Competitividade, produtividade e salários em Portugal e na UE
RESUMO DESTE ESTUDO
Tem-se assistido, com uma frequência crescente, à
utilização de termos técnicos ou científicos, com
significado deturpado, na manipulação da opinião
pública. Dois dos mais utilizados com esse fim têm sido o da
"competitividade" e o da "produtividade" que, depois,
são associados ao de "salários", para construir um
discurso que, devido à sua simplicidade e repetição pelos
media, apesar de falso, acaba por ser tomado como verdadeiro por muitos
portugueses. Esse discurso é o seguinte: "O País, para se
desenvolver, precisa de ser competitivo; e para aumentar a competitividade
é necessário aumentar a produtividade (leia-se do trabalho); e
para que esta cresça é necessário a
contenção (leia-se redução) dos
salários". Pretende-se, assim, associar desenvolvimento a
contenção e mesmo baixa dos salários, procurando-se fazer
crer que o desenvolvimento não é possível se não se
verificar a contenção ou mesmo baixa dos salários. Ora
esta relação não tem qualquer fundamento técnico ou
científico, e é mesmo falsa.
A "competitividade" e a "produtividade" são dois
conceitos que, sob o ponto de vista técnico, significam coisas
completamente diferentes.
A produtividade pode aumentar sem que a competitividade cresça.
Para que isso aconteça, basta que uma empresa, com produtos
ultrapassados ou de má qualidade, aumente a sua produtividade, ou seja,
aumente a quantidade de produtos que obtém com os mesmos recursos que
utiliza, mas como não os consegue vender porque os consumidores os
não compram não é competitiva, piorando a sua
posição no mercado.
Inversamente,
a competitividade pode crescer sem que seja necessário
aumentar a produtividade.
Para que isso aconteça, basta que a empresa melhore o seu marketing,
ou que encontre um canal de distribuição mais adequado, ou que
consiga associar aos seus produtos uma marca de prestigio, etc, o que determina
que a sua posição no mercado, relativamente às outras
empresas, melhore. Portanto, num caso e no outro não será a
contenção ou a redução dos salários que
resolverá os problemas destas empresas.
A confirmar isso, uma equipa do próprio MIT, que é uma conhecida
instituição universitária americana, com quem o governo
de Sócrates assinou em 2006 um contrato de muitos milhões de
euros, após ter entrevistado os gestores de 500 empresas internacionais
durante vários anos, concluiu o seguinte: "Contrariamente à
convicção genérica de muitos gestores (nós
acrescentaríamos, e também de muitos políticos)
concluímos que as soluções que dependem da
diminuição dos custos reduzindo os salários e
benefícios sociais constituem sempre becos sem saída" .
"As estratégias baseadas na exploração de
mão-de-obra barata acabam em selvas competitivas, onde as
vitórias são cada vez menores e cada dia surge um novo
concorrente" . E "mesmo nas indústrias de mão-de-obra
intensiva, como o vestuário, muitos outros custos e riscos, se
sobrepõem à vantagem de salários baixos". E
concluíram : "As actividades que acabam por ter êxito
são aquelas que assentam na aprendizagem e na inovação
contínua".
A análise empírica prova também,
contrariamente ao discurso oficial dominante nos media, que os países
mais competitivos da União Europeia são precisamente os que
têm salários mais elevados. Por exemplo, em 2005, o salário
médio bruto na indústria e nos serviços na Suiça
era 3,1 vezes superior ao pago em Portugal. Apesar dos baixos salários
pagos, o nosso País ocupa no Ranking de Competitividade Global,
elaborado pelo "insuspeito" Fórum Económico Mundial
(Davos), a 34ª posição, enquanto a Suiça ocupa a
1ª posição (os EUA, entre 2005/06 e 2006/07, caíram
da 1ª posição para a 6ª). Igualmente, a nível da
UE15, verifica-se que os países com maior capacidade competitiva
são aqueles em que existe uma melhor repartição dos
rendimentos. Por ex., em 2005, o rendimento dos 20% mais ricos da
população era, em Portugal, 8,2 vezes superior ao rendimento dos
20% mais pobres da população, enquanto na Finlândia essa
relação era 3,6 vezes, na Suécia 3,3 vezes, na Dinamarca
3,5 vezes, na Alemanha 4,1 vezes, etc.
Os baixos salários pagos em Portugal incentivam a baixa
qualificação e escolaridade, e também o abandono escolar,
na medida em que o emprego criado pelas empresas é, na sua maioria, de
baixa escolaridade, de baixa qualificação, e mal pago. A baixa
escolaridade e qualificação dos empresários (os
patrões que surgiram na década 1991-2000 tinham, em
média, apenas 7,7 anos de escolaridade), é um dos maiores
obstáculos actuais ao aumento da produtividade e da competitividade das
empresas pois impedem, por ignorância ou com medo de perder o controlo da
empresa, qualquer tipo de inovação.
