A importância da banca para a economia e a subserviência do poder
politico e dos supervisores aos banqueiros
Neste momento está em funcionamento uma Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) sobre o caso BES/GES. E apesar de muitas perguntas
feitas pelos deputados pouco ou nada contribuírem para o esclarecimento
deste caso, pois são sobre matérias secundárias, mesmo
assim já foram apuradas situações que revelam mais uma vez
que tanto as autoridades de supervisão como o próprio governo
estão reféns dos banqueiros, ou seja, que o poder politico e a
regulação estão subjugados ao poder económico. Mas
antes de analisar essas situações que são importantes,
interessa recordar a importância que tem a banca para a economia e para o
próprio país, o que é muitas vezes esquecido, assim como o
peso do BES no setor bancário que é necessário ter
presente para se compreender devidamente a dimensão e as
consequências deste caso
A IMPORTÂNCIA DA BANCA E O PESO DO BES NO SETOR BANCÁRIO
O quadro 1, com dados do Banco de Portugal, mostra, melhor do que a propaganda
oficial, não só a importância da banca mas também a
situação da economia portuguesa
Quadro 1- Recursos captados aos clientes (principalmente depósitos) e
crédito concedido
|
ANOS
|
RECURSOS DE CLIENTES E OUTROS EMPRÉSTIMOS
Milhões
|
CRÉDITO LIQUIDO CONCEDIDO
Milhões
|
IMPARIDADES
(Prejuízos prováveis no credito concedido)
Milhões
|
|
2010
|
232.090
|
318.936
|
12.153
|
|
2011
|
246.742
|
298.788
|
15.164
|
|
2012
|
251.031
|
296.252
|
18.515
|
|
2013
|
253.164
|
272.016
|
19.452
|
|
Março/2014
|
249.206
|
270.671
|
20.026
|
|
Junho/2014
|
250.572
|
265.010
|
21.776
|
|
Variação Dez/2010 - Jun/2014
|
+8,0%
|
-16,9%
|
+79,2%
|
Fonte: Banco Portugal, Boletim Estatístico, Novembro de 2014
A banca é vital na vida do país. E isto porque é na banca
que a maioria dos portugueses deposita as suas poupanças e, depois,
é a banca, utilizando os recursos assim captados, que concede
crédito à economia, às famílias e ao Estado para
poderem funcionar. Portanto o dinheiro emprestado pela banca é, na sua
maioria, dinheiro depositado pelos portugueses nessa mesma banca. Este é
um aspeto essencial que não deve ser esquecido na análise do caso
BES/GES e de outros (BNP, BPP). É o dinheiro dos portugueses que
está em jogo e desaparece, e não o dos banqueiros. Os banqueiros
utilizam recursos que são, na sua esmagadora maioria, dos portugueses, e
não propriedade sua.
Entre Dez/2010 e Jun/2014, os recursos captados aos clientes por toda a banca
em Portugal aumentaram em 18.482 milhões (+8%) pois passaram de
232.90 milhões para 250.572 milhões , enquanto o
crédito liquido concedido pela banca diminuiu, no mesmo período,
em 53.926 milhões (-16,9%), pois passou de 318.936 milhões
para apenas 265.010 milhões o que contribuiu para agravar
a situação económica. E o mais grave é que o
crédito tem continuado a diminuir este ano pois, entre Dez/2013 e
Jun/2014, reduziu-se em mais 7.006 milhões , o que revela que a
recuperação da economia, de que fala o governo e os seus
defensores nos media, não tem correspondência na realidade,
já que a economia não funciona sem credito. O que tem aumentado
são as
Imparidades
, ou seja, as perdas prováveis pela concessão de mau
crédito resultantes não só da crise, mas também da
má gestão que impera em toda a banca. Entre 2010 e Jun/2014, as
"
imparidades
, aumentaram 79,2%, atingindo 21.776 milhões , tendo crescido
11,9% só nos primeiros seis meses de 2014 o que confirma também
que a situação económica e social do país continua
a agravar-se em 2014 o que desmente as afirmações otimistas o
governo. Eis os resultados também da
"boa gestão dos banqueiros"
No setor bancário, os cinco maiores bancos CGD, BCP, BES (agora
Novo Banco), BPI e Santander-Totta ocupam uma posição
dominante, estendendo a sua posição de domínio a todo o
setor financeiro que, para além da banca, inclui as seguradoras, as
sociedades gestoras de fundos de pensões, as sociedades gestoras de
fundos imobiliários, as sociedades gestoras de fundos mobiliários
e as sociedades gestoras de património. Neste estudo vamos apenas
analisar a posição destes cinco grupos financeiros no setor
bancário. O quadro 2 permite fazer essa análise.
