A administração Bush vai enviar mais cheques
de "estímulo" no futuro próximo. Simplesmente
não há meio de contornar isto. O Fed está em apuros e
não pode reduzir taxas de juros por medo de que os preços dos
alimentos e da energia disparem para a estratosfera. Ao mesmo tempo, a
economia está a encolher mais depressa do que alguém julgaria
possível e sem sinais de retomada. Isto deixa os cheques de
estímulo como o único meio de "premir a bomba" e manter
o consumidor a continuar a gastar. Do contrário a actividade dos
negócios ficaerá de rastos e a economia afundará.
Não há outra opção.
A barragem diária de más notícias começa realmente
a atingir os nervos das pessoas; isto é óbvio
em todo o lado que se olhe. A maior parte das tagarelices da TV já
eliminou a previsões bem humoradas sobre o mercado de
acções e ninguém mais está a louvar o
"impressionante poder do mercado livre". Eles sabem que as coisas
estão más, realmente más. Eis porque o noticiário
de negócios já não é apresentado como uma
despreocupada produção artística de Bollywood com mulheres
ondulantes e música exótica. Agora é mais como um filme
de horror da classe B onde toda a gente acaba morta no fim.
Um difuso sentimento de melancolia ronda os estúdios de televisão
assim como as bolsas de valores e os luxuosos apartamentos de cobertura no West
End de Manhattan. É palpável. Este mesmo pressentimento
agourento está a subir como uma nuvem nociva em todas as cidades do
país. Toda a gente está a cortar o não essencial e a
aparar a gordura do orçamento familiar. Os dias dos extravagantes
gastos por impulso nos centros comerciais estão ultrapassados. Assim
como as compras de grandes bilhetes aéreos e as viagens à Europa.
A confiança do consumidor está numa baixa histórica, o
rendimento disponível é uma coisa do passado, e os cartões
de crédito estão no seu limite.
Nos últimos três meses o crédito bancário encolheu
de forma mais rápida do que em qualquer momento desde 1948. Os bancos
não estão a conceder empréstimos e as pessoas não
estão a tomar emprestado. Isto é uma combinação
letal. Quando a criação de crédito enfraquece, a economia
claudica, o desemprego ascende e o índice de miséria sobe. Eis
porque Bush despachará uma nova fornada de cheques de estímulo
quer queira quer não. Está de costas contra a parede.
Na sexta-feira, depois de o mercado ter encerrado, o
FDIC
fechou mais dois
bancos, o First Heritage Bank e o First National Bank. Duas semanas antes, os
reguladores haviam tomado o controle do Indymac Bancorp a seguir a uma corrida
de
depositantes. O FDIC agora opera como uma unidade paramilitar
invisível, posicionando suas tropas de choque nos fins de semana para
fazer o seu trabalho sujo fora das vistas do público e em momentos que
afectem em menor grau o mercado de acções. As razões para
isto são óbvias; só há uma coisa que o governo
odeia mais do que ver caixões mortuários com a bandeira estrelada
nos noticiários da noite: é ver longas filas de pessoas
desvairadas a esperarem impacientemente a fim de obter o que resta das suas
poupanças no seu banco agora defunto. Filas nos bancos indicam quebra
do sistema.
Corridas bancárias constituem um choque para a psique colectiva. Quando
depositantes vêm uma corrida a um banco percebem que o seu dinheiro
não está seguro. As pessoas não são loucas; elas
podem suspeitar de trapaças. Quando a sua confiança se
desvanece, isto estende-se a todo o sistema. Subitamente elas começam a
questionar tudo o que outrora davam por garantido. Tornam-se cépticas
quanto a instituições que, apenas uns poucos dias antes,
pareciam rocha sólida.
Corridas bancárias são um impacto directo aos fundamentos do
sistema de mercado livre. Não controlados, os tremores podem
estender-se através de toda a sociedade e desencadear violentos
levantamentos políticos, mesmo a revolução. O
público pode não apreender o seu pleno significado, mas toda a
gente em Washington está a prestar atenção. Eles
consideram isto seriamente, muito seriamente.
Um artigo no
San Francisco Business Times
disse que a FDIC está preocupada acerca da divulgação de
informação nos blogs da Internet. Eles prefeririam manter fora
dos noticiários a informação acerca das
perturbações no sistema bancário. Sheila Bar, presidente
da Federal Deposit Insurance Corp., após a corrida ao Indymac resumiu as
coisas assim:
"Os blogs estavam um bocado fora de controle. Estamos muito atentos
à cobertura dos media e dos blogs no controle da
desinformação. Tudo o que posso dizer é que vamos
continuar à frente disto. A desinformação que veio
à tona no fim de semana alimentou um bocado de medos entre os
depositantes".
Será isto uma ameaça? A cura para um sistema bancário
fracassado é capital adequado e supervisão prudente, não
ameaças a críticos imparciais do sistema. Isso é asneira.
A comissária Blair aparentemente acredita que os bloggers deveriam ser
tratados do mesmo modo que os jornalistas no Iraque, os quais, se se desviarem
mesmo ligeiramente do roteiro que diz "o incremento
(surge)
é um grande triunfo"m do Pentágono, encontrará
a ponta enfumarada de um
M-16
em algum não identificado posto de controle fora de Baquba.
Domingo passado, o secretário do Tesouro Henry Paulson tentou
tranquilizar o público dizendo que o sistema bancário é
saudável, enquanto prevenia o povo de mais perturbações
pela frente:
"Penso que isto se prolongará por meses e que estamos a trabalhar a
nossa saída ao longo deste período claramente de meses.
Mas, mais uma vez, é um sistema bancário seguro, um sistema
bancário saudável. Nossos reguladores estão em cima
disto. Trata-se de uma situação muito administrável".
Paulson está errado; o sistema bancário não é
saudável nem está bem capitalizado.
Se a taxa de encerramentos de bancos continuar ao ritmo actual, em meados de
2009 haverá restrições a retiradas [de depósitos].
Pode-se apostar nisto.
Assim, enquanto o seu banco ainda tem dinheiro e pode processar os seus
cheques, pode ser altura de liquidar dívidas, pagar impostos trimestrais
e prestações de hipotecas em avanço, e pensar em ter
dinheiro fora dos bancos (ouro, divisas estrangeiras), etc, antes que o seu
dinheiro fique inacessível ou mesmo que se evapore! Não pense
que todos os seus investimentos fora dos bancos estão imunes a esta
tempestade. Exemplo: o dinheiro nos mercados de fundos mútuos, onde os
americanos investiram US$3 milhões de milhões, não
está coberto pelo seguro FDIC (entretanto, contas no mercado
monetário oferecidas pelos bancos estão cobertas). Perdas
recentes em alguns destes fundos mútuos do mercado monetário
levam algumas companhias a apressar-se a arrolhar as perdas. Exemplo: a
Legg Mason Inc. e o SunTrust Banks Inc., recentemente bombearam US$1,4 mil
milhões cada um para dentro dos seus fundos de mercado monetário.
O Bank of America Corp. injectou US$600 milhões.
Quanto às suas contas à ordem e a prazo, perceba que pode ter
cinco contas diferentes no mesmo banco, mas o FDIC segura apenas
indivíduos, não cada uma das contas, até US$100 mil.
Colocar o seu dinheiro em diferentes contas no mesmo banco não
proporciona necessariamente melhor garantia para os seus depósitos.
28/Julho/2008
[*]
Economista,
fergiewhitney@msn.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney07282008.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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