"A CDH perdeu a legitimidade"
por Felipe Pérez Roque
[*]
A Comissão de Direitos Humanos pese os esforços dos que
honestamente acreditam na sua importância e lutam por faze-la voltar ao
espírito de respeito e de cooperação dos seus fundadores
perdeu legitimidade. Já não é crível.
Permite a impunidade dos poderosos. Está manietada. Abundam a mentira,
o duplo critério e os discursos ocos dos que, enquanto desfrutam da
opulência, esbanjam e contaminam, olham para outro lado e simulam
não ver como a milhões de seres humanos se viola o direito
à vida, o direito à paz, o direito ao desenvolvimento, o direito
de comer, de aprender, de trabalhar, enfim, o direito a viver com decoro.
Todos sabíamos que a Comissão de Direitos Humanos era
vítima da manipulação política nos seus trabalhos,
pois o Governo dos Estados Unidos e dos seus aliados têm-na usado como se
fosse da sua propriedade privada, convertendo-a numa espécie de tribunal
inquisidor para condenar os países do Sul e, especialmente, os que se
opõem activamente à sua estratégia de
dominação neocolonial.
Mas no ano passado verificaram-se dois acontecimentos que mudam a natureza do
debate que teremos nestes dias.
O primeiro foi a recusa da União Europeia em copatrocinar e votar a
favor do projecto de resolução que propunha investigar as
maciças, flagrantes e sistemáticas violações dos
direitos humanos que ainda hoje são cometidas contra mais de 500
prisioneiros na base naval que os Estados Unidos mantêm, contra a vontade
do povo cubano, na Baía de Guantánamo. A União Europeia,
que sempre se opôs às moções de não
acção, desta vez estava disposta a apresentá-la para
evitar, sequer, uma investigação contra o seu aliado. Era o
cúmulo da hipocrisia e da dupla moral. Que fará este ano, depois
da publicação das horrorosas imagens de torturas no
cárcere de Abu Ghraib?
O segundo facto foi a publicação do relatório apresentado
pelo "Grupo de alto nível sobre as ameaças, os desafios e a
mudança", elaborado por iniciativa do secretário-geral das
Nações Unidas. Nele se afirma, categoricamente, que a
Comissão não pode ser crível se se considerar que aplica
duas medidas diferentes quando trata de questões de direitos
humanos. Caberia esperar então que os representantes dos Estados
Unidos e os seus cúmplices fizessem autocrítica perante este
plenário e se comprometessem a trabalhar connosco os
países do Terceiro Mundo a fim de resgatar a Comissão de
Direitos Humanos deste descrédito e desta confrontação?
Senhor Presidente:
A garantia do gozo dos direitos humanos, hoje, depende de se se vive num
país desenvolvido ou não e, além disso, depende da
classe social a que se pertence. Por isso, não haverá gozo real
dos direitos humanos para todos enquanto não conquistarmos a
justiça social nas relações entre os países e
dentro dos próprios países.
Para um pequeno grupo de países aqui representadas Estados Unidos
e outros aliados desenvolvidos o direito à paz já
está conquistado. Eles sempre serão os agressores, nunca os
agredidos. A sua paz repousa no seu poderio militar. Também já
conquistaram o desenvolvimento económico, baseado na
exploração das riquezas dos países pobres, outrora
colónias, que sofrem e esgotam-se a fim de que aqueles esbanjem.
Contudo, entre esses países desenvolvidos, ainda que pareça
incrível, os desempregados, os imigrantes, os pobres não
desfrutam dos direitos que estão assegurados para os ricos.
Pode um pobre nos Estados Unidos ser eleito para senador? Não,
não pode. A campanha custa, em média, 8 milhões de
dólares. Vão os filhos dos ricos à injusta e ilegal
guerra no Iraque? Não, não vão. Nenhum dos 1.500 jovens
norte-americanos que tombaram nessa guerra era filho de um milionário ou
de um ministro. Os pobres ali morrem ali a defender os interesses
privilegiados de uma minoria.
