Revolução Cubana:
A reforma económica não significa a reintrodução de
relações capitalistas
por Atílio Boron
entrevistado por Valéria Nader e Gabriel Brito
[*]
Correio Cidadania: Qual o real significado das medidas que Raul Castro tem
tomado em Cuba, relativas à propriedade agrícola, à
possibilidade de aquisição de artigos eletroeletrônicos, ao
salário do funcionalismo e à circulação de
residentes pelas áreas turísticas, dentre algumas com maior
visibilidade em nossa mídia?
Atílio Boron: Essas medidas indicam que a reforma econômica dentro
do socialismo está começando a ser levada à
prática. É o início de um processo longo e difícil,
porque quer se evitar, com toda a razão, aplicar reformas que impliquem
de um jeito ou outro, a reintrodução de relações
capitalistas em Cuba ou a ficção de um 'socialismo de mercado',
onde o segundo terminaria devorando o primeiro.
Isso é o que, ao menos parcialmente, ocorreu na China e no
Vietnã. E os cubanos não estão dispostos a incorrer no
mesmo erro. Essa seria a rota reformista fácil, mas desencadearia uma
enorme regressão econômica e social na revolução
cubana que acarretaria no seu esgotamento prático. O outro caminho, das
reformas dentro do socialismo, é mais longo, complexo e não
existem antecedentes internacionais que permitam extrair algumas
lições acerca do que se deve fazer ou não. As reformas da
ex-União Soviética culminaram em um fenomenal retrocesso e com a
Rússia convertida em um país capitalista. E na China e no
Vietnã, como dito acima, se iniciou uma transição que,
especialmente no segundo caso, bem poderia terminar igual à
Rússia. A China é diferente, porque suas meras dimensões
geográficas e demográficas unidas à fortaleza de seu
Estado dão a possibilidade de fixar condições ao capital
estrangeiro (e ao nacional) que nenhum outro país do mundo possui.
Por isso os cubanos estão na vanguarda da história, efectuando um
experimento muito complicado. Por outro lado, a inédita
circunstância de três furacões, que arrasaram a Ilha em
2008, obrigou a retardar o processo de reformas e a movimentos de grande
cautela dentro de uma situação de emergência nacional.
Além do mais, a continuação do bloqueio imperialista
é outro obstáculo formidável em um processo de
inovações como o que Cuba está ensaiando.
CC: A seu ver, o que caracterizaria atualmente alguns dos principais impasses
da sociedade cubana nesse caminho de 'reformas econômicas no socialismo'?
AB: Creio que existem muitos fatores. Na resposta anterior já mencionei
alguns muito importantes, como o caráter inédito de reformas
socialistas dentro do socialismo, o bloqueio imperialista, a
devastação dos furacões. Deveriam ser agregados outros: a
existência de uma burocracia com pouquíssima vocação
inovadora é um dos fatores que também explica a existência
de tais impasses.
Outro elemento importante é a debilidade do debate econômico em
Cuba, que nos anos iniciais da revolução soube ter uma
notável densidade teórica, como mostra o intercâmbio entre
Che Guevara e Bettelheim. Hoje, esse debate está ausente, ou tem uma
incipiente presença. As reuniões anuais da ANEC foram um dos
poucos âmbitos nos quais os economistas e os especialistas
começaram a discutir tais temas, centrados em torno da grande pergunta:
o que fazer diante da irreversível obsolescência do modelo de
planificação ultracentralizada? Se esse modelo funcionou no
passado, coisa que é motivo de intensas polêmicas, não cabe
dúvida alguma de que já não funciona mais. Como
substituí-lo?
Por outro lado, e para isso Fidel e Raul alertaram reiteradamente nos
últimos anos, há uma tendência 'quietista' numa sociedade
que após 50 anos de revolução se acostumou com que os
problemas, qualquer um, sejam resolvidos pelo Estado. A conseqüência
é a passividade e o imobilismo, e, para uma efetiva mudança,
requer-se exatamente o contrário: ativismo e mobilização.