Quadro 2- A posição de domínio dos cinco principais grupos
bancários, dados de 2013
|
BANCOS
|
RECURSOS DE CLIENTES E OUTROS EMPRÉSTIMOS
Milhões
|
CRÉDITO LÍQUIDO A CLIENTES
Milhões
|
% DO TOTAL DOS RECURSOS
|
% DO TOTAL DO CRÉDITO
|
|
CGD
|
67.824
|
70.074
|
26,8%
|
25,8%
|
|
BCP
|
48.960
|
56.802
|
19,3%
|
20,9%
|
|
BES
|
36.831
|
42.948
|
14,5%
|
15,8%
|
|
BPI
|
25.495
|
25.965
|
10,1%
|
9,5%
|
|
Santander-Totta
|
20.707
|
26.108
|
8,2%
|
9,6%
|
|
SOMA
|
199.817
|
221.897
|
78,9%
|
81,6%
|
|
TOTAL DA BANCA
|
253.164
|
272.016
|
100,0%
|
100,0%
|
Fonte: Relatórios e Contas dos bancos-2013 e Bol. Estatístico do
Banco de Portugal
Portanto, os cinco maiores bancos controlam 78,9% de todos os recursos captados
aos clientes, e 76,1% de todo o crédito concedido no país.
É um poder enorme que resulta da possibilidade que têm de
controlar meios financeiros gigantescos. E fazem tudo isto com dinheiro alheio,
com o dinheiro que os portugueses depositam na banca. É precisamente
este enorme poder, obtido da forma referida, que lhes permite dominar o poder
político e os próprios reguladores. O poder político e as
entidades supervisoras acabam, no fundo, por ficar reféns do poder
financeiro. E a maior parte deste poder está em mãos privadas.
Mesmo a CGD, apesar de ser um banco público, tem sido submetido a uma
gestão tipicamente privada e contrária aos interesses do
desenvolvimento do país. A prova-lo está, no passado, o credito
elevado concedido a Manuel Fino e a Joe Berardo para adquirirem uma
posição importante, respetivamente, na CIMPOR e no BCP assim como
os elevados meios financeiros aplicados no BPN aquando da sua gestão
pela CGD e, recentemente, o volumoso credito concedido a empresas do GES que
acarretaram elevadíssimos prejuízos para a CGD e para os
contribuintes que depois têm de a recapitalizar. E no setor
bancário, o BES ocupava uma posição determinante o
3º lugar com uma quota de mercado superior a 14% o que torna o que
aconteceu extremamente grave.
O CASO BES/GES ESTÁ A MOSTRAR NOVAMENTE QUE O GOVERNO E AS
SUPERVISÕES ESTÃO REFÉNS DOS BANQUEIROS
Para quem tenha acompanhado o trabalho da Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) ao caso BES/GES, certamente terá referenciado,
pelo menos, cinco situações que revelam, com clareza, que tanto o
governo como os reguladores continuam reféns dos banqueiros. E essas
situações são as seguintes:
(1) A garantia pessoal de 3.500 milhões dada pelo Estado
português ao BES que transitou para o "Novo Banco";
(2) O crédito de 3.500 milhões concedidos pelo BES ao BESA
(Angola) que ultrapassou os limites prudenciais fixados pelo próprio
regulador;
(3) A ausência atempada de informação à CMVM por
parte do Banco de Portugal o que permitiu aos
"investidores institucionais
" (grandes bancos e fundos) vender atempadamente as ações e
outros títulos que possuíam do BES/GES aos investidores iludidos
pelas afirmações tranquilizadoras das autoridades (em particular
pequenos investidores, fortemente lesados);
(4) A recusa da ministra das Finanças em aceitar uma proposta de
alteração legislativa do Banco de Portugal que permitia afastar
administradores da banca por falta de idoneidade com o pretexto que ela podia
ser inconstitucional
(o que é estranho num governo que se tem caraterizado por aprovar leis
inconstitucionais e em afrontar o Tribunal Constitucional);
(5) A sobrevalorização da seguradora Tranquilidade dada como
garantia de 700 milhões ao BES com o acordo do Banco de Portugal.
Comecemos então pela primeira.
