Além de social, o desemprego é também um grave problema económico
Em 2010 Portugal vai perder mais de 18 mil milhões de euros (mais
de 11% do PIB) de riqueza não produzida devido ao desemprego
RESUMO DESTE ESTUDO
O desemprego é também um grave problema económico, que
acarreta elevados prejuízos ao País, que contribui para o seu
atraso e para o agravamento do défice orçamental, que interessa
não ignorar nem ocultar como normalmente sucede. Pode-se mesmo afirmar
que é impossível a recuperação económica do
País e alcançar taxas de crescimento económico elevadas
com os actuais níveis de desemprego. É isso o que vamos provar de
uma forma quantificada
Tomando como base o
desemprego oficial
verificado no 4º trimestre de 2009, (563,3 mil que, em Fev2010, já
tinha subido para 575,4 mil segundo o Eurostat)
e o PIB por empregado
conclui-se: (a)Que o PIB perdido em 2010 deverá atingir 18.767
milhões de euros, o que corresponde a 11,2% do PIB previsto para o ano
pelo governo; (b) Que em impostos (só IVA e IRS, não se inclui
nem IRC, nem ISV, nem IPSP) o Estado deverá perder, em 2010, 2.120
milhões de receitas fiscais, (c) Que a Segurança Social
perderá 2.609 milhões de euros de contribuições e
terá de suportar despesas avaliadas em 2.209 milhões com o
subsidio de desemprego (e isto sem entrar em linha de conta com as despesas com
o Rendimento Social de Inserção e com a Acção
Social para combater a pobreza que o desemprego também gera); (d) E que
os trabalhadores deixarão de auferir 7.507 milhões de euros
salários, que se fossem recebidos contribuiriam para aumentar o mercado
interno, o que permitiria a muitas empresas, nomeadamente PME´s, vender o
que não conseguem neste momento devido à falta de poder de compra
da população.
Mas o desemprego oficial não corresponde à totalidade dos
desempregados existentes no País. Se adicionarmos ao desemprego todos
aqueles que, embora desempregados, não estão incluídos no
numero oficial de desempregados e que, segundo o INE, eram 140,7 mil no 4º
trimestre de 2009, obtém-se 704 mil, que é o numero efectivo de
desempregados, calculado utilizando apenas dados divulgados pelo INE nas suas
Estatísticas do Emprego.
Tomando como base este
desemprego efectivo e o PIB por empregado
os prejuízos para o País, para o Estado, para a Segurança
Social e para os próprios trabalhadores já são muito mais
elevados, como se conclui do seguinte: (a) O PIB perdido em 2010 deverá
atingir 23.455 milhões de euros, o que corresponde a 14% do PIB previsto
pelo governo para este ano; (b) os impostos (só IVA e IRS, não se
inclui nem IRC, nem ISV, nem IPSP) que o Estado não receberá, em
2010, corresponderão a 2.651 milhões de euros receitas fiscais,
(c) As contribuições que Segurança Social perderá,
em 2010, atingirão 3.260 milhões de euros e ainda terá de
suportar despesas avaliadas em 2.209 milhões com o subsidio de
desemprego ( e isto sem entrar em linha de conta com as despesas com RSI e com
a Acção Social para combater a pobreza que o desemprego
também provoca); (d) Os salários que os trabalhadores não
receberão em 2010 deverão atingir 9.382 milhões
que, se fossem recebidos, contribuiriam para aumentar o mercado interno, o que
permitiria nomeadamente às PME´s escoarem uma parte importante da
sua produção que neste momento não conseguem devido
à falta de poder de compra da população.
