Crise económica, teatro grego, nosso drama
O teatro político agora captura a Grécia. Tal como nas antigas
peças gregas, o drama actual também atinge e afecta todos
nós. Sentimos os dilemas gregos tornarem-se nossos.
Seus dominadores declaram agora que a crise ameaça a Grécia.
Lançam a culpa sobre as massas. Para ultrapassá-la, dizem, devem
impor-lhe grande sofrimento. O coro dos dominadores entoa a necessidade
absoluta, a total inevitabilidade deste sofrimento como única
solução. Não há, insistem, qualquer outra
opção. As massas estremecem. Muitos inclinam-se à
resignação, aceitando o sofrimento como punição
pelos seus pecados que causaram a crise. Por agora, os dominadores exultam pois
o seu elaborado teatro político da culpa parece ter tido êxito ao
comutar os custos da crise deles para as massas. Ainda assim, há
também sinais de iminente ira antagónica por parte das massas.
Enormes manifestações abalaram Atenas em Maio. Momentos
catárticos assomam.
Também em Maio, todos os empregados públicos gregos tiveram os
seus salários cortados em 15-20%: professores, administrativos,
polícias e mesmo soldados. O governo anunciou novos cortes neste
Verão. "Austeridade" mais ou menos semelhante está
planeada para muitas outras economias capitalistas. Também ali o coro
ideológico dominante repete: (1) Não há alternativa, e (2)
isto tudo é culpa dos trabalhadores.
Este coro é enganoso, as afirmações feitas são
falsas. "Salários, pensões e outras condições
de trabalho gregas são excessivamente generosos". Isto gentilmente
ignora o facto de que os salários e os padrões de vida da
Grécia estão abaixo daqueles nos principais países
europeus. "A produtividade do trabalho grega é baixa porque 'eles
não trabalham' ". Isto igualmente ignora o facto de que as
decisões acerca de em qual tecnologia investir e que bens e
serviços produzir são tomadas pelos patrões, não
pelos empregados. "As indústrias da Grécia estão a
estagnar porque os preços dos produtos gregos são 'não
competitivos' ". Esta afirmação ignora o facto de que os
preços dos produtos gregos são estabelecidos pelos patrões
e destinam-se não só a cobrir os salários dos
trabalhadores como também os seus próprios salários,
bónus, lucros corporativos, etc.
Estas afirmações não são análise; elas
são culpabilização. Elas são amplamente promovidas
pela mesma colecção de líderes de negócios,
políticos, mass media e académicos apoiantes que celebraram o
"desenvolvimento económico" que produziu a crise actual.
Culpar os trabalhadores e chamar a crise de "nacional" destina-se a
desviar a atenção do papel do capitalismo como sistema e dos
capitalistas como os decisores chave neste sistema. Tal estratégia
também prepara a população para a austeridade como
punição necessária e correctiva das dificuldades da
Grécia.
O teatro económico grego não constitui nada de novo. Ele replica
um padrão velho e recorrente do capitalismo por toda a parte. Empresas
capitalistas gregas e seus accionistas e administradores de topo (os ricos)
evadem ou evitam a maior parte dos impostos. Enquanto isso os problemas e
contradições do capitalismo grego levam patrões e
empregados a pedirem sempre mais ao governo para apoio às suas
actividades. Finalmente, o governo já não pode financiar mais
seus serviços em expansão pela colecta de mais impostos das
massas. As massas resistem e o movimento social para tributar as empresas e os
ricos acelera-se. Então, os capitalistas gregos e os ricos
propõem-se rapidamente a emprestar ao governo mais do dinheiro que
haviam salvo dos impostos. O governo, então, toma deles emprestado (e
muitas vezes também de capitalistas e cidadãos ricos de outros
países) para financiar mais alguns anos de expansão dos
serviços. Ele incorre em défices orçamentais crescentes e
assim paga juros crescentes às empresas capitalistas e aos
indivíduos ricos que são os credores do governo. Finalmente,
aqueles credores respondem à dívida acumulada do governo que eles
ajudaram a criar e com a qual lucraram dizendo que novos empréstimos
tornaram-se demasiado arriscados.