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Tem-se assistido, com uma frequência crescente, à
utilização nos media de termos técnicos e
científicos, com um significado que eles não têm, em
campanhas de manipulação da opinião pública. Desta
forma, utilizando o prestigio da técnica e da ciência, procura-se
credibilizar a mensagem que se pretende fazer passar, mesmo quando essa
mensagem defende uma politica que contraria os ensinamentos da ciência
económica.
Dois termos técnicos frequentemente utilizados são o da
"competitividade" e o da "produtividade", que depois
são associados ao de "salários", este último
já bem conhecido pela opinião pública, o que ajuda a
"naturalizar" os dois primeiros, pretendendo-se assim tornar a
utilização dos dois primeiros, com o sentido incorrecto que lhes
é dado, inquestionáveis. É uma forma clássica de
manipulação estudada já pelas ciências da
comunicação.
O discurso oficial sobre a competitividade, produtividade e salários
é basicamente o seguinte: " O País, para se desenvolver,
precisa de ser competitivo; e para aumentar a competitividade é
necessário aumentar a produtividade (leia-se do trabalho); e para que
esta cresça é necessário a contenção
(leia-se redução) dos salários". Procura-se desta
forma associar crescimento, aumento de competitividade e de produtividade com
contenção ou mesmo baixa de salários, pretendendo fazer
crer que os primeiros não se verificam sem que se verifique o
último. É um discurso que não tem consistência
técnica, e que é falso mas que, devido à sua simplicidade
e repetição pelos media, acaba por ser tomado como verdadeiro por
muitos portugueses.
São exemplos deste discurso oficial o Relatório do
Orçamento do Estado de 2006 e o Boletim Económico
Primavera 2007 do Banco de Portugal, publicado já em Abril deste ano. No
primeiro, logo na pág. 2, pode-se ler o seguinte: "A única
forma de manter níveis de competitividade externa é
através da contenção
dos custos salariais". E
no Boletim do Banco de Portugal lê-se, na pág.36, o seguinte:
" A rigidez salarial no mercado de trabalho português, uma das mais
elevadas da União Europeia, não facilita o ajustamento das
empresas a choques negativos sobre a procura dos seus produtos, especialmente
tendo em conta que a legislação laboral dificulta a
adaptação do número de trabalhadores à
evolução da actividade das empresas".Este discurso oficial,
que depois tem sido ampliado e repetido pela comunicação social,
nomeadamente a afecta ao poder económico e politico, deve ser desmontado
porque é falso e manipulador.
A DIFERENÇA ENTRE COMPETITIVIDADE E PRODUTIVIDADE
A "competitividade" e a "produtividade" são dois
conceitos que, sob o ponto de vista técnico, significam coisas
completamente diferentes. Para concluir isso, basta ter presente que a
produtividade pode aumentar sem que a competitividade cresça; e
inversamente, a competitividade pode crescer sem que seja necessário
aumentar a produtividade.
E isto porque a produtividade é uma medida que se obtém dividindo
a quantidade de produtos obtidos pela quantidade de recursos utilizados. Para
ser mais fácil o seu cálculo utiliza-se valores monetários
dividindo o valor obtido, frequentemente o VAB, pela quantidade de recursos
utilizados. Embora o VAB obtido seja o resultado de múltiplos recursos,
normalmente utiliza-se apenas um para facilitar o seu cálculo, que
é habitualmente o trabalho (número de trabalhadores, ou o total
de horas trabalhadas), obtendo-se assim a chamada produtividade do trabalho.
Ora a competitividade é uma coisa completamente diferente, já que
se refere (mede) a posição vantajosa ou não de uma empresa
no mercado relativamente às outras. E como é fácil de
concluir a produtividade de uma empresa pode aumentar sem que aumente a sua
competitividade. Para que isso aconteça basta que uma empresa, com
produtos ultrapassados ou de má qualidade, aumente a sua produtividade,
ou seja, aumente a quantidade de produtos que obtém com os mesmos
recursos que utiliza, mas como não os consegue vender porque os
consumidores os não compram, a sua posição no mercado
piora, piorando a sua competitividade. E inversamente poderá suceder que
uma empresa se torne mais competitiva, portanto que a sua posição
no mercado melhore relativamente às outras empresas, sem que aumente a
sua produtividade. Para que isso aconteça basta que melhore o seu
marketing, ou que encontre um canal de distribuição mais
adequado, ou que consiga associar aos seus produtos uma marca de prestigio,
etc..O problema da economia portuguesa é que se pretende aumentar a
produtividade para produzir produtos muitos deles já ultrapassados,
alguns com reduzida qualidade, e a maioria deles com muita pouca
inovação incorporada, portanto para segmentos de mercado onde
já não se é competitivo .
