Banco de Portugal entra na campanha ideológica pela baixa dos
salários em Portugal e no ataque aos sindicatos
O Banco de Portugal divulgou recentemente um "estudo", depois
utilizado pelos media, que procura criar na opinião pública a
ideia de que o aumento do desemprego se deve à rigidez dos
salários. O dito estudo vem na linha do comunicado da troika, divulgado
após a 4ª avaliação de Junho de 2012, que afirma que
a subida do desemprego em Portugal "
foi exacerbada pela antiga rigidez do mercado laboral português
". A "cassete" habitual do FMI e seus defensores quando recusam
a realidade.
O Banco de Portugal é um banco público pago pelos portugueses.
É o banco cuja função é supervisionar o sistema
financeiro. Apesar disso, por falta de competência ou por ter pactuado,
deram-se casos como o BPN e BPP que já custaram aos contribuintes
portugueses mais de 5.000 milhões de euros. Mas as consequências
negativas da actuação do Banco de Portugal não se
restringem apenas a estas. Tal como aconteceu em outros países, e
contrariamente à mensagem que os banqueiros e os seus defensores
têm pretendido fazer passar junto da opinião pública,
também em Portugal verificou-se má gestão, para não
dizer mesmo gestão irresponsável por parte da banca. A
prová-lo está o facto de que a maioria dos bancos
"portugueses" não consegue obter crédito no mercado
internacional a não ser com o aval do Estado (é por isso, que no
OE-2012 estão inscritos 35.000 milhões de euros para avales
à banca) e, mais recentemente, a recapitalização dos
principais bancos em mais de 6.000 milhões de euros com fundos do
Estado. Afirmar perante estes factos que os bancos em Portugal tiveram e
têm uma gestão diferente (recorde-se, a este propósito, o
caso BPI que teve um prejuízo de 339 milhões de euros por
especular com a divida grega); repetindo, dizer neste contexto que a
gestão da banca em Portugal é diferente da dos outros
países só pode ser conversa para enganar a opinião
pública. E tudo isto aconteceu devida à incapacidade, para
não dizer mesmo incompetência do Banco de Portugal em exercer,
adequadamente, a sua função de supervisor o que causou e
continua a causar graves prejuízos aos contribuintes portugueses e
à economia nacional.
O Banco de Portugal não cumpre adequadamente a sua função
de supervisão (recorde-se que o actual governador do Banco de Portugal
foi director do BCP no tempo da gestão de Jardim Gonçalves que
está agora a ser julgado pelos tribunais). No entanto o BP é
pródigo em publicar "
working papers
" (documentos de trabalho, ou hipóteses de trabalho para utilizar
as palavras do ministro das Finanças a propósito da
reposição do subsidio de ferias e de Natal). Ele entra assim na
campanha ideológica da direita para baixar ainda mais as
condições de vida dos trabalhadores portugueses. Tudo à
semelhança daquilo que é bem retratado, a propósito das
responsabilidades dos economistas pela actual crise, no filme
Inside job
. As escandalosas remunerações que continuam a ser pagas
aos administradores dos grupos económicos e financeiros assim como os
elevados lucros sem pagamento de impostos distribuídos aos seus maiores
accionistas, em plena crise, não merecem qualquer comentário
pelos mesmos "ténicos". Dois pesos e duas medidas.
Antes, foi a defesa da desvalorização fiscal através de
uma redução significativa das contribuições
patronais. Se fosse implementada determinaria ou o colapso da Segurança
Social ou um aumento elevado dos preços provocado pela subida do IVA,
sem ter qualquer efeito no aumento da competitividade das empresas. Agora,
é a "teoria" de que existe rigidez dos salários em
Portugal, e que essa rigidez é a causa do aumento do desemprego. Com
esse objectivo, divulgou em Maio deste ano um "working paper" com o
elucidativo título: "
Wage rigidity and employment adjustment at the firm level: Evidence from survey
data
". Para procurar credibilizar as conclusões deste "documento
de trabalho", para além de ser divulgado através do Banco de
Portugal, também refere que tem como base uma investigação
baseada em dados.