Nesse ponto, as empresas capitalistas e os ricos ameaçam parar de
emprestar ao governo. Os principais políticos entram em pânico,
declaram uma crise nacional e anunciam uma solução nacional que
exige austeridade nacional. Para sobreviver, os credores da Grécia devem
ser persuadidos a retomar os empréstimos. Como o governo grego teme
tributar as suas próprias empresas capitalistas e os seus
cidadãos mais ricos, evita tomar este caminho. Como o governo juntou-se
ao coro que culpabiliza os trabalhadores pela crise, o seu programa é a
austeridade: reduzir o emprego público, cortar salários
públicos e diminuir serviços do governo para o povo. O governo
deve diminuir a tomada de empréstimos, reduzir a dívida nacional
e dessa forma "recuperar a confiança dos prestamistas".
No próximo acto deste teatro, as consequências económicas
da austeridade provavelmente desempenharão os seus papéis
habituais. Primeiro, a economia grega contrairá quando a
redução de empregos no sector público, salários e
despesas cortarem a procura por bens e serviços, levando assim o
patronato privado a despedir as pessoas que produziam tais bens e
serviços. Segundo, o patronato privado cortará salários
porque as suas vendas reduzidas tornam isso necessário enquanto a
ascensão do desemprego torna isso possível. Terceiro, grandes
investimentos estrangeiros ou internos não recuperarão a
Grécia porque os seus salários em queda ainda não podem
competir com salários muito mais baixos na Ásia e alhures. A
entrada da Grécia na Comunidade Europeia nunca gerou o prometido influxo
de investimentos por razões semelhantes. Quarto, estes desenvolvimentos
mais uma vez deprimirão receitas fiscais do governo e portanto os
défices orçamentais que a austeridade falsamente anunciava
ultrapassar.
No possível acto final, se a austeridade atingir o ponto perigoso da
possível reacção política das massas,
desdobrar-se-á um drama cuidadosamente coreografado. Ou oficialmente
pela bancarrota (incumprimento da sua dívida nacional) ou não
oficialmente pela recompra dos seus títulos depreciados em mercados
privados, o governo grego reduzirá sua dívida pendente em 20 a 50
por cento. Àquele nível, a tributação da classe
trabalhadora da Grécia proporcionará receita suficiente para o
governo grego induzir os seus credores a retomarem a concessão de
empréstimos. Como mostram incontáveis exemplos passados do mesmo
drama agora encenado (o mais recente foi na Argentina, cinco anos
atrás), é isto que farão os credores. Afinal de contas, as
taxas, pagamentos de juros e decisões favoráveis que os credores
obtêm dos governos dependentes aos quais emprestam já estão
estruturados para compensarem os credores dos riscos de incumprimento
oficial ou não oficial da espécie que a Grécia
agora contempla.
Uma questão fundamental emerge deste teatro grego. Que cena final a
classe operária grega (só ou com outras classes operárias
europeias) representará? Será que esta peça
terminará como uma tragédia de resignação em massa
grega, de sofrimento e declínio? Ou haverá uma viragem
dramática que desvendará a austeridade imposta à classe
operária grega como um resgate verdadeiramente grotesco do capitalismo
grego dos seus próprios fracassos bem como da sua
participação na crise capitalista global? O mundo agora observa a
Grécia porque sabemos que dramas semelhantes e finais alternativos
semelhantes confrontam todos nós.
04/Junho/2010
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst e professor visitante na New School University em Nova York.
Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006). Acerca da crise económica actual ver o seu
filme documentário
Capitalism Hits the Fan,
em
www.capitalismhitsthefan.com
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/2010/wolff040610.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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