UMA POLITICA DE BAIXOS SALÁRIOS SÓ PODERÁ LEVAR O
PAÍS A UM BECO SEM SAÍDA
Num livro recente publicado por uma equipa de especialistas americanos do MIT,
com o titulo "A competitividade e as novas barreiras da economia",
baseado no estudo de 500 empresas internacionais realizado durante
vários anos, os autores concluíram sobre a estratégia de
baixos salários o seguinte, a que puseram o título esclarecedor
"PERDEM AS ESTRATÉGIAS DOS SALÁRIOS BAIXOS", :
"Contrariamente à convicção genérica de muitos
gestores (nós acrescentaríamos, e também de muitos
políticos) concluímos que as soluções que dependem
da diminuição dos custos reduzindo os salários e
benefícios sociais constituem sempre becos sem saída"
(pág. 75). "As estratégias baseadas na
exploração de mão de obra barata acabam em selvas
competitivas, onde as vitórias são cada vez menores e cada dia
surge um novo concorrente" (pág. 76). "Mesmo nas
indústrias de mão de obra intensiva, como o vestuário,
muitos outros custos e riscos, se sobrepõem à vantagem de
salários baixos" (pág. 76). E terminam : "As
actividades que acabam por ter êxito são aquelas que assentam na
aprendizagem e na inovação continua" (pág. 76).
No entanto, estas verdades elementares infelizmente ainda não são
reconhecidas quer pelo actual governo quer por aqueles economistas a que
Sócrates chama "objectivos" (Silva Lopes, Augusto Mateus,
Teodora Cardoso, Eduardo Catroga, etc) porque estão sempre
disponíveis para defender a politica governamental e, por isso,
têm acesso privilegiado aos media.
BAIXOS SALÁRIOS INCENTIVAM BAIXA ESCOLARIDADE E BAIXA
QUALIFICAÇÃO
O governo fala muito que é fundamental aumentar a escolaridade e a
qualificação em Portugal. Mas a verdade é que baixos
salários incentivam e perpetuam a baixa escolaridade, o abandono escolar
e a baixa qualificação em Portugal. Como o perfil produtivo da
nossa economia assenta na exploração de baixos salários,
é inevitável que recorra a trabalho pouco qualificado e de baixa
escolaridade, incentivando o seu aparecimento. Como afirmou um gestor de uma
empresa multinacional à equipa do MIT, referindo-se aos trabalhadores
chineses, e utilizando a linguagem que caracteriza o capitalismo, em que a
dignidade das pessoas pouco conta,: "Se pagamos com amendoins temos
macacos" (pág. 294).
Por outro lado, a precariedade desmobiliza quer as empresas quer os
trabalhadores relativamente à formação ao longo da vida.
As primeiras, porque não têm a garantia que tiram partido do
investimento realizado. Os segundos, porque não têm
condições nem motivação para se empenharem num
esforço permanente de qualificação profissional. A essa
mesma conclusão chegou a equipa do MIT mesmo em relação
à economia americana, tendo escrito o seguinte: "Da mesma forma, os
pontos fracos do sistema de formação americano são o
reverso da medalha de algumas vantagens da flexibilidade do seu mercado de
trabalho. Precisamente porque os operários circulam entre empresas,
permitindo aos empregadores contratar as competências de que necessitam
no mercado de trabalho em vez de as criarem dentro das empresas investindo na
formação dos trabalhadores". Se a isto juntarmos, para o
caso português, o perfil da nossa economia, assente fundamentalmente em
trabalho mal pago e pouco qualificado, e o facto de a maioria dos
empresários não possuírem as capacidades mínimas de
gestão, rapidamente se conclui porque razão está a ser
tão difícil a introdução da cultura da
formação profissional ao longo da vida, que é tão
necessária, já que cerca de 71% da população
empregada portuguesa actual tem apenas o ensino básico ou menos.
OS PAÍSES DA U.E. COM SALÁRIOS MAIS ELEVADO SÃO OS MAIS
COMPETITIVOS
A análise empírica prova, contrariamente ao discurso oficial
dominante nos media, que os países mais competitivos da União
Europeia são precisamente os que têm salários mais
elevados. Os dados oficiais do quadro seguinte provam isso.
