Em 2006 o abandono escolar aumentou em Portugal
RESUMO DESTE ESTUDO
Entre 1996 e 2006, portanto nos últimos 10 anos, o abandono escolar
praticamente não diminuiu em Portugal, pois passou de 40,1% para 40%,
enquanto a média comunitária desceu de 21,6% para 17%, ou seja,
registou uma redução de 18,2%. Mas ainda mais grave é que
o abandono escolar, entre 2005 e 2006, aumentou em Portugal pois passou de
38,6% para 40%, enquanto a média comunitária continuou a descer.
Confrontada na Assembleia da República com esta evolução,
a ministra da Educação desvalorizou-a, o que mostra a forma como
este governo trata a educação.
Situação semelhante se verificou em relação
à participação de adultos em acções de
formação educação. Em 2000, a percentagem de
adultos que participaram em acções de formação foi
na UE superior em 2,2 vezes à percentagem à verificada em
Portugal e, entre 2000 e 2005, essa diferença aumentou ainda mais, pois
a variação em pontos percentuais foi na União Europeia
superior em quatro vezes à verificada em Portugal (UE: +2,9 pontos
percentuais; Portugal: +0,7 pontos percentuais) . Entre 2004 e 2005, a
percentagem em Portugal desceu, pois passou de 4,3% para 4,1%.
Apesar desta evolução grave, está-se a verificar em
Portugal um forte desinvestimento na Educação e no Ensino
Superior, embora o governo diga o contrário. Assim, de acordo com o
OE2007, entre 2006 e 2007, as verbas inscritas no Orçamento o
"Ensino Básico e Secundário" diminuem em -5,5%
(-289 milhões de euros ) e para o Ensino Superior em -11,5% (-120,1
milhões de euros), atingindo as próprias
"remunerações certas e permanentes " do pessoal
docente.
Se analisarmos a evolução de todas as despesas com a
educação seja qual for o ministério que as realize, ou
seja, as despesas do Estado com a "função social
educação", em percentagem das despesas totais do Estado
constata-se o seguinte: 2004: 17,5% do total das despesas do Estado; 2005:
17,4%; 2006: 17%; e 2007: 15,7%. Isto significa que se fosse atribuída
à função Educação em 2007 a mesma
percentagem que tinha sido atribuída em 2004 17,5% da despesa
total do Estado ela receberia, em 2007, mais 670 milhões de euros
do que consta no OE2007
Esta politica de obsessão do défice associada a outras medidas
contra os trabalhadores estão a provocar uma forte instabilidade que
só poderá determinar a degradação da
educação e do ensino superior em Portugal, como já revelam
os dados do Eurostat.
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O abandono escolar constitui um dos problemas mais graves que enfrenta o
País, já que contribui para a perpetuação do baixo
nível de escolaridade, mesmo em idades mais jovens, o que, por sua vez,
está a associado e mesmo determina um baixo nível de
qualificação profissional.
No 3º Trimestre de 2006, segundo dados constantes da
"Estatísticas de Emprego" do INE, 3.700.300 dos 5.187.300 que
tinham um emprego, ou seja, 71,3% de toda a população empregada
tinha apenas o ensino básico ou menos.
A associação destes dois factores baixa escolaridade e
baixa qualificação profissional - constitui uma das causa
estruturais mais importantes do atraso do País e da grave crise
económica e social em que se encontra mergulhado.
Dados recentes publicados pelo Eurostat, referentes já ao ano de 2006,
revelam que o abandono escolar agravou-se com o governo do PS
O ABANDONO ESCOLAR AUMENTOU EM PORTUGAL EM 2006
O quadro I construído com dados recentes publicados pelo Eurostat mostra
a evolução do abandono escolar em Portugal nos últimos 10
anos comparando com a média comunitária.