Quando se vive num país subdesenvolvido a situação
é pior, porque é a imensa maioria, pobre e despojada, não
pode exercer os seus direitos. Como país não tem direito
à paz. Pode ser agredido sob acusação de que é
terrorista, de que é um reduto da tirania ou sob o pretexto
de que vai ser libertado. Bombardeia-se e invade-se para
"libertá-lo".
Tão pouco o Terceiro Mundo mais de 130 países pode
exercer o direito ao desenvolvimento. Para além dos seus
esforços, o sistema económico imposto ao mundo impede-o.
Não têm acesso aos mercados, às novas tecnologias,
são manietados através de uma divida onerosa que já
pagaram mais de uma vez. Só tem direito a serem países
dependentes. Faz-se crer que a sua pobreza é o resultado dos seus
erros. Dentro desses países, os pobres e indigentes, que são a
maioria, não têm sequer direito à vida. Por isso, todos os
anos morrem 11 milhões de crianças com menos de cinco anos, parte
das quais poderia salvar-se com uma simples vacina ou tomando, oralmente, sais
hidratantes; também morrem 600 mil mulheres pobres no parto. Não
têm direito a aprender ler e escrever. Seria perigoso para os
patrões. São mantidos na ignorância a fim de que se
mantenham dóceis. Por isso, hoje, quase mil milhões de
analfabetos no mundo envergonham esta Comissão. Por isso, na
América Latina sofrem cruel exploração 20 milhões
de crianças que trabalham todos os dias ao invés de irem à
escola.
O povo cubano acredita fervorosamente na liberdade, na democracia e nos
direitos humanos. Custou-lhe muito alcançá-los e sabe o seu
preço. É um povo que está no poder. Isso é que o
distingue.
Não pode haver democracia sem justiça social. Não
há liberdade possível que não assente na
fruição da educação e da cultura. A
ignorância é a pesada grilheta que esmaga aos pobres. Sermos
cultos é o único modo de sermos livres! essa é a
máxima sagrada que os cubanos aprenderam com o Apóstolo da nossa
independência.
Não há gozo real dos direitos humanos se não há
igualdade e equidade. Os pobres e os ricos jamais terão iguais direitos
na vida real, ainda que estejam proclamados e reconhecidos no papel.
Isso foi o que os cubanos compreenderam há já muito tempo, e por
isso construímos um país diferente. E só estamos a
começar. Fizemo-lo, apesar das agressões, do bloqueio, dos
ataques terroristas, das mentiras e dos planos para assassinar Fidel. Sabemos
que isso aborrece o império. Somos um exemplo perigoso, um
símbolo de que só numa sociedade justa e solidária
isto é, socialista pode haver a possibilidade de todos os
cidadãos gozarem todos os direitos.
Por isso, o Governo dos Estados Unidos tenta condenar-nos, aqui, na
Comissão dos Direitos Humanos. Teme o nosso exemplo. É forte no
plano militar, mas fraco no moral. E o moral, não as armas, é o
escudo dos povos.
Talvez este ano o presidente Bush encontre um qualquer governo latino-americano
dos poucos dóceis que restam para que apresente a
consabida resolução contra de Cuba. Ou talvez volte a um governo
da Europa Oriental, do estilo do checo, que goza, como nenhum outro, da
condição de satélite do Washington e cavalo de
Tróia dentro da União Europeia; ou talvez a apresente o
próprio Governo dos Estados Unidos que, agora, chantageia, ameaça
e conta os seus apoios para saber se conseguirá uma
condenação de Cuba.
Toda a gente sabe, nesta sala, que não há razão para
apresentar uma resolução contra Cuba nesta Comissão.
Não há em Cuba, nem nunca houve, nos 46 anos de
Revolução, uma única execução extrajudicial,
um só desaparecido, nem um só! Ninguém pode apresentar o
nome de uma mãe cubana que ainda procura os restos do seu filho
assassinado! Ou o de uma avó que procura o seu neto, entregue a uma
outra família após o assassinato dos pais! Que seja aqui
apresentado o nome de um jornalista assassinado em Cuba, e, na América
Latina, foram assassinados, só em 2004, 20 jornalistas! Que seja
apresentado o nome de um torturado! Um só!! Que seja apresentado o
nome de um preso humilhado pelos seus carcereiros, um prisioneiro colocado de
joelhos, aterrorizado, diante de um cão treinado para matar!
Excelências:
O Presidente Bush tem um plano para Cuba, mas os cubanos têm outro plano.
Os cubanos têm claro o seu rumo. E ninguém irá dele nos
afastar. Construiremos uma sociedade ainda mais justa, mais
democrática, mais livre e mais culta. Enfim, mais socialista.
E fá-lo-emos ainda que o Presidente Bush nos ameace com a
agressão, com o regresso de Cuba à condição de
colónia, com tirar aos cubanos as suas casas, as suas terras e as suas
escolas, para as devolver aos antigos proprietários
batistianos,
que voltariam dos Estados Unidos. E fá-lo-emos apesar do seu plano
para privatizar a saúde e tornar os nossos médicos desempregados;
e fá-lo-emos apesar do plano para privatizar a educação e
torná-la acessível apenas à elite, como no passado, e
fá-lo-emos, apesar do plano para entregar, a preço de saldo, as
nossas riquezas e o património de todo um povo às transnacionais
norte-americanas. Apesar do plano para tirar as pensões aos nossos
aposentados e pensionistas, para obrigá-los a voltar a trabalhar,
conforme o chamado Plano "para a assistência a uma Cuba livre".
O povo cubano tem o direito de defender-se da agressão e
fá-lo-á. Devo dize-lo claramente: não permitiremos em
Cuba a formação de organizações e partidos
mercenários financiados pelo governo dos Estados Unidos e por ele
financiados. Não permitiremos em Cuba jornais e redes de
televisão financiadas pelo Governo dos Estados Unidos, para defender
entre nós as suas políticas de bloqueio e as suas mentiras. Em
Cuba, a imprensa, a radio e a TV são propriedade do povo, servem e
servirão aos seus interesses.
Não cooperaremos com a Representante do Alto Comissário, nem com
a espúria resolução que lhe dá origem. Por que
não se nomeia esta tão prestigiosa jurista como Representante
Especial do Alto Comissário para a Base Naval de Guantánamo? Por
que não se lhe pede que investigue as flagrantes violações
dos direitos que sofrem cinco bravos e puros jovens cubanos, presos nos
cárceres dos Estados Unidos, bem como as suas famílias? Porque
não se pode. Porque se trata de violações dos Direitos
Humanos cometidas pelos Estados Unidos e estes são intocáveis.
Contra a pequena Cuba sim, mas contra os Estados Unidos não.
Mas Cuba não se cansará de lutar, Excelências. Nem se
renderá. Não fará concessões, nem trairá
os seus ideais.
E veremos se pode ser derrotado um povo livre, culto e unido!! Veremos se se
pode derrotar um governo do povo, cujos lideres caminham entre o povo, com a
autoridade moral que dá a total ausência de
corrupção e a dedicação total aos deus deveres!!
Veremos se se pode enganar todo o mundo, durante todo o tempo!
Excelências:
A Comissão de Direitos Humanos, que hoje nos convoca, reflecte o mundo
injusto e desigual em que vivemos. Nela, já não resta nada do
espírito fraternal e respeitador que reuniu os seus fundadores,
após a vitória sobre o fascismo.
Portanto, a delegação cubana já não
insistirá em que devemos transformar à Comissão. O que
temos que mudar é o mundo. Ir às raízes. Uma
Comissão de Direitos Humanos onde não exista selectividade,
politização, duplas medidas, chantagens e hipocrisia só
será possível num mundo diferente.
Cuba não acha que isso seja uma quimera e sim uma causa pela qual bem
vale a pena lutar. Por isso luta e continuará a lutar.
Obrigado.
[*]
Ministro das Relações Exteriores de Cuba. Discurso proferido no
61º Período de Sessões da Comissão de Direitos
Humanos da ONU, em Genebra, a 16/Mar/05.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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