As aldrabices estatísticas de Passos Coelho
Só no 1º sem./2015 o IEFP eliminou 338.093 desempregados dos
ficheiros dos Centros de Emprego
Reduziu assim o registo do desemprego de 874.749 para 536.656
Neste momento assiste-se a uma polémica entre o governo e os partidos da
oposição sobre os números do desemprego.
O
Diário Económico on-line
de 23 de Maio de 2015, divulgando uma notícia da Lusa, citou a seguinte
afirmação de Passo Coelho:
"O desemprego registado homólogo comparado com o que se
passou
há um ano atrás baixou 14%", afirmou Pedro Passos
Coelho, na sessão comemorativa do aniversário do PSD do distrito
de Leiria, realçando que as ofertas de colocação
bem-sucedidas aumentaram 20%".
Na entrevista dada à SIC em 14 de Julho de 2015, Passos Coelho torna a
abordar a mesma matéria gabando-se nessa ocasião de que o seu
governo havia descoberto um
"modelo económico criador de emprego"
e apresentava como prova o facto de terem sido criados
"175.000 empregos entre Janeiro de 2013 e Abril de 2015"
. No entanto,
"esqueceu-se"
de dizer que, entre Junho (2º Trimestre) de 2011 e Maio de 2015,
portanto durante o seu governo, foram destruídos em Portugal 434.400
empregos, pois o emprego passou, naquele período, de 4.893.000 para
4.458.600 segundo dados do INE.
Interessa por isso analisar com objetividade esta questão mostrando como
os dados do desemprego são manipulados. Para isso vão-se utilizar
os próprios dados oficiais.
NO 1º SEMESTRE DE 2015 O IEFP ELIMINOU DOS FICHEIROS DOS CENTROS DE
DESEMPREGO 338.093 DESEMPREGADOS, REDUZINDO ASSIM O DESEMPREGO REGISTADO
Neste estudo, para não ficar muito longo, vai-se apenas analisar o
chamado desemprego registado, ou seja, aquele que é divulgado
mensalmente pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional
(IEFP), e que apenas inclui os desempregados que se inscreveram nos Centros de
Emprego
(os desempregados que não se registaram nesses centros não
são considerados).
Os dados do quadro 1, são os divulgados mensalmente na
publicação do IEFP: "
Informação Mensal do Mercado de emprego".
Em relação a cada mês, na 1ª coluna está o
número de desempregados que existia no início de cada mês
inscritos nos Centros de Emprego; na 2ª coluna está o total de
desempregados que se inscreveram nesse mês; na 3ª coluna, o
número de desempregados para os quais os Centros de Emprego arranjaram
trabalho nesse mês, ou seja, o número de colocações
feitas no mês. É fácil de concluir que no fim de cada
mês o número de desempregados devia ser igual ao número que
existia no início do mês mais os novos desempregados inscritos no
mês menos os desempregados que foram colocados pelos Centros de Emprego
nesse mês.
Se compararmos o total assim obtido com o total de desempregados existentes no
fim do mês que consta da "Informação Mensal do Mercado
de Emprego" do Instituto de Emprego e Formação Profissional,
e que depois é utilizado pelo governo, conclui-se que o 1º total
é superior ao divulgado pelo IEFP. Por ex., em Janeiro de 2015, o
número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego no
início desse mês (é o total que transitou de Dez.2014) era
598.581. Nesse mês inscreveram-se mais 68.881 desempregados o que somados
ao valor anterior dá
667.462 desempregados. Durante Janeiro de 2015, foram feitas 10.703
colocações de desempregados pelos Centros de Emprego, o que reduz
o valor de 667.462 para 656.759 desempregados. Era este o número de
desempregados que devia existir no fim de Janeiro de 2015. No entanto, segundo
a "Informação Mensal do Mercado de Emprego" divulgada
pelo IEFP, existiam apenas 615.654 desempregados, portanto foram eliminados dos
ficheiros dos Centros de Emprego 41.105 desempregados.
Fazendo as mesmas contas para os restantes meses conclui-se que
"desapareceram" dos ficheiros dos Centros de Emprego 58.256
desempregados em Fevereiro; 63.969 desempregados em Março; 58.858
desempregados em Abril; 55.859 desempregados em Maio; e 60.046 desempregados em
Junho de 2015. Portanto, fazendo a soma conclui-se que só nos primeiros
seis meses de 2015 foram eliminados dos ficheiros dos Centros de Emprego
338.093 desempregados sem que o IEFP e o governo tenham dado qualquer
explicação para esse facto. Esta eliminação
tão elevada de desempregados dos ficheiros dos Centros de Emprego pelo
IEFP permite uma fácil manipulação dos dados dos
números do desemprego registado, adaptando-os facilmente aos objetivos
dos governos.
Para que o leitor fique com uma ideia da dimensão como os dados do
desempregado registado são alterados basta que faça a seguinte
conta. No início de Janeiro de 2015 existiam 598.581 desempregados
inscritos nos Centros de Emprego (era o total que tinha transitado de
Dez.2014). Nos primeiros seis meses de 2015 inscreveram-se mais 340.733
desempregados nos Centros de Emprego, o que somado aos que existiam no
início de janeiro de 2015 (598.581) dá 939.314 desempregados.
Durante os primeiros seis meses os Centros de Emprego arranjaram trabalho para
64.565 desempregados. Deduzindo este valor aos 939.314 ficam 874.749, que era o
total de desempregados inscritos nos Centros de Emprego que devia existir no
fim do mês de Junho de 2015. No entanto, a "Informação
Mensal do Mercado do Emprego" referente a Junho de 2015 do IEFP informa
que apenas existiam 536.656 desempregados inscritos nos Centros de Emprego.
Fica assim claro e provado que foram eliminados dos ficheiros dos Centros de
Emprego, só no 1º semestre de 2015, 338.093 desempregados. E como
menciona no "
meu facebook"
um leitor já atingido por três vezes por esta medida do IEFP,
depois de abatido é necessário esperar 90 dias (antes eram 60
dias) para se poder inscrever novamente no Centro de Emprego e é preciso
ir durante longas horas para longas filas. É evidente que muitos
desempregados desistem de se reinscreverem nos Centros de Emprego, até
porque estes pouco emprego arranjam. Mas é desta forma que são
construídos os números do desemprego registado que servem para o
governo e, nomeadamente Passos Coelho, utilizar na propaganda oficial para
manipular a opinião pública.
"OCUPADOS": uma outra forma de esconder o desemprego
De acordo com o Instituto do Emprego e Formação Profissional, os
"ocupados"
que aparecem na "Informação Mensal do Mercado de
Emprego" são desempregados
"integrados em programas de emprego ou formação profissional
" Tanto uns como outros, terminado o Contrato de Emprego
Inserção (CEI), ou o estágio ou o curso de
formação profissional, regressam à situação
de desempregado, mas enquanto estão nas situações
anteriores não são considerados nos números do desemprego
registado. Em junho de 2015, o número de "ocupados " em
Portugal atingia 155 892. Desta forma também se esconde o numero total
dos desempregados, pois se estes fossem somados aos 874.749 obter-se-ia
1.030.641 de desempregados que é um número enorme e chocante, mas
que certamente está muito mais próximo da verdade que o governo e
os seus defensores procuram esconder. E também revela uma outra forma
de manipular os números do desemprego registado.
21/Julho/2015
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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