Teria sido muito mais importante para o País e para os portugueses, que
o governo
, no lugar ter apresentado um Programa de Estabilidade e Crescimento dominado
apenas pela obsessão de reduzir o défice que vai trazer só
mais atraso e pobreza, tivesse apresentado um plano com medidas concretas para
aproveitar a gigantesca fonte de criação de riqueza, que
está neste momento desaproveitada, que são os mais de 700 mil
portugueses sem trabalho, portanto sem possibilidades de produzir riqueza. A
redução significativa do desemprego determinaria, por um lado, um
acréscimo muito significativo das receitas fiscais e
contribuições recebidas pelo Estado ( mais de 5.911
milhões de euros) e, por outro lado, um redução muito
importante das despesas da Segurança Social (2.200 milhões de
euros só com o subsidio de desemprego), o que permitiria reduzir o
défice orçamental para menos de metade. Por outro lado, se
destruição da riqueza provocada pelo desemprego fosse reduzida,
é evidente que Portugal atingiria facilmente taxas de crescimento
económico elevadas que faria sair rapidamente o País da
estagnação económica em que se encontra mergulhado
há quase 10 anos (a média das taxas de crescimento
económico verificadas no período 2000-2009 foi inferior a 1% e as
taxas de crescimento económico previstas para os próximos anos
também são inferiores a 1%). Para concluir isso, basta ter
presente que a riqueza perdida devido ao desemprego corresponde a 14% do valor
do PIB de 2010.
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O desemprego é encarado normalmente como um problema social grave. E
isso corresponde à verdade. É mesmo o problema social mais grave
que o País enfrenta neste momento (nunca depois do 25 de Abril estiveram
tantas centenas de milhares de portugueses sem trabalho como actualmente),
porque lança na miséria milhares de famílias já que
é a única fonte de rendimento para todos aqueles vivem
fundamentalmente do trabalho, e ainda porque é através do
trabalho que se realiza a dignidade humana, sendo fonte de
humilhação e de mal estar para quem é privado dele. Mas o
desemprego é também um problema económico grave, mesmo o
mais grave problema no campo económico que Portugal enfrenta neste
momento. È isto porque para qualquer país, e nomeadamente para um
país como o nosso que não tem muitos recursos naturais (ex.
petróleo) a principal fonte de riqueza são as pessoas. E o que se
está a assistir presentemente em Portugal é a
destruição maciça da sua principal fonte de
criação de riqueza. E isso é feito por parte quer do
governo quer das empresas de uma forma leviana e irresponsável.
O governo dominado pela obsessão do défice, e os partidos da
direita pela obsessão de privatizar, defendem a destruição
maciça do emprego publico e, de 2005 a 2009, já foram
destruídos 73.000 postos de trabalho na Administração
Pública. E as empresas, nomeadamente as grandes empresas, na sua
caça constante à maximização dos lucros, para
satisfazer grandes accionistas e gestores ávidos de lucros elevados,
rápidos e fáceis, multiplicam os despedimentos.
Por isso interessa quantificar, até para se tornar mais visível e
facilmente compreensível, o que acarreta, em riqueza não
produzida, em impostos e contribuições não recebidas pelo
Estado, em acréscimo de despesas para o Estado, e em salários
não auferidos pelos trabalhadores o elevado e crescente desemprego que
actualmente se verifica em Portugal.
18.767 MILHÕES DE RIQUEZA PERDIDA, 4.723 MILHÕES
DE CONTRIBUIÇÕES E IMPOSTOS NÃO RECEBIDOS, E 7.507
MILHÕES DE SALÁRIOS PERDIDOS DEVIDO AO DESEMPREGO
Os prejuízos causados ao País, ao Estado e aos trabalhadores
devido ao desemprego são gigantescos como mostram as estimativas que
fizemos com base no PIB previsto pelo governo para 2010 constante do
Relatório do OE2010, como mostra o quadro seguinte.