Como mostram os dados do quadro, são precisamente os países da
União Europeia com salários na Industria e Serviços mais
elevados que ocupam os primeiros lugares no Ranking de Competitividade Global
elaborado pelo Fórum Económico Mundial (Davos), que é
diferente do divulgado pelo media portugueses, que é o
"ranking" do IMD, uma escola Suiça de negócios. Por
exemplo, no do Fórum a Suiça país onde o salário
médio bruto pago na Industria e Serviços era 3,1 vezes superior
ao pago em Portugal ocupa a 1ª posição no Ranking de
Competitividade Global (os Estados Unidos da América que ocupavam, em
2005/2006, a 1ª posição caíram, em 2006-2007, para a
6ª posição).
Por outro lado, como também revelam os dados do quadro, Portugal apesar
dos baixos salários pagos, entre 2005/ 2006 e 2006/2007, caiu da
31ª posição para a 34ª posição, enquanto
a Suiça subiu da 4ª para a 1ª posição.
Afirmar, como faz o pensamento económico único dominante nos
media, que o aumento da competitividade consegue-se com baixos salários
e com a sua contenção é enganar a opinião
pública, já que não tem qualquer fundamento nem cientifico
nem empírico.
A BAIXA ESCOLARIDADE E QUALIFICAÇÃO DOS EMPRESÁRIOS
É UM DOS MAIORES OBSTÁCULOS AO AUMENTO DA PRODUTIVIDADE E
COMPETITIVIDADE DAS EMPRESAS
Um dos obstáculos mais importantes ao aumento da produtividade e
competitividade das empresas portuguesas é precisamente a baixa
escolaridade e qualificação dos patrões portugueses. E
isto porque ocupam uma posição estratégica nas empresas,
podendo impedir, como o fazem, por ignorância ou com medo de perderem o
controlo, a introdução da inovação em todos os
domínios. E quando têm escolaridade elevada, a maioria está
mais interessada na banca, no imobiliário e nos hipermercados, onde o
lucro é elevado, fácil e garantido, ou então são
autênticos predadores mais interessados em apoderarem-se do que existe,
do que em criar algo de novo, e muito menos em investir na industria, que
terá de ser a base do aumento da competitividade da economia portuguesa.
Basta recordar a banca e as grandes empresas publicas privatizadas, cujo
único objectivo é obter lucros gigantescos à custa dos
consumidores, com preços mesmo superiores aos preços
médios comunitários, e as OPAs mais recentes.
O quadro que se apresenta seguidamente, foi construído com dados
retirados de um estudo recente publicado pelo Ministério do Trabalho com
o titulo "Indicadores de empreendedorismo", e mostra o nível
médio de escolaridade e a origem dos "empresários" que
apareceram na década 1991-2000 em Portugal.
O nível médio de escolaridade dos patrões que surgiram na
década 1991-2000 era apenas de 7,7 anos, portanto menos que a
escolaridade mínima obrigatória, e 47,9% eram antes simples
trabalhadores qualificados. É significativo e esclarecedor que logo que
passam a patrões se auto-designem "quadro superiores".
OS PAISES DA UE COM MELHOR DISTRIBUIÇÃO DO RENDIMENTO SÃO
OS MAIS COMPETIVOS
Tal como se constatou em relação aos salários,
também em relação à repartição do
rendimento a experiência empírica revela que existe uma clara
correlação positiva entre competitividade e
distribuição do rendimento a nível da UE. Efectivamente
como mostram os dados do quadro seguinte, uma elevada competitividade
está associada a uma melhor repartição do rendimento.
Portugal é o país com mais baixa competitividade em
relação a todos os países que constam do quadro mas, em
contrapartida, é o país onde é maior a desigualdade na
distribuição dos rendimentos e mais rapidamente a desigualdade
está a crescer.
Efectivamente, em 2005, último ano em relação ao qual o
Eurostat divulgou dados, em Portugal o rendimento dos 20% mais ricos da
população era 8,2 vezes superior ao rendimento dos 20% mais
pobres da população, portanto muito superior à
média comunitária, que era 4,8 vezes. Por outro lado, em 1999,
Portugal era já o país da U.E. onde a repartição
era mais desigual (6,4 vezes), e apesar disso, entre 1999 e 2005, foi o
país onde a desigualdade na distribuição do rendimento
mais aumentou (+28,1%), quando o crescimento médio nos países da
UE15 foi de 4,3%, ou seja, quase sete vezes menos do que o verificado em
Portugal durante o mesmo período.
Os dados do quatro também mostram que seria possível aumentar os
salários em Portugal com uma melhor repartição do
rendimento. Para alcançar isso, bastaria aproximá-la à
repartição da média da UE15, o que teria efeitos
importantes e positivos não só em termos de justiça social
mas também da economia, já que determinaria o aumento do mercado
interno o que, por sua vez, estimularia o crescimento económico.
12/Maio/2007
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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