Entre 1996 e 2006, portanto num período de 10 anos, o abandono escolar
total (Homens + Mulheres) na UE diminuiu de uma forma continua (reduziu-se em
4,6 pontos percentuais, ou seja, em 18,2%, pois passou de 21,6% para 17%),
enquanto em Portugal praticamente manteve-se na mesma (diminuiu em 0,1 pontos
percentuais, pois passou de 40,1% para 40%). Como consequência, enquanto,
em 1996, o abandono escolar em Portugal era 1,9 vezes superior à
média da UE15, em 2006 já era 2,3 vezes superior à
média da UE15. Mas ainda mais grave é o aumento do abandono
escolar verificado entre 2005 e 2006 pois, segundo o Eurostat, passou em
Portugal de 38,6% para 40%, ou seja, aumentou em 1,4 pontos percentuais, o que
significa um crescimento de 3,6%, enquanto a média comunitária
continuou a diminuir (reduziu-se em 0,1pp).
Mas a situação é ainda mais agrave a nível da
população jovem masculina, em que a percentagem de abandono
escolar é ainda mais elevada como mostram os dados do quadro.
Entre 1996 e 2006, portanto nos últimos 10 anos, o abandono escolar
masculino em Portugal aumentou em 1,6 pontos percentuais, pois passou de 45,6%
para 47,2%, enquanto na UE15 diminui, passou de 23,7% para 19,5%. Esta
evolução contrária à verificada em Portugal nos
últimos 10 anos, determinou que a diferença entre Portugal e a
UE15 tenha aumentado, entre 1996 e 2006, de 21,9 pontos percentuais (45,6% -
23,7%) para 27,7 pontos percentuais (47,2%-19,5%). Entre 2005 e 2006, aumentou
de 46,7% para 47,2% em Portugal, enquanto na UE15 diminuiu de 19,6% para 19,5%.
Confrontamos a ministra da Educação na Assembleia da
República, durante o debate do OE2007, com esta grave
evolução, mas ela procurou desvalorizar, dizendo que o ano de
2006 ainda não tinha terminado, embora o escolar que acaba em 2006
já tivesse terminado. Depois procurou justificar aquela
evolução dizendo que a introdução dos exames no
básico tinha provocado quase a duplicação do abandono
escolar.
Outro dado também importante divulgado pelo Eurostat, refere-se à
percentagem da população com idade compreendida entre os 20 e 24
anos que completou pelo menos o ensino secundário. Entre 2004 e 2005, a
média dos 25 países da União Europeia aumentou de 77,1%
para 77,5%, enquanto em Portugal diminuiu de 49,6% para 49%.
PERCENTAGEM DE POPULAÇÃO ADULTA A PARTICIPAR EM
ACÇÕES DE FORMAÇÃO EDUCAÇÃO
DIMINUIU EM PORTUGAL
Os últimos dados publicados pelo Eurostat sobre a percentagem de
população adulta com idade entre os 25 e 64 anos que participou
em acções de formação ou de educação
diminuiu em Portugal enquanto a média da União Europeia tem
aumentado, como o quadro seguinte.
Se se considerar o período compreendido entre 2000 e 2005, conclui-se
que, em 2000, a percentagem de adultos que participaram em acções
de formação era já na União Europeia superior em
mais de 2,2 vezes à percentagem que se registava em Portugal, e que,
entre 2000 e 2005, essa diferença aumentou ainda mais, pois a
variação em pontos percentuais foi na União Europeia
superior em quatro vezes a variação verificada nesse
período em Portugal (UE: +2,9 pontos percentuais; Portugal: +0,7 pontos
percentuais). Entre 2004 e 2005, a percentagem da população
adulta que participou em acções diminuiu de 4,3% para 4,1%. E
isto aconteceu apesar de a lei portuguesa (artº 125 do Código do
Trabalho) obrigar todas as empresas que funcionam em Portugal a realizarem
formação profissional para os seus trabalhadores.
DESINVESTIMENTO E INSTABILIDADE NA EDUCAÇÃO E NO ENSINO SUPERIOR
EM PORTUGAL COM O GOVERNO DO PS
Os especialistas de educação, incluindo os estrangeiros. que
têm vindo a Portugal debater a situação da
educação e do ensino superior no nosso País, uma coisa
que todos dizem é que o Estado não deve, em nenhum caso, reduzir
o investimento em educação, pois ele é fundamental para o
presente e o futuro do País. Mas o que se observa actualmente é
precisamente o contrário.