QUADRO I Estimativa do PIB, dos impostos e contribuições e
dos salários perdidos em 2010 devido ao desemprego em Portugal
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RUBRICAS
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Milhões euros
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Em % do PIB de 2010
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PIB perdido (com base no desemprego oficial)
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18.767
|
11,2%
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PIB perdido (com base no desemprego efectivo)
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23.455
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14,0%
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IVA perdido (com base no desemprego oficial)
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1.595
|
1,0%
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IVA perdido (com base no desemprego efectivo)
|
1.994
|
1,2%
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Subsidio de desemprego 2009
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2.044
|
1,2%
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Subsidio de desemprego 2010
|
2.209
|
1,3%
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Salários perdidos (Desemprego oficial)
|
7.507
|
4,5%
|
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Salários perdidos (Desemprego efectivo)
|
9.382
|
5,6%
|
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IRS perdido (com base no desemprego oficial)
|
525
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0,3%
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IRS perdido (com base no desemprego efectivo)
|
657
|
0,4%
|
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Contribuições para a Segurança Social perdidas (com base
no desemprego oficial)
|
2.609
|
1,6%
|
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Contribuições para a Segurança Social perdidas (com base
no desemprego efectivo)
|
3.260
|
1,9%
|
Fonte: Estimativas calculadas com base na previsão do PIB 2010 constante
do Relatório OE2010
Tomando como base o desemprego oficial verificado no 4º trimestre de 2009
( 563,3 mil, e isto apesar do desemprego oficial continuar aumentar já
que, segundo o Eurostat, atingiu, em Fevereiro de 2010, 10,3% o que
corresponde a 575,44 mil desempregados); repetindo com base no desemprego
oficial registado no 4º Trimestre de 2009 e o PIB por empregado
conclui-se:
-
Que o PIB perdido em 2010 deverá atingir 18.767 milhões de euros,
o que corresponde a 11,2% do PIB previsto para o ano pelo governo;
-
Que em impostos (só IVA e IRS, não se inclui nem IRC, nem ISV,
nem IPSP) o Estado deverá perder, em 2010, 2.120 milhões de euros
de receitas fiscais,
-
Que a Segurança Social perderá 2.609 milhões de euros de
contribuições e terá de suportar despesas avaliadas em
2.209 milhões de euros só com o subsidio de desemprego ( e isto
sem entrar em linha de conta com as despesas com RSI e com a
Acção Social para combater a pobreza que o desemprego
também gera);
-
E que os trabalhadores deixarão de auferir 7.507 milhões de euros
salários, que se fossem recebidos contribuiriam para aumentar o mercado
interno, o que permitiria a muitas empresas, nomeadamente PME´s, escoarem
uma parte importante da sua produção que neste momento não
conseguem devido à falta de poder de compra da população.
Mas o desemprego oficial não corresponde à totalidade dos
desempregados existentes no País. Efectivamente, todos os desempregados
que no período em que foi feito o inquérito pelo INE não
procuraram emprego, não são incluídos no numero oficial de
desempregados, apesar de não terem trabalho. O mesmo sucede com aqueles
que fizerem pequenos biscates, mesmo de uma hora. Estes apesar de procurarem
emprego, porque de facto estão desempregados, também não
são considerados no desemprego oficial. E todos estes que, apesar de
estarem desempregados não são incluídos no numero oficial
de desempregados, somavam no 4º trimestre de 2009, segundo o INE, 140,7
mil que, adicionados ao desemprego oficial, dão 704 mil, que é o
numero efectivo de desempregados que já existiam em Portugal no 4º
Trimestre de 2009, calculado com base em números divulgados pelo
próprio INE.
Fazendo agora os mesmos cálculos mas utilizando os dados do desemprego
efectivo (704 mil) e o mesmo valor do PIB por empregado os prejuízos
para o País, para o Estado, para a Segurança Social e para os
próprios trabalhadores já são muito mais elevados. Assim:
-
O PIB perdido em 2010 deverá atingir 23.455 milhões de euros, o
que corresponde a 14% do PIB previsto pelo governo para este ano;
-
Os impostos (só IVA e IRS, não se inclui nem IRC, nem ISV, nem
IPSP) que o Estado não receberá, em 2010, corresponderão
a 2.651 milhões de euros receitas fiscais,
-
As contribuições que Segurança Social perderá, em
2010, atingirão 3.260 milhões de euros e ainda terá de
suportar despesas avaliadas em 2.209 milhões só com o subsidio de
desemprego ( e isto sem entrar em linha de conta com as despesas com RSI e com
a Acção Social para combater a pobreza que o desemprego
também provoca);
-
Os salários que os trabalhadores não receberão em 2010
deverão atingir 9.382 milhões de euros que, se fossem recebidos,
contribuiriam para aumentar o mercado interno, o que permitiria a muitas
empresas, nomeadamente PME´s, venderem uma parte importante da sua
produção que neste momento não conseguem devido à
falta de poder de compra.