UM INQUÉRITO VICIADO E UMA AMOSTRA ENVIESADA
Uma leitura atenta do documento divulgado, que depois foi utilizado por alguns
media para alimentar a campanha da direita contra os salários dos
trabalhadores portugueses (apesar de serem baixos, ainda querem reduzi-los mais
com a justificação não provada que assim se aumentaria a
competitividade das empresas), leva às seguintes conclusões: (1)
O inquérito utilizado para obter os dados referidos é viciado
logo à partida porque inclui apenas perguntas com o objectivo de chegar
às conclusões que se pretendem obter; (2) A amostra de empresas
utilizada é enviesada porque, por um lado, foi obtida sem qualquer rigor
estatístico (pelo menos, nada é esclarecido) e, por outro lado,
sofre sucessivos cortes para se ajustar as conveniências dos autores; (3)
Não existe fundamento cientifico a provar que as variáveis
utilizadas, assim como o modelo econométrico usado, sejam adequados
à realidade portuguesa.
Comecemos pelo primeiro aspecto. Segundo os autores do documento, o
inquérito feito a empresas portuguesas continha apenas as seguintes
questões: (1) Nos últimos 5 anos os salários dos
trabalhadores foram congelados?; (2) A empresa utilizou algumas das seguintes
estratégias para reduzir os custos dos salários: (a) Reduziu ou
eliminou bónus ou outros benefícios monetários?; (b)
Reduziu ou eliminou benefícios não monetários?; (c)
Reduziu ou congelou as promoções?; (d) Recrutou trabalhadores com
salários mais baixos para substituir outros com salários mais
elevados que saíram da empresa? Todas as outras variáveis
(politica do governo, mercado, etc.) são ignoradas.
Uma análise atenta do questionário leva à conclusão
imediata que ele está à partida viciado. E isto porque a
redução dos custos de trabalho não pode ser analisada
desta forma. Os custos do trabalho por unidade produzida (e é esta a que
interessa) podem ser reduzidos de muitas formas: (1) Através de uma
melhor organização e gestão da empresa; (2) Através
de uma política de investimentos adequada; (3) Por meio do pagamento de
remunerações mais baixas associada a baixas
qualificações; etc.
Os autores do estudo, ao limitarem a redução dos custos do
trabalho apenas à redução do valor das
remunerações (e as perguntas feitas vão apenas nesse
sentido), revelam ou que não compreendem os problemas estruturais das
empresas portuguesas (seria bom que, a este propósito, lessem o recente
livro do ex-economista chefe do FMI Raghuram Rajan, nomeadamente os efeitos da
organização na produtividade nomeadamente do trabalho) ou
então quiseram obter resultados de acordo com conclusões
pré-definidas. Para além disso, segundo o INE (Empresas em
Portugal 2009), em 2009, nas empresas financeiras, os custos com pessoal
representam apenas 15% do valor das vendas. Seria bom que, no lugar de limitar
a investigação aos salários (parece que o único
inimigo são os baixos salários auferidos pelos trabalhadores
portugueses), os economistas do Banco de Portugal estudassem também as
outras componentes dos custos, pois certamente nelas se poderiam obter
poupanças maiores com uma melhor organização,
gestão e investimento.
Para além de tudo isto, a amostra utilizada está também
enviesada. Em primeiro lugar não se esclarece quantas empresas foram
inquiridas, e com que critérios científicos foram seleccionadas
para serem incluídas na amostra estudada (terá sido pela
afinidade politica ou ideológica dos proprietários dessas
empresas com os autores do estudo?); em segundo lugar, a amostra obtida sofreu
uma série de cortes para a ajustar às conveniências dos
autores do estudo, pois reduziu 1319 empresas que responderam ao
inquérito, a apenas 635 empresas, ou seja, a menos de metade (48%); e,
finalmente qual é a representatividade de uma amostra desta natureza e
com esta dimensão (nem são fornecidos dados sobre a
dimensão das empresas utilizadas no estudo) relativamente a um universo
constituído por mais de um milhão de empresas que existem em
Portugal, segundo o INE.
UM MODELO ECONOMÉTRICO QUE NÃO ESTÁ PROVADO SER ADEQUADO
À REALIDADE PORTUGUESA NEM QUE AS SUAS CONCLUSÕES SEJAM
VÁLIDAS. O ATAQUE AOS SINDICATOS
Não existe evidência científica no estudo divulgado a
provar que as variáveis utilizadas, assim como as relações
assumidas entre essas variáveis traduzidas no modelo econométrico
utilizado sejam adequadas à realidade portuguesa. Em primeiro lugar,
porque qualquer modelo econométrico simplifica muito a realidade dando
origem, na maioria dos casos, a conclusões que nada têm a ver com
a realidade, pois esta é demasiadamente complexa para ser
reduzida/traduzida num modelo matemático. Recorde-se, a este
propósito, as consequências dos modelos utilizados nos mercados
financeiros que contribuíram para a grave crise financeira que depois se
transformou na segunda grande recessão económica que enfrentamos
actualmente. Toda a gente se recorda ainda da falência estrondosa do
hedge fund
Long Term Capital Management, onde trabalhavam dois prémios Nobel da
economia obtidos precisamente pela elaboração de modelos
matemáticos aplicados aos mercados financeiros.
