O tratamento inaceitável aplicado à CGD
Uma instituição crucial para o país e para os
portugueses
A CGD tem um papel fundamental na economia do país. Para concluir isso,
basta observar os dados do quadro 1. Apesar da redução do
crédito bancário em Portugal, a CGD continua a ser o principal, e
de longe, banco na concessão de crédito à economia,
às empresas e às famílias, vital ao seu funcionamento e
para a sua vida.
Em 2015, 21,8% de todo o crédito concedido em Portugal pela banca, ou
seja, 71.376 milhões , foi concedido pela CGD. A CGD continua a
ocupar uma posição chave na concessão de crédito em
Portugal tanto às empresas como as famílias.
Por outro lado, apesar do crédito ter diminuído em Portugal
durante a crise, a CGD é um dos poucos bancos no país, onde o
valor do credito total em 2015 é superior ao valor do credito total no
inicio da crise, ou seja, em 2007, como mostra o gráfico.
O credito total no país registou uma diminuição no
período 2007-2015, no entanto o credito total concedido pela CGD em 2015
(71.376 milhões ) é ainda superior ao credito total no
inicio da crise, ou seja, em 2007 (68.573 milhões ), o que
não acontece com os restantes bancos com exceção do
Montepio (14.903 milhões em 2010, e 15.944 milhões
em 2015 mas a CEMG-Montepio adquiriu o FINIBANCO e soma também o credito
deste).
Por outro lado, em 2015, o credito total da CGD diminuiu quando comparado com o
valor de 2014 (passou de 72.094 milhões para 71.376
milhões ), no entanto o crédito concedido pela CGD
às micro empresas e PME´s aumentou, pois o credito novo em 2015
concedido a estas empresas totalizou 3.216 milhões enquanto o
amortizado somou 2.970 milhões
(pág. 83 do Relatório e conta das CGD de 2015)
, o que mostra bem a importância da CGD no apoio às micro e PMEs.
A CGD COMO O BANCO DE CONFIANÇA DOS PORTUGUESES
Mas não é só no aspeto referido anteriormente, que a CGD
é fundamental para o país. A CGD é também o banco
que dá segurança aos portugueses, funcionado como banco de
último recurso (o mealheiro nacional), o que determina que os
portugueses o utilizem para depositar as suas poupanças embora as taxas
de juros pagas pela CGD sejam das baixas no setor. O crescimento
contínuo dos depósitos é um indicador claro dessa
confiança. Por ex., em 2015, apesar da taxa de poupança nacional
ter diminuído, o valor dos depósitos na CGD continuou a
aumentar tendo passado, entre 2014 e 2015, de 70.718 milhões para
72.995 milhões , o que determinou que, no fim de 2015, o
rácio de liquidez (LCR) da CGD tenha atingido 146,6%, portanto
praticamente o dobro do exigido pelo Banco de Portugal, e que o rácio de
transformação tenha sido de 90,1%
(por cada 100 de depósitos que a CGD recebe, concede 90,1 de
credito, o que mostra que a CGD, desde que cumpra os rácios de capital,
tem capacidade para conceder muito mais credito à economia e às
pessoas, tão necessário à recuperação do
país).
APESAR DA MÁ GESTÃO QUE TEM DOMINADO A BANCA, A CGD É UM
DOS BANCOS QUE TEM TIDO MENOR DESTRUIÇÃO DE VALOR
O quadro 2 com dados dos relatórios e contas dos bancos permite analisar
a destruição de valor na banca portuguesa devido à crise e
à má gestão.
