Austeridade: Por que e para quem?
Claramente, a crise capitalista global começada em 2007 não
será curta nem superficial. O resgate governamental da indústria
financeira dos EUA injectou bastante dinheiro extra na economia e reduziu taxas
de juros o suficiente para dar aos bancos e ao mercado de acções
a fortemente apregoada "recuperação" que começou
em Março de 2009 e agora está acabada. O pior é que esta
recuperação nunca atingiu grande parte do resto da economia.
Esforços para ampliar a recuperação ou estende-la para
além de um ano coxo também fracassaram. Este fracasso custou a
Washington milhões de milhões
(trillions)
em fundos tomados de prestamistas que agora pedem garantias de que tais
empréstimos lhes serão reembolsados com juros. Pedidos
semelhantes agora confrontam muitos outros governos que igualmente
contraíram empréstimos pesados para enfrentar a crise nos seus
países.
A garantia pedida pelos prestamistas é a "austeridade". Os
prestamistas querem que os governos aumentem impostos ou cortem despesas ou
ambos. Os governos assim terão mais dinheiro disponível para
pagar os juros dos empréstimos e para reembolsá-los. Governos que
deixem de impor austeridade enfrentarão juro mais alto nos
empréstimos novos e renovados ou lhes serão negados
empréstimos o que prejudicaria as suas operações
habituais. A austeridade é ainda outro fardo extremo imposto à
economia global pela crise capitalista (em acréscimo aos milhões
que sofrem desemprego, redução do comércio global, etc).
Quem são estes prestamistas a exigirem austeridade? A empresas
financeira activas globalmente principalmente bancos que entraram em
colapso na crise e foram resgatados pelos seus governos são, em
conjunto, também os principais prestamistas daqueles governos. Os bancos
possuem suas próprias dívidas do governo mas também de
outros governos. Exemplo: os principais bancos em França e na Alemanha
estão entre os principais credores do governo grego. Bancos dos EUA e
empresas financeiras relacionadas possuem quantias significativas de
dívidas de outros governos e bancos de outros países possuem
grande parte da dívida do governo dos EUA.
A crise de 2007 do capitalismo global congelou o sistema de crédito que
sustenta a produção capitalista. Tomadores privados de
empréstimos empresas e indivíduos não podiam
mais reembolsar empréstimos porque os seus investimentos haviam gerado
muito pouco e os seus rendimentos deixaram de crescer bastante. Bancos falharam
em avaliar riscos adequadamente ao decidir quanto emprestar a quem. Eles
portanto cessaram de emprestar a tomadores privados porque se haviam tornado
demasiado arriscados. Como tomadores privados de empréstimos incumpriram
e novos empréstimos atrofiaram-se, o capital dos bancos e os seus lucros
entraram em colapso. A totalidade do sistema capitalista rumou para uma
travagem porque o crédito se tornara indisponível. A única
solução que a maior parte dos líderes dos países
capitalistas puderam conceber foi descongelar crédito através da
garantia governamental da solvência do banco, da garantia de muitas
dívidas privadas, investindo maciçamente e emprestando a bancos
privados e tornando-se os tomadores finais de empréstimos de uma enorme
porção de fundos emprestáveis. Os bancos por toda a parte
emprestaram aos governos porque se tornara inseguro emprestar a praticamente
qualquer outro mutuário. Os governos por toda a parte utilizaram o
dinheiro emprestado para resgatar bancos e outras empresas financeiras.
Esta peculiar "nacionalização" da dívida serviu
o capitalismo tendo o governo temporariamente a função de
concessor e tomador de último recurso de empréstimos. A
nacionalização descongela o sistema de crédito
suficientemente para travar a crise impedindo o colapso do capitalismo global.
Poucos decisores políticos (e poucos outros) em 2008 e princípio
de 2009 preocuparam-se muito acerca das consequências de aumentar
dívidas do governo tão maciçamente. O assomar do
possível colapso do sistema capitalista sobrepujou
preocupações acerca de qualquer "longo prazo".
Os bancos internacionais que foram resgatados (dos seus próprios maus
empréstimos e investimentos) pelos governos agora receiam que os
governos a que eles emprestaram não sejam capazes de
reembolsá-los. Os bancos ameaçam tornar outra vez os
empréstimos muito mais custosos ou mesmo impossíveis a menos que
tais governos imponham "austeridade". A maior parte dos
líderes políticos reconhece que as ameaças dos bancos, se
executadas sob a supervisão deles, acabaria com as suas carreiras
rapidamente e de mau modo. Todos os capitalistas vêm em possíveis
incumprimentos governamentais o espectro de um outro congelamento de
crédito com terríficas ramificações para o
capitalismo global. Pior ainda para os bancos: governos em incumprimento
provavelmente não seriam capazes de tomar emprestado outra vez para
resgatar bancos mais uma vez.
