Governo & troika dizem-se "surpreendidos" com o aumento do desemprego
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| Mar-2011 | 12,4% | 688.795 | 1.006.495 | 17,7% | 293.281 | 713.214 |
| Set-2011 | 13,0% | 720.642 | 1.073.642 | 18,7% | 296.336 | 777.306 |
| Oct-2011 | 13,6% | 748.884 | 1.101.884 | 19,3% | 292.513 | 809.371 |
| Dez-2011 | 14,0% | 770.910 | 1.160.610 | 20,3% | 316.100 | 844.510 |
| Jan-2012 | 14,6% | 803.949 | 1.193.649 | 20,9% | 333.278 | 860.371 |
| Fev-2012 | 14,8% | 814.962 | 1.204.662 | 21,1% | 350.693 | 853.969 |
| Mar-2012 | 15,3% | 842.495 | 1.232.195 | 21,6% | ||
| Mar11-Mar12 | + 2,9 p.p. | +153.699 | +225.699 | +3,9 p.p. | +57.412 (*) | +140.755 (*) |
Desde que Portugal assinou com a troika o "Memorando de
entendimento", e desde que a politica contida nesse "Memorando"
começou a ser aplicada pelo governo submisso do PSD/CDS, e pelo seu
ministro das Finanças que, como Salazar, apenas vê o
défice, o desemprego começou a crescer a um ritmo elevado. Em
Março de 2012, o desemprego oficial atingiu 842.495 e o desemprego
efectivo, que inclui os
"inactivos disponíveis"
e o
"subemprego visível"
(desempregados que não procuraram emprego ou que fazem pequenos
biscates para sobreviver e que, por isso, não são considerados
nos números oficiais de desemprego), atingiu 1.232.195 portugueses (a
taxa efectiva de desemprego já era 21,6%). Desde Dezembro-2011, a taxa
de desemprego tem aumentado a um ritmo de 0,43 pontos percentuais por mês
o que determinará, se tal ritmo se mantiver, que no fim de 2012, o
desemprego oficial atinja 19,8%, e o desemprego efectivo 26,8%, o que
corresponde a 1.530.000 desempregados, um valor insustentável para o
país, mas a consequência inevitável da política de
destruição da economia e da sociedade portuguesa em curso
Por outro lado, utilizando os dados divulgados pela Segurança Social
relativamente ao número de desempregados a receber o subsídio de
desemprego, conclui-se que o número daqueles que não recebem tem
aumentado de uma forma continua atingindo, em Fevereiro de 2012, último
mês que a Segurança Social já disponibilizou dados, 853.969
(entre Mar2011 e Mar2012, o aumento dos desempregados que não recebem
subsidio desemprego fez-se a um ritmo 2,5 vezes superior ao aumento verificado
dos que recebem). Actualmente apenas 29 em cada 100 desempregados estão
a receber subsídio de desemprego. Os dados oficiais revelam que ao fim
de um ano de politica da troika/governo PSD/CDS, mais de 853 mil portugueses
estão na pobreza ou mesmo na miséria só devido ao
desemprego. Esta situação tenderá a agravar-se muito
não só porque o desemprego vai continuar a aumentar mas
também porque o governo alterou a lei do subsídio de desemprego,
o que determinará que menos desempregados tenham direito a receber
subsidio e durante menos tempo.
O aumento do desemprego não é um fenómeno só
verificado em Março de 2012 como pretendem fazer crer o governo e os
seus defensores. Ele tem-se registado desde que a politica contida no
"Memorando da troika" é imposta a Portugal tendo-se agravado
com a politica de destruição de emprego na Função
Pública, o que contribui para o aumento do emprego jovem pois era a
principal contratante. Manifestar surpresa, como se tem verificado
recentemente, só revela ou ignorância ou a intenção
deliberada de enganar a opinião pública, procurando fazer crer
que as consequências desta politica de austeridade, que está a
destruir a economia e a sociedade portuguesa, podiam ser outras, e não
aquelas que se estão realmente a verificar.
CONTRARIAMENTE AO QUE DIZEM PASSOS COELHO E CAVACO SILVA PARA JUSTIFICAR A
POLITICA DA "TROIKA" O DESEMPREGO VAI CONTINUAR A AUMENTAR EM 2013 E
NOS ANOS SEGUINTES
Governo, "troika" e Cavaco da Silva parecem não conhecer a lei
económica de Okun. A lei de Okun, do economista norte-americano Arthur
Okun que foi membro do Comité de Conselheiros económicos da
presidência americana, procura estabelecer uma relação
(quantificada e inversa) entre o desemprego e o PIB, ou seja, qual é o
aumento do PIB determinado por uma descida da taxa de desemprego e,
inversamente, qual é a subida do PIB necessária para que a taxa
de desemprego diminua.