Uma análise mais atenta do modelo utilizado levanta grandes
dúvidas sobre a sua adequabilidade à realidade portuguesa assim
como sobre a sua consistência técnica. É um modelo
essencialmente importado. Muitos dos pressupostos não são
pacíficos como o da rigidez das leis do trabalho em Portugal, e isso ser
a causa da baixa competitividade da maioria das empresas portuguesas.
Por outro lado, os seus autores assumem também outros pressupostos que
pouco têm a ver com a realidade concreta. Ignoram a envolvente da empresa
(politica governamental, restrições ao crédito, mercado,
etc), e consideram que o maior ou menor número de despedimentos que se
verifica numa empresa depende da empresa poder manipular o volume de
remunerações, ou seja, desta variável ser flexível.
Como os salários base são rígidos, pois
são fixados em contratos colectivos por culpa dos sindicatos
, então a flexibilidade que a empresa tem para manipular o volume de
remunerações fica dependente do seguinte: (a) Possibilidade de
congelar os salários contratuais; (b) Possibilidade de reduzir ou
eliminar benefícios monetários; (c) Possibilidade de reduzir ou
eliminar benefícios não monetários; (d) Possibilidade de
substituir trabalhadores que saiam da empresa por trabalhadores com
salários mais baixos. E quanto mais elevadas forem estas margens, e
maiores forem as possibilidades de as reduzir menor será a necessidade
de despedir trabalhadores, ou seja, de reduzir o emprego ("
a flexibilidade dos salários base tem um impacto positivo no emprego e
este impacto positivo é significativamente fortalecido pela
possibilidade das empresas recorrerem ao ajustamento das margens dos custos do
trabalho
" concluem na pág. 29). Eis a mensagem principal do "
working paper
" dos economistas do Banco de Portugal.
É evidente que esta mensagem, que se procura credibilizar utilizando o
nome do Banco de Portugal e modelos matemáticos de duvidosa
aplicação, serve os objectivos actuais da direita já que
visa, objectivamente, desresponsabilizar a politica de austeridade que
está a ser imposta ao país pelo governo e troika pelo aumento
vertiginoso do desemprego, procurando-se desviar a causa para o interior de
cada empresa e depois limitá-la, dentro dela, à maior ou menor
rigidez das despesas com pessoal, responsabilizando disso os trabalhadores e os
sindicatos ("
Quanto maior é o poder de negociação dos sindicatos, maior
é a rigidez dos salários, e maior serão as mudanças
no emprego
", ou seja, maior será o desemprego, pág. 23 do estudo).
Para estes "senhores", os contratos colectivos de trabalho como fonte
de direitos para os trabalhadores que depois são consagrados na lei, e
como instrumento de progresso social e civilizacional não deviam
existir. Será desta forma que consideram os contratos em que são
beneficiados?
A redução do poder de compra dos portugueses e, consequentemente,
a contracção significativa do mercado interno, os cortes
significativos no crédito feito pelos banqueiros, a quebra significativa
nas vendas e a falência de milhares de empresas, tudo isto provocado pela
politica de austeridade violenta imposta pelo governo e pela troika,
está a determinar o aumento vertiginoso do desemprego, tudo isto
é ignorado no estudo dos economistas do Banco de Portugal, que à
semelhança dos economistas retratados no filme "
Inside Job
" também se prestaram a igual papel.
Para finalizar, interessa ainda referir que apesar de todos os esforços
feitos para credibilizar a mensagem que procuram passar, no entanto, na
pág. 22 do seu "paper", são obrigados a reconhecer
"que quanto mais elevada é a taxa de trabalhadores permanentes,
mais se usa o ajustamento das margens
" e, consequentemente, menos a redução do emprego.
13/Junho/2006
[*]
Economista,
edr2@netcabo.pt
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