Por fim, creio que o partido deveria cumprir um papel educativo e mobilizador
que não estou seguro de que esteja desempenhando com a intensidade
necessária. Os esforços são parciais e insuficientes. E
isso se agrava pela aparição de um importante hiato geracional
entre os grandes líderes da revolução e a juventude, que
considera a epopéia de Sierra Maestra com a distância dos
acontecimentos históricos e quer a mudança já. Essa
urgência desperta, em amplos setores da burocracia estatal, uma
reação 'imobilista' que, longe de facilitar as mudanças,
as tornas muito mais difíceis.
CC: Como será possível solucionar esses impasses? Cuba
prosseguirá seu caminho socialista?
AB: Estou seguro de que sim, de que Cuba, que rompeu os moldes da
tradição com o triunfo de sua revolução em um
país da periferia e subdesenvolvido, e mesmo assim sobreviveu a meio
século de bloqueios, atentados e sabotagens de toda ordem, também
saberá responder exitosamente aos desafios atuais. Cuba é um
país que conta com um amplo setor da população que possui
elevado grau de consciência política, em proporção
inexistente em qualquer outro país da América Latina e talvez do
mundo.
É, ademais, uma população que foi muito bem organizada
pelo partido e que sabe que uma eventual queda do socialismo faria a ilha
retroagir ao século 19, com a máfia terrorista de Miami à
cabeça e disposta à revanche pela ousadia de terem desencadeado a
revolução. Sabe também que as conquistas da
revolução em campos como saúde, educação,
esportes e cultura colocam Cuba muito acima de qualquer país da
América Latina, e que seriam varridos pelo retorno da direita em caso de
fraquejarem as forças revolucionárias. Mas não há
perigo: Fidel se manteve com os pés firmes quando o socialismo
caía no mundo todo e a história, também neste caso, o
absolveu, dando-lhe razão. E seu exemplo seguirá vigente, ainda
mais depois de seu desaparecimento físico, para inspirar os
milhões que estão dispostos a entregar sua vida pela defesa do
socialismo e do comunismo em Cuba.
CC: Especula-se muito a respeito do tipo de socialismo que deverá
existir em Cuba, aludindo-se, por exemplo, ao modelo chinês e
também aos governos de Chávez, Morales e Correa, na
América Latina, que têm feito um enfrentamento mais forte contra o
neoliberalismo. Como você encara essa questão?
AB: Examinei um pouco disso de forma extensa em um livro que acabo de publicar
e que se chama "Socialismo Século XXI: há vida depois do
neoliberalismo?". A tese central é de que não há
nenhum modelo ou tipo de socialismo que se possa imitar ou que se encontre
pronto para ser aplicado. Cada processo é uma criação
histórica única e, apesar de alguns 'denominadores comuns'
como, por exemplo, a intransigente batalha contra as relações
capitalistas de produção (e não só contra o
neoliberalismo) e a mercantilização de todos os aspectos da vida
social, desde bens e serviços a idéias, religiões,
política e o Estado , as experiências concretas de
construção socialista neste século serão muito
distintas entre si. A experiência cubana é inimitável;
Chávez também; o mesmo ocorre com Correa e Evo. Vale aqui o verso
de Machado, com um par de pequenas mudanças: "militante, não
há modelo, o modelo se faz ao caminhar".
Brasil, Argentina, Chile, na medida em que abandonem as ilusões
centro-esquerdistas da 'terceira via' (que tanto mal nos causaram e tanto tempo
nos fizeram perder), irão se incorporando a este projeto de
construção socialista, porém, com características
absolutamente próprias, idiossincráticas e irrepetíveis. E
é bom que assim seja: tal diversidade de caminhos até o
socialismo nos enriquece e nos torna mais fortes.
CC: Mas não existe o temor de que as forças imperialistas possam,
de alguma forma, sobrepujar a resistência cubana?