No período 2008-2015, os sete maiores bancos a operar em Portugal,
constantes do quadro anterior, constituíram 22.999 milhões
de imparidades. E isto porque, do crédito concedido em anos anteriores,
22.999 milhões provavelmente não seriam recebidos (seriam
perdidos) e, por isso, tiveram de considerar esse valor como um prejuízo
nas suas contas. Muito desse crédito, foi concedido em anos anteriores,
sem uma análise correta do risco, ou mesmo sem qualquer
avaliação do risco a "amigos" ou para apoiar grupos de
interesses, ou então concedidos a setores de atividades especulativa
(construção, imobiliário, etc.) ou para
operações de especulação (ex. compra de
ações), em claro prejuízo da atividade produtiva. Segundo
dados divulgados pelo Banco de Portugal, 56,5% do crédito concedido foi
à construção, ao imobiliário e
habitação, enquanto o crédito concedido à atividade
produtiva
(industria transformadora e extrativa)
representou apenas 6,7% do crédito total.
As enormes imparidades
(22.999 milhões só no período 2008-2015)
representaram uma perda de 8,3% do crédito bruto total concedido pelos
sete bancos constantes do quadro 2, que são os maiores a operar em
Portugal. No entanto se analisarmos as perdas por bancos constatamos que elas
variam muito de banco para banco, fruto de má gestão já
que todos tiveram de enfrentar a mesma crise. E a CGD apresenta um valor (6,8%)
significativamente abaixo da média (8,3%). O BANIF é o banco que
apresentava o valor mais elevado
(16,9%, e tenha presente que as imparidades de 2015 são apenas as do
1º semestre, e que já implodiu),
as imparidades do BES/BANCO NOVO estão claramente subestimadas pois
não se consideram as que foram transferidas para o "BES mau",
estando depois o BCP com 11,2% de imparidades constituídas no
período 2007-2015 em percentagem do crédito total, e o Montepio
com 11%, o que mostra bem a má gestão registada durante o
período anterior à crise e durante a crise nestes bancos. O
quadro 3, com dados dos relatórios e contas dos bancos, mostra que a
destruição de valor na CGD devido à crise e à
má gestão foi inferior à da maioria dos restantes bancos.
Se somarmos às imparidades que existiam nos balanços dos bancos
em 31/12/2007, as constituídas no período 2008-2015, obtemos as
imparidades acumuladas que, se não tivessem sido utilizadas para abater
crédito ao ativo, teriam de existir no fim de 2015. Comparando esse
valor com o valor das imparidades acumuladas que existiam efetivamente no
balanços dos bancos em 31/12/2015 obtém-se, por diferença,
as utilizadas que correspondem a perdas definitivas de credito tendo o
correspondente credito sido abatido (limpo) do balanço dos bancos
(esse esses enormes montantes de credito de muitas centenas de milhões
abatidos ao Ativo dos bancos, ou seja, à sua carteira de credito,
foram transferidos para a conta extrapatrimonial "991.Creditos abatidos ao
ativo" e, na melhor das hipóteses, a banca consegue vender esse
credito por menos de 5%).
No período 2008-2015, os seis bancos constantes do quadro 3 abateram ao
seu ativo, por utilização de imparidades, 8.995 milhões
de crédito que assim desapareceu dos balanços dos bancos,
procedendo assim a uma limpeza dos seus balanços. Este valor
representava 4,1% crédito bruto total destes bancos. Se a análise
for feita banco a banco, conclui-se que depois do Santander Totta (1,5%)
é precisamente a CGD que ocupa melhor posição com uma
perda de apenas 2,4% do crédito bruto total, enquanto o BANIF apresenta
uma perda de 7,8%
(e este valor está ainda subestimado, pois as imparidades de 2015
só incluem as do 1º semestre),
o BCP com uma perda de 7,6% da sua carteira e o Montepio com 4,9% de perda de
carteira.
Apesar da perda percentual de valor na CGD devido à crise e à
má gestão ter sido inferior à média do setor e
à de outros bancos isso não é razão para que
não se apurem responsabilidades, já que os atos de má
gestão e de compadrio na CGD significam, devido à sua
dimensão, perdas de muitas centenas de milhões para os
contribuintes. O mesmo devia ser feito em outros bancos com perdas elevadas de
carteira para apurar responsabilidades para que a
desresponsabilização não imperasse na banca pois acaba por
ter consequências para os contribuintes (BCP) e associados (Montepio),
mas com o Banco de Portugal a culpa morre solteira pois ele nada faz para que
sejam exigidas responsabilidades.