1- Garantia pessoal do Estado Português no montante de 3.500
milhões concedida ao BES que foi transferida para o "Novo
Banco"
Na pág. 59 do Prospeto da emissão de ações no valor
de
1.100 milhões do BES realizada em Maio-Junho de 2014 pode-se ler
o seguinte:
"O BES têm atualmente três emissões de
obrigações não subordinadas que se vencem em Dezembro de
2014 e Fevereiro de 2015, emitidas com garantia pessoal do Estado
Português
no montante global de 3.500 milhões ".
Por outro lado, na pág. 67 do Relatório do Orçamento do
Estado para 2015, no quadro "stock da divida garantida pelo Estado
às instituições de credito" estão inscritos
precisamente 3.500 milhões de garantia do Estado ao "Novo
Banco". Confrontado com perguntas sobre esta questão Qual
foi o valor das obrigações colocadas pelo BES? Que valor desta
divida transitou para o "Novo Banco"? Que garantia do Estado existe
em relação a estas obrigações? Que
acontecerá no caso desta garantia ser acionada se o "Novo
Banco" não pagar as obrigações emitidas aquando do
seu vencimento? Carlos Costa fugiu à questão, respondendo
que a garantia tinha sido dada para que o BES pudesse financiar a economia, mas
não deu aos deputados qualquer esclarecimento sobre o que aconteceria se
tal garantia fosse acionada, e o deputado que fez a pergunta não
insistiu. E assim os contribuintes correm o risco de ter de pagar mais esta
divida do BES 3.500 milhões a somar ao
empréstimo concedido pelo Estado ao Fundo de Resolução no
montante de 3.900 milhões . É mais um exemplo concreto do
Estado ao serviço dos grupos financeiros.
2- O crédito concedido pelo BES ao BESA (Angola) para além dos
limites prudenciais que se transformou num enorme prejuízo a suportar
também pelos pequenos acionistas
No setor bancário existem regras prudenciais impostas pelo
próprio regulador o Banco de Portugal para mitigar
(reduzir) o risco que resulta da concentração de crédito e
do relacionamento entre contrapartes. E uma dessas regras importantes é
que um banco não deve conceder crédito a uma empresa do grupo que
ultrapasse 25% dos seus fundos próprios. Apesar dessa regra imposta pelo
próprio Banco de Portugal, o BES concedeu crédito ao BESA
(Angola) no montante de 3.500 milhões que ultrapassou certamente
o limite de 25% dos seus Fundos Próprios perante a passividade do Banco
de Portugal. Confrontado com uma pergunta feita por um deputado sobre esta
matéria, o governador do Banco de Portugal deu mais uma vez uma resposta
que mostra bem a subserviência do supervisor aos banqueiros. E a resposta
foi a seguinte: Como o BESA era uma empresa subsidiária do BES, e era
consolidado nas contas do BES, e como esse crédito era um bom
crédito esse limite não se aplicava. O certo é que esse
crédito não era um bom crédito como a realidade veio a
provar, causando elevados prejuízos aos seus acionistas, incluindo
pequenos acionistas, e a outros credores contribuindo também para a
ruína do BES. Mais um exemplo das consequências de o supervisor se
encontrar refém do capital financeiro.
3-A falta de informação à CMVM por parte do Banco de
Portugal causou elevados prejuízos nomeadamente aos pequenos acionistas
Carlos Tavares, presidente da CMVM afirmou na comissão de
inquérito que não tinha sido avisado atempadamente quer pelo
governo quer pelo Banco de Portugal da preparação da "Medida
de Resolução" pois se o tivesse, teria impedido, nesse
período, a transação em bolsa de títulos do BES. A
manutenção da CMVM à margem de todo o processo foi
altamente vantajosa para os chamados "
investidores institucionais
", ou seja, os grandes investidores que, informados ou suspeitando da
medida que o Banco de Portugal estava a preparar, venderam maciçamente
em bolsa os títulos que possuíam do BES, reduzindo assim os
prejuízos que iriam ter. Quem comprou é que perdeu tudo, que
certamente foram pequenos acionistas que normalmente não têm
acesso a informação importante e que são mais facilmente
enganados.
Confrontado com uma pergunta na comissão de inquérito sobre esta
matéria Que investidores institucionais estavam a ser
investigados por suspeita de terem tido acesso a informação
privilegiada? Carlos Tavares, alegando segredo de justiça,
não respondeu. No entanto, era importante que os deputados da CIP
procurassem saber quais foram os "investidores institucionais" que
venderam maciçamente títulos do BES e que investidores compraram
nesse período, pois ficaria assim claro quem foi beneficiado pelo facto
de nem o governo nem o Banco de Portugal terem avisado atempadamente a CMVM da
medida de Resolução em preparação.