AB: Não se conseguiu isto nestes 50 anos, quando a
correlação mundial de forças era muito mais
favorável ao imperialismo. Agora não há mais
condições de se tentar algo assim. A incorporação
de Cuba ao Grupo do Rio e à Unasul, assim como a expulsão do
império na resolução da crise boliviana do ano passado,
demonstra que, como diz o presidente Correa, "estamos vivendo uma
mudança de época e não só uma época de
mudanças".
Quem teria imaginado, apenas alguns anos atrás, que um presidente da
Bolívia poderia expulsar o embaixador norte-americano sem ter que
enfrentar, poucos dias depois, um golpe militar? Quem poderia pensar que a
frota russa faria manobras no Caribe com a armada venezuelana sem desencadear
uma exemplar represália dos EUA? Ou que o Equador poderia avisar a
Washington que não renovará a concessão da base de Manta,
estratégica para o controle político da região andina?
A reação imperialista não conseguiu acabar com a
revolução cubana quando existiam condições
internacionais propícias para tal. Perdeu a oportunidade e hoje essas
condições não existem mais. A revolução
chegou para ficar.
CC: Qual a expectativa em Cuba com o governo Obama e a relação
que se espera travar com os estadunidenses a partir de agora?
AB: Não há grandes expectativas. Não pode haver grandes
expectativas porque as declarações de Obama em
relação a Cuba foram pouco felizes, para não falar o
quão ruim foram as de Hillary Clinton em sua audiência no Senado
de confirmação como secretária de Estado. Continuam
exigindo "liberdades políticas para a oposição"
sem reconhecerem que, em Cuba essa oposição é
contra-revolucionária e está comprovadamente financiada e
organizada pela CIA e as diversas agências do governo norte-americano.
Existem até filmagens que constatam que essa oposição
é, na realidade, um grupo de agentes do império operando em Cuba.
Obama disse que não pensa em levantar o bloqueio que foi condenado desde
a Assembléia Geral da ONU até o papa João Paulo II,
passando pelas mais importantes personalidades do mundo inteiro. Creio que os
cubanos, com razão, não criam ilusão alguma com Obama e
seria bom que o resto da América Latina tampouco as criasse. Se por
algum motivo Obama saísse do script e tivesse gestos concretos de
abertura, compreensão e maior racionalidade com Cuba, neste caso, Havana
responderia positivamente.
CC: Como os cubanos têm sentido o atual momento? A despeito da
persistência de um forte apoio à experiência
revolucionária, segundo o relato anterior, não se percebe a
ampliação de algum tipo de ambivalência da
população?
AB: O apoio à revolução segue impressionante. Obviamente,
não é unânime, e nem poderia ser. Mas é muito forte.
Isso não significa que aprovem todas as políticas tocadas pelo
governo revolucionário. Há muitas críticas quanto à
escassa oferta de alimentos, os baixos salários, a moradia, o
burocratismo, o limitado acesso à internet ou as
restrições para viajar. Porém, as pessoas sabem que tais
problemas se originam em causas que em boa medida excedem o que o governo pode
fazer ou controlar. O bloqueio custou a Cuba quase 100 mil milhões de
dólares, mais de duas vezes o PIB da ilha. O impacto sobre as
finanças públicas foi demolidor.
Além do mais, devido à permanente agressão de Washington,
Cuba deve destinar gastos à defesa em uma proporção muito
elevada de seu orçamento público. Se não existissem essas
duas condições, quer dizer, sem bloqueio e sem ameaças
permanentes de ataque do exterior, Cuba disporia de muito mais recursos para
incentivar a produção de alimentos, construir casas, melhorar os
salários. No entanto, tais condições não existem,
lamentavelmente. Mas é claro que, mesmo assim, algumas coisas poderiam
melhorar: por exemplo, adotando uma política mais flexível em
relação ao campesinato para incrementar a oferta
alimentícia ou para explorar terras que seguem sem ser cultivadas.