AS SUCESSIVAS REESTRUTURAÇÕES DA CGD ESTÃO A CAUSAR O
DEFINHAMENTO E A REDUZIR A SUA CAPACIDADE PARA PROMOVER O CRESCIMENTO E O
DESENVOLVIMENTO
Um outro aspeto chocante são as chamadas reestruturações
da CGD impostas pelo governo PSD/CDS e pela Comissão Europeia (mais uma
ingerência), apenas com o objetivo de reduzir custos e de facilitar a
concorrência e o domínio da banca privada em Portugal, que
está a causar o definhamento e a reduzir a capacidade da CGD para
promover o crescimento económico e o desenvolvimento do país.
Durante o governo do PSD/CDS foram vendidas a saldo participações
que a CGD tinha em empresas estratégicas (por ex.: CIMPOR), assim como a
área de saúde (Hospitais Privados e o controlo do Hospital
público de Cascais) ao grupo brasileiro AMIL participações
em 2013 e, em 2014, foi a vez da área de seguros (Fidelidade a maior
seguradora portuguesa, que detinha 27,2% do mercado de seguros vida e 26,1% do
mercado de seguros não vida) que passou para o controlo do grupo
chinês FOSUN (80% do capital), reduzindo a capacidade de
intervenção da CGD. No período 2012-2015, o número
de trabalhadores do grupo "Caixa" diminuiu de 21.974 para 16.058
(-5.916), o número de trabalhadores do banco CGD em Portugal reduziu-se
de 9.401 para 8.410 (-991), e numero de balcões em Portugal caiu de 848
para 764 (-84). Apesar deste corte no grupo "Caixa" e na
própria instituição bancária CGD, os media tem
divulgado que o atual governo está a negociar com a Comissão
Europeia
(mais uma ingerência desta no nosso país)
um plano que determinará mais uma redução 2.500
trabalhadores na CGD e o fecho de mais 300 balcões, e que a C.E.
considera tal plano
"pouco credível"
. É todo um processo de destruição do banco público
que está em curso que reduz a sua dimensão e a sua capacidade
para apoiar a economia e as famílias. E tudo isto é feito perante
a passividade e o distanciamento geral como fosse a coisa mais
"natural" e "normal" do mundo.
O QUE ESTÁ A ACONTECER NA CGD É INACEITÁVEL E MAIS COM UM
GOVERNO DO PS APOIADO PELOS PARTIDOS DE ESQUERDA
Pensava-se que com o novo governo do PS apoiada pelos partidos da esquerda a
situação na CGD fosse diferente. Infelizmente isso ainda
não sucedeu. Tinha-se a esperança que a nova
administração fosse escolhida com base essencialmente na
competência, na capacidade e idoneidade para pôr a CGD ao
serviço do país, promovendo o crescimento económico e o
desenvolvimento, deixando de ser um instrumento de satisfação dos
interesses do "
centrão politico
" em Portugal.