Joseph Stiglitz, prémio Nobel da economia, na pág. 144 da
tradução portuguesa do seu livro
"Os anos loucos 90"
escreveu o seguinte:
"Historicamente, uma diminuição de 2% do desemprego
traduzia-se em 2 a 4 por cento de aumento da produção (esta
relação chama-se lei de Okun, numa referência ao anterior
professor de Yale e presidente do Council of Economic Advisers do tempo de
Lyndon Johnson)
". Esta conclusão do prémio Nobel da economia dá bem
uma ideia da dimensão da destruição da riqueza em Portugal
devido à elevada taxa actual de desemprego (tenha-se presente que um
aumento de 1% no PIB português corresponde a mais 1.800 milhões
de riqueza produzida). Por outro lado, uma aplicação da
Lei de Okun a Portugal, feita na Faculdade de Economia da Universidade de
Coimbra em 2007 por João Sousa Andrade, levou "
à conclusão [de] que a taxa de crescimento (anualizada) que
não cria desemprego é 2,7%
". Portanto, em Portugal, só com uma taxa de crescimento
económico, medida pelo aumento do PIB, superior a 2,7% é que a
taxa de desemprego não aumenta.
Confrontemos estas conclusões tiradas com base na lei de Okun com o
verificado em Portugal nos últimos 16 anos, ou seja, no período
1996-2011. Para que essa análise fosse possível,
construímos o quadro 2 com os dados da variação anual do
PIB e da taxa de desemprego do Eurostat.
Quadro 2 Variação do PIB e da taxa de desemprego em
Portugal no período 1996/2011
|
|
|
Desemprego |
| 1996 | +3,7% | 7,2% |
| 1997 | +4,4% | 6,7% |
| 1998 | +5,0% | 5,8% |
| 1999 | +4,1% | 5,0% |
| 2000 | +3,9% | 4,5% |
| 2001 | +2,0% | 4,6% |
| 2002 | +0,7% | 5,7% |
| 2003 | -0,9% | 7,1% |
| 2004 | +1,6% | 7,5% |
| 2005 | +0,8% | 8,6% |
| 2006 | +1,4% | 8,6% |
| 2007 | +2,4% | 8,9% |
| 2008 | 0,0% | 8,5% |
| 2009 | -2,5% | 10,6% |
| 2010 | +1,4% | 12,0% |
|
2011
(a taxa de desemprego é a média das taxas divulgadas pelo
Eurostat.
Em Dez.2010 a taxa de desemprego, segundo o Eurostat, atingiu 14%) |
-1,6% | 13,3% |
Os dados da variação do PIB e da taxa de desemprego verificados
no período 1996-2011 permitem tirar algumas conclusões
importantes válidas também para o futuro, as quais confirmam a
validade e as características da lei Okun para Portugal.
Em Portugal, em termos tendenciais e continuados, no período 1996/2011,
a taxa de desemprego só diminuiu quando a taxa de crescimento do PIB foi
igual ou superior a 3%, o que só aconteceu no subperíodo
1996/2000, em que se verificou uma redução continuada da taxa de
desemprego. Logo que a taxa de crescimento do PIB desceu para 2% em 2001, a
taxa de desemprego começou a aumentar tendo-se acentuado a subida da
taxa de desemprego com a queda continuada do PIB e, nomeadamente, com o
crescimento negativo do PIB, ou seja, com a recessão económica.
Interessa recordar que desde que Portugal entrou para a Zona Euro em 2002,
praticamente a taxa de desemprego nunca mais parou de crescer com
excepção de uma pequena interrupção em 2008.
No Documento de Estratégia Orçamental para o período
2012-2016, que o governo acabou de apresentar na Assembleia da
República, prevê-se as seguintes taxas de variação
do PIB: 2012: -3%; 2013: 0,6%; 2014: 2%; 2015: 2,4%; e 2016: 2,8%. Embora estas
previsões estejam sobrestimadas pois baseiam-se em valores pouco
consistentes, como iremos mostrar num outro estudo, no entanto com taxas de
crescimento do PIB tão reduzidas, como é que se pode dizer, como
fizeram Passos Coelho e Cavaco Silva, que, a partir de 2013 (inclusive), se
verificará em Portugal uma inversão no desemprego? O objectivo
evidente de tais afirmações só pode ser o de enganar a
opinião pública visando tornar a politica de
destruição da "troika" mais aceitável para os
portugueses.