De acordo com os Relatórios dos Orçamentos de Estado para 2006 e
2007, entre 2005 e 2007, as despesas com a "função social
educação" em Portugal, que incluem todas as despesas com a
educação e o ensino superior seja qual for o ministério
que as realize, em percentagem das despesas totais do Estado teve a seguinte
evolução: 2004: 17,5% do total das despesas do Estado; 2005:
17,4%; 2006: 17%; e 2007: 15,7%. Isto significa que se fosse atribuída
à função Educação em 2007 a mesma
percentagem que tinha sido atribuída em 2004 17,5% da despesa
total do Estado ela receberia, em 2007, mais 670 milhões de euros
do que consta no OE2007.
Por outro lado, analisando a evolução das verbas
atribuídas pelo Orçamento do Estado para o "ensino
básico e secundário" e para o "ensino superior"
conclui-se que vai na direcção de uma continua
redução, sendo muito significativa no ano 2007, como consta do
quadro que a seguir se apresenta.
É clara a redução continua, entre 2005 e 2007, do
orçamentado para o Ensino Básico e Secundário, pois
atinge em valor -290,5 milhões de contos, o que percentualmente
corresponde a uma redução de, -5,5% ). Em relação
ao Ensino Superior a redução percentual é ainda maior,
pois atinge -12%, sendo em valor de -127,4 milhões de euros, - 12%). No
entanto, as reduções reais são muito maiores pois os
valores anteriores não têm conta a evolução dos
preços que se prevê que aumentem, entre 2005 e 2007, cerca de
5,8%.
Mas é principalmente, entre 2006 e 2007, cuja variação se
encontra no quadro IV, que o desinvestimento na Educação e no
Ensino Superior é maior, o que criará graves problemas ao seu
funcionamento e determinará, se não for corrigido, a
degradação da escolas, dos Institutos Politécnicos e das
Universidades em Portugal.
Assim, na Educação estão orçamentados em
"remunerações certas e permanentes" para o ano de 2007
menos 355,5 milhões de euros do que em 2006. E o mesmo sucede no Ensino
Superior onde os cortes no orçamentado atingem também fortemente
as remunerações pondo em causa até o seu funcionamento. Se
se retirar às despesas de funcionamento das Universidades e
Politécnicos uma contribuição de 7,5% para a CGA, que
não existia e que é criada pela Lei do Orçamento de 2007,
as Universidades e os Institutos Politécnicos acabarão por
receber em 2007 menos 120,1 milhões de euros do que em 2006, o que
significa, em valores nominais, um corte de -11,5% e, em valores reais, uma
redução de -14%.
Ao mesmo tempo a instabilidade atinge todo o sistema de educação
e de ensino em Portugal, como consequência da politica seguida pelo
governo, que procura impor à força as suas medidas, incluindo
redução das verbas para a Educação e Ensino
Superior, o que irá provocar ou a colocação na
Situação Especial de Mobilidade, que é o novo nome do
"quadro de supranumerários" dezenas de milhares de
trabalhadores ou o despedimento de milhares de trabalhadores, incluindo os
quadros docentes mais jovens e com maior capacidade de evolução
das Universidades e Institutos Politécnicos, cuja maioria continua a ter
um vinculo precário, esquecendo-se assim que não é
possível melhorar a educação e o ensino no nosso
País sem o envolvimento e apoio dos trabalhadores. Uma coisa parece ser
evidente : a instabilidade que a politica do governo está a provocar
é incompatível com um ensino de qualidade e eficiente, e
só poderá determinar mais abandono escolar e mais
ineficiência, como já está a suceder. Só o governo
é que ainda parece não ter compreendido.
18/Novembro/2006
Eugénio Rosa, Economista,
edr@mail.telepac.pt
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