Fica assim também claro que a forma mais correcta e sustentada de fazer
a chamada consolidação orçamental, ou seja, a
redução do défice orçamental, tão defendida
pelo governo e pela Comissão Europeia, passa por criar emprego, e dar
trabalho a quem quer trabalhar e produzir, e não em destruir emprego
como o PEC:2010-2013 vai inevitavelmente provocar.
A PASSAGEM DE UM DÉFICE ORÇAMENTAL DE 9,3% PARA UM DÉFICE
DE MENOS DE METADE
Os dados apresentados mostram os graves prejuízos económicos e
financeiros que o elevado e crescente desemprego está a causar ao
país e aos portugueses, que não podem nem devem ser ou ignorados,
ou esquecidos ou mesmo escondidos. Seria muito mais importante para o
País e para os portugueses, que o governo, no lugar de se deixar dominar
pela obsessão do défice, apresentasse um plano com medidas
concretas para aproveitar esta gigantesca fonte de criação de
riqueza, que está neste momento desaproveitada e a ser mesmo
destruída, que são os mais de 700 mil portugueses que
estão neste momento no desemprego . Seria a forma mais correcta e
sustentada de reduzir o défice orçamental. A
redução significativa do desemprego determinaria, no limite, por
um lado, um acréscimo muito significativo nas receitas e
contribuições recebidas pelo Estado (mais 5.911 milhões de
euros de receitas fiscais e de contribuições) e, por outro lado,
um redução muito significativa das despesas da Segurança
Social (mais de 2.200 milhões de euros), o que reduziria, se fosse
concretizado, a redução do défice orçamental de
9,3% para 4,3%, ou seja, para menos de metade. É evidente que é
um objectivo que devia orientar toda a politica económica, financeira e
social do Estado que só poderia ser concretizado de uma forma gradual,
mas é o único que poderia assegurar de uma forma sustentada
conjuntamente a recuperação económica e a
consolidação orçamental.
É NECESSÁRIO UMA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
MODERNA, EFICAZ E EFICIENTE
A redução significativa do desemprego que é, ao mesmo,
causa e consequência da recuperação económica do
país, exige uma Administração Pública eficaz e
eficiente que disponibilize serviços públicos de qualidade aos
cidadãos e às empresas. E isso exige, por um lado, maiores
investimentos na Administração Pública e, por outro lado,
trabalhadores motivados que se sintam bem em trabalhar na
Administração Pública e a dar o melhor. A politica seguida
pelo governo de continuas alterações na legislação
da Administração, nomeadamente a nível do Estatuto da
Aposentação, associada ao congelamento salarial e das carreiras e
ainda à destruição do vinculo publico e ao aumento da
precariedade, está a empurrar para aposentação
prematura milhares de trabalhadores, muitos deles com elevada
qualificação e experiência, provocando a
desorganização dos serviços públicos e uma
crescente falta de qualidade e eficácia, com sérios
prejuízos para o Estado e para o País. È urgente parar
esta destruição da Administração Pública
que está em marcha com o apoio da direita, cujas consequências
são relatadas já por muitos órgãos de
informação (o pedido de aposentação de mais de 400
médicos que deixarão sem médico de família mais de
800.000 portugueses a juntar a igual numero que já não têm;
a saída de milhares de trabalhadores da Administração
Fiscal e, em particular da inspecção, incluindo a
tributária, que está determinar o descalabro das receitas fiscais
e das despesas por falta de fiscalização, etc., etc.); repetindo
é urgente por cobro a toda esta politica irresponsável que
contribui também para o agravamento do problema do desemprego em
Portugal, que aumenta a destruição maciça de riqueza , e
que torna cada vez mais difícil a recuperação do
País e o crescimento económico rápido e sustentado..
08/Abril/2010
[*]
Economista ,
edr2@netcabo.pt
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http://resistir.info/
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