As noticias divulgadas nos media parecem revelar que isso não vai
acontecer mais uma vez. De acordo com o "Economico" on-line de
5/7/2016 "
Segundo notícias recentes, haverá
19 administradores
, sendo que sete são executivos. Entre os não executivos (12)
estão Leonor Beleza
(fez o discurso de homenagem a Cavaco Silva em 23/7/2016), Rui Vilar
(fez o discurso de homenagem a Mário Soares em 23/7/2016)
, Bernardo Trindade (secretário de Estado do Turismo de José
Sócrates) e Pedro Norton
, etc. Muitos deles ou não têm qualquer experiência de banca
ou a experiencia que tiveram resultou de terem sido escolhidos por meros
critérios partidários. É a continuação do
"
centrão
" na sua máxima força e no seu pior, e a partilha da CGD
entre o PSD e o PS, perante a passividade dos restantes partidos. Afirma-se que
o presidente indigitado que vem do BPI tenciona trazer os seus homens de
confiança do BPI para administradores (e não só) da CGD, o
que, a acontecer, agravaria ainda mais o conflito de interesses pois o BPI
é um concorrente da CGD. Não se perceberia por que razão o
governo e os partidos que o apoiam aceitariam isso já que pareceria uma
"
OPA do BPI sobre a CGD
", o que é inaceitável
Não se percebe também nem é aceitável que dois
processos distintos nomeação da nova
administração e recapitalização da CGD
tenham sido associados facilitando a chantagem
(era bom que tudo isto fosse também bem esclarecido, é preciso
saber quem está a fazer isso)
. Tudo isto associada à ingerência de Bruxelas (DGComp) e do BCE
na recapitalização da CGD e na nomeação da nova
administração está a criar um vazio e um descrédito
a nível de gestão e da CGD com efeitos que poderão ser
graves, pois o ativo mais importante de uma instituição
financeira é confiança dos depositantes e restantes "
stakeholders"
, e esta perde-se com facilidade e precisamente com coisas como estas.
Contrariamente ao que é dito muitas vezes nos media os rácios de
capital da CGD estão acima dos mínimos regulamentares
(segundo o relatório e contas do 1º Trim.2016, o valor do CET 1 era
de 10,4%, o do Rácio Total 11,7%, e o LCR, ou seja, o rácio de
liquidez tinha subido para 159%)
. Apesar dos rácios de capital estarem acima dos mínimos
regulamentares, as entidades supervisoras (Banco de Portugal e BCE) exigem aos
bancos reforços de capital para aumentar aqueles rácios. Esta
é uma das razões porque a CGD tem de se recapitalizar; a outra
é que perdeu uma parte dos Capitais Próprios devido aos
prejuízos acumulados nos últimos anos. Mas tem de se
recapitalizar não com a dimensão anunciada pelos media (5.000
milhões ). Segundo as nossas estimativas bastava aumentar o
capital da CGD em 2.500 milhões (
mais os CoCo´s
[NR]
900M que seriam integrados no capital da CGD
) o que, tendo em conta o valor do seu RWA (Ativos ponderados pelo risco),
faria subir os seus rácios de capital em mais de 3 pontos percentuais, o
que nos parece ser suficiente.
Não se compreende as dificuldades adicionais que foram criadas com a
intenção anunciada pelos media de recapitalizar a CGD com 5.000
milhões
. Será para a nova administração estar mais à
vontade para ter mais prejuízos e para fazer o que quer
(por ex, para reduzir 2.500 trabalhadores, ou para anular parte dos 3.200
milhões que a CGD emprestou ao BPN Parvaloren e Parups
ainda em divida, não recebido, em 31/12/2015 )?
Ou será para dar pretextos à DGComp e ao BCE para fazerem
maiores exigências e chantagens exigindo uma maior
reestruturação da CGD, ou seja, uma maior
destruição do banco público? São questões
que interessaria esclarecer. Mas tudo isto não justifica a
ingerência inaceitável quer da DGComp quer do BCE na banca em
Portugal nem a sua aceitação pelo governo português que,
apesar de declarar em palavras a sua oposição, na prática
vai as aceitando. Os que dizem defender a CGD e estão contra a
ingerência no país da CE seria bom que estivessem mais envolvidos
e que não dessem a ideia de distanciamento e desinteresse, pois isto
não é um problema apenas da responsabilidade do governo,
já que o que está em jogo é o maior banco público.
23/Julho/2016
[NR] A sigla escatológica CoCos significa
Contingente Convertible bonds
[*]
edr2@netcabo.pt
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