4- A recusa da ministra das Finanças em defender uma proposta de
alteração legislativa que permitia ao Banco de Portugal afastar
administradores por falta de idoneidade
O governador do Banco de Portugal queixou-se aos deputados da comissão
de inquérito que não tinha afastado mais cedo Salgado
Espírito Santo pelo facto de o governo não ter aceite uma
proposta de alteração legislativa que permitia ao supervisor, em
caso de ter indícios seguros de falta de idoneidade de um administrador,
afastá-lo. Numa "Nota técnica" distribuída aos
deputados, o governador do Banco de Portugal diz qual era a
alteração que foi recusada pelo ministra das Finanças
ser possível afastar um administrador "
entre outras circunstâncias atendíveis, cuja relevância o
Banco de Portugal apreciará à luz das finalidades preventivas do
artº 30º do RGICSF e dos critérios enunciados no número
anterior, considera-se indicador da falta de idoneidade"
já que, com base na lei atualmente em vigor, os tribunais
estavam a considerar que só depois de duas condenações
judiciais que confirmassem
"a gravidade e reiteração das infrações
" é que um administrador de um banco podia ser afastado por falta
de idoneidade. E o Banco de Portugal, refém mais uma vez dos banqueiros,
não quis avançar em demitir Salgado Espirito Santo por falta de
idoneidade, pois temia ser desautorizado pelos tribunais.
Confrontada a ministra com esta acusação do governador do Banco
de Portugal, a resposta não deixou de ser surpreendente e surrealista:
"Esse passo ia para além do razoável, era ir longe de mais,
era discricionário, tinha relutância em aceitar esse poder",
o que não deixa de ser surpreendente por parte de um membro de um
governo que tentou por mais de uma vez violar a própria
Constituição da República, e que reiteradamente não
respeitou os direitos adquiridos pelos pensionistas assim as expetativas
legitimas dos portugueses. Em tudo isto fica também claro a
subserviência do poder político e dos reguladores aos banqueiros,
uns por medo que os tribunais os desautorizaram, outros com o receio de
desagradar os grupos financeiros.
5- Uma empresa avaliada por 700 milhões para resolver um problema
do grupo BES/GES quando valia apenas 250 milhões , e aceite pelo
Banco de Portugal
Outra situação insólita que se verificou na reunião
da Comissão de Inquérito Parlamentar, que mostra também de
uma forma clara que o supervisor está refém dos banqueiros, foi
quando o presidente do Instituto de Seguros de Portugal afirmou que nunca tinha
percebido por que razão a seguradora Tranquilidade fora avaliada pela
consultora PWC em 730 milhões , valor este que foi aceite pelo
Banco de Portugal, quando valia apenas entre 200 milhões e 250
milhões . E aquele valor de 730 milhões refere-se,
como consta também da "Nota técnica" do Banco de
Portugal (pág. 4), "
à concessão de um mecanismo de garantia ao BES
através do qual, em caso de incumprimento da ESI, a ESFG se substituiria
à ESI no reembolso do papel comercial
". Por outras palavras, a ESI precisava de apresentar uma garantia de 700
milhões , e por essa razão a seguradora Tranquilidade foi
avaliada por 730 milhões e aceite pelo supervisor. Desta forma, a
própria entidade de supervisão, aceitou uma garantia
fictícia já que o seu valor representava cerca de um terço
da divida. É clara mais uma vez a subserviência do regulador em
relação aos banqueiros, o que mostra também o tipo e a
qualidade de supervisão bancária existente em Portugal, o que
não pode tranquilizar nem os depositantes que confiam as suas
poupanças aos bancos nem outros credores da banca.
Tudo isto também prova de uma forma clara, que manter a banca sob
gestão privada, tendo em conta o seu enorme poder, é fazer o
país e os portugueses correrem um risco muito elevado que pode ter
consequências dramáticas e irreparáveis.
23/Novembro/2014
[*]
Autor de
Os grupos económicos e o desenvolvimento em Portugal no contexto da
globalização,
Lisboa, Ed. Página a Pagina, 2014, 476 p., ISBN 978-989-978-41-7-8,
edr2@netcabo.pt
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