de tal facto é eliminado. Assim,
considerando toda a Administração Pública ( Central, Local
e Regional), as "Despesas com Pessoal" nos dez primeiros meses de
2009 foram inferiores às "Despesas com Pessoal" em
idêntico período de 2007 em -11,1%, ou seja, em menos -1.406,1
milhões de euros. E tenha-se presente que se está a trabalhar com
valor nominais, ou seja, ainda não se retirou o efeito corrosivo do
aumento de preços, pois ao se retirar, os 11.226,5 milhões
de 2009 ficam reduzidos a 10.728,7 milhões , o que significa que
sejam inferiores às de 2007 em mais de 15% (menos 1.903,8 milhões
do que em 2007) .
EM % DO PIB AS DESPESAS COM PESSOAL TAMBÉM DIMINUÍRAM
Uma das medidas oficiais mais utilizadas para atacar os trabalhadores da
Administração Pública tem sido a percentagem que as
despesas com o pessoal representam em relação ao PIB. O quadro
seguinte, construído com os dados oficiais de despesas referentes aos
dez primeiros meses de cada ano, assim como do valor do PIB a preços
correntes relativos ao nove primeiros meses de cada ano a que adicionou mais o
valor de um mês estimado com base nos dados do INE referentes ao PIB do
3º trimestre, mostra a quebra verificada nas "Despesas com
Pessoal" de toda a Administração Pública quando a
comparamos com o valor do PIB.
QUADRO IV Percentagem que as "Despesas de Pessoal" da
Administração
representam em relação ao PIB 2007/2009
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(10 primeiros meses do ano) Milhões |
(10 primeiros meses do ano) Milhões |
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| 2007 | 135.247,4 | 12.632,6 | 9,3% |
| 2009 | 135.496,0 | 11.226,5 | 8,3% |
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| DESPESAS COM PESSOAL Milhões | 3.755,5 | 5.037,9 | 6.085,8 | 7.035,7 | 21.914,9 |