Praticamente todos os actuais líderes políticos dos principais
países capitalistas responderam positivamente ao pedido dos bancos por
austeridade (como na recente reunião do G-20 no Canadá). Isto
imediatamente levantou um conflito político básico sempre em lume
brando dentro do capitalismo: quem pagará impostos acrescidos e quem
sofrerá a redução de despesas do governo? Militantes na
Europa já marcharam e manifestaram-se contra a austeridade como um plano
inaceitável para fazer os trabalhadores pagarem o estrago das crises
capitalistas; mais greves gerais estão previstas em muitos países
europeus com uma greve geral à escala europeia agora programada para
29 de Setembro
. Enquanto isso, capitalistas trabalham com políticos para
definir como programas de austeridade "razoáveis em tempos de
crise" combinariam aumentos de impostos (principalmente sobre
trabalhadores) e cortes em despesas (principalmente sobre trabalhadores).
Como disse um camionista de Atenas: "Empregados públicos aqui
não trabalham bastante duro, então é razoável
cortar o seu pagamento". Um empregado administrativo de Partis considera
"razoável adiar alguns anos a idade oficial de reforma; todos
nós agora vivemos mais". Um empregado de escritório de
Minneapolis concorda em que é "razoável, em tempos de crise,
aguentar com menos serviços públicos". Um técnico de
laboratório de Nova York apoia um novo imposto sobre telemóveis
considerando-o "provavelmente razoável; afinal de contas as pessoas
utilizam-no demasiado". Notavelmente, tais noções de
"razoabilidade" silenciam acerca de outras possíveis e, para
dizer o mínimo, mais "razoáveis" formas de austeridade.
Vamos considerar algumas espécies "razoáveis" de
alternativas de austeridade (isto é, austeridade para outros) e
então questionar a austeridade para si próprio. Esforços
sérios para arrecadar impostos sobre o rendimento de
corporações multinacionais baseadas nos EUA, especialmente
aquelas que utilizam mecanismos internos de fazer preço para escapar
à tributação estado-unidense, gerariam amplas novas
receitas federais. O mesmo se aplica a indivíduos ricos.
Os EUA não têm qualquer imposto federal sobre haveres em acções, títulos e contas à ordem (estados e localidades tão pouco impõem tais impostos sobre a propriedade).
Se o governo federal impusesse um imposto de 1 por cento sobre activos entre
US$100 mil e US$499 mil, e de 1,5 por cento sobre activos acima de US$500 mil,
isso arrecadaria muita nova receita federal (os primeiros US$100 mil de toda a
gente podiam ser isentos assim como o imposto sobre o rendimento actual isenta
os primeiros poucos milhares de dólares de rendimento individual). Sair
dos desastres do Iraque e do Afeganistão faria algo semelhante. Acabar
com
isenções
de impostos para
instituições educacionais privadas super-ricas
(Harvard, Yale, etc) e para
instituições religiosas
(os frequentadores precisariam então pagar
os custos das suas igrejas) estariam entre as muitas outras medidas de
austeridade alternativa "razoáveis". Alternativas
comparáveis aplicam-se e há lutas em seu favor em
outros países.
Uma crise capitalista que gera uma crise tão maciça, propaga-a a
nível global, e assim propor austeridade em massa para
"ultrapassá-la" perdeu o direito a continuar incontestado.
Não deveríamos nós estar a debater publicamente se a
América (e o mundo) podem ficar melhor servidos ultrapassando o
capitalismo? Podemos nós não aprender com os repetidos ciclos
(fracassos) do capitalismo e mudar para um novo sistema, não
capitalista? Tendo aprendido duras lições com as primeiras
tentativas socialistas durante o século passado na Rússia, na
China e alhures, podemos nós não nos levantarmos para o desafio
de fazer uma nova tentativa que evite as suas falhas e construa sobre as suas
forças? Quando melhor senão agora?
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst e professor visitante na New School University em Nova York.
Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006). Acerca da crise económica actual ver o seu
filme documentário
Capitalism Hits the Fan,
em
www.capitalismhitsthefan.com
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/2010/wolff030710.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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