Aqui pesa o papel de uma burocracia que se 'conservatizou' e que não
está pensando em uma alternativa
"pós-planificação centralizada". Outras
restrições também causam mal-estar na
população: o transporte era um problema gravíssimo,
sobretudo em Havana, mas no último ano houve uma considerável
evolução graças ao apoio da China. A Internet é um
problema, pois os EUA sancionam qualquer país que facilite a banda larga
a Cuba agora, a Venezuela está fazendo um cabo submarino para resolver
o problema.
Enfim, há queixas, até porque o povo cubano é muito
extrovertido e não tem temor algum em expressar suas queixas e demandas.
Porém, essas se dirigem fundamentalmente a algumas políticas, e
não ao regime revolucionário ou ao socialismo. Muito menos
à figura de Fidel. Crêem, e com razão, que pode existir um
socialismo mais eficiente, com maior capacidade de proporcionar bem-estar
à população. Porém, não esquecem que, apesar
de todas as limitações e restrições, Cuba conta com
a taxa de mortalidade infantil mais baixa das Américas, igual à
do Canadá e menor que a dos EUA e três ou quatro vezes mais
baixa do que a de países potencialmente riquíssimos, como
Argentina e Brasil.
CC: Como se viu na Cúpula das Américas, na Bahia, os pedidos de
governantes pelo fim do embargo são cada vez mais freqüentes
mesmo a ONU se manifestou em igual sentido, pela 17ª vez, aliás, em
2008. Existe na ilha a ilusão de finalmente se inserir e participar
plenamente da economia mundial, ou, por outra, ao menos estreitar parcerias com
parte das nações latino-americanas?
AB: O cubano é um povo muito culto e que aprendeu muito com a
revolução. Não abriga ilusão alguma porque sabe que
o imperialismo nunca deixará de hostilizar Cuba e, portanto, sua
inserção na economia mundial, dominada por grandes
transnacionais, muitas delas norte-americanas ou de países governados
por aliados ou clientes da Casa Branca, estará repleta de dificuldades.
Não acreditam que no plano imediato os EUA levantem o bloqueio
(não se trata de um embargo, senão de um bloqueio, que é
muito mais grave), ainda que, se o fizesse, seria uma grande notícia.
Porém, ao poder comercializar livremente com os países da
América Latina e Caribe, unida a seu crescente relacionamento com China,
Rússia e outras grandes economias, Cuba pode resolver grande parte de
seus problemas. Por isso é de suma importância que as maiores
economias da América Latina como Brasil, México e
Argentina adotem uma política de solidariedade militante com a
revolução cubana. Uma revolução que exporta
médicos, enfermeiros, odontologistas, professores, técnicos
esportivos; uma revolução que ajuda a desterrar o analfabetismo
na Bolívia e na Venezuela; que devolve a vista a milhões de
pessoas; que vende vacinas para combater doenças à margem e
abaixo dos preços de mercado. Uma revolução, em suma, que
sempre foi solidária com nossos povos e que merece nossa mais profunda
solidariedade.
Chega de pensar, para os que ainda têm dúvidas, no que teria sido
da América Latina se a revolução cubana tivesse sido
derrotada em Playa Girón ou se, após a imposição da
União Soviética, Cuba chegasse à conclusão de que
deveria retornar ao capitalismo o mais rápido possível. Se tal
tivesse ocorrido na América Latina, não existiria um
Chávez, um Evo, um Correa, um Lugo, para não falar da
'centro-esquerda'; estaríamos convertidos num imenso protetorado
norte-americano, onde as figuras mais à esquerda da região seriam
políticos como Álvaro Uribe, Alan Garcia ou Oscar Arias.
Graças à inquebrantável presença da
revolução cubana economizamos esse pesadelo. Por isso, nossa
dívida com Cuba será eterna e tudo o que façamos para
ajudar a Ilha será pouco.
03/Fevereiro/2009
[*]
Valéria Nader, economista, editora do Correio da Cidadania;
Gabriel Brito, jornalista.
